domingo, 18 de janeiro de 2015

Fion, em Hong Kong


Depois de ter deixado o Brasil nos últimos dias de março, passei vários meses a desbravar territórios que me eram absolutamente desconhecidos — Sidney, Dili, Kuala Lumpur, Malaca, Banguecoque, Shiang Mai, Luang Prabang, Vientiane, Angkor, Phnom Pehn, Saigão, Hanoi, SaPa, HaLong. Lugares tão distantes e tão exóticos, que achei fora do meu alcance, mas que pude por fim visitar com assombro. Aí, onde tenho poucas ou nenhumas referências, onde me vejo na estaca (quase) zero, sinto essa torrente de energia que brota das primeiras vezes. Viciei-me no confronto com o novo, com o estranho e em tudo o que isso exige de mim. Viciei-me na descarga de adrenalina provocada pela viagem, no desafio. Estou sempre pronta a partir. 

Porém, não posso negar que em meados de junho, quando voltei a pisar Hong Kong, o conforto do já conhecido me soube muito bem. Durante uns dias não tive de me preocupar com a orientação, arranjar pontos de referência, perceber como funcionam os transportes ou visitar monumentos ditos obrigatório. Em Hong Kong pude apenas vogar sem destino e usufruir das coisas mais simples que esta cidade vibrante tem para oferecer: a vista sobre os arranha-céus a partir do calçadão de Kowloon — uma das paisagens urbanas mais incríveis que já vi, estando parte do seu encanto na forma como muda com a passagem das horas — os jardins, o comércio, a comida, o choque entre as tradições centenárias e o ultra-moderno, o frenesi constante dos mais de sete milhões de habitantes. 

Num desses dias permiti-me ceder às saudades de duas coisas: comer um bom sushi e passar algum tempo sentada à mesa de um café para atualizar o diário da viagem. Matar o primeiro desejo não foi difícil, uma vez que não faltam restaurantes japoneses em Hong Kong. Já encontrar um café de rua que não pertencesse a uma qualquer cadeia ocidental foi tarefa impossível. Contrariada, dirigi-me ao Starbucks com vista para a baía e sentei-me numa mesa de dois lugares junto à grande janela. Foi então que constatei com surpresa, enquanto mexia o café expresso e trincava o brownie, que afinal aquele lugar comum até me sabia bem. Por uns momentos, o ambiente padronizado permitiu-me aquietar os sentidos e concentrar-me apenas na tarefa de escrever. Refleti pela milésima vez sobre as vantagens e desvantagens do mundo globalizado antes de abrir o caderno e pegar na caneta. Não me desviei da minha tarefa até a Fion se sentar na mesa em frente, de livro em punho. 

Nascida e criada em Hong Kong, Fion é professora primária e estava a preparar-se para começar a ensinar chinês. "Uns amigos que também são professores recomendaram que lesse este livro para me inteirar do que andam os miúdos a ler", contou-me. "Fui buscá-lo à biblioteca da escola. É de um autor também natural de Hong Kong e pertence a uma série que tem como herói um agente especial. Neste livro, o protagonista parte numa missão anti-terrorista no médio oriente." Disse-me a Fion que, na sua qualidade de professora, tenta ler o mais possível. Gosta particularmente de literatura infantil, que diz ser mais direta, fácil de entender e próxima do dia a dia. Mas não põe de parte os livros para os mais crescidos e aponta sem hesitações um autor de que gosta muito (e cujo nome entendi a muito custo): Paulo Coelho. Passei os minutos seguintes a ensiná-la a pronunciar corretamente o nome do autor, elucidando-a sobre a sua nacionalidade e a língua em que se expressa: o belíssimo português.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Vietname — Dunj & John Green


Era domingo à tarde e os domingos à tarde em Hanoi parecem-se com os domingos à tarde em qualquer outra parte do mundo. A cidade nunca pára, é um facto, mas havia mais gente disposta a preguiçar junto às margens do lago. Quis passar lá as minhas últimas horas no Vietname, já de nó apertado na garganta. Sabia que andaria por muito tempo com este país sob a pele. Mas desconhecia o poder duradouro do seu fascínio. 

Apostada em absorver ao máximo cada derradeiro minuto, fiz um esforço consciente para apurar ainda mais os meus sentido e mergulhar no meio deles, os vietnamitas, enquanto uma forma de mantra se repetia no meu pensamento: estou aqui e agora. E observei para viver o momento e recordar para sempre. O sol já baixo, os casais com os filhos pelas mãos, as mulheres aos pares que se exercitavam em passo apressado, os homens que faziam o seu jogging de auriculares nos ouvidos, os grupos de amigas entretidas a tirar selfies, o quiosque que vendia os melhores gelados da cidade e cuja fila de clientes nunca diminuía, os bancos ocupados pelos mais velhos, os outros turistas, as árvores inclinadas cujos ramos mergulhavam no espelho de água, a dúzia de idosas que ao som de um rádio estridente realizavam em fila uma coreografia que implicava, em certos passes, que massajassem as costas umas das outras. E Dunj que, sentado na borda de um canteiro, começava a ler "A Culpa é das Estrelas", de John Green, um livro acabado de comprar. 

"Adoro ler e leio muito. Um amigo recomendou-me este livro, disse que era muito bom. Sei que estreou o filme lá fora, mas não vai passar cá no Vietname, por isso leio o livro. E até prefiro porque sei que de uma forma geral os livros são sempre melhores. O meu autor preferido é vietnamita e escreve romances. Chama-se  Anh Khang. Mas também gosto muito do George R. R. Martin. Acho que o preço dos livros no Vietname é justo, mas os vietnamitas leem pouco. Os mais velhos leem jornais e os mais novos passam o tempo todo online."

Afastei-me, depois, à procura de um lugar para também eu me sentar um pouco. Nesse momento, fui abordada por um grupo de rapazes e raparigas que vieram apresentar-se e que me perguntaram se me importaria de conversar um pouco com eles para que praticassem inglês. Pareceu-me que não havia melhor forma de me despedir de Hanoi. Eram todos estudantes universitários, das mais variadas áreas: uma aspirante a médica, um futuro jornalista, um quase engenheiro. Contaram-me das suas origens, dos lugares de onde vinham, dos sacrifícios que as famílias faziam para que estudassem na capital, do significado dos seus nomes próprios: sorte, prosperidade, riqueza. Falámos de sonhos e do futuro. Rimos. Tirámos fotografias. Abraçámo-nos. Anoiteceu. E naquele domingo à noite, tão semelhante a qualquer outro domingo à noite em qualquer outra parte do mundo, senti-me "simplesmente membro da família humana" (José Tolentino Mendonça).

domingo, 4 de janeiro de 2015

Vietname — Lost in translation



Ao fim de três anos a escrever para o Acordo Fotográfico impuseram-se alguns hábitos na hora de produzir um post. Normalmente, as primeiras frases nascem quando não estou na frente do computador, mas sim ocupada com tarefas corriqueiras como lavar a loiça, tomar banho ou regar as plantas. Esse é o ponto de partida. Mas depois, claro, sento-me à mesa da sala, ligo o portátil, pego no bloco e revejo as notas que tirei quando conversei com o leitor, numa tentativa de compor o resto da história que já começou a ser contada na minha cabeça. Foi tudo isso que fiz hoje de novo, pela 348ª vez. 

"08.06.2014 Hanoi / Nome do leitor: Bui Thanh Liêm (escrito pelo seu próprio punho) / Livro sobre Geografia da China e do Vietname" — a isto se reduzem as notas para o post de hoje, porque a barreira linguística não deu para mais conversa com Bui. Mas esta coisa pouca não me pareceu entrave. Podia explicar, como tenho vindo a fazer nos últimos meses, onde estava e o que fazia quando o conheci. Podia descrever os últimos momentos vividos em Hanoi, antes de voar para Macau, contar a minha intenção de passá-los na margem do lago e detalhar o percurso que fiz pela enésima vez pela rua Hàng Gai, no Old Quarter, a grande artéria que intermediava entre o meu hotel e o coração líquido da capital. Podia recordar essas horas longas, leves e livres que esbanjei a entrar e a sair de todas as lojinhas onde experimentei vestidos de seda que não comprei, mandei confeccionar por medida roupa em algodão e linho, usufruí dos serviços de um sapateiro ambulante e fotografei sofregamente pormenores da vida alheia, que aos meus olhos era repleta de exotismo. E então, fui procurar por entre as 23 mil fotografias da viagem as imagens do leitor do dia 08.06.2014. 

