domingo, 14 de dezembro de 2014

Vietname — Robert em Hanoi


Esta coisa das rivalidades entre cidades de um mesmo país é um fenómeno que me ultrapassa e que a maior parte das vezes me irrita, mas no decorrer da viagem as opiniões tendenciosas que fui colhendo sobre os locais que me preparava para visitar não só trouxeram algum colorido às conversas com autóctones e expatriados, como estiveram na origem de boas surpresas. As mesmas considerações que ouvi de cariocas ou paulistanos sobre Brasília — que não há muito para ver ou fazer na cidade... — ouvi meses mais tarde em Saigão acerca de Hanoi. Por isso, quando parti do sul para a capital do Vietname ia quase convencida que a cidade mais estimulante do país estava a ficar para trás. Puro engano! 

Notoriamente mais pequena e com menos população que Saigão, Hanoi é uma capital tranquila e elegante. Obviamente, para nós, portugueses, tudo isto é relativo, sobretudo se tivermos em conta que esta "pequena" e "tranquila" capital conta com pelo menos seis milhões de habitantes. Mas, para quem chega de Saigão, acreditem que a diferença é substancial. O coração da cidade é um lago diminuto chamado Hoan Kiem, que alberga, numa extremidade, um templo ao qual se acede por uma ponte vermelha. O seu reflexo sobre o espelho de água deve ser uma das imagens mais captadas pelas câmaras dos visitantes. Este lago, que podemos contornar numa caminhada que não dura mais de meia hora, é o grande ponto de encontro dos habitantes de Hanoi. É à sua volta que fazem jogging, é nos jardins que o envolvem que praticam tai chi, ginástica ou dança, é nos seus bancos que os casais namoram, é nas suas margens que os grupos de amigos se sentam para conversar enquanto comem gelados e é nas suas imediações que existem algumas das melhores lojas da cidade, assim como hotéis e restaurantes. A partir deste ponto cheio de vida, estende-se para norte o Old Quarter e para sul o French Quarter, os dois bairros que juntamente com o lago definem o núcleo de Hanoi. E foi aqui, flanando pelas ruas destes bairros e sentada na margem deste lago, que a minha paixão súbita pelo Vietname se consolidou. 

Vejo e revejo as fotos desses dias à procura de uma razão objetiva que justifique o impacto que esta cidade teve em mim. Mas como é que se explica objetivamente uma espécie de feitiço? À partida, Hanoi tinha tudo para me enlouquecer: a propaganda do Partido Comunista debitada a partir das sete da manhã através dos altifalantes espalhados pela cidade; a falta de limpeza e de higiene; o trânsito caótico; o perigo que é atravessar qualquer estrada, mesmo onde há semáforos; o idioma que não entendo; os milhares de motos que ocupam os passeios forçando-me a andar na estrada; o ruído constante; o sol que não se vê e o mar a centenas de quilómetros. 

Mas depois há o insólito. Há o karaoke de rua, à noite, com uma aparelhagem rudimentar e colunas de som fanhoso. Um jovem parece assassinar uma qualquer canção vietnamita, enquanto centenas de pessoas assistem, sentadas em banquinhos de plástico azul, bebendo cerveja e comendo sementes, como se estivessem a ouvir o melhor cantor lírico. Há os dois negócios mesmo em frente ao hotel onde me alojo e cuja atividade constante observo ao pequeno-almoço: à esquerda um cubículo onde um jovem passa o dia a lavar motociclos; à direita um talho, onde uma mulher, sentada numa banqueta de madeira, decapita e depena frangos metodicamente. Há o homem na esquina que, naquilo que parece uma simples abertura numa parede, montou uma oficina para reparação de eletrodomésticos. E as peças que ocupam aquela abertura são tantas e estão de tal forma entaladas do chão ao teto que temo pela segurança do homem caso tudo aquilo lhe caia em cima. Há a farmácia onde entro para comprar lenços de papel e onde, perto do balcão, se coze arroz numa panela. Há a vendedora de postais, a quem a Nilza faz a primeira compra do dia e que à noite, ao rever-nos, se aproxima numa grande agitação, gritando "Good luck! Good luck". Pede uma foto com a cliente que lhe deu sorte. No dia seguinte, no mesmo lugar, espera por nós para nos apresentar os filhos e tira-nos mais fotos, desta vez com o seu telemóvel. Há o sapateiro, apenas uma criança, que aparece do nada, aponta para os meus pés enquanto solta uma algaraviada incompreensível. Sem que pudesse antecipá-lo, arranca-me a sapatilha do pé direito e vai esconder-se para lá de uma esquina, senta-se num degrau e empreende o arranjo da sola descolada. Há o condutor de riquexó, pequeno e franzino, que depois de nos passear quarenta e cinco minutos, pedalando pelas ruas requintadas do bairro francês, leva a cabo, de sua livre iniciativa, toda uma sessão fotográfica com uma das nossas câmaras, sugerindo-nos as mais variadas poses em cima da sua bicicleta. E há as ruas ladeadas por grandes árvores; as vendedoras de flores de lótus que se deslocam de bicicleta; as vendedoras de ananases que perfumam as ruas com o cheiro da fruta madura; as lojas exíguas onde em menos de vinte e quatro horas se confecciona qualquer peça de roupa à nossa medida no melhor linho, no mais puro algodão ou na seda mais delicada; o restaurante gerido por um grupo de mulheres, irmãs talvez, que se entendem aos berros, naquilo que aparenta ser uma eterna discussão e que servem com modos rudes as melhores refeições que faço na cidade. E tantos, tantos outros pormenores inebriantes

