sábado, 16 de maio de 2015

São Tomé e Príncipe — Kilza na Roça S. João


Numa das piores fases da minha vida — a que me confinou à cama de um hospital durante seis meses — os meus dias foram em parte alegrados pela presença de João Carlos Silva e do seu programa "Na Roça com os Tachos", na altura emitido pela RTP2. O "Sr. S. Tomé", como eu gosto de lhe chamar, tinha o mérito de me fazer rir, sonhar com as ilhas do meio do mundo e, até, de me abrir o apetite (coisa rara naqueles dias...). E a sua influência foi tal que até hoje, passados mais de dez anos, os seus petiscos ainda se comem na casa dos meus pais: a receita de camarão com banana tem vindo a ser reinterpretada pelo meu pai e o bolo de chocolate é a sobremesa com que a minha mãe adoça as reuniões de família. 

Mas João Carlos Silva, que se diz "cozinhador", é muito mais do que o homem que dá a cara pela gastronomia são-tomense. É também uma figura proeminente noutras vertentes do panorama cultural do país, já que se desmultiplica em projetos para valorização e promoção das artes, das letras e da história: fundou a Teia de Artes, uma escola onde se formam novos artistas; fundou a CACAU — Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopias, que tem como missão promover mudanças culturais e de mentalidades essenciais ao progresso do país; é um dos fundadores da Associação Roçamundo, que apoia o desenvolvimento educativo, cultural, económico, social e ambiental de S. Tomé e Príncipe; é presidente da Bienal de Arte e Cultura de S. Tomé e Príncipe e é proprietário e administrador da belíssima pousada que funciona na Roça S. João, em Angolares. Aí, no edifício que era, nos tempos da colónia, o centro administrativo da roça, gastronomia, cultura e ecologia fundem-se numa experiência que dizem ser única. Eu, confinada ao meu orçamento de viajante low cost, limitei-me a visitar o edifício e a saborear um delicioso café de S. Tomé enquanto regalava os olhos com a vista soberba que se tem da ampla esplanada. 

Ao chegar a S. Tomé, uma das minhas expectativas era ter a sorte de me cruzar com João Carlos Silva. Nele vejo uma lufada de ar fresco, esperança no futuro e um caminho de progresso. Se o tivesse encontrado, estou segura de que teríamos pelo menos falado longa e apaixonadamente sobre livros, porque o sei um entusiasta da literatura, nomeadamente da poesia. Mas aconteceu-me visitar o seu país numa altura em que se tinha ausentado. Ainda assim, no que a livros diz respeito, a ida à Roça S. João foi proveitosa porque colocou a Kilza no meu caminho. Esta professora de português estava a acompanhar um primo de férias em S. Tomé e antes de partir da roça para outro ponto turístico, aproveitou para ler um pouco no carro. "Adoro ler", disse-me. "Leio desde pequena e para onde vou os livros vão comigo. Os romances são os meus livros preferidos. Este, comprei-o porque o título me chamou a atenção e quis saber como era a história". O livro era "A Demanda d'Ewilan — As Fronteiras do Gelo".

quinta-feira, 23 de abril de 2015

São Tomé e Príncipe — Deolindo e o cacau


Foi em junho de 2003. Parti de férias para Pipa, no nordeste brasileiro, e levei na mala a primeira edição de "Equador", a estreia de Miguel Sousa Tavares na escrita de romances. Ao partir do Porto estava longe de saber que os dias longos e preguiçosos passados entre o areal da Baía dos Golfinhos e a rede do bungalow ficariam para todo o sempre associados à história do Cônsul Luís Bernardo. As 518 páginas do romance foram lidas em 4 dias. Com esse livro nas mãos, ajudada pela paisagem, pelos sons e pelo clima da Mata Atlântica, as minhas férias não se limitaram ao Brasil; estive também em S. Tomé e Príncipe. Demorei onze anos a lá voltar, mas cumpri a promessa feita a mim mesma no fim de tarde em que a chuva quente e pesada que desabou sobre Pipa parecia ter como único propósito acompanhar o pranto com que terminei o livro. Caro Miguel Sousa Tavares, li há pouco tempo no seu "Não se encontra o que se procura" que muitos anos após a publicação do romance, também chorou o fim de "Equador". Não pense que com isso está perdoado! A única coisa que o redime foi a inquietude que plantou no meu íntimo e que deu frutos riquíssimos. Não descansei enquanto não fui ver com os meus próprios olhos o que já conhecia através do olhar do nosso saudoso cônsul.

Aterrei na cidade de S. Tomé vinda da África do Sul. Pelo meio, duas escalas: uma na Namíbia e outra em Angola. Saí do aeroporto já passava largamente da meia-noite e não tinha onde dormir. Foi o funcionário que me tratou do visto que recomendou os serviços do Adelino, um taxista e guia turístico que me entregou, por sua vez, aos cuidados da D. Lurdes. Chegados ao bairro Água Arroz, foi ela que nos abriu o portão da casa construída com o suor de uma vida de emigração: primeiro em Portugal, depois na Austrália. E assim que a vi — com a sua comprida camisa de noite branca, um lenço na cabeça e o andar bamboleante provocado pelas dores nos ossos —, não mais deixei de a comparar à Tia Nastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo. Mãe de nove filhos e avó de inúmeros netos espalhados por três continentes (ninguém está em S. Tomé, nem mesmo o seu segundo marido), a D. Lurdes, sem perder o foco no negócio que a ajuda a pagar as contas, recebe os seus hóspedes com um toque maternal e uma deliciosa infomalidade que permite, a quem vem de longe, vislumbrar detalhes do dia a dia de uma casa são-tomense. Trago gravada na memória a manhã em que saí do meu quarto e encontrei, na corda de secar roupa, as tranças postiças da D. Lurdes penduradas ao sol junto às t-shirts que eu tinha lavado à mão na véspera. Com a ajuda da sua empregada Fofinha, uma adolescente enfezada pela pobreza, esta matriarca sem séquito preparava-nos todas as manhãs um pequeno-almoço com café, leite, pão, manteiga, marmelada, papaia e banana e numa ou outra ocasião chegou a cozinhar a famosa omelete de peixe e folha de micocó, uma erva aromática célebre pelas suas propriedades afrodisíacas. E sentava-se connosco à mesa para nos contar episódios da sua já longa vida, enquanto bebericava um chá contra a prisão de ventre.

No dia em que saí à rua pela primeira vez e comecei a desbravar as ruas da capital, os meus sentidos ficaram de tal forma baralhados que me senti mal disposta. Sentada na esplanada de um restaurante com vista para a baía de Ana Chaves, tive por momentos a impressão de ter voltado a Díli. O clima, a geografia e as cores da paisagem devolviam-me Timor. Mas, por outro lado, do interior do restaurante vinham os sons da RTP Internacional com ecos do escândalo BES, na mesa da família que almoçava atrás de mim bebia-se Super Bock e Compal, da minha própria mesa desprendia-se o aroma a azeite e vinagre vindo do galheteiro e por todo o lado ouvia-se falar português com um sotaque que me parecia ora algarvio, ora brasileiro. Havia cinco meses que não estava tão perto de Portugal e apercebia-me agora, de forma pungente, que não me apetecia regressar a casa. Cedi estupidamente a um sentimento de nostalgia pela viagem que ainda não tinha acabado e admito que a minha experiência em S. Tomé tenha sido afetada por esse estado de espírito. Costumo dizer que foram muitas as ocasiões durante a viagem em que chorei de alegria, mas foi S. Tomé que me arrancou as únicas lágrimas de tristeza. Dos 14 países onde estive no decorrer da viagem, este foi o que mais altos e baixos me provocou. Deslumbramento e nojo. Paz e revolta. Paixão e desprezo. Querer ficar mais tempo e não ver a hora de partir para bem longe. Foi quase um trauma. Não consigo parar de pensar em São Tomé, de falar sobre São Tomé, de me perguntar por que raio toda a gente, os são-tomenses incluídos, parece ter desistido de São Tomé. E embora tenha sido muito duro, tenho saudades de quase tudo o que lá vi e vivi. 