Sim, lembro-me bem do momento em que o conheci. Estranhei aquele estaminé de venda de acessórios para telemóveis e tablets, montado à entrada daquilo parecia um longo corredor escuro de acesso a habitações. Não o tinha visto ali antes, mas a verdade é que os vietnamitas são pródigos em negócios pop up... Demoro-me a apreciar as fotos e delicio-me com os detalhes que transpiram Vietname: os banquinhos azuis de plástico, que existem aos milhares por todo o lado; os chinelos bege também de plástico, que parecem ser o calçado oficial dos vietnamitas; a unha comprida do polegar que ajuda a virar a página do livro, sinal de quem não trabalha a terra. Mas há algo que não bate certo: o que faz uma caveira sinistra de caninos gigantescos na capa de um livro sobre a geografia da China e do Vietname? E estaria Bui assim tão interessado no tema para já estar a ler o terceiro volume? Só mesmo esta ferramenta diabólica que é a internet me poderia ajudar a desvendar o enigma em poucos minutos. 

Não foi preciso mais do que uma mensagem enviada pelo Facebook ao português amigo que vive e trabalha em Saigão. A resposta chegou, veloz: o livro, com o título "Loi Nguyen Lo Ban" (algo como "A Maldição de Lo Ban"), pertence a uma série de inspiração fantástica que relata a história de um homem que cria armas extraordinárias. Este génio despejou todo o seu conhecimento num livro misterioso. Aquele que um dia conseguir descodificar o seu conteúdo verá a sua vida devastada por uma terrível praga. 

Esqueçam, portanto, a geografia. Obviamente, algures durante a curta conversa com Bui, "perdemo-nos na tradução".

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Vietname — Linh, no Cong Caphe


Acordei naquela manhã de sábado determinada a visitar o Museu de História Nacional do Vietname. Por isso, depois do tomado o pequeno-almoço — café e panquecas de banana com mel, que a cozinheira servia com um sorriso maior de dia para dia porque eu insistia naquela receita e não deixava uma migalha no prato —, saí do hotel no Bairro Antigo para caminhar primeiro até ao lago e seguir daí para o Bairro Francês. 

Não muito longe da Ópera de Hanoi e do luxuoso Hilton fica o museu, instalado num edifício híbrido, misto de arquitetura colonial francesa e arquitetura tradicional vietnamita, construído em 1932 e pintado de ocre. Quando se está pouco tempo num país e não se conhece muito sobre a sua história, julgo que a visita a este género de museus ajuda a que possamos abarcar, de forma rápida e concisa, o percurso de um povo. Foram muitos os que visitei durante esta viagem e em todos eles aprendi imenso. O do Vietname não foi exceção e foi com muito prazer que lá passei toda a manhã. 

À saída optei por contratar o serviço de um riquexó para explorar a área do Bairro Francês, uma zona que encontrei particularmente calma, num contraste para mim muito evidente com o frenesim do resto da cidade. Enquanto o condutor pedalava vagarosamente, deliciei-me com a sombra que as grandes árvores das avenidas largas projetavam sobre as casas afrancesadas de rés-do-chão e primeiro andar. Aqui e ali boutiques, cafés, restaurantes, cabeleireiros, senhoras que passeavam cães pelas trelas, gente sentada nos bancos de uma praça ajardinada, taxistas à espera de clientes. O riquexó deslizava pelo asfalto, langoroso, e eu sentia uma ligeira brisa que atenuava o calor. Havia algo de anacrónico naquele lugar que me confundia. Belisquei-me pela milésima vez desde que deixara Portugal. Era certo que ali estava, mas não conseguia afastar a sensação de sonho... 

Terminado este passeio de 45 minutos, fui deixada junto ao lago, para onde todos os caminhos de Hanoi parecem convergir. Almocei no restaurante gerido por um grupo de mulheres — talvez irmãs, porque identificava em todas elas uma certa parecença—, cujos berros constantes nunca deixei que interferissem no deleite das várias refeições que lá fiz. E parti de novo, a pé, para os confins do Bairro Antigo onde me demorei até ao fim do dia. Há sempre ruas novas por desbravar, o pequeno comércio por explorar, aspetos insólitos do dia a dia dos vietnamitas para observar. Em Hanoi, o tédio é impossível e as horas passam velozes. 

A meio da tarde entrei na Catedral de São José, sede da arquidiocese católica romana da capital. Estava a decorrer uma cerimónia, motivo pelo qual não me demorei, mas pude observar, com surpresa, duas imagens que são símbolos de Portugal: Sto. António e Nossa Senhora de Fátima. Cá fora, na área que circunda a catedral, havia apenas um condutor de riquexó, que dormia profundamente, refastelado no assento vermelho do veículo. Entretive-me por uns instantes a tentar decifrar as mensagens afixadas num quadro, mas a única coisa que consegui entender era óbvia — a palavra "Phanxicô", escrita em letras garrafais num póster que exibia a fotografia do atual Papa. A certa altura fui abordada por um homem jovem, que saiu de uma porta lateral da catedral. Cumprimentou-me com um grande sorriso e convidou-me a entrar na igreja. Expliquei que já lá tinha estado e fiz alusão à imagem do Sto. António, dizendo-lhe que aquele era o meu santo protetor. "Ai, sim?", respondeu. "É também o protetor do meu pai e estamos a poucos dias de celebrar a data do seu nascimento, 13 de junho. O meu pai faz anos nesse dia". Não escondi a minha surpresa: um vietnamita fluente em inglês, com um pai católico devoto de Sto. António pareceu-me algo extraordinário. Disse-lhe que era Portuguesa e contei por alto o propósito da minha viagem. Foi então que me explicou ser o padre responsável pelas homilias em inglês na Catedral de S. José e ao saber que era portuguesa retorquiu: "Ouvi dizer que é um país muito bonito. Há lá um lugar muito especial que quero visitar um dia: Fátima". 

Ainda a digerir este encontro surpreendente, abandonei o recinto da igreja e dirigi-me ao pequeno café que, no cruzamento em frente, já me tinha chamado a atenção. A esplanada exígua era frequentada por turistas e vietnamitas com um cunho alternativo e a decoração do rés-do-chão denunciava um ambiente sofisticado e intimista. Subi ao primeiro andar, à procura de um lugar. Nas paredes, pósteres antigos de propaganda pacifista, estantes rudimentares com livros, rádios velhos. Do teto pendiam lâmpadas cujos abajours eram alguidares de plástico. A sala era pequena e, apesar da luz que entrava pelas janelas altas e se espraiava sobre as paredes de tijolos e as mesas de madeira, havia recantos que ficavam na penumbra. Num desses recantos estava sentada a Linh, um livro em cima da mesa e outro nas mãos. Pedi-lhe uma foto e foi à sua mesa que acabei por me sentar. Conversámos enquanto ela tomava o seu café gelado e eu, a minha limonada fresca. 

Os livros que Linh tinha consigo eram ambos de autoras vietnamitas. O que lia intitulava-se "Hoa Linh Lan", de Gào, um bestseller que conta a história de um triângulo amoroso entre um vietnamita solitário e duas miúdas, uma delas chinesa. O outro livro, chamado "Người yêu cũ có người yêu mới" era escrito por Iris Cao. Tinha-lhe sido oferecido por um amigo que nutria por ela mais do que um sentimento de amizade. Depreendi, pela sua expressão, que o sentimento não era mútuo e tive mais tarde a certeza, quando Linh me falou do namorado que, curiosamente, frequenta aulas de português na Universidade de Hanoi. "Ainda não tive coragem de começar a lê-lo", confidenciou-me. E eu achei triste saber de mais uma história de amor não correspondido. De resto, sobre os seus hábitos de leitura, Linh afirmou: "Gosto de estar sozinha neste café, a ler. Leio muito. Não gosto tanto de romances. Prefiro livros que me façam refletir. Quando leio, sinto que faço uma pausa e que tenho tempo para pensar. Os livros são como uma lente através dos quais se pode ver tudo. Quando estás confusa acerca de algo, lê e talvez encontres a solução".