Todos os dias, como se tivesse necessidade das suas águas paradas para serenar, dei por mim junto à margem do Hoan Kiem. Ao meu redor, o burburinho de Hanoi, a cidade com mil anos, não cessava. Mas o arvoredo à volta do lago transmitia uma sensação de paz. Foi sem surpresa que aí encontrei alguns leitores, porque os bancos estrategicamente colocados pareciam ter sido concebidos apenas para esse efeito: ler. Talvez Robert, um escocês de férias no Vietname, tenha sentido também a necessidade de se evadir. Então, por uns momento, esqueceu o rumor de milhares de motociclos, as temperaturas elevadas e o ar saturado de humidade para ir até Westeros, aquela terra da Europa medieval, coberta de gelo e dilacerada por um conflito sangrento que George R. R. Martin descreve n' "A Guerra dos Tronos". 

domingo, 30 de novembro de 2014

Vietname — Huy em Sa Pa



Deixei Ha Long Bay num domingo à tarde e parti em direção a Hanoi onde, umas horas depois, apanhei um comboio noturno para Lao Cai, uma pequena cidade no extremo norte do Vietname, junto à fronteira com a China. O objetivo era chegar a Sa Pa, um vilarejo pitoresco aninhado no sopé do Fan Si Pan, o ponto mais alto do país. 

Fiz a viagem num compartimento pequeníssimo onde havia quatro beliches. Eu e a Nilza ocupámos os da direita, ela em baixo e eu em cima; os outros foram ocupados por dois vietnamitas, aparentemente pai e filho, ambos homens de poucas palavras. Depois de várias semanas a queixar-me dos ares condicionados débeis dos transportes que frequentei, nessa noite dei graças por ter um polar para me agasalhar. Lá fora as temperaturas mantinham-se elevadas e a humidade não dava tréguas, mas a cabina onde me preparava para passar a noite parecia o pólo norte e os nossos companheiros de viagem, refastelados nas suas camas, estavam deliciados com o choque térmico. Porque o polar não chegou para me aquecer, enrolei-me o mais que pude na manta grossíssima colocada sob a almofada e deixei-me levar pelo embalo do velho comboio que, muito lentamente, deixava Hanoi. Pela janela, apesar da noite cerrada, consegui observar cenas fugazes da vida na capital do Vietname: as casas pobres de um bairro parcamente iluminado, as vendedoras de um mercado montado junto à linha, os casais que escolhem a ponte ferroviária para namorar na semi obscuridade, as famílias sentadas sobre mantas num descampado onde se entretêm a ver passar as pesadas carruagens de madeira e ferro. 

No interior do comboio instalou-se por fim o silêncio. Os passageiros estavam todos acomodados, o vai-vém nos corredores tinha cessado, a porta do nosso compartimento estava fechada com o trinco para evitar que se abrisse a cada curva e eu tentava adormecer fazendo de conta que não me deixava algo apreensiva estar trancada numa divisão de poucos metros quadrados com dois estranhos. O mais velho, em baixo, roncava; o mais novo, deitado ao meu nível e à distância de um braço esticado, vinha entretido com o telemóvel, que me passou para as mãos sem pré-aviso para que visse este vídeo. Devolvi-lhe o aparelho emocionada. Ele sorriu-me, tímido, e eu adormeci confiante: dali não vinha qualquer perigo, nem para nós, nem para a nossa bagagem. Ainda assim, passei a noite agarrada à pequena mochila que continha os meus documentos, algum dinheiro, o computador e as câmaras fotográficas, enfim, os meus bens mais valiosos. Passadas oito horas, acordámos todos com os berros de um funcionário dos caminhos de ferro que anunciava a chegada a Lao Cai ao mesmo tempo que batia nas portas das cabinas. Estremunhada, coloquei os cerca de vinte e cinco quilos de bagagem às costas, desci para a plataforma e segui as centenas de passageiros para fora da estação. Daí a uns minutos, apareceu a carrinha que nos levaria, montanha acima, até ao nosso destino final. 