Tenho saudades daqueles momentos em que percorri as parcas estradas da ilha nas carrinhas Hiace amarelas e decrépitas que servem de transporte público e onde em vez dos 12 passageiros para os quais foram concebidas iam por vezes 25 pessoas. Nessas Hiace onde valia transportar tudo, onde suei, a minha pele colada à dos outros, conversei, ri e me aborreci por vezes (houve um passageiro que se recusou a ceder o lugar a uma mulher grávida), também ouvi aos altos berros kizombas que embalam até hoje as minhas memórias desses dias. Tenho saudades de todos os matizes de verde que pintam a densa floresta tropical cuja exuberância só encontra travão no momento em que toca o imenso mar. E nessa floresta, ainda virgem em tantas áreas do arquipélago, de cumes cobertos pelo céu pardo da gravana, eu vi brotar cascatas de água pura, vi erguer-se o absurdo pico do Cão Grande e aprendi a distinguir os pés de café e de cacau abandonados, as palmeiras que darão óleo, os coqueiros, os ocás, os embondeiros, os tamarindeiros, as árvores de figo porco e de fruta pão, as papaieiras e as lindas ravenalas. Tenho saudades do momento em que chegava às roças e era recebida com alegria pelos moradores, pelos poucos trabalhadores e pelas dezenas de crianças. "Brrranca! Brrranca! Doxi! Doxi!", gritavam, carregando nos "erres" e pedindo doces em crioulo. Outros, preferiam pousar para a câmara e dizer com ar grave: "Brrranca, tira-me um postal". Com estes miúdos sofregamente agarrados às minhas mãos, percorri os principais edifícios das roças, ainda tão dignos na forma como se mantêm erguidos, tenazes na sua postura aristocrata, apesar do lixo, apesar da podridão, apesar de todo o abandono do mundo. Na varanda do último andar do antigo hospital da Roça Água Izé — onde outrora nasciam crianças e agora se criam porcos, onde no passado se convalescia de malária e agora habitam famílias inteiras numa divisão transformada em apartamento, nos corredores onde antes circulavam médicos e enfermeiros e hoje os habitantes urinam por falta de saneamento básico —, a olhar para as telhas de barro do casario entremeado de palmeiras que descia até ao mar, desabei num pranto na frente do pobre Ali Babá, o empregado da roça que me mostrou tudo com tanto zelo e evidente orgulho. "Deixa lá, Sandra... Não fiques triste", foram as suas palavras de consolo. Tenho saudades das refeições que fiz nos restaurantes improvisados à beira da estrada — apenas uns panos e uns paus para delimitar o espaço, por vezes sem mesas ou cadeiras; aconteceu-me comer sentada no asfalto com o prato pousado nos joelhos. Aí comi peixe frito, arroz e matabala, tudo cozinhado sem quaisquer condições de higiene e a cada garfada deliciosa que levava à boca pensava que não tinha como escapar a uma doença. Mas que importava isso se o melhor de tudo era o brilho nos olhos da cozinheira a quem dávamos a distinção de provar dos seus petiscos? Tenho saudades dos mercados caóticos onde me abasteci de papaias, bananas e abacate que foram por vezes o meu jantar. Como, no meio de tanta cor e tanto produto fresco, podem imperar nesses mesmos mercados os cheiros mais nauseabundos? Tenho saudades das praias paradisíacas, tantas imaculadas, algumas refúgio de tartarugas marinhas, mas outras a servir de casa de banho e de lixeira das paupérrimas aldeias de pescadores. "Nós não temos latrinas, senhora!", disseram-me as mulheres, as mesmas que me perguntaram se não queria levar os meninos que traziam ao colo. Nalgumas dessas praias assisti ao espectáculo que é ver centenas de mulheres a lavar a roupa nos riachos de água doce que vêm do interior da ilha e desaguam no oceano. Jamais esquecerei a imagem do imenso areal negro, debruado a palmeiras e coberto de roupa colorida a secar ao sol. E tenho, também, saudades das longas conversas que tive com os são-tomenses acerca das suas vidas e do seu país: a falta de trabalho para os jovens, os políticos corruptos, o abandono a que tudo está votado, a emigração como alternativa. Aos mais velhos expliquei porque que me doía ouvi-los dizer que mais valia que os portugueses tivessem ficado. Aos mais novos sugeri que agissem para que algo mude. Mas no país pequeno onde a vida se leva "leve leve" e todos se conhecem, parece que as retaliações não são fora do comum...

Perante este cenário, supus que os livros não tivessem um papel relevante na vida dos são-tomenses. E julgo que não me enganei: o espólio da Biblioteca Nacional, pelo menos aquele que está à vista, é tão pobre que confrange; não me lembro de ver uma única livraria na capital; e os frequentadores do Instituto Camões pareciam estar mais interessados nos computadores e acesso grátis à internet. Porém, nos quase 15 dias em que lá estive, consegui fotografar dois leitores nativos. O primeiro foi o Deolindo. Encontrei-o quando ia a pé do bairro Água Arroz para a baía de Ana Chaves, e passei pela entrada da CECAB/STP — Cooperativa de Exportação da Cacau Biológico de S. Tomé e Príncipe. O Deolindo trabalha no cacau desde a infância e hoje é técnico agrícola especializado em cacau biológico. Na manhã em que falámos preparava-se para mais um dia de quebra de cacau, isto é, o momento em que o miolo é retirado do fruto. Mas antes de se dirigir ao campo e pôr as mãos à obra, fazia uma revisão dos seus conhecimentos com a ajuda do livro "Cacau - Tecnologia pós-colheita". Depois de seco, todo o cacau seria exportado para França onde a Kaoka produz deliciosos chocolates bio.

terça-feira, 7 de abril de 2015

África do Sul — Joanne em Joanesburgo


A viagem de Zanzibar para a África do Sul não correu bem. Aquilo que deveria ter sido um trajeto de meio dia com uma curta escala na Etiópia acabou por transformar-se numa odisseia de dia e meio que incluiu: um atraso de quatro horas num voo; discussões acesas com os funcionários de um aeroporto; um almoço forçado em Adis Abeda; uma escala no Quénia; uma avaria num outro avião que nos forçou a voltar para trás e uma noite passada em Nairóbi que se resumiu a três horas de sono.

Cheguei a Joanesburgo esgotada e o frio que se fez sentir mal saí do aeroporto não ajudou a levantar o ânimo. Voltei a lamentar a péssima ideia que foi chegar a Macau em junho e despachar para Portugal os poucos agasalhos que tinha na mochila. Apenas um dia depois de meter a encomenda no correio, ocorreu-que que na outra metade do mundo (aquela onde planeava passar três semanas muito em breve) se vive o pico do inverno entre julho e agosto. Passeie-me, portanto, pela magnífica "nação arco-íris" — Joanesburgo, Kruguer Park, Durban e Cidade do Cabo — de forma muito pouco glamorosa, vestida com várias camadas descoordenadas de roupa e por vezes envergando casacos e gorros emprestados. 

Fundada em 1886 por colonizadores britânicos, Joanesburgo tem a particularidade de ficar quase 1800 metros acima do nível do mar. Hoje, é não só a maior cidade sul africana — com cerca de 4 milhões de habitantes — como também a mais rica, já que constitui o principal centro financeiro, industrial e comercial do país. Mas essa riqueza, extremamente mal distribuída, as gigantescas bolsas de pobreza, a pesada herança do Apartheid e um conjunto complexo de fatores culturais estão na origem de tensões sociais que fazem de Joanesburgo um dos lugares mais perigosos de toda a África do Sul: assassinatos, raptos, assaltos violentos de toda a espécie e violações são coisas do dia-a-dia. Viver em Jozi — um diminutivo que não escamoteia as agruras da cidade — é, portanto, estar exaustivamente obcecado com a segurança. Uma obsessão que pauta e constrange qualquer atividade. Uma obsessão a que os meros visitantes não conseguem (nem devem!) ficar alheios. 