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Vietname — Han, no Templo da Literatura


Nesta volta ao mundo, em que procurei sempre estabelecer uma ponte entre os lugares e os livros, saber que existe em Hanoi um Templo da Literatura foi música para os meus ouvidos. Achei verdadeiramente poético que uma capital contasse com um lugar quase milenar onde ainda hoje se veneram os sábios e os letrados da nação. Fundado em 1070, o Templo da Literatura é não só o principal santuário do Vietname dedicado a Confúcio, como é também um lugar histórico de aprendizagem, uma vez que aqui funcionou, até 1802, a primeira universidade do país. Exemplo ímpar da arquitetura tradicional vietnamita, o templo, que se encontra bem preservado, tem uma planta retangular e é composto por cinco pátios sucessivos onde se alinham relvados, árvores centenárias, lagos repletos de flores de lótus — o símbolo nacional do Vietname — e vários edifícios de madeira e telhas de barro que albergam imagens dos principais eruditos, assim como lápides onde se exibem os nomes e proezas de outros intelectuais. 

Foi aqui, entre estas paredes pintadas de vermelho vivo, que ao longo de séculos os melhores alunos de todo o Vietname estudaram os princípios de Confúcio, da literatura e da poesia. Estes estudos superiores podiam demorar três a sete anos, processo que culminava num exame nacional feito na presença do Imperador, que questionava e avaliava os finalistas. Fui ao templo no início de junho, num dia se semana em que havia muito poucos visitantes. Pude, por isso, desfrutar do ambiente relaxante dos jardins, que imaginei perfeitos para a concentração nos estudos que ali se faziam antigamente. Mas sei que em determinadas épocas do ano, muitas das celebrações académicas ainda se fazem aqui e que na véspera de exames importantes os estudantes ainda vêm aos magotes pedir proteção e sorte aos sábios ancestrais. 

Naturalmente, ao longo da visita pensei muitas vezes no quanto seria perfeito encontrar um leitor no magnífico Templo da Literatura. E, sortuda como tenho sido, foi o que acabou por acontecer, já mesmo na reta final, quando entrei na loja de souvenirs que existe na ala esquerda do edifício onde funcionava a universidade. Aí, aproveitando a calmaria daquele dia, a jovem Han lia a edição vietnamita de "Como Deixar de se Preocupar e Começar a Viver", de Dale Carnegie. Leitora assídua, sobretudo de literatura infantil que diz ser a sua preferida, Han procurava orientação nas palavras do guru norte-americano da motivação. "Sou uma pessoa que se preocupa muito, por isso preciso de ajuda. Espero poder preocupar-me menos e passar a divertir-me mais". E sabem com o que mais se preocupa a Han? Com o trabalho. Irónico é que estivesse a tentar travar esse processo no templo dedicado a Confúcio, o filósofo para quem o trabalho era uma das pedras basilares do seu pensamento.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Três anos


Tenho no desktop do meu computador — aquele que está agora mesmo pousado sobre os meus joelhos enquanto escrevo — uma pasta a que chamei "fotos_blogue". Abro-a com frequência para percorrer, sempre com espanto, este álbum fotográfico que tem o seu quê de inusitado. Hoje contei nessa pasta 343 rostos debruçados sobre livros. No dia em que assinalo, com orgulho, três anos de Acordo Fotográfico, o meu primeiro pensamento vai para estes 343 leitores a quem devo tudo. Sem eles não teria assunto. Sem eles os meus dias teriam menos sorrisos. Muitíssimo obrigada!

Convido-vos a recordarem aqui algumas dezenas de leitores.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Vietname — Robert em Hanoi


Esta coisa das rivalidades entre cidades de um mesmo país é um fenómeno que me ultrapassa e que a maior parte das vezes me irrita, mas no decorrer da viagem as opiniões tendenciosas que fui colhendo sobre os locais que me preparava para visitar não só trouxeram algum colorido às conversas com autóctones e expatriados, como estiveram na origem de boas surpresas. As mesmas considerações que ouvi de cariocas ou paulistanos sobre Brasília — que não há muito para ver ou fazer na cidade... — ouvi meses mais tarde em Saigão acerca de Hanoi. Por isso, quando parti do sul para a capital do Vietname ia quase convencida que a cidade mais estimulante do país estava a ficar para trás. Puro engano! 

Notoriamente mais pequena e com menos população que Saigão, Hanoi é uma capital tranquila e elegante. Obviamente, para nós, portugueses, tudo isto é relativo, sobretudo se tivermos em conta que esta "pequena" e "tranquila" capital conta com pelo menos seis milhões de habitantes. Mas, para quem chega de Saigão, acreditem que a diferença é substancial. O coração da cidade é um lago diminuto chamado Hoan Kiem, que alberga, numa extremidade, um templo ao qual se acede por uma ponte vermelha. O seu reflexo sobre o espelho de água deve ser uma das imagens mais captadas pelas câmaras dos visitantes. Este lago, que podemos contornar numa caminhada que não dura mais de meia hora, é o grande ponto de encontro dos habitantes de Hanoi. É à sua volta que fazem jogging, é nos jardins que o envolvem que praticam tai chi, ginástica ou dança, é nos seus bancos que os casais namoram, é nas suas margens que os grupos de amigos se sentam para conversar enquanto comem gelados e é nas suas imediações que existem algumas das melhores lojas da cidade, assim como hotéis e restaurantes. A partir deste ponto cheio de vida, estende-se para norte o Old Quarter e para sul o French Quarter, os dois bairros que juntamente com o lago definem o núcleo de Hanoi. E foi aqui, flanando pelas ruas destes bairros e sentada na margem deste lago, que a minha paixão súbita pelo Vietname se consolidou. 

Vejo e revejo as fotos desses dias à procura de uma razão objetiva que justifique o impacto que esta cidade teve em mim. Mas como é que se explica objetivamente uma espécie de feitiço? À partida, Hanoi tinha tudo para me enlouquecer: a propaganda do Partido Comunista debitada a partir das sete da manhã através dos altifalantes espalhados pela cidade; a falta de limpeza e de higiene; o trânsito caótico; o perigo que é atravessar qualquer estrada, mesmo onde há semáforos; o idioma que não entendo; os milhares de motos que ocupam os passeios forçando-me a andar na estrada; o ruído constante; o sol que não se vê e o mar a centenas de quilómetros. 