Situada a cerca de quatrocentos quilómetros a noroeste de Hanoi, na zona mais montanhosa do Vietname, Sa Pa foi frequentada pelo colonizadores franceses entre os finais do século XIX e o fim da Segunda Guerra Mundial, tendo funcionado não só como base militar, mas também, graças ao seu clima ameno, como sanatório e estância de férias para os mais abastados. Entre as décadas de 50 e 60 do século XX, no seguimento de vários conflitos armados, Sa Pa ficou arrasada e votada ao abandono. O processo foi revertido pelas autoridades vietnamitas nos início dos anos 80, quando investiram no repovoamento da zona, até que nos anos 90 se apostou na abertura do lugar ao turismo. Desde então, nas últimas duas décadas, milhares de visitantes de todo o mundo chegam a Sa Pa ano após ano para mergulhar por uns dias na cultura das minorias étnicas que habitam a região. Foi o que eu fiz, também. 

Dos quatro dias que lá estive, dois foram passados a caminhar por entre os campos de arroz. Depois de os ter visto à distância durante tantas semanas pude, por fim, embrenhar-me neles, sentir-lhes o cheiro e, literalmente, a textura quando por acidente me desiquilibrei e enfiei um pé até ao tornozelo num arrozal alagado e lamacento. Nessa caminhada tivemos por guia a Mou, da tribo Hmong. Era tão pequena e franzina que mais parecia uma adolescente, mas Mou tinha vinte e oito anos, era casada e mãe de duas crianças. Assim que nos metemos a caminho, percebi que o seu ar de menina era muito enganador: Mou transbordava energia física e possuía um sentido de humor desconcertante. Não foram poucas as vezes em que gozou comigo, simulando sentir-se ofendida por algo que eu tivesse feito, para depois rir-se da minha surpresa, soltando gargalhadas infantis e fechando os olhos que ganhavam a forma de simples rasgos no rosto. Era linda a Mou, nas suas vestes tradicionais pintadas de índigo, a camisa verde alface, a saia de barras bordadas, as feições perfeitas e delicadas, a voz fina e meiga, as mãos miúdas, o cabelo negro comprido que quando solto lhe roçava a curva das nádegas, os pés pequeníssimos e a pernas torneadas pelos quilómetros que a profissão a obriga a percorrer. 

Para além dela, um grupo de meia dúzia de mulheres com os filhos às costas caminhou conosco com o único intuito de nos vender alguma coisa mal parássemos para comer ou antes de chegarmos à casa da família onde passaríamos a noite. Ágeis como gazelas, percorreram sem dificuldade os caminhos mais íngremes e escorregadios e foi graças à sua ajuda que não me estatelei um par de vezes. Estas mulheres, que tingem de azul escuro os panos que tecem com cânhamo e confeccionam com eles as suas próprias roupas, trazem quase todas as mãos pintadas de índigo até aos pulsos e eu cheguei a agarrar-me com tanta força e por tanto tempo às mãos de uma delas, que também as minhas pele se tingiu. Na sua companhia, a caminhada de muitas horas ganhou outro encanto. Quiseram saber das nossas vidas, fizeram inúmeras perguntas, pasmavam com as nossa respostas. Jurei ver no rosto de algumas pena por me saberem só, sem marido nem filhos. Mas outras houve que vieram depois dizer-me, entre risinhos, que eu é que tinha razão, que estava bem assim, porque os homens e os filhos só davam trabalho e faziam envelhecer. 

A família Hmong que nos recebeu nesse fim de dia em sua casa mal falava inglês. Os nossos diálogos reduziram-se ao mais básico: pedir água, perguntar pela casa de banho, comentar a beleza da paisagem, elogiar a comida que nos serviram. A casa, lá bem no alto, tinha na frente um alpendre que fazia as vezes de miradouro. De ali avistava-se grande parte do vale feito de arrozais em socalcos por onde tínhamos caminhado todo o dia. A senhora trazia ao colo um bebé recém-nascido que não largou um minuto. Olhava-o embevecida, como se adorasse um Deus menino. Dir-se-ia que era o seu primeiro filho, mas era o quinto. Quem tratou de nós — eu, a Nilza, um jovem britânico e a sua namorada filipina — foi o primogénito, um rapaz de catorze anos que confeccionou num forno a lenha a melhor refeição vegetariana que comi na minha vida. 