E depois há a raça, esse assunto que me atingiu como uma forte bofetada, abalou as minhas certezas, questionou os meus valores, provocou uma avalanche de dúvidas, colocou sob os holofotes a minha ignorância, trouxe à tona os meus preconceitos e me levou à náusea e às lágrimas. A raça, essa questão sobre a qual eu nunca quis refletir com seriedade, apesar de todos os meus estudos, apesar de todas as minhas leituras, apesar de todos os documentários e filmes a que assisti, apesar de todas as viagens que fiz e de todos os choques culturais que vivi. A raça, um tema que eu optei por nunca valorizar porque deste lugar privilegiado onde me encontro — uma branca da classe média, que teve a sorte de nascer num país rico, laico e liberal do ocidente — preferi afirmar sempre, com toda a convicção (e ingenuamente?), que a cor da pele pura e simplesmente não interessa. A raça — para mim um "não-assunto"; para milhões uma condenação —, o conceito com base no qual se instaurou um regime abjeto e se escreveu grande parte da história de um país extraordinário. 

Visitei Joanesburgo e outras cidades sul-africanas 20 anos depois de abolido o Apartheid e sete meses após a morte de Nelson Mandela. Na África do Sul a omnipresença de Madiba supera a de Deus. Venerado por todos — independentemente da cor da pele, credo religioso ou filiação partidária — a sua imagem está em todos os lugares, públicos ou privados, e a sua mensagem de luta, reconciliação e esperança decora os muros das cidades e as t-shirts dos jovens. Esforços legislativos são feitos tendo em vista a erradicação das desigualdades sociais e económicas criadas por 44 anos de políticas racistas. Largos milhares de sul-africanos saíram já da pobreza. E ainda assim a nação arco-íris, com a nova bandeira hasteada, o novo hino nacional na boca das crianças e os olhos postos num futuro que se quer cheio de oportunidades para todos sem excepção, luta e lutará durante muitas décadas para se libertar do lodaçal da segregação. 

Segurança e raça. Duas palavras que ditaram o ritmo dos meus dias em Joanesburgo. Porque fui forçada a procurar alojamento em bairros residenciais para brancos, delimitados por muros altos, cercados por vedações eléctricas e vigiados por câmaras. Porque os meus passos estavam limitados a uma poucas ruas onde também outros brancos caminhavam com relativa descontração. Porque não pude apanhar transportes públicos e até o taxista que me serviu de guia teve de ser recomendado por uma pessoa de confiança. Porque tive de ver o centro da cidade através dos vidros fechados de um carro cujas portas estavam sempre trancadas por dentro. Porque ainda há brancos racistas e negros racistas e brancos que se afirmam não racistas, mas que não gostam dos imigrantes nigerianos e negros que também dizem não ser racistas, mas também não gostam dos imigrantes nigerianos e afrikaners que ostracizam todos os que não são afrikaners e brancos que nem sequer são sul-africanos e odeiam afrikaners e mestiços que não sabem a que lado pertencem, porque os lados ainda existem!

Quando voltei a Joanesburgo, depois de quatro dias de safari no Kruguer Park, optei por ficar alojada numa pequena guest house em Melville, um bairro residencial nos arredores da cidade que é habitado maioritariamente por brancos. Ali predominam as casas térreas, os passeios com árvores frondosas, o pequeno comércio, bares e restaurantes para todos os gostos. É, aliás, um lugar onde à noite se vive uma certa "movida" e onde de uma forma geral é possível circular a pé sem grandes perigos. Todas as manhãs caminhava do meu quarto até ao Café de la Crème — um espaço de extremo bom gosto e excelente serviço, gerido por portugueses — onde tomei sempre o pequeno-almoço. E foi aí, por entre iogurtes com cereais, cafés e sumos de laranja que fiz a única fotografia para o Acordo Fotográfico na África do Sul.

Joanne lê muito porque para si ler é uma necessidade absoluta. Normalmente, anda sempre com dois livros na carteira e em casa, na mesinha de cabeceira, tem outros vinte, alguns novos, outros por reler. Aquele que lia na manhã em que a fotografei — Confessions of a Sociopath — fora uma compra por impulso. "Vi-o na livraria e despertou-me a atenção. É sobre uma mulher que sempre percebeu claramente que era diferente até ao dia em que alguém lhe diz que tem características sociopáticas. A partir desse momento esta mulher começa a investigar a fundo as origens da sua condição — será genético? Será social? Será fruto de algum trauma de infância? — e faz um relato do que é viver com esse mal. Este livro é, na verdade, uma autobiografia muito interessante, sobretudo se considerarmos que estatisticamente uma em cada vinte e cinco pessoas tem traços de sociopatia, que podem ir de ligeiros a severos. E o mais curioso é que a sociopatia não tem tratamento. Não há medicação ou terapia que ajude. Nasce-se assim e pronto".

Fui feliz na nação de Mandela e quero muito lá voltar. Ficou tanto por ver, tanto por fazer. E ficaram lá amigos, também. A África do Sul deslumbrou-me com a sua beleza natural, enriqueceu-me com a sua história e cultura, comoveu-me profundamente ao proporcionar-me aquela que foi, talvez, a experiência humana mais extrema da minha vida (e sobre a qual ainda não devo escrever). Mas, passados tantos meses sobre a minha estadia dou-me conta, agora que tento com tanta dificuldade contar-vos uma milésima fração do que experienciei, o quanto é complexo o nó que ainda trago por desatar no peito. Terá sido por isso que não quis fotografar mais? Não sei... Se calhar fui apenas preguiçosa.

domingo, 22 de março de 2015

Zanzibar — Fabienne & Michelle em Kiwengwa


A 40 km de Stone Town, depois de percorrer uma estrada que se dirige para leste até à costa oposta da ilha, fica Kiwengwa, uma aldeia pobre que me era totalmente desconhecida até ao dia em que, ao fim de quase quatro meses a viajar, escrutinei o mapa de Zanzibar em busca de um lugar para desfrutar de uma semana de praia e descanso. 

Cheguei ao Baby Bush Lodge a meio de uma tarde de domingo. Contrariamente à entrada de todos os outros hotéis de luxo, cujos grandes portões se viam junto à estrada de alcatrão que o táxi percorreu, o acesso a este meu humilde alojamento fez-se descendo um estreito caminho de cabras ladeado por casas pobres, algumas sem portas, janelas ou telhados: apenas quatro paredes erguidas e deixadas no reboco. O carro parou junto a um pequeno portão branco rodeado de entulho. Isamíli, um dos empregados, veio imediatamente ter connosco e trouxe consigo um sorriso amplo, honesto que foi uma das muitas alegrias dos dias serenos que ali passei. Pegou na bagagem, abriu o portão e segui-o por uma tosca escadaria de madeira e corda que conduzia à receção mais simples e despojada onde alguma vez estive. Por cima das nossas cabeças apenas um amplo telhado de folhas de palmeira que cobria também a contígua esplanada do restaurante e o grande lounge repleto de vastos sofás. Ali não há qualquer muro, qualquer janela, qualquer porta. Dali, daquele estrado de madeira elevado sobre estacas, só se vê uma frente de palmeiras imperiais. E depois delas, o areal mais branco e o mar mais belo. 