Mas depois há o insólito. Há o karaoke de rua, à noite, com uma aparelhagem rudimentar e colunas de som fanhoso. Um jovem parece assassinar uma qualquer canção vietnamita, enquanto centenas de pessoas assistem, sentadas em banquinhos de plástico azul, bebendo cerveja e comendo sementes, como se estivessem a ouvir o melhor cantor lírico. Há os dois negócios mesmo em frente ao hotel onde me alojo e cuja atividade constante observo ao pequeno-almoço: à esquerda um cubículo onde um jovem passa o dia a lavar motociclos; à direita um talho, onde uma mulher, sentada numa banqueta de madeira, decapita e depena frangos metodicamente. Há o homem na esquina que, naquilo que parece uma simples abertura numa parede, montou uma oficina para reparação de eletrodomésticos. E as peças que ocupam aquela abertura são tantas e estão de tal forma entaladas do chão ao teto que temo pela segurança do homem caso tudo aquilo lhe caia em cima. Há a farmácia onde entro para comprar lenços de papel e onde, perto do balcão, se coze arroz numa panela. Há a vendedora de postais, a quem a Nilza faz a primeira compra do dia e que à noite, ao rever-nos, se aproxima numa grande agitação, gritando "Good luck! Good luck". Pede uma foto com a cliente que lhe deu sorte. No dia seguinte, no mesmo lugar, espera por nós para nos apresentar os filhos e tira-nos mais fotos, desta vez com o seu telemóvel. Há o sapateiro, apenas uma criança, que aparece do nada, aponta para os meus pés enquanto solta uma algaraviada incompreensível. Sem que pudesse antecipá-lo, arranca-me a sapatilha do pé direito e vai esconder-se para lá de uma esquina, senta-se num degrau e empreende o arranjo da sola descolada. Há o condutor de riquexó, pequeno e franzino, que depois de nos passear quarenta e cinco minutos, pedalando pelas ruas requintadas do bairro francês, leva a cabo, de sua livre iniciativa, toda uma sessão fotográfica com uma das nossas câmaras, sugerindo-nos as mais variadas poses em cima da sua bicicleta. E há as ruas ladeadas por grandes árvores; as vendedoras de flores de lótus que se deslocam de bicicleta; as vendedoras de ananases que perfumam as ruas com o cheiro da fruta madura; as lojas exíguas onde em menos de vinte e quatro horas se confecciona qualquer peça de roupa à nossa medida no melhor linho, no mais puro algodão ou na seda mais delicada; o restaurante gerido por um grupo de mulheres, irmãs talvez, que se entendem aos berros, naquilo que aparenta ser uma eterna discussão e que servem com modos rudes as melhores refeições que faço na cidade. E tantos, tantos outros pormenores inebriantes

Todos os dias, como se tivesse necessidade das suas águas paradas para serenar, dei por mim junto à margem do Hoan Kiem. Ao meu redor, o burburinho de Hanoi, a cidade com mil anos, não cessava. Mas o arvoredo à volta do lago transmitia uma sensação de paz. Foi sem surpresa que aí encontrei alguns leitores, porque os bancos estrategicamente colocados pareciam ter sido concebidos apenas para esse efeito: ler. Talvez Robert, um escocês de férias no Vietname, tenha sentido também a necessidade de se evadir. Então, por uns momento, esqueceu o rumor de milhares de motociclos, as temperaturas elevadas e o ar saturado de humidade para ir até Westeros, aquela terra da Europa medieval, coberta de gelo e dilacerada por um conflito sangrento que George R. R. Martin descreve n' "A Guerra dos Tronos". 

domingo, 30 de novembro de 2014

Vietname — Huy em Sa Pa



Deixei Ha Long Bay num domingo à tarde e parti em direção a Hanoi onde, umas horas depois, apanhei um comboio noturno para Lao Cai, uma pequena cidade no extremo norte do Vietname, junto à fronteira com a China. O objetivo era chegar a Sa Pa, um vilarejo pitoresco aninhado no sopé do Fan Si Pan, o ponto mais alto do país. 

Fiz a viagem num compartimento pequeníssimo onde havia quatro beliches. Eu e a Nilza ocupámos os da direita, ela em baixo e eu em cima; os outros foram ocupados por dois vietnamitas, aparentemente pai e filho, ambos homens de poucas palavras. Depois de várias semanas a queixar-me dos ares condicionados débeis dos transportes que frequentei, nessa noite dei graças por ter um polar para me agasalhar. Lá fora as temperaturas mantinham-se elevadas e a humidade não dava tréguas, mas a cabina onde me preparava para passar a noite parecia o pólo norte e os nossos companheiros de viagem, refastelados nas suas camas, estavam deliciados com o choque térmico. Porque o polar não chegou para me aquecer, enrolei-me o mais que pude na manta grossíssima colocada sob a almofada e deixei-me levar pelo embalo do velho comboio que, muito lentamente, deixava Hanoi. Pela janela, apesar da noite cerrada, consegui observar cenas fugazes da vida na capital do Vietname: as casas pobres de um bairro parcamente iluminado, as vendedoras de um mercado montado junto à linha, os casais que escolhem a ponte ferroviária para namorar na semi obscuridade, as famílias sentadas sobre mantas num descampado onde se entretêm a ver passar as pesadas carruagens de madeira e ferro. 

No interior do comboio instalou-se por fim o silêncio. Os passageiros estavam todos acomodados, o vai-vém nos corredores tinha cessado, a porta do nosso compartimento estava fechada com o trinco para evitar que se abrisse a cada curva e eu tentava adormecer fazendo de conta que não me deixava algo apreensiva estar trancada numa divisão de poucos metros quadrados com dois estranhos. O mais velho, em baixo, roncava; o mais novo, deitado ao meu nível e à distância de um braço esticado, vinha entretido com o telemóvel, que me passou para as mãos sem pré-aviso para que visse este vídeo. Devolvi-lhe o aparelho emocionada. Ele sorriu-me, tímido, e eu adormeci confiante: dali não vinha qualquer perigo, nem para nós, nem para a nossa bagagem. Ainda assim, passei a noite agarrada à pequena mochila que continha os meus documentos, algum dinheiro, o computador e as câmaras fotográficas, enfim, os meus bens mais valiosos. Passadas oito horas, acordámos todos com os berros de um funcionário dos caminhos de ferro que anunciava a chegada a Lao Cai ao mesmo tempo que batia nas portas das cabinas. Estremunhada, coloquei os cerca de vinte e cinco quilos de bagagem às costas, desci para a plataforma e segui as centenas de passageiros para fora da estação. Daí a uns minutos, apareceu a carrinha que nos levaria, montanha acima, até ao nosso destino final. 

Situada a cerca de quatrocentos quilómetros a noroeste de Hanoi, na zona mais montanhosa do Vietname, Sa Pa foi frequentada pelo colonizadores franceses entre os finais do século XIX e o fim da Segunda Guerra Mundial, tendo funcionado não só como base militar, mas também, graças ao seu clima ameno, como sanatório e estância de férias para os mais abastados. Entre as décadas de 50 e 60 do século XX, no seguimento de vários conflitos armados, Sa Pa ficou arrasada e votada ao abandono. O processo foi revertido pelas autoridades vietnamitas nos início dos anos 80, quando investiram no repovoamento da zona, até que nos anos 90 se apostou na abertura do lugar ao turismo. Desde então, nas últimas duas décadas, milhares de visitantes de todo o mundo chegam a Sa Pa ano após ano para mergulhar por uns dias na cultura das minorias étnicas que habitam a região. Foi o que eu fiz, também. 

Dos quatro dias que lá estive, dois foram passados a caminhar por entre os campos de arroz. Depois de os ter visto à distância durante tantas semanas pude, por fim, embrenhar-me neles, sentir-lhes o cheiro e, literalmente, a textura quando por acidente me desiquilibrei e enfiei um pé até ao tornozelo num arrozal alagado e lamacento. Nessa caminhada tivemos por guia a Mou, da tribo Hmong. Era tão pequena e franzina que mais parecia uma adolescente, mas Mou tinha vinte e oito anos, era casada e mãe de duas crianças. Assim que nos metemos a caminho, percebi que o seu ar de menina era muito enganador: Mou transbordava energia física e possuía um sentido de humor desconcertante. Não foram poucas as vezes em que gozou comigo, simulando sentir-se ofendida por algo que eu tivesse feito, para depois rir-se da minha surpresa, soltando gargalhadas infantis e fechando os olhos que ganhavam a forma de simples rasgos no rosto. Era linda a Mou, nas suas vestes tradicionais pintadas de índigo, a camisa verde alface, a saia de barras bordadas, as feições perfeitas e delicadas, a voz fina e meiga, as mãos miúdas, o cabelo negro comprido que quando solto lhe roçava a curva das nádegas, os pés pequeníssimos e a pernas torneadas pelos quilómetros que a profissão a obriga a percorrer. 