Ali, nas montanhas do Vietname, como em qualquer outra zona rural do mundo, os dias vivem-se ao ritmo da luz solar, por isso, pouco depois de ter escurecido retirámo-nos para o sótão onde dormimos em colchões espalhados pelo chão. Há anos que não me deitava tão cedo, mas o corpo agradeceu. E quando todos os sons humanos  cessaram — o choro do bebé, as gargalhadas das famílias vizinhas, as loiças a chocalhar na cozinha — os sons da natureza impuseram-se de tal forma que pareciam amplificados por colunas de som gigantescas. Não sei que criaturas são capazes de cantos tão ensurdecedores. Só sei que os achei fascinantes e que de todas as vezes que acordei por causa dessa sinfonia exótica, dei por mim a sorrir no escuro. Era maravilhoso! 

Na manhã seguinte, depois de um pequeno almoço de chá com leite e panquecas com banana e mel, calcei a muito custo as botas, os pés forrados com pensos rápidos. Começámos a caminhar antes das sete da manhã e o percurso, de regresso à vila de Sa Pa, terminaria só após o almoço. Esses quilómetros acabaram por me custar um par de unhas, que caíram, e ainda hoje me recomponho das mazelas que me ficaram nas outras... Feitas as despedidas da Mou e do casal que nos acompanhou, regressámos ao hotel onde as mochilas grandes tinham ficado, tomámos um banho retemperador e, de havaiana nos pés doridos, saímos para explorar a vila. Na verdade não há muito para ver: um par de ruas principais onde se alinham hotéis, restaurantes, cafés e lojas, um largo com uma igreja pequena que vi sempre fechada e um pequeno mercado que se visita em poucos minutos.

Ao nos aventurarmos por uma zona mais residencial, de onde se tinha uma vista espetacular sobre o vale e as montanhas, passei pela entrada de uma casa onde um grupo de crianças brincava com triciclos e outros dois miúdos, mais velhos, se entretinham com um livro de banda desenhada. Fiz-me entender o suficiente para que percebessem que queria fotografá-los, mas a excitação que o meu pedido causou quase me fez desistir. É que um deles, o que se vê na foto a fazer uma careta, tomado pela euforia passou com o triciclo por cima de um dos meus pés, já de si muito mal tratados. A dor foi tanta que me vieram as lágrimas ao olhos. Fiz a foto a muito custo e depois ainda tive de erguer a câmara no ar o mais que pude para evitar que aquele bando de pirralhos irrequietos ma tirasse das mãos na ânsia de ver a imagem. Levantei a voz, fiz cara de má, mostrei-lhes a fotografia na fração de segundos em que a histeria amainou e, agradecendo à pressa, voltei costas e fui-me embora a mancar. 

Mais fotos aqui.

sábado, 22 de novembro de 2014

Nuno, o leitor caminhante



"Estou a ler "The Magicians Land", de Lev Grossman, que é crítico de livros para a Time Magazine. Este é o terceiro e último volume da série "The Magicians", uma trilogia de fantasia. Estou quase a acabá-lo. Por acaso, ultimamente tenho vindo a recuperar esse hábito de ler fantasia, muito na onda daquilo a que as pessoas mais entendidas no género — e que fazem essas categorizações — chamam de fantasia épica, como Tolkien ou autores mais contemporâneos, como o que escreveu "A Game of Thrones" ("A Guerra dos Tronos"). Gosto muito de ficção científica e também gosto muito de não ficção, geralmente na vertente do jornalismo de investigação criminal, que é uma literatura que não se faz tanto em Portugal. É mais anglo-saxónica, como é o caso de "In Cold Blood" ("A Sangue Frio"). Não sou homem de um livro só e é-me muito difícil conseguir pôr alguma coisa nesses termos tão definitivos: é o livro da minha vida, é o filme da minha vida, é o álbum da minha vida... Compreendo que haja pessoas que o consigam fazer, mas eu não consigo. Nós somos um bocado um conjunto das coisas que lemos e se calhar há alturas da nossa vida em que um livro nos marca mais e há alturas em que estamos mais susceptíveis a outro tipo de literatura. Por exemplo, o livro mais importante da minha vida no último ano chama-se “Snow Leopard”, de Peter Matthiessen (vencedor por três vezes do National Book Award), um naturalista inglês que faleceu este ano. O livro é sobre uma expedição que ele fez aos Himalaias em busca do leopardo das neves. É uma obra como hoje em dia já não é muito comum fazer-se, um relato muito interessante de uma viagem que não foi só física, foi também uma viagem muito mental. O autor estava num período difícil da sua vida — a mulher tinha acabado de falecer de cancro — e então estava numa fase mais espiritual. Curiosamente, Matthiessen era budista e a expedição em que participou pretendia encontrar o leopardo das neves, que ainda hoje é um animal em vias de extinção, muito difícil de encontrar e que, pelos vistos, também tem um significado particular na mitologia budista. Portanto, houve ali uma série de círculos que se ligavam de forma ténue mas muito definitiva, digamos. E esse conjunto todo, também para mim, embora noutro contexto, fez muito sentido. Recomendo! Sobretudo para perceber-se que muitas vezes as viagens que temos de fazer interiormente têm um reflexo exterior e que às vezes temos mesmo de percorrer fisicamente um caminho para chegar onde queremos mentalmente. E os livros ajudam nesse processo. Acho que a importância da leitura não deve ser subestimada. Isto se calhar também é um bocadinho síndrome de velho do Restelo, apesar de eu não ser muito velho, mas acho que hoje em dia cada vez mais se perdem hábitos de leitura, perde-se a importância que se deve dar ao livro e à leitura. Acho que as pessoas devem ler, devem ler muito e devem ler tudo o que lhes apetece porque um dia haverão de encontrar algo que lhes diga respeito e que seja importante para elas. E para isso têm de ler. A leitura também é uma experiência de vida. Nós, quando lemos, experienciamos algo que outra pessoa viveu. Quando lemos um livro de fantasia épica ou um relato da Guerra do Peloponeso, vamos a lugares onde nunca poderíamos ir, como a Grécia antiga ou a Terra Média, e isso permite-nos ver as coisas de um ponto de vista completamente diferente, o que  nos enriquece. Quanto mais lemos mais ricos somos e melhor estamos preparados para lidar com o mundo, com diferentes  experiências, com diferentes pessoas e acho que no fundo também nos tornamos um bocadinho melhores enquanto seres humanos". 