Neste pequeníssimo hotel sui generis plantado nas margens do Índico não há casais europeus em lua de mel. Na hora da verdade, são poucos os que aceitam "o amor e uma cabana", ainda que no paraíso. Porque ficava numa cabana o tosco quarto que me coube: a casa de banho sem porta; o chuveiro que pendia da parede sem que houvesse uma banheira ou um prato de duche; a água, que embora quente, era salobra e mal me retirava o sal da pele e do cabelo depois da praia; a cama, de colchão finíssimo e lençóis que não abri, tendo preferido dormir no meu saco-cama de cetim; o mosquiteiro que cheirava a maresia; a humidade que se entranhava em tudo ao anoitecer porque nada naquela divisão era estanque; o varandim com duas cadeiras rudimentares feitas de pele de cabra e a mesa de apoio acabada de pintar que empestava tudo com cheiro a tinta. Era assim a minha cabana erguida pelas mãos de um punhado de homens da Zanzibar — absolutamente genuína. 

Em Kiwengwa, apesar do muito que podemos fazer para nos entretermos, o tempo passa devagar, como julgo ser apanágio de qualquer paraíso na terra. Caminhar na praia infinita e maravilhar-me a cada passo com a textura finíssima da areia — cuja brancura, qual farinha, fere os olhos sob a luz do sol — foi das minhas atividades preferidas. Assim como a ida de canoa até aos corais onde observei a arte de apanhar os pequenos polvos que comi nessa mesma noite ao jantar. Ou ainda, a viagem de barco que me levou para longe da costa e onde, num mergulho, descobri a vida multicolor que há sob as águas do mar. E também a visita à aldeia de pescadores que esculpem dhows do tronco de uma única árvore. 

Para a Fabienne e a Michelle, a estadia de quinze dias em Kiwengwa serviu, ainda, para ler. Estas duas suíças, enfermeiras de profissão, chegaram ao Baby Bush Lodge um dia depois de mim, vindas de Moçambique. Tinham tirado três meses de férias para uma viagem que começou na África do Sul e que terminaria ali, em Zanzibar, onde passariam os últimos trinta dias. Naturalmente, passámos algum tempo à conversa sobre as nossas experiências enquanto "mochileiras" e cheguei a emprestar-lhes o meu computador para que acedessem à internet. Os seus iPhones tinham-lhes sido furtados logo no início da viagem, quando dormiram num hostel na Cidade do Cabo... Fabienne (à esquerda, na foto) contou-me que lê bastante, mas que é nas férias que aproveita ainda mais os livros. "Das Rache Spiel" — algo como "O Jogo da Vingança", um thriller sobre um grupo de quatro homens que se reencontram trinta anos depois de terem cometido um crime — era o quarto livro que lia nos dois meses que a viagem já levava. Michelle, por seu turno, admitiu que só mesmo nas férias é que lê e estava entretida com "Flieh, Wenn du Kannst" ("See Jane Run", no original em inglês), um romance sobre as relações e intrigas familiares. 

Voltei ao meu quarto apenas para pousar a câmara e dirigi-me, depois, para a praia. O sol começava a pôr-se na nossas costas e levantou-se um vento forte que fazia inclinar as palmeiras e ondular as túnicas de xadrez vermelho e preto dos Massai que trabalham nas lojinhas montadas no topo do areal. Da aldeia vêm crianças brincar comigo. Riem às gargalhadas e mostram as fileiras de dentes desalinhados. O mar encrespou-se e ouço um ligeiro rebentar de ondas. Penso no jantar que me espera, provavelmente uma lagosta envolta num molho de caril aveludado. Ou uma salada de polvo tenro. Vai para quatro meses que não pego num livro e estou em paz com isso. Porque a leitura que eu mais queria fazer era esta: perder-me no mundo onde vivo e que é tão belo que chega a doer.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Zanzibar — O cônsul alemão



Era uma vez uma princesa chamada Sayyida Salme, que nasceu em Zanzibar em 1844. Foi a mais nova dos 36 filhos do Sultão e aprendeu a escrever em segredo por essa ser uma habilidade proibida às meninas do seu tempo. Após a morte dos pais a princesa, já tornada mulher, muda-se para Stone Town. É aí que se apaixona pelo vizinho Rudolph, um comerciante alemão de quem fica grávida aos 22 anos. Um escândalo. Decididos a viver esta paixão até às suas últimas consequências, o casal foge numa fragata para Aden, uma colónia britânica no Médio Oriente. É aí que Salme se converte ao Cristianismo antes do casamento com Rudolph. Infelizmente, o bebé de ambos viria a morrer em França, quando iam a caminho da Alemanha. Mas, uma vez instalados em Hamburgo, Salme e Rudolph têm mais três filhos: um menino e duas meninas. Viveram felizes até que a morte súbita de Rudolph deixa Salme em dificuldades financeiras, uma vez que as autoridades alemãs não lhe permitem o aceso à herança do marido. Para fazer face às despesas Salme — que entretanto adotara o nome Emily Ruete — escreve “Memórias de Uma Princesa Árabe de Zanzibar”, considerada a primeira autobiografia de uma mulher árabe. O livro viria a ser publicado na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Salme voltou a Zanzibar duas vezes antes de falecer na Alemanha em 1924, aos 79 anos.

Foi esta a história que me veio de imediato à cabeça na manhã em que conheci Saada na loja da Adra, numa das vezes em que voltei à Rua Gizenga para visitá-la. À semelhança de Salme, também Saada se apaixonou por um alemão. Mas desta vez o romance começou na Alemanha e migrou, depois, para Zanzibar. Mulher confiante, comunicativa e desinibida, convidou-me a ir a sua casa conhecer Erich, assim que soube do Acordo Fotográfico e dos motivos que me levavam a viajar. Explicou-me que o marido, na sua qualidade de cônsul alemão, sabia imenso sobre a história de Zanzibar, tendo mesmo escrito um pequeno livro sobre a ilha. E então lá fui eu, atrás dela, pelas ruas estreitas de Stone Town, umas vezes escuras, outras luminosas, observando como Saada caminhava com um saco de compras numa mão enquanto a outra, livre, ajeitava constantemente o lenço que lhe escondia o cabelo. "Não costumo cobrir a cabeça", disse, "mas como estamos no Ramadão uso o lenço por respeito". 

A casa onde Saada e Erich moram fica na Kenyatta Road, uma das principais vias de Stone Town. O edifício, antigo, tem à porta uma grande árvore e no primeiro andar um varandim debruado a madeira rendilhada. A entrada faz-se por uma porta ampla de madeira que dá acesso direto à sala de estar desafogada. No interior, pouca luz. As janelas e portadas estão fechadas para afastar o calor do meio-dia. Saada chama pelo marido, diz-lhe qualquer coisa que não entendo e desaparece numa outra divisão da casa. Não a verei mais. E então surge Erich, visivelmente surpreendido com a minha visita, farta e alvoraçada cabeleira branca e meio sorriso. Pareceu-me tímido, mas uma vez sentados nas velhas poltronas a conversa fluiu. Falei-lhe do meu percurso até ali, das minhas primeiras impressões sobre Zanzibar e quis saber, depois, como tinha ele ido ali parar. "Sou arquiteto e a minha ligação ao continente africano vem de há muito", contou-me. "Estava a trabalhar no Gana quando me convidaram a ir para o Quénia, onde leccionei e fui diretor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Nairobi. Daí parti numa missão das Nações Unidas para Dar es Salaam, na Tanzânia, onde fui também trabalhar na Escola de Arquitetura. Estávamos nos anos 80. E depois, já no fim da minha carreira, surgiu a oportunidade de vir para Zanzibar de novo pela ONU, para participar no projeto de reconstrução de Stone Town. Os edifícios históricos estavam a colapsar. Aqui, os edifícios a colapsar são uma tradição! Muitos perderam-se irremediavelmente... Quando, por fim me reformei, já cá vivia com a minha mulher, e foi então que o Embaixador alemão na Tanzânia me nomeou Cônsul de Zanzibar. Hoje em dia, uma das minhas principais tarefas é zelar pela manutenção do cemitério alemão que aqui existe. Sabe, é que os cemitérios são os nossos melhores livros de história."

Fotografei-o com o seu livro "Where to, Fair Beauty? A Zanzibar Guide" no colo. É uma edição de autor artesanal, feita de folhas fotocopiadas e coladas à mão. Antes de me vir embora, comprei-lhe um exemplar. Custou-me 25 mil Xelins. De oferta recebi um outro livro, muito pequeno, onde Erich compilou poemas da sua autoria sobre Zanzibar. Chama-se "Smell of Salt". 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Zanzibar — Adra, em Stone Town


Zanzibar. Experimentem proferir a palavra baixinho, como se a segredassem ao ouvido de alguém. Zanzibar. Sintam a língua roçar o céu da boca ao sibilar as duas primeiras sílabas. Notem como os lábios se unem e voltam a abrir e a língua rola quando a palavra termina. É como o início de um beijo lento. Zanzibar. Ouvi-la transporta-nos para um lugar sensual e langoroso, onde alternam a luz quente do sol e a sombra fresca das casas. Pronunciá-la é ansiarmos pela ilha muito antes de lá chegarmos, é entregarmo-nos de corpo e alma ao seu chamamento, é abraçar todo o seu exotismo, é encarnar toda a sua volúpia. Zanzibar é ideia fixa.

Parti da Índia, fiz escala no Qatar e passei algumas horas no Quénia. Viajei quase vinte e quatro horas para aterrar em Zanzibar City, a capital, numa noite de apagão. A cidade estava mergulhada na total obscuridade havia quase uma hora. As janelas das casas eram negrume e as ruas, deserto. Penso pela milésima vez no aviso feito nos vários livros que li ao preparar a longa jornada: mulheres que viajam sós devem evitar chegar a qualquer lugar à noite. O  táxi abranda e entra numa rua estreitíssima de terra batida e lixo no chão. Cheguei a duvidar que pudesse abrir a porta do carro sem tocar num dos muitos portões fechados à esquerda e à direita. O taxista garante que de dia a rua é uma importante artéria comercial, cheia de gente e de vida, mas pergunta por que razão fico naquele hotel. Esforço-me por responder soltando o aperto que trago na garganta: as críticas na net são boas, é barato e tem wi fi gratuito. Desço e entro com a mochila numa receção humilde iluminada por uma lanterna. Dois jovens negros e de sorriso branquíssimo estão atrás do balcão. Faço o check in e subo ao terceiro andar. Curiosamente, há luz no meu quarto. Abro a cama, fecho o mosquiteiro e adormeço em África. Zanzibar vigia com paciência o meu sono, na certeza que no dia seguinte me terá, arrebatada, a seus pés. 

Ainda a saborear o café do pequeno-almoço, assomo-me a uma das janelas do último piso do hotel. Vejo uma sucessão de edifícios brancos, minaretes e algumas torres de igreja que se espraiam até ao porto. Desse ponto em diante, estende-se o Índico turquesa que lá muito à frente toca o céu azul. Um risco alvo nesse horizonte anuncia outra ilha. É cedo, o sol já vai alto, a luz forte espalha-se e tudo brilha. Antes de sair para a rua peço aos rapazes da recepção para assinalarem o hotel no mapa da cidade. Pergunto por lugares que não posso deixar de visitar e certifico-me que não é perigoso andar na rua até tarde. "Hakuna matata!", respondem. Sem problema. Não faz mal. Tudo bem. As minhas primeiras palavras em suaíli. 

Transponho a porta do hotel e estanco perante o espetáculo: a rua inóspita da véspera desapareceu; à minha frente uma explosão de cores, sons, cheiros e gentes na azáfama de um novo dia em que parece haver muito para fazer. Dos portões antes fechados, jorram agora milhares de produtos: roupa, calçado, artigos de higiene e mercearia, especiarias, utensílios de cozinha, electrodomésticos, artesanato e tantas, tantas outras coisas; ouve-se música, grelha-se peixe, coze-se um pão achatado e fino; passam motas com carregamentos que desafiam a lei da gravidade e homens que puxam carrinhos de mão atulhados e gritam para que os outros se afastem do seu caminho; há mulheres de mãos tatuadas, que carregam os filhos às costas e se vestem como o arco-íris, numa combinação alucinada de cores e padrões; gritam-se pregões em estéreo; os vendedores cumprimentam-me, convidam-me a aproximar-me, querem que eu seja a primeira cliente do dia, para dar sorte. "Jambo!", exclamam, estendendo-me a mão. De tanto ouvir este cumprimento a que não sei retorquir, pergunto a um deles o que significa e o que devo dizer de volta. "Si jambo!", explica. Aprendo que estar em Zanzibar é passar o tempo de mão estendida, a cumprimentar homens, mulheres e crianças enquanto se repete a cantoria: Jambo! (Como está?) Sí jambo! (Bem, obrigada!). Caminho, embalada por este refrão e mergulho no labirinto de Stone Town, o bairro antigo de Zanzibar City.

A riquíssima história e herança cultural de Stone Town — a que não é alheia a presença portuguesa entre os séculos XVI e XVII por causa do cravinho, o ouro de Zanzibar — resultam da primorosa fusão de elementos árabes, persas, indianos e europeus. Este caráter único justificou a sua elevação a Património Mundial da Humanidade em 2000. Por isso, embora nunca de forma obstinada, procurei visitar aqueles pontos considerados obrigatórios numa primeira ida à cidade. "Pole Pole", o equivalente suaíli ao nosso "devagar, devagarinho", fui ao exuberante mercado Darajani, ao antigo mercado de escravos, à Catedral Anglicana, à Catedral de S. José, à fortaleza — o edifício mais antigo da cidade, construído no século XVII para repelir os ataques dos portugueses, entretanto escorraçados —, ao palácio do Sultão e ao lugar onde nasceu e viveu Freddy Mercury. Um outro palácio, chamado House of Wonders, estava fechado para restauro e não me foi permitida a entrada nas mesquitas. Consta que existem 51 em Stone Town, mas estávamos na véspera do Ramadão. Dei-me ao luxo, ainda, de pagar umas boas dezenas de dólares por uma visita a uma quinta de especiarias (um desafio para os sentidos que recomendo) e por uma manhã passada na paradisíaca Prison Island, a tal ilha que se via das janelas do hotel e onde pude aproximar-me, pela primeira vez na vida, de tartarugas gigantes e centenárias. 

Os dias restantes foram passados sem nada planeado. Esquecer o mapa e deixarmo-nos perder em Stone Town é algo que qualquer guia vos recomendará. Não o fazer é viver aquela cidade mágica pela metade. Demorei-me nas ruelas estreitas, onde admirei e percorri com os dedos os rendilhados das tradicionais portas de madeira maciça. Explorei as lojinhas, a maioria pensadas para os turistas, mas onde algum do artesanato vendido é de inquestionável qualidade, sobretudo os desenhos que retratam pormenores da cidade. Entrei várias vezes numa joalharia que vendia Tanzanite, a pedra preciosa de que nunca tinha ouvido falar. Deliciei-me ao almoço com caril de lagosta a um preço irrisório, nas horas mais quentes tomei café com especiarias à sombra de uma esplanada e assisti, na Catedral de S. José, a um casamento para o qual não fui convidada. Da cerimónia, toda celebrada em suaíli, só entendi as palavras "família" e "sacramento", ditas assim mesmo, no nosso português. E terminei sempre os passeios no Jardim Forodhani onde, numa esplanada sobre o mar, comi chamuças, bebi cerveja Kilimanjaro e me diverti com a multidão de rapazes que, depois da última oração do dia, se reúnem nas muralhas para dar saltos acrobáticos para a água. Foi dessa esplanada, ao som da música de Youssou N'Dour, que assisti ao incêndio que o sol despoleta quando mergulha no Índico. Os tons de vermelho que se espalham pelo céu parecem impossíveis e realçam ainda mais o perfil dos dhows, os elegantes barcos de vela triangular que àquela hora regressam a terra.

Nestas deambulações, percorri várias vezes a Rua Gizenga, antigamente chamada Rua dos Portugueses. Ao passar pela janela de uma das lojas vi uma mulher de costas, que lia o que me pareceu ser o Alcorão. Tirei-lhe uma fotografia e depois distraí-me a olhar para o resto de uns azulejos que cobriam parte da fachada do edifício antigo. Eram-me tão familiares... Foi então que a ouvi dizer, em inglês: "São azulejos portugueses". Voltei o rosto para a pessoa encostada à ombreira da porta. Era a mulher que lia. Era a Adra. Via-lhe agora o rosto e o sorriso com que me falava de algo português sem saber a minha origem. Expliquei-lhe de onde vinha e por entre a festa que fizemos e o aperto de mãos que demorámos a desfazer, fomos entrando na loja onde em tempos funcionou o consulado português de Stone Town. E fiquei, ignorando o tempo que passava, para conversar com a Adra, contar-lhe da minha vida e saber da sua. Adra, muçulmana sexagenária, falou-me sobretudo do amor que tem pela ilha e do quanto foi difícil a vida no período que se seguiu à revolução de 1964. Nesse ano, no seguimento de um processo eleitoral polémico, a maioria africana expulsou o sultão de Zanzibar do governo de minoria árabe. O conflito armado, breve mas violentíssimo, teve também graves consequências para a comunidade indiana. Estima-se que em poucas horas tenham morrido cerca de 20 mil pessoas. "Na época, o meu pai decidiu ficar em Zanzibar porque esta era a sua terra e aqui estavam enterrados os seus mortos. E apesar de todas as dificuldades, dou graças ao facto de termos ficado. É aqui que sou feliz e daqui nunca saí, embora tenha família espalhada por todo o mundo", disse. 

Contei-lhe do Acordo Fotográfico, é claro. Falámos sobre livros e sobre a importância que a escola tem no fomento do hábito de ler. E pedi-lhe uma fotografia. Recusou-a com toda a gentileza e não tive outra hipótese que não resignar-me. Deixou-me, porém, fotografar o seu livro sagrado. Estávamos no Ramadão. Um dia, hei-de de regressar. Insha'Allah!

Mais fotos de Zanzibar aqui.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Goa — Leanne, na Biblioteca Central


Foi o Sr. Roy Botelho — proprietário e gerente da hospedaria onde dormi em Pangim —, que me recomendou com entusiasmo uma visita à Biblioteca Central de Goa. Isto teria bastado para que me dirigisse de imediato para a zona de Patto, onde se ergue o edifício, mas os elogios que fez ao projeto de arquitetura e à sua modernidade aguçaram ainda mais a minha curiosidade. Soube depois que a obra é da autoria de Gerard d'Cunha, um muito premiado arquiteto goês que, curiosamente, foi casado com Arundhati Roy, a autora vencedora do Booker Prize em 1997 com o romance "O Deus das Pequenas Coisas". Após um copioso pequeno-almoço de sabores goeses que Roy me viu sorver com prazer, pus a mochila às costas, deixei o bairro das Fontainhas, atravessei a ponte azul e branca sobre o rio de Ourém e entrei no bairro de Patto onde o horizonte, num contraste evidente com o resto de Pangim, já é dominado por um conjunto de prédios altos e recentes. Aí, numa área onde ainda permanecem muitos terrenos vagos a pedir mais construção, eleva-se a biblioteca, um grande edifício de seis andares e janelas amplas que deixam adivinhar um espaço interior cheio de luz natural. 

De acordo com a informação disponiblizada no site da instituição, a Biblioteca Central de Goa é a mais antiga da Índia e conheceu, desde a sua fundação, várias designações: Pública Livraria (1832); Biblioteca Pública (1836); Biblioteca Nacional de Nova Goa (1897); Biblioteca Nacional Vasco da Gama (1925); Biblioteca Nacional de Goa (1959) e, nos dias de hoje, Biblioteca Central de Goa Krishnadas Shama, nome do fundador da literatura concani, a língua oficial deste estado. Estabelecida em 1832 pelo vice-Rei D. Manuel Francisco Zacarias de Portugal e Castro, a biblioteca beneficiou em 1834 da transferência dos espólios bibliográficos dos conventos e ordens religiosas extintas por ordem do monarca D. Pedro IV. Muitos anos mais tarde, em 1952, adquiriu o estatuto de Depósito Legal o que lhe permitiu enriquecer ainda mais a sua coleção com obras publicadas em Portugal e noutras províncias ultramarinas. Estima-se que até 1961, ano em que Portugal perdeu Goa para a União Indiana, a biblioteca tenha acumulado cerca de 40 000 livros e jornais em inglês, francês, latim, concani, marathi e português, claro. Aliás, é importante que se diga que a Biblioteca Central de Goa é considerada o maior depósito de livros em português de toda a Ásia. Atualmente conta 180 000 obras, a maioria em Hindi e Inglês.

Uma vez dentro da biblioteca, muito para além da dimensão e modernidade do edifício, impressionam sobretudo a forma como as diferentes áreas se distribuem e organizam no espaço, assim como o leque de serviços que a instituição coloca ao dispor dos cidadãos. Há razões óbvias e justificadas para que todos os goeses tenham orgulho nesta magnífica biblioteca. No rés-do-chão, a par da recepção, da área de cacifos e do balcão para devolução de livros requisitados, encontra-se a secção de publicações periódicas — revistas e jornais —, a zona de livros em braille e também uma galeria de arte que incentiva os artistas locais a mostrar o seu trabalho. E depois, de andar em andar, sucedem-se as surpresas: uma área dedicada em exclusivo às crianças, com 10 000 livros, brinquedos, computadores com acesso à internet, uma sala para projeção de filmes e respetiva coleção de DVDs e salas de estudo que funcionam vinte e quatro horas por dia; um centro de conferências e locais de trabalho equipados com secretárias e computadores com ligação à internet, que estudantes e investigadores podem alugar mensalmente; um centro para digitalização de obras antigas e um laboratório onde se aplicam as tecnologias mais avançadas na preservação dos livros; um piso inteiro dedicado às obras adquiridas durante o período colonial — e onde pude visitar uma exposição temporária de livros e fotografias sobre a luta pela independência de Goa — e, naturalmente, centenas de estantes intercaladas com aprazíveis áreas de leitura onde todo o espólio da biblioteca está ao alcance de qualquer apreciador de livros.

Sentada a uma mesa junto a uma grande janela por onde entrava a luz forte do sol, encontrei a jovem Leanne, Couto o seu apelido. Não pude deixar de lhe perguntar se falava português. Respondeu-me que não, mas contou-me que o pai ainda fala. Aceitou com um sorriso a minha sugestão de pedir ao pai que lhe ensinasse um pouco com o argumento de que saber português ainda é uma mais-valia nos dias que correm. Mas fiquei convencida que esse não é um empreendimento que a entusiasme por ai e além. Na altura em que conversámos a Leanne, quase a fazer 18 anos, estava mais empenhada em duas outras coisas: aproveitar ao máximo o seu primeiro ano na faculdade como estudante de Biotecnologia e retomar o hábito de ler. "Hoje as aulas acabaram mais cedo e então decidi passar pela biblioteca. Adoro ler, mas nos últimos dois anos quase não pude fazê-lo por causa dos estudos. Agora que consegui entrar para a faculdade estou a retomar essa rotina". Estava a ler as primeiras páginas de "The Time of My Life" ("O Meu Encontro com a Vida", na edição portuguesa), um livro da irlandesa Cecelia Ahern, que Leanne julgou ter um título apelativo. "Prefiro romances. Há pouco tempo li e gostei muito do livro 'Beautiful Disaster', ('Um Desastre Maravilhoso'), mas não posso dizer que seja o livro da minha vida. Ainda não sou capaz de fazer essa escolha", afirmou. 

Fotos da Biblioteca Central de Goa, aqui.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Goa — Imamali, em Pangim


Estamos a meio de junho. Sobrevoo pela segunda vez na vida este pedaço de terra, no sul da Índia. Há quatro anos vim em março. Lá de cima, Goa era então verde, barro e luz. Desta vez é verde e parda, porque a vegetação densa e o céu pesado se duplicam na superfície da água que cobre quase tudo. O avião desce sobre o aeroporto de Dabolim e eu aterro na monção. Qualquer guia dir-vos-á, logo nas primeiras páginas, não ser boa altura para visitar este antigo pedaço de Portugal. A força e constância das chuvas que caem de junho a setembro ditam a época baixa. Em toda a costa o mar revolta-se, o turismo faz uma pausa e eu descubro que Goa tem muito mais encanto neste clima de fim de festa. 

Desta vez não haverá excursões de homens vindos do interior do estado para espreitar na praia as mulheres brancas em biquini. Também não haverá nórdicos hippies, alemães freaks, britânicos ganzados, russos alcoolizados ou americanas solitárias na rota "comer, orar e amar". Desta vez, haverá apenas o povo de Pangim. As ruas dos bairros com nomes portugueses — Altinho, Fontainhas, S. Tomé — estarão tranquilas; as crianças, enfeitadas com laços ao pescoço e no cabelo, terão voltado às escolas; o comércio aberto será o que existe para as pessoas da terra; o crocitar dos corvos e o canto dos pavões sobrepor-se-á ao ruído dos tuk tuk; os mais velhos terão tempo para retorquir em português aos meus bons dias e para longas conversas em que se enaltecerá o passado e lamentará o presente.

Fico numa hospedaria na Rua de Natal, em pleno bairro das Fontainhas. Tudo neste lugar me confunde: a toponímia, as ruas estreitas, as casas antigas — grandes sobrados de rés-do-chão e primeiro andar debruados com longas varandas, pintados de azul, amarelo, verde ou vermelho —, os portões de ferro forjado, as telhas de cerâmica, os vasos de flores às janelas, os nichos com figuras de Santo António, as cruzes desenhadas a branco nos muros, as capelas e igrejas. Parece que voltei a uma das colinas de Lisboa ou que todo o nordeste litoral brasileiro, com o verde dos seus coqueiros, atravessou meio mundo para me reencontrar aqui. 

O edifício da Hospedaria Abrigo de Botelho tem cento e cinquenta anos. O seu proprietário, Roy Botelho, é um goês de meia idade que abandonou o negócio da construção civil para devolver à casa todo o seu esplendor e pô-la ao serviço do turismo. Por fora pintou-a de um azul forte e orlou as janelas de branco. Por dentro recuperou madeiras, manteve tijoleiras, conservou tetos. E recebe-me num português tímido, mas correto que aprendeu em casa, com os pais. Em português me cumprimenta também o Sr. Sélvio, à porta da Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Curioso acerca da história da minha viagem, convida-me para um chá à saída da missa para que lhe conte tudo. Depois disso encontrar-nos-emos todos os dias. Durante aquela semana, o Sr. Sélvio é o meu anjo da guarda. Também em português volto ao convívio do Sr. Bento Fernandes, que com devoção mantém abertas as portas do Núcleo Sportinguista de Goa, um lugar incontornável para tertúlias sobre o nosso futebol. E assim passo os dias, ao som da minha língua: na casa de instrumentos musicais, na papelaria, num restaurante junto à praia, no despachante de encomendas perto da estação de correios, no ourives do mercado de Mapuçá. 

Num domingo à tarde em que Pangim estava ainda mais deserta, passei pelo Azad Maidan em direção ao rio Mandovi. Queria caminhar de novo na marginal Dayanand Bandodkar antes de regressar à hospedaria. O Azad Maidan consiste numa praça quadrangular, no coração da cidade, onde os portugueses ergueram em tempos uma estátua de Afonso de Albuquerque. Hoje, essa mesma praça, importante centro de reunião e convívio para os habitantes da cidade, alberga um memorial em homenagem a Tristão de Bragança Cunha, um goês nacionalista e ativista anti-colonial que morreu em 1958, três anos antes da invasão do território pelas forças armadas da Índia e subsequente anexação à União Indiana. Foi nesse largo de ar descuidado que conheci Imamali, um jovem de Hyderabad, uma cidade no interior do país, a 540 quilómetros de Pangim. "Estou em Goa a fazer um estágio de dois meses e como espero aqui pelo autocarro aproveitei para ler. Leio bastante, sobretudo clássicos da literatura e thrillers, mas neste momento os meus livros preferidos são os da 'Guerra dos Tronos'. Também sou fã da série de televisão". Fotografei-o no início da leitura de "Uncle Tom's Cabin" ("A Cabana do Pai Tomás"), da autora norte-americana Harriet Beecher Stowe. "Leio-o porque é um clássico e porque é muito bom", disse-me Imamali, "e também porque quero saber como eram os tempos da escravatura". 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Fion, em Hong Kong


Depois de ter deixado o Brasil nos últimos dias de março, passei vários meses a desbravar territórios que me eram absolutamente desconhecidos — Sidney, Dili, Kuala Lumpur, Malaca, Banguecoque, Shiang Mai, Luang Prabang, Vientiane, Angkor, Phnom Pehn, Saigão, Hanoi, SaPa, HaLong. Lugares tão distantes e tão exóticos, que achei fora do meu alcance, mas que pude por fim visitar com assombro. Aí, onde tenho poucas ou nenhumas referências, onde me vejo na estaca (quase) zero, sinto essa torrente de energia que brota das primeiras vezes. Viciei-me no confronto com o novo, com o estranho e em tudo o que isso exige de mim. Viciei-me na descarga de adrenalina provocada pela viagem, no desafio. Estou sempre pronta a partir. 

Porém, não posso negar que em meados de junho, quando voltei a pisar Hong Kong, o conforto do já conhecido me soube muito bem. Durante uns dias não tive de me preocupar com a orientação, arranjar pontos de referência, perceber como funcionam os transportes ou visitar monumentos ditos obrigatório. Em Hong Kong pude apenas vogar sem destino e usufruir das coisas mais simples que esta cidade vibrante tem para oferecer: a vista sobre os arranha-céus a partir do calçadão de Kowloon — uma das paisagens urbanas mais incríveis que já vi, estando parte do seu encanto na forma como muda com a passagem das horas — os jardins, o comércio, a comida, o choque entre as tradições centenárias e o ultra-moderno, o frenesi constante dos mais de sete milhões de habitantes. 

Num desses dias permiti-me ceder às saudades de duas coisas: comer um bom sushi e passar algum tempo sentada à mesa de um café para atualizar o diário da viagem. Matar o primeiro desejo não foi difícil, uma vez que não faltam restaurantes japoneses em Hong Kong. Já encontrar um café de rua que não pertencesse a uma qualquer cadeia ocidental foi tarefa impossível. Contrariada, dirigi-me ao Starbucks com vista para a baía e sentei-me numa mesa de dois lugares junto à grande janela. Foi então que constatei com surpresa, enquanto mexia o café expresso e trincava o brownie, que afinal aquele lugar comum até me sabia bem. Por uns momentos, o ambiente padronizado permitiu-me aquietar os sentidos e concentrar-me apenas na tarefa de escrever. Refleti pela milésima vez sobre as vantagens e desvantagens do mundo globalizado antes de abrir o caderno e pegar na caneta. Não me desviei da minha tarefa até a Fion se sentar na mesa em frente, de livro em punho. 

Nascida e criada em Hong Kong, Fion é professora primária e estava a preparar-se para começar a ensinar chinês. "Uns amigos que também são professores recomendaram que lesse este livro para me inteirar do que andam os miúdos a ler", contou-me. "Fui buscá-lo à biblioteca da escola. É de um autor também natural de Hong Kong e pertence a uma série que tem como herói um agente especial. Neste livro, o protagonista parte numa missão anti-terrorista no médio oriente." Disse-me a Fion que, na sua qualidade de professora, tenta ler o mais possível. Gosta particularmente de literatura infantil, que diz ser mais direta, fácil de entender e próxima do dia a dia. Mas não põe de parte os livros para os mais crescidos e aponta sem hesitações um autor de que gosta muito (e cujo nome entendi a muito custo): Paulo Coelho. Passei os minutos seguintes a ensiná-la a pronunciar corretamente o nome do autor, elucidando-a sobre a sua nacionalidade e a língua em que se expressa: o belíssimo português.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Vietname — Dunj & John Green


Era domingo à tarde e os domingos à tarde em Hanoi parecem-se com os domingos à tarde em qualquer outra parte do mundo. A cidade nunca pára, é um facto, mas havia mais gente disposta a preguiçar junto às margens do lago. Quis passar lá as minhas últimas horas no Vietname, já de nó apertado na garganta. Sabia que andaria por muito tempo com este país sob a pele. Mas desconhecia o poder duradouro do seu fascínio. 

Apostada em absorver ao máximo cada derradeiro minuto, fiz um esforço consciente para apurar ainda mais os meus sentidos e mergulhar no meio deles, os vietnamitas, enquanto uma forma de mantra se repetia no meu pensamento: estou aqui e agora. E observei para viver o momento e recordar para sempre. O sol já baixo, os casais com os filhos pelas mãos, as mulheres aos pares que se exercitavam em passo apressado, os homens que faziam o seu jogging de auriculares nos ouvidos, os grupos de amigas entretidas a tirar selfies, o quiosque que vendia os melhores gelados da cidade e cuja fila de clientes nunca diminuía, os bancos ocupados pelos mais velhos, os outros turistas, as árvores inclinadas cujos ramos mergulhavam no espelho de água, a dúzia de idosas que ao som de um rádio estridente realizavam em fila uma coreografia que implicava, em certos passes, que massajassem as costas umas das outras. E Dunj que, sentado na borda de um canteiro, começava a ler "A Culpa é das Estrelas", de John Green, um livro acabado de comprar. 

"Adoro ler e leio muito. Um amigo recomendou-me este livro, disse que era muito bom. Sei que estreou o filme lá fora, mas não vai passar cá no Vietname, por isso leio o livro. E até prefiro porque sei que de uma forma geral os livros são sempre melhores. O meu autor preferido é vietnamita e escreve romances. Chama-se  Anh Khang. Mas também gosto muito do George R. R. Martin. Acho que o preço dos livros no Vietname é justo, mas os vietnamitas leem pouco. Os mais velhos leem jornais e os mais novos passam o tempo todo online."

Afastei-me, depois, à procura de um lugar para também eu me sentar um pouco. Nesse momento, fui abordada por um grupo de rapazes e raparigas que vieram apresentar-se e que me perguntaram se me importaria de conversar um pouco com eles para que praticassem inglês. Pareceu-me que não havia melhor forma de me despedir de Hanoi. Eram todos estudantes universitários, das mais variadas áreas: uma aspirante a médica, um futuro jornalista, um quase engenheiro. Contaram-me das suas origens, dos lugares de onde vinham, dos sacrifícios que as famílias faziam para que estudassem na capital, do significado dos seus nomes próprios: sorte, prosperidade, riqueza. Falámos de sonhos e do futuro. Rimos. Tirámos fotografias. Abraçámo-nos. Anoiteceu. E naquele domingo à noite, tão semelhante a qualquer outro domingo à noite em qualquer outra parte do mundo, senti-me "simplesmente membro da família humana" (José Tolentino Mendonça).

domingo, 4 de janeiro de 2015

Vietname — Lost in translation



Ao fim de três anos a escrever para o Acordo Fotográfico impuseram-se alguns hábitos na hora de produzir um post. Normalmente, as primeiras frases nascem quando não estou na frente do computador, mas sim ocupada com tarefas corriqueiras como lavar a loiça, tomar banho ou regar as plantas. Esse é o ponto de partida. Mas depois, claro, sento-me à mesa da sala, ligo o portátil, pego no bloco e revejo as notas que tirei quando conversei com o leitor, numa tentativa de compor o resto da história que já começou a ser contada na minha cabeça. Foi tudo isso que fiz hoje de novo, pela 348ª vez. 

"08.06.2014 Hanoi / Nome do leitor: Bui Thanh Liêm (escrito pelo seu próprio punho) / Livro sobre Geografia da China e do Vietname" — a isto se reduzem as notas para o post de hoje, porque a barreira linguística não deu para mais conversa com Bui. Mas esta coisa pouca não me pareceu entrave. Podia explicar, como tenho vindo a fazer nos últimos meses, onde estava e o que fazia quando o conheci. Podia descrever os últimos momentos vividos em Hanoi, antes de voar para Macau, contar a minha intenção de passá-los na margem do lago e detalhar o percurso que fiz pela enésima vez pela rua Hàng Gai, no Old Quarter, a grande artéria que intermediava entre o meu hotel e o coração líquido da capital. Podia recordar essas horas longas, leves e livres que esbanjei a entrar e a sair de todas as lojinhas onde experimentei vestidos de seda que não comprei, mandei confeccionar por medida roupa em algodão e linho, usufruí dos serviços de um sapateiro ambulante e fotografei sofregamente pormenores da vida alheia, que aos meus olhos era repleta de exotismo. E então, fui procurar por entre as 23 mil fotografias da viagem as imagens do leitor do dia 08.06.2014. 

Sim, lembro-me bem do momento em que o conheci. Estranhei aquele estaminé de venda de acessórios para telemóveis e tablets, montado à entrada daquilo parecia um longo corredor escuro de acesso a habitações. Não o tinha visto ali antes, mas a verdade é que os vietnamitas são pródigos em negócios pop up... Demoro-me a apreciar as fotos e delicio-me com os detalhes que transpiram Vietname: os banquinhos azuis de plástico, que existem aos milhares por todo o lado; os chinelos bege também de plástico, que parecem ser o calçado oficial dos vietnamitas; a unha comprida do polegar que ajuda a virar a página do livro, sinal de quem não trabalha a terra. Mas há algo que não bate certo: o que faz uma caveira sinistra de caninos gigantescos na capa de um livro sobre a geografia da China e do Vietname? E estaria Bui assim tão interessado no tema para já estar a ler o terceiro volume? Só mesmo esta ferramenta diabólica que é a internet me poderia ajudar a desvendar o enigma em poucos minutos. 

Não foi preciso mais do que uma mensagem enviada pelo Facebook ao português amigo que vive e trabalha em Saigão. A resposta chegou, veloz: o livro, com o título "Loi Nguyen Lo Ban" (algo como "A Maldição de Lo Ban"), pertence a uma série de inspiração fantástica que relata a história de um homem que cria armas extraordinárias. Este génio despejou todo o seu conhecimento num livro misterioso. Aquele que um dia conseguir descodificar o seu conteúdo verá a sua vida devastada por uma terrível praga. 

Esqueçam, portanto, a geografia. Obviamente, algures durante a curta conversa com Bui, "perdemo-nos na tradução".