Para além dela, um grupo de meia dúzia de mulheres com os filhos às costas caminhou conosco com o único intuito de nos vender alguma coisa mal parássemos para comer ou antes de chegarmos à casa da família onde passaríamos a noite. Ágeis como gazelas, percorreram sem dificuldade os caminhos mais íngremes e escorregadios e foi graças à sua ajuda que não me estatelei um par de vezes. Estas mulheres, que tingem de azul escuro os panos que tecem com cânhamo e confeccionam com eles as suas próprias roupas, trazem quase todas as mãos pintadas de índigo até aos pulsos e eu cheguei a agarrar-me com tanta força e por tanto tempo às mãos de uma delas, que também as minhas pele se tingiu. Na sua companhia, a caminhada de muitas horas ganhou outro encanto. Quiseram saber das nossas vidas, fizeram inúmeras perguntas, pasmavam com as nossa respostas. Jurei ver no rosto de algumas pena por me saberem só, sem marido nem filhos. Mas outras houve que vieram depois dizer-me, entre risinhos, que eu é que tinha razão, que estava bem assim, porque os homens e os filhos só davam trabalho e faziam envelhecer. 

A família Hmong que nos recebeu nesse fim de dia em sua casa mal falava inglês. Os nossos diálogos reduziram-se ao mais básico: pedir água, perguntar pela casa de banho, comentar a beleza da paisagem, elogiar a comida que nos serviram. A casa, lá bem no alto, tinha na frente um alpendre que fazia as vezes de miradouro. De ali avistava-se grande parte do vale feito de arrozais em socalcos por onde tínhamos caminhado todo o dia. A senhora trazia ao colo um bebé recém-nascido que não largou um minuto. Olhava-o embevecida, como se adorasse um Deus menino. Dir-se-ia que era o seu primeiro filho, mas era o quinto. Quem tratou de nós — eu, a Nilza, um jovem britânico e a sua namorada filipina — foi o primogénito, um rapaz de catorze anos que confeccionou num forno a lenha a melhor refeição vegetariana que comi na minha vida. 

Ali, nas montanhas do Vietname, como em qualquer outra zona rural do mundo, os dias vivem-se ao ritmo da luz solar, por isso, pouco depois de ter escurecido retirámo-nos para o sótão onde dormimos em colchões espalhados pelo chão. Há anos que não me deitava tão cedo, mas o corpo agradeceu. E quando todos os sons humanos  cessaram — o choro do bebé, as gargalhadas das famílias vizinhas, as loiças a chocalhar na cozinha — os sons da natureza impuseram-se de tal forma que pareciam amplificados por colunas de som gigantescas. Não sei que criaturas são capazes de cantos tão ensurdecedores. Só sei que os achei fascinantes e que de todas as vezes que acordei por causa dessa sinfonia exótica, dei por mim a sorrir no escuro. Era maravilhoso! 

Na manhã seguinte, depois de um pequeno almoço de chá com leite e panquecas com banana e mel, calcei a muito custo as botas, os pés forrados com pensos rápidos. Começámos a caminhar antes das sete da manhã e o percurso, de regresso à vila de Sa Pa, terminaria só após o almoço. Esses quilómetros acabaram por me custar um par de unhas, que caíram, e ainda hoje me recomponho das mazelas que me ficaram nas outras... Feitas as despedidas da Mou e do casal que nos acompanhou, regressámos ao hotel onde as mochilas grandes tinham ficado, tomámos um banho retemperador e, de havaiana nos pés doridos, saímos para explorar a vila. Na verdade não há muito para ver: um par de ruas principais onde se alinham hotéis, restaurantes, cafés e lojas, um largo com uma igreja pequena que vi sempre fechada e um pequeno mercado que se visita em poucos minutos.

Ao nos aventurarmos por uma zona mais residencial, de onde se tinha uma vista espetacular sobre o vale e as montanhas, passei pela entrada de uma casa onde um grupo de crianças brincava com triciclos e outros dois miúdos, mais velhos, se entretinham com um livro de banda desenhada. Fiz-me entender o suficiente para que percebessem que queria fotografá-los, mas a excitação que o meu pedido causou quase me fez desistir. É que um deles, o que se vê na foto a fazer uma careta, tomado pela euforia passou com o triciclo por cima de um dos meus pés, já de si muito mal tratados. A dor foi tanta que me vieram as lágrimas ao olhos. Fiz a foto a muito custo e depois ainda tive de erguer a câmara no ar o mais que pude para evitar que aquele bando de pirralhos irrequietos ma tirasse das mãos na ânsia de ver a imagem. Levantei a voz, fiz cara de má, mostrei-lhes a fotografia na fração de segundos em que a histeria amainou e, agradecendo à pressa, voltei costas e fui-me embora a mancar. 

Mais fotos aqui.

sábado, 22 de novembro de 2014

Nuno, o leitor caminhante



"Estou a ler "The Magicians Land", de Lev Grossman, que é crítico de livros para a Time Magazine. Este é o terceiro e último volume da série "The Magicians", uma trilogia de fantasia. Estou quase a acabá-lo. Por acaso, ultimamente tenho vindo a recuperar esse hábito de ler fantasia, muito na onda daquilo a que as pessoas mais entendidas no género — e que fazem essas categorizações — chamam de fantasia épica, como Tolkien ou autores mais contemporâneos, como o que escreveu "A Game of Thrones" ("A Guerra dos Tronos"). Gosto muito de ficção científica e também gosto muito de não ficção, geralmente na vertente do jornalismo de investigação criminal, que é uma literatura que não se faz tanto em Portugal. É mais anglo-saxónica, como é o caso de "In Cold Blood" ("A Sangue Frio"). Não sou homem de um livro só e é-me muito difícil conseguir pôr alguma coisa nesses termos tão definitivos: é o livro da minha vida, é o filme da minha vida, é o álbum da minha vida... Compreendo que haja pessoas que o consigam fazer, mas eu não consigo. Nós somos um bocado um conjunto das coisas que lemos e se calhar há alturas da nossa vida em que um livro nos marca mais e há alturas em que estamos mais susceptíveis a outro tipo de literatura. Por exemplo, o livro mais importante da minha vida no último ano chama-se “Snow Leopard”, de Peter Matthiessen (vencedor por três vezes do National Book Award), um naturalista inglês que faleceu este ano. O livro é sobre uma expedição que ele fez aos Himalaias em busca do leopardo das neves. É uma obra como hoje em dia já não é muito comum fazer-se, um relato muito interessante de uma viagem que não foi só física, foi também uma viagem muito mental. O autor estava num período difícil da sua vida — a mulher tinha acabado de falecer de cancro — e então estava numa fase mais espiritual. Curiosamente, Matthiessen era budista e a expedição em que participou pretendia encontrar o leopardo das neves, que ainda hoje é um animal em vias de extinção, muito difícil de encontrar e que, pelos vistos, também tem um significado particular na mitologia budista. Portanto, houve ali uma série de círculos que se ligavam de forma ténue mas muito definitiva, digamos. E esse conjunto todo, também para mim, embora noutro contexto, fez muito sentido. Recomendo! Sobretudo para perceber-se que muitas vezes as viagens que temos de fazer interiormente têm um reflexo exterior e que às vezes temos mesmo de percorrer fisicamente um caminho para chegar onde queremos mentalmente. E os livros ajudam nesse processo. Acho que a importância da leitura não deve ser subestimada. Isto se calhar também é um bocadinho síndrome de velho do Restelo, apesar de eu não ser muito velho, mas acho que hoje em dia cada vez mais se perdem hábitos de leitura, perde-se a importância que se deve dar ao livro e à leitura. Acho que as pessoas devem ler, devem ler muito e devem ler tudo o que lhes apetece porque um dia haverão de encontrar algo que lhes diga respeito e que seja importante para elas. E para isso têm de ler. A leitura também é uma experiência de vida. Nós, quando lemos, experienciamos algo que outra pessoa viveu. Quando lemos um livro de fantasia épica ou um relato da Guerra do Peloponeso, vamos a lugares onde nunca poderíamos ir, como a Grécia antiga ou a Terra Média, e isso permite-nos ver as coisas de um ponto de vista completamente diferente, o que  nos enriquece. Quanto mais lemos mais ricos somos e melhor estamos preparados para lidar com o mundo, com diferentes  experiências, com diferentes pessoas e acho que no fundo também nos tornamos um bocadinho melhores enquanto seres humanos". 

Assim falou Nuno, que lia enquanto descia a Rua da Restauração, no Porto.

sábado, 15 de novembro de 2014

Vietname — Andjana em Halong Bay


Era uma vez, há largas centenas de anos, um jovem país chamado Vietname que defendia as suas fronteiras com ferocidade. Um dia, no mar a norte, a batalha parecia perdida face à investida dos chineses. Foi quando o Imperador de Jade, o Deus primordial, enviou em auxílio dos vietnamitas a Mãe Dragão e as suas crias, que atacaram o inimigo cuspindo fogo e esmeraldas gigantes. Muitos barcos chineses foram afundados e os restantes não conseguiram transpor o muro de pedras preciosas que se ergueu sobre o mar. Abandonaram a luta e a paz regressou ao Vietname. Muito tempo depois, as esmeraldas gigantes transformaram-se em ilhas e ilhéus que se espraiaram pela baía, outrora campo de batalha. Assim reza a lenda de Halong, que em vietnamita antigo significa literalmente "dragão descendente" ou "dragão que desceu". Já a geologia conta-nos uma história completamente diferente, que começou há quinhentos milhões de anos. Este foi o tempo necessário à formação da baía tal e qual a conhecemos hoje, com as suas águas verdes, três mil ilhas e ilhéus de calcário, grutas, crateras, lagos e todas as criaturas que aí habitam. O valor geológico, histórico e cultural deste pedaço do Vietname é inestimável e de importância excecional para a Humanidade, razão pela qual o local passou a inscrever-se, em 1994, na lista do Património Mundial da UNESCO. Em 2007, a baía foi considerada, também, uma das Sete Novas Maravilhas Naturais do Mundo. A beleza da paisagem da Baía de Halong é esmagadora. À medida que o barco se afasta do cais e penetra pelo labirinto de ilhas esguias, inabitadas e cobertas de vegetação, parece que entramos num mundo irreal, fantasioso. Há muitas dezenas de barcos a fazer o mesmo trajeto e no entanto o silêncio predomina. Quase parece que algo na natureza absorve os sons das máquinas ou que estas se movem por artes mágicas. Durante o dia, o sol confere à pedra calcária um tom dourado e os reflexos das ilhas multiplicam-se sobre a superfície plácida do mar. À noite, se o luar ajudar, adivinham-se apenas os contornos dessas porções de terra. O verdadeiro espetáculo vem do céu e do número infinito de estrelas que brilham sobre as nossas cabeças. Encostada à amurada, no deck superior, só baixei o olhar para ver passar rente ao barco ancorado, quase à superficie, as gigantescas medusas de um branco luminoso, que arrastavam, lânguidas, as longas cabeleiras de tentáculos. Quem tem o privilégio de poder passar uma noite a bordo de um barco fundeado algures entre os ilhéus, pode imaginar o que seria estar na Baía de Halong antes da chegada das hordas de visitantes. A área é muito extensa e comporta os inúmeros barcos de passeio, mas há paragens para visitas obrigatórias a alguns ilhéus onde as extensas filas são inevitáveis e os atropelos para as fotografias da praxe também. Pior do que isso é constatar-se claramente que a água da baía está a ficar poluída: aqui e além surgem manchas de óleo, flutuam objetos de plástico, forma-se uma espuma suspeita sobre a superfície. A um dado momento, o guia que nos acompanha a bordo explica que as comunidades piscatórias, que sempre viveram em aldeias flutuantes, estão a ser obrigadas pelo governo a mudar-se para terra, onde lhes cederam habitação gratuita. Argumenta-se que os seus hábitos de vida poluem a baía e que isso é mau para o turismo. Alguém do grupo de ocidentais protesta, dizendo que os pescadores estavam lá primeiro. O guia responde que em terra as crianças podem ir à escola. E a conversa termina aí. Não posso, é claro, prever com grandes certezas o futuro da Baía de Halong, mas tudo aponta para transformações significativas e num sentido que me entristece. Ao aproximarmo-nos da zona portuária, a cidade está transformada num estaleiro a perder de vista. Os terrenos junto à costa estão loteados e há gruas por todo o lado. No edifício do porto, onde se compram os bilhetes para os passeios de barco, confirmo as minhas suspeitas: uma maqueta de grandes proporções apresenta-nos a Baia de Halong do futuro. E o futuro é uma combinação de moradias de luxo, hóteis, arranha-céus e avenidas largas. Em suma, uma paisagem urbanística completamente descaracterizada que me recordou uns bairros de Miami, muito explorados pelas imagens panorâmicas das séries de TV. E eu, que nunca estive em Miami... No topo de um dos ilhéus pensei nisto, no que verão aqueles que daqui a muitos anos visitarem a Baía de Halong. A maior parte dos meus companheiros de barco preferiram ficar na praia minúscula e sobrelotada. Eu, apesar do muito calor e da humidade elevada que parecia não deixar ar para respirar, preferi encarar centenas de degraus e chegar, com grande esforço, ao ponto mais alto daquela torre de calcário. À minha frente, até à linha do horizonte, milhares de ilhas, um assombro que tornou ainda mais complicado recuperar o fôlego. Após alguns minutos de contemplação em cima de uma pequena rocha que tive de disputar com outros turistas, empreendo a descida, mais rápida, e ao chegar lá abaixo, ao areal diminuto e sujo, encontro uma leitora. Andjana é alemã e estava de férias no Vietname. Três semanas, tantas quantas as que eu passei naquele país surpreendente. Nem sei como conseguiu concentrar-se nas páginas do livro, tal era o tumulto à nossa volta. Vários grupos de chineses comportavam-se como se nunca tivessem visto o mar ou mergulhado nele. Gritavam de excitação e esbracejavam com a água pela cintura como se estivessem a afogar-se. Mas Andjana lia. Era o segundo volume de "Herzenstimmen" (qualquer coisa como "A Voz do Coração"), de Jan-Philipp Sendker, uma história passada na Birmânia onde a jovem protagonista procura durante quatro anos o pai desaparecido. "Leio muito e gosto de histórias passadas em cenários radicalmente diferentes. Este é um bom romance, mas é muito triste", disse-me já com o livro dentro de um saco e enquanto sacudia e dobrava a toalha de praia. O seu barco estava de partida e os pais esperavam por ela.

Fotos da Baía de Halong aqui.

domingo, 9 de novembro de 2014

Carolina & Agatha Chistie


Julgo que hoje em dia já quase não acontece, mas antigamente era certinho: as páginas dos livros amareleciam com o tempo. É fácil deduzir que tal se devesse a um qualquer processo químico, a algum tipo de oxidação também responsável pelo cheiro ácido que os livros velhos exalam. Mas o que é que acontecia exatamente? Já ouviram falar em lignina? Pois... Eu também não. Até hoje. Esta tal de lignina ou lenhina é, a par da celulose, a principal componente da madeira — cabe-lhe conferir rigidez aos troncos das árvores. E é, também, uma substância que escurece em contacto com a luz e o oxigénio. Atualmente, no processo de produção da pasta de papel, esta matéria é eliminada quase a 100% graças a processos químicos. Mas aposto que o papel escolhido para a edição de "Death Comes as The End", em 1987, ainda era daqueles que tinha a branca celulose contaminada pela sensível lignina. O livro de miolo amarelo torrado foi requisitado pela Carolina na biblioteca do British Council, onde estuda inglês há quase 12 anos. Está nas vésperas de mais um exame e decidiu fazer como sempre tem feito nesta ocasião: ler um livro em inglês que a ajude a aprimorar o domínio da língua. "Nunca tinha lido nada da Agatha Christie e estou contente por estar a fazê-lo na língua original. Sinto-me muito mais próxima da autora por não haver a interferência de uma tradução. Para além de ler à noite e nas férias, passei a ler no metro desde que entrei para a faculdade. Não tenho um estilo literário preferido, leio de tudo um pouco, mas este é o meu primeiro policial. A não ser que "O Código da Vinci" conte. Mas acho que não... Não gostei d' "O Código da Vinci". Parecia que estava a ver um filme. Este livro da Agatha Christie é muito mais poético", disse-me a Carolina. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Vietname — Ty Ty em Saigon Square


Invejei a esperança no futuro dos timorenses. Fui seduzida pela sofisticação de Sydney. Vivi uma experiência mística nos Laos. Convenci-me que o paraíso existe e fica em Zanzibar. E ando obcecada há meses pela ilha agridoce de S. Tomé. Mas quando me perguntam em que país, dos catorze que visitei, gostaria de viver, a minha resposta é imediata: no Vietname. E que isto me tenha acontecido, constitui talvez a maior surpresa da viagem. Esqueçam todas as imagens da guerra. Esqueçam o país esventrado pelas bombas e queimado pelo napalm. O Vietname, sem renegar os seus fantasmas, soube renascer magistralmente das cinzas e é hoje uma nação vibrante. É claro que há as paisagens deslumbrantes, as praias exóticas, as montanhas envoltas em brumas eternas, as extensões incomensuráveis de arrozais. E há, também, as cidades frenéticas, de comércio vigoroso, tomadas por milhões de motociclos que rapidamente aprendemos a "tourear" para atravessar a estrada. Nas cidades do Vietname há um certo caos instalado, é verdade, mas é um caos encantador porque é energia, é dinâmica, é vida a acontecer e é otimismo. Mas há, acima de tudo, este povo resiliente, dono de um sentido de humor desconcertante, ávido de aprendizagens, que parece ter nascido com o único propósito de trabalhar e que dá provas de uma criatividade que nos surpreende a cada momento. Hão de ter muitos defeitos, eu sei, todos aqueles que eu não tive tempo de descobrir. Mas foram eles, os exuberantes vietnamitas, que me conquistaram. Eles e a sua fabulosa gastronomia, uma das mais ricas que alguma vez experimentei. No Vietname, levar à boca uma garfada equivale a um fogo de artifício no palato! Cheguei a Saigão (hoje chamada de Ho Chi Minh, mas Saigão é um nome tão mais bonito...) num domingo à tarde, vinda do Camboja. Percorri uma longa estrada durante quase todo o dia, atravessei mais uma vez o rio Mekong, e entrei na cidade sob uma chuva copiosa que não demoveu ninguém dos seus habituais afazeres. Alguns condutores vestiam capas plásticas com as motas em andamento e seguiam de sorriso estampado no rosto ao perceberem que nada os manteria secos. Era domingo, mas podia ser terça ou sexta. O comércio estava aberto e havia milhares de pessoas na rua. Saigão é uma cidade extravagante onde coexistem ambientes muitos distintos, que lhe conferem um caráter ímpar. Ali podemos atravessar um bairro labirintico, tipicamente asiático, desembocar numa grande avenida com edifícios de traço soviético, fazer uma pausa num pagode ou numa catedral católica para aliviar o calor, deambular pelo quarteirão francês com as suas boutiques de estilistas emergentes e cafés avant garde, e acabar o dia no District 1, zona onde os arranha-céus começam a dominar a paisagem e proliferam os restaurantes, os bares e as discotecas ao gosto ocidental. Foi inevitável visitar alguns monumentos e museus — o Palácio da Reunificação, o Pagode do Imperador de Jade, o Museu da Guerra, o Museu da História —, mas de resto foi essencialmente isto que fiz em Saigão: vaguear pelas ruas, sentir os ambientes, observar as gentes. Num desses dias, já ao cair da tarde, entrei no Saigon Square, uma galeria de rés-do-chão e primeiro andar a abarrotar de pequenos stands onde se vende roupa, calçado e outros acessórios que parecem ter sido desviados das fábricas que produzem para as marcas globais. Da Zara à GAP, da Adidas à Nike, este é o lugar para investir em pechinchas, sejam elas genuínas ou forjadas. Logo à entrada, num expositor de relógios, encontrei uma vendedora que, à falta de clientes, se ocupara com um livro. Ty Ty, nascida e criada em Saigão, diz trabalhar todo o dia no stand e ocupar as horas vagas a ler. De sorriso contido, explica-me que gosta sobretudo de romances e que lê três a quatro por mês. Naquele dia de fim de maio tinha começado "Chỉ được yêu mình anh" (qualquer coisa como "Só tu me amas"), da autora chinesa Nam Lăng, comprado precisamente na livraria onde umas horas antes não me permitiram fotografar. Na altura, valeu-me o telemóvel. Se quiserem espreitar o lugar onde a Ty Ty comprou o seu romance, basta que acedam aqui para ver as duas fotos que tirei à socapa.

domingo, 26 de outubro de 2014

Phnom Penh — Anne Sofie e George R. R. Martin


Cheguei a Phnom Penh depois de uma nova viagem de autocarro que demorou praticamente todo o dia. Foram pouco mais de 300 quilómetros percorridos a partir de Siem Reap, numa estrada em construção. Prevê-se que daqui a algum tempo essa estrada venha a parecer-se com qualquer outra via secundária portuguesa, mas por enquanto não passa de um caminho de terra vermelha que se entranhou em todas as frinchas do autocarro, em particular na bagageira. Ao descermos na capital, foram inglórios os esforços dos funcionários para sacudir com palmadas a camada fina de pó que pousou sobre as bagagens. O trajeto foi feito quase sempre aos solavancos e em marcha muito lenta para contornar buracos, valas, maquinaria e trabalhadores. Valeu-me o belo dia de sol, a típica paisagem do sudoeste asiático onde dominam os reflexos dos arrozais alagados e as palmeiras que nos parecem sempre incrivelmente verdes, o lugar onde parámos para o almoço e onde me diverti a fotografar a vendedora de insetos (esse petisco que não ousei provar...), e os programas humorísticos e telediscos cambojanos exibidos na televisão a bordo, que me fizeram rir pela algaraviada e pela produção rudimentar. A entrada em Phnom Penh é tão pouco impactante que tenho sobre esse momento memórias difusas. É bem provável que isso se deva, também, ao cansaço. Recordo apenas as longas avenidas ladeadas por prédios sem portas e sem janelas, negros de sujidade ou humidade e que pareciam prestes a desmoronar-se. Só mesmo quando nos aproximamos do centro, abrindo alas por entre os milhares de motas e tuk tuks, é que a capital começa lentamente a revelar o seu charme. E digo lentamente porque Phnom Penh é, talvez, a capital mais decadente onde estive naquela região do globo, pelo que é preciso fazer-se um esforço para, por entre o caos e o lixo, se descobrirem encantos. A verdade é que à medida que os dias foram passando, Phnom Penh entranhou-se-me e descobri o prazer de pura e simplesmente flanar pelos seus boulevards herdados dos tempo dos franceses e da Indochina, entrar e sair das pequenas lojas requintadas que vendem os algodões e as sedas mais finas e onde ainda é possível ser-se atendido num francês correctíssimo, visitar ateliês de pintores e fotógrafos, erguer o olhar apreciar os edifícios coloniais que apesar da decrepitude mantêm uma aura nobre. Só o espectáculo do que acontece nos passeios de Phnom Penh é por si só um entretenimento. Naquela cidade, os passeios servem para tudo, menos para a circulação dos peões. Nesses troços de via pública tudo pode acontecer: estacionam-se centenas de motas, estendem-se redes onde os condutores de tuk tuk e de riquexó dormem nos momentos de ócio, montam-se barbearias ou restaurantes em poucos minutos, expõe-se todo o stock de uma loja, reparam-se veículos em oficinas improvisadas ou acumula-se ferro velho. Enfim, em Phnom Penh os peões habituam-se depressa a partilhar a estrada com quem anda sobre rodas. Embora a ida ao Palácio Real, ao Museu Nacional e ao Wat Phnom — o templo mais popular da cidade — sejam recomendáveis, até porque consomem muito pouco tempo, a visita mais marcante que qualquer viajante fará em Phnom Penh será sem dúvida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, uma antiga escola que se viu transformada em prisão e centro de tortura nos anos em que vigorou no Camboja o regime de terror de Pol Pot. E depois, há a ida ao campo de morte Choeung Ek, a 15 quilómetros de Phnom Penh, uma experiência aterradora, mas que eu não quis evitar (embora a tivesse adiado o mais que pude). Só aqui foram exumados em 1980, de 86 valas comuns, os corpos de quase 9 mil vítimas dos Khmer Vermelhos. Outras 43 valas foram deixadas por abrir. Homens, mulheres e crianças foram barbaramente assassinados neste local. Ainda hoje, quando a água da chuva alaga o campo, vêm ao de cima restos de roupas, pedaços de ossos e dentes que vão sendo recolhidos e guardados em caixas de acrílico espalhadas pelo recinto. O Killing Filed de Choeung Ek é apenas um dos 300 que existem em todo o Cambodja e a sua visita, juntamente com a ida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, foi o momento mais triste de toda a minha viagem. Na manhã em que tinha de comprar a viagem para o Vietname, que faria mais uma vez autocarro, tive de voltar à zona mais trendy de Phnom Penh, conhecida por Sisowath Quay. Nessa longa avenida que bordeja o rio Tonle Sap, e nos quarteirões adjacentes, concentram-se grande parte das infraestruturas e serviços concebidos sobretudo para os turistas, nomeadamente hotéis, restaurantes, bares e todo o tipo de comércio. Há, até, uma pequena livraria. Numa das muitas esplanadas que existem ali, conheci a Anne Sofie, dinamarquesa e viajante a solo. "Sou estudante de medicina", contou-me, "mas precisei de fazer uma pausa e decidi tirar um ano para mim. Estou a viajar há três meses sozinha e nunca me senti insegura, até porque houve muitas ocasiões em que me integrei em grupos. Comecei por apanhar o Trans Mongolia Express e fui de Moscovo até Pequim. Daí parti para o Nepal, onde trabalhei como voluntária. Terminei a estadia em Kathmandu passando dez dias num mosteiro budista e foi de lá que vim para o Camboja. Ainda vou visitar o Laos e o Vietname e dentro de um mês devo estar a regressar à Dinamarca". O livro, esse, não me reservava grandes surpresas. A Anne Sophie é mais uma leitora irremediavelmente seduzida pelas Crónicas de Gelo e Fogo. Lia o segundo volume de "A Clash of Kings". "Já ouvi falar da série de televisão, mas nunca a vi. Os meus amigos também já me tinham falado dos livros e como os vi à venda muito baratos em Pokhara decidi comprar o primeiro volume. Fiquei viciada e comprei o segundo em Kathmandu. Quando voltar à Dinamarca tenho a certeza que vou ver a série!". E quantos aos seus hábitos de leitura? O assunto ficou arrumado com a resposta que me deu: "Em três meses de viagem já li 17 livros".

domingo, 19 de outubro de 2014

Camboja — Deim em Agkor


Sabia (e ainda sei) muito pouco sobre o Reino do Camboja. E o pouco que sabia prendia-se quase exclusivamente com duas coisas: os Templos de Angkor, Património Mundial da Humanidade que sonhava conhecer um dia; e o regime sanguinário dos Khmer Vermelhos, liderados por Pol Pot, assunto que nos anos 70 e 80 do século passado foi muito mediatizado a ocidente. Até a indústria do cinema deu o seu contributo na denúncia do Genocídio Cambojano quando estreou, em 1984, o filme "Terra Sangrenta" (The Killing Fields"). Vi-o quando era adolescente e marcou-me. Agora que sei um pouco mais sobre este país e que chego a envergonhar-me da imagem redutora que trouxe na cabeça durante tantos anos, recordo as palavras sábias de Chimamanda Ngozi Adichie, a autora nigeriana que numa TedTalk se debruçou sobre o "perigo da história única" a que somos todos tão vulneráveis muito por influência dos media. Diz ela: "Esta é a forma como se cria uma história única. Descrevam um povo como uma coisa, como apenas uma coisa, uma e outra vez, e é nisso que ele se torna (...) A história única cria estereótipos e o problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos. Fazem com que uma história seja a única história". Daí o português manso, o espanhol aguerrido, o francês racista, o alemão nazi, o angolano corrupto, o brasileiro trafulha, o chinês porco, o muçulmano terrorista... Tenho dito a quem me pergunta sobre os supostos perigos da viagem que fiz, que o mundo não é o que se vê nos noticiários das 20h. O que esses noticiários mostram é uma parcela ínfima do que é a vida no nosso planeta, feito na sua maioria de gente que, com mais ou menos dificuldade, leva um dia a dia rotineiro, "normal", em muitos aspetos semelhante ao meu. Como também disse Chimamanda, "a consequência da história única é que (...) enfatiza o quanto somos diferentes, mais do que o quanto somos similares". Por tudo isto, se me pedissem um dia para apontar apenas uma virtude ao ato de viajar, julgo que diria que é a possibilidade de nos libertarmos das muitas histórias únicas que reduzem o nosso planeta caleidoscópico a uma lista de preconceitos. Ainda antes de aterrar em Siem Reap, e com grande surpresa, a minha "história única" acerca dos Khmer desmoronou-se e a palavra ganhou toda uma nova dimensão, altamente positiva, que me permitiu ver o Camboja sob uma nova luz. Não, Khmer não são apenas os seguidores do Partido Comunista que governaram o país entre 1975 e 1979 e que são responsáveis pela morte de quase três milhões de compatriotas. Khmer é o nome dado à língua que se fala no Camboja, mas é, principalmente, o nome do maior grupo étnico cambodjano, aquele que entre os séculos IX e XVI estabeleceu o riquíssimo e muito sofisticado Império Khmer, que teve como principal capital a bela Angkor, a maior cidade pré-industrial do mundo. Aí, numa área de cerca de três mil quilómetros quadrados, ergueram-se mais de cem monumentos angkorianos e estabeleceu-se o coração político, cultural e religioso de uma das maiores civilizações do sudoeste asiático. Tive a felicidade de poder passar três dias a visitar alguns dos monumentos mais icónicos deste lugar extravagante. E fi-lo de bicicleta, apesar das temperaturas que chegaram a sensações térmicas na ordem dos 40 e muitos graus centígrados. A experiência superou todas as expectativas que eu poderia ter alimentado. Sim, o nascer do sol por detrás do templo principal, Angkor Wat, é de uma beleza esmagadora. Assim como é o por do sol precisamente no mesmo lugar. Mas o que dizer da liberdade que foi percorrer a selva luxuriante a pedal, por caminhos nem sempre alcatroados, e ver surgir no meio da vegetação o sorriso plácido de um gigantesco rosto de Buda esculpido na torre de um templo ou na abertura de uma muralha? E como descrever a emoção de entrar nesses templos, percorrer os corredores e as salas eximiamente decoradas com baixo-relevos de um requinte inesperado, subir ao topo dos edifícios e sentir-me pequeníssima perante a escala brutal daquela obra, a força do sol, a inclemência das temperaturas, o azul do céu, as grossas nuvens brancas imóveis, o verde da floresta e os sons que ela emana? "Que lindo! Que lindo!" era quase a única coisa que eu conseguia articular dia após dia, um monumento após o outro. Eu sei que sou dada a estes exageros e que muitos dos que já lá estiveram poderão não ter sentido o mesmo, mas visitar Angkor da maneira que o fiz — totalmente autónoma, ao meu ritmo, de acordo com o plano que eu mesma estabeleci, muitas vezes por trilhos desertos — não foi só um momento alto desta viagem; foi um dos momentos mais ricos da minha vida. E depois, aquilo que eu achava quase improvável: um cambojano a ler junto aos muros de Benteay Kdei, um templo budista construído em meados do século XII. "Sou funcionário do Parque Arqueológico de Angkor", disse-me, "e gosto de ler sobre a história do meu país, sobre os reis do Camboja e sobre estes templos em particular. Este livro é sobre a construção de dois dos monumentos mais importantes do Camboja: Angkor Wat e Bayon". E com isto, a estocada final numa outra história única: aquela em que se afirma que nos países pobres não se lê porque outras necessidades mais básicas se impõem.