Assim falou Nuno, que lia enquanto descia a Rua da Restauração, no Porto.

sábado, 15 de novembro de 2014

Vietname — Andjana em Halong Bay


Era uma vez, há largas centenas de anos, um jovem país chamado Vietname que defendia as suas fronteiras com ferocidade. Um dia, no mar a norte, a batalha parecia perdida face à investida dos chineses. Foi quando o Imperador de Jade, o Deus primordial, enviou em auxílio dos vietnamitas a Mãe Dragão e as suas crias, que atacaram o inimigo cuspindo fogo e esmeraldas gigantes. Muitos barcos chineses foram afundados e os restantes não conseguiram transpor o muro de pedras preciosas que se ergueu sobre o mar. Abandonaram a luta e a paz regressou ao Vietname. Muito tempo depois, as esmeraldas gigantes transformaram-se em ilhas e ilhéus que se espraiaram pela baía, outrora campo de batalha. Assim reza a lenda de Halong, que em vietnamita antigo significa literalmente "dragão descendente" ou "dragão que desceu". Já a geologia conta-nos uma história completamente diferente, que começou há quinhentos milhões de anos. Este foi o tempo necessário à formação da baía tal e qual a conhecemos hoje, com as suas águas verdes, três mil ilhas e ilhéus de calcário, grutas, crateras, lagos e todas as criaturas que aí habitam. O valor geológico, histórico e cultural deste pedaço do Vietname é inestimável e de importância excecional para a Humanidade, razão pela qual o local passou a inscrever-se, em 1994, na lista do Património Mundial da UNESCO. Em 2007, a baía foi considerada, também, uma das Sete Novas Maravilhas Naturais do Mundo. A beleza da paisagem da Baía de Halong é esmagadora. À medida que o barco se afasta do cais e penetra pelo labirinto de ilhas esguias, inabitadas e cobertas de vegetação, parece que entramos num mundo irreal, fantasioso. Há muitas dezenas de barcos a fazer o mesmo trajeto e no entanto o silêncio predomina. Quase parece que algo na natureza absorve os sons das máquinas ou que estas se movem por artes mágicas. Durante o dia, o sol confere à pedra calcária um tom dourado e os reflexos das ilhas multiplicam-se sobre a superfície plácida do mar. À noite, se o luar ajudar, adivinham-se apenas os contornos dessas porções de terra. O verdadeiro espetáculo vem do céu e do número infinito de estrelas que brilham sobre as nossas cabeças. Encostada à amurada, no deck superior, só baixei o olhar para ver passar rente ao barco ancorado, quase à superficie, as gigantescas medusas de um branco luminoso, que arrastavam, lânguidas, as longas cabeleiras de tentáculos. Quem tem o privilégio de poder passar uma noite a bordo de um barco fundeado algures entre os ilhéus, pode imaginar o que seria estar na Baía de Halong antes da chegada das hordas de visitantes. A área é muito extensa e comporta os inúmeros barcos de passeio, mas há paragens para visitas obrigatórias a alguns ilhéus onde as extensas filas são inevitáveis e os atropelos para as fotografias da praxe também. Pior do que isso é constatar-se claramente que a água da baía está a ficar poluída: aqui e além surgem manchas de óleo, flutuam objetos de plástico, forma-se uma espuma suspeita sobre a superfície. A um dado momento, o guia que nos acompanha a bordo explica que as comunidades piscatórias, que sempre viveram em aldeias flutuantes, estão a ser obrigadas pelo governo a mudar-se para terra, onde lhes cederam habitação gratuita. Argumenta-se que os seus hábitos de vida poluem a baía e que isso é mau para o turismo. Alguém do grupo de ocidentais protesta, dizendo que os pescadores estavam lá primeiro. O guia responde que em terra as crianças podem ir à escola. E a conversa termina aí. Não posso, é claro, prever com grandes certezas o futuro da Baía de Halong, mas tudo aponta para transformações significativas e num sentido que me entristece. Ao aproximarmo-nos da zona portuária, a cidade está transformada num estaleiro a perder de vista. Os terrenos junto à costa estão loteados e há gruas por todo o lado. No edifício do porto, onde se compram os bilhetes para os passeios de barco, confirmo as minhas suspeitas: uma maqueta de grandes proporções apresenta-nos a Baia de Halong do futuro. E o futuro é uma combinação de moradias de luxo, hóteis, arranha-céus e avenidas largas. Em suma, uma paisagem urbanística completamente descaracterizada que me recordou uns bairros de Miami, muito explorados pelas imagens panorâmicas das séries de TV. E eu, que nunca estive em Miami... No topo de um dos ilhéus pensei nisto, no que verão aqueles que daqui a muitos anos visitarem a Baía de Halong. A maior parte dos meus companheiros de barco preferiram ficar na praia minúscula e sobrelotada. Eu, apesar do muito calor e da humidade elevada que parecia não deixar ar para respirar, preferi encarar centenas de degraus e chegar, com grande esforço, ao ponto mais alto daquela torre de calcário. À minha frente, até à linha do horizonte, milhares de ilhas, um assombro que tornou ainda mais complicado recuperar o fôlego. Após alguns minutos de contemplação em cima de uma pequena rocha que tive de disputar com outros turistas, empreendo a descida, mais rápida, e ao chegar lá abaixo, ao areal diminuto e sujo, encontro uma leitora. Andjana é alemã e estava de férias no Vietname. Três semanas, tantas quantas as que eu passei naquele país surpreendente. Nem sei como conseguiu concentrar-se nas páginas do livro, tal era o tumulto à nossa volta. Vários grupos de chineses comportavam-se como se nunca tivessem visto o mar ou mergulhado nele. Gritavam de excitação e esbracejavam com a água pela cintura como se estivessem a afogar-se. Mas Andjana lia. Era o segundo volume de "Herzenstimmen" (qualquer coisa como "A Voz do Coração"), de Jan-Philipp Sendker, uma história passada na Birmânia onde a jovem protagonista procura durante quatro anos o pai desaparecido. "Leio muito e gosto de histórias passadas em cenários radicalmente diferentes. Este é um bom romance, mas é muito triste", disse-me já com o livro dentro de um saco e enquanto sacudia e dobrava a toalha de praia. O seu barco estava de partida e os pais esperavam por ela.

Fotos da Baía de Halong aqui.

domingo, 9 de novembro de 2014

Carolina & Agatha Chistie


Julgo que hoje em dia já quase não acontece, mas antigamente era certinho: as páginas dos livros amareleciam com o tempo. É fácil deduzir que tal se devesse a um qualquer processo químico, a algum tipo de oxidação também responsável pelo cheiro ácido que os livros velhos exalam. Mas o que é que acontecia exatamente? Já ouviram falar em lignina? Pois... Eu também não. Até hoje. Esta tal de lignina ou lenhina é, a par da celulose, a principal componente da madeira — cabe-lhe conferir rigidez aos troncos das árvores. E é, também, uma substância que escurece em contacto com a luz e o oxigénio. Atualmente, no processo de produção da pasta de papel, esta matéria é eliminada quase a 100% graças a processos químicos. Mas aposto que o papel escolhido para a edição de "Death Comes as The End", em 1987, ainda era daqueles que tinha a branca celulose contaminada pela sensível lignina. O livro de miolo amarelo torrado foi requisitado pela Carolina na biblioteca do British Council, onde estuda inglês há quase 12 anos. Está nas vésperas de mais um exame e decidiu fazer como sempre tem feito nesta ocasião: ler um livro em inglês que a ajude a aprimorar o domínio da língua. "Nunca tinha lido nada da Agatha Christie e estou contente por estar a fazê-lo na língua original. Sinto-me muito mais próxima da autora por não haver a interferência de uma tradução. Para além de ler à noite e nas férias, passei a ler no metro desde que entrei para a faculdade. Não tenho um estilo literário preferido, leio de tudo um pouco, mas este é o meu primeiro policial. A não ser que "O Código da Vinci" conte. Mas acho que não... Não gostei d' "O Código da Vinci". Parecia que estava a ver um filme. Este livro da Agatha Christie é muito mais poético", disse-me a Carolina. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Vietname — Ty Ty em Saigon Square


Invejei a esperança no futuro dos timorenses. Fui seduzida pela sofisticação de Sydney. Vivi uma experiência mística nos Laos. Convenci-me que o paraíso existe e fica em Zanzibar. E ando obcecada há meses pela ilha agridoce de S. Tomé. Mas quando me perguntam em que país, dos catorze que visitei, gostaria de viver, a minha resposta é imediata: no Vietname. E que isto me tenha acontecido, constitui talvez a maior surpresa da viagem. Esqueçam todas as imagens da guerra. Esqueçam o país esventrado pelas bombas e queimado pelo napalm. O Vietname, sem renegar os seus fantasmas, soube renascer magistralmente das cinzas e é hoje uma nação vibrante. É claro que há as paisagens deslumbrantes, as praias exóticas, as montanhas envoltas em brumas eternas, as extensões incomensuráveis de arrozais. E há, também, as cidades frenéticas, de comércio vigoroso, tomadas por milhões de motociclos que rapidamente aprendemos a "tourear" para atravessar a estrada. Nas cidades do Vietname há um certo caos instalado, é verdade, mas é um caos encantador porque é energia, é dinâmica, é vida a acontecer e é otimismo. Mas há, acima de tudo, este povo resiliente, dono de um sentido de humor desconcertante, ávido de aprendizagens, que parece ter nascido com o único propósito de trabalhar e que dá provas de uma criatividade que nos surpreende a cada momento. Hão de ter muitos defeitos, eu sei, todos aqueles que eu não tive tempo de descobrir. Mas foram eles, os exuberantes vietnamitas, que me conquistaram. Eles e a sua fabulosa gastronomia, uma das mais ricas que alguma vez experimentei. No Vietname, levar à boca uma garfada equivale a um fogo de artifício no palato! Cheguei a Saigão (hoje chamada de Ho Chi Minh, mas Saigão é um nome tão mais bonito...) num domingo à tarde, vinda do Camboja. Percorri uma longa estrada durante quase todo o dia, atravessei mais uma vez o rio Mekong, e entrei na cidade sob uma chuva copiosa que não demoveu ninguém dos seus habituais afazeres. Alguns condutores vestiam capas plásticas com as motas em andamento e seguiam de sorriso estampado no rosto ao perceberem que nada os manteria secos. Era domingo, mas podia ser terça ou sexta. O comércio estava aberto e havia milhares de pessoas na rua. Saigão é uma cidade extravagante onde coexistem ambientes muitos distintos, que lhe conferem um caráter ímpar. Ali podemos atravessar um bairro labirintico, tipicamente asiático, desembocar numa grande avenida com edifícios de traço soviético, fazer uma pausa num pagode ou numa catedral católica para aliviar o calor, deambular pelo quarteirão francês com as suas boutiques de estilistas emergentes e cafés avant garde, e acabar o dia no District 1, zona onde os arranha-céus começam a dominar a paisagem e proliferam os restaurantes, os bares e as discotecas ao gosto ocidental. Foi inevitável visitar alguns monumentos e museus — o Palácio da Reunificação, o Pagode do Imperador de Jade, o Museu da Guerra, o Museu da História —, mas de resto foi essencialmente isto que fiz em Saigão: vaguear pelas ruas, sentir os ambientes, observar as gentes. Num desses dias, já ao cair da tarde, entrei no Saigon Square, uma galeria de rés-do-chão e primeiro andar a abarrotar de pequenos stands onde se vende roupa, calçado e outros acessórios que parecem ter sido desviados das fábricas que produzem para as marcas globais. Da Zara à GAP, da Adidas à Nike, este é o lugar para investir em pechinchas, sejam elas genuínas ou forjadas. Logo à entrada, num expositor de relógios, encontrei uma vendedora que, à falta de clientes, se ocupara com um livro. Ty Ty, nascida e criada em Saigão, diz trabalhar todo o dia no stand e ocupar as horas vagas a ler. De sorriso contido, explica-me que gosta sobretudo de romances e que lê três a quatro por mês. Naquele dia de fim de maio tinha começado "Chỉ được yêu mình anh" (qualquer coisa como "Só tu me amas"), da autora chinesa Nam Lăng, comprado precisamente na livraria onde umas horas antes não me permitiram fotografar. Na altura, valeu-me o telemóvel. Se quiserem espreitar o lugar onde a Ty Ty comprou o seu romance, basta que acedam aqui para ver as duas fotos que tirei à socapa.

domingo, 26 de outubro de 2014

Phnom Penh — Anne Sofie e George R. R. Martin


Cheguei a Phnom Penh depois de uma nova viagem de autocarro que demorou praticamente todo o dia. Foram pouco mais de 300 quilómetros percorridos a partir de Siem Reap, numa estrada em construção. Prevê-se que daqui a algum tempo essa estrada venha a parecer-se com qualquer outra via secundária portuguesa, mas por enquanto não passa de um caminho de terra vermelha que se entranhou em todas as frinchas do autocarro, em particular na bagageira. Ao descermos na capital, foram inglórios os esforços dos funcionários para sacudir com palmadas a camada fina de pó que pousou sobre as bagagens. O trajeto foi feito quase sempre aos solavancos e em marcha muito lenta para contornar buracos, valas, maquinaria e trabalhadores. Valeu-me o belo dia de sol, a típica paisagem do sudoeste asiático onde dominam os reflexos dos arrozais alagados e as palmeiras que nos parecem sempre incrivelmente verdes, o lugar onde parámos para o almoço e onde me diverti a fotografar a vendedora de insetos (esse petisco que não ousei provar...), e os programas humorísticos e telediscos cambojanos exibidos na televisão a bordo, que me fizeram rir pela algaraviada e pela produção rudimentar. A entrada em Phnom Penh é tão pouco impactante que tenho sobre esse momento memórias difusas. É bem provável que isso se deva, também, ao cansaço. Recordo apenas as longas avenidas ladeadas por prédios sem portas e sem janelas, negros de sujidade ou humidade e que pareciam prestes a desmoronar-se. Só mesmo quando nos aproximamos do centro, abrindo alas por entre os milhares de motas e tuk tuks, é que a capital começa lentamente a revelar o seu charme. E digo lentamente porque Phnom Penh é, talvez, a capital mais decadente onde estive naquela região do globo, pelo que é preciso fazer-se um esforço para, por entre o caos e o lixo, se descobrirem encantos. A verdade é que à medida que os dias foram passando, Phnom Penh entranhou-se-me e descobri o prazer de pura e simplesmente flanar pelos seus boulevards herdados dos tempo dos franceses e da Indochina, entrar e sair das pequenas lojas requintadas que vendem os algodões e as sedas mais finas e onde ainda é possível ser-se atendido num francês correctíssimo, visitar ateliês de pintores e fotógrafos, erguer o olhar apreciar os edifícios coloniais que apesar da decrepitude mantêm uma aura nobre. Só o espectáculo do que acontece nos passeios de Phnom Penh é por si só um entretenimento. Naquela cidade, os passeios servem para tudo, menos para a circulação dos peões. Nesses troços de via pública tudo pode acontecer: estacionam-se centenas de motas, estendem-se redes onde os condutores de tuk tuk e de riquexó dormem nos momentos de ócio, montam-se barbearias ou restaurantes em poucos minutos, expõe-se todo o stock de uma loja, reparam-se veículos em oficinas improvisadas ou acumula-se ferro velho. Enfim, em Phnom Penh os peões habituam-se depressa a partilhar a estrada com quem anda sobre rodas. Embora a ida ao Palácio Real, ao Museu Nacional e ao Wat Phnom — o templo mais popular da cidade — sejam recomendáveis, até porque consomem muito pouco tempo, a visita mais marcante que qualquer viajante fará em Phnom Penh será sem dúvida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, uma antiga escola que se viu transformada em prisão e centro de tortura nos anos em que vigorou no Camboja o regime de terror de Pol Pot. E depois, há a ida ao campo de morte Choeung Ek, a 15 quilómetros de Phnom Penh, uma experiência aterradora, mas que eu não quis evitar (embora a tivesse adiado o mais que pude). Só aqui foram exumados em 1980, de 86 valas comuns, os corpos de quase 9 mil vítimas dos Khmer Vermelhos. Outras 43 valas foram deixadas por abrir. Homens, mulheres e crianças foram barbaramente assassinados neste local. Ainda hoje, quando a água da chuva alaga o campo, vêm ao de cima restos de roupas, pedaços de ossos e dentes que vão sendo recolhidos e guardados em caixas de acrílico espalhadas pelo recinto. O Killing Filed de Choeung Ek é apenas um dos 300 que existem em todo o Cambodja e a sua visita, juntamente com a ida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, foi o momento mais triste de toda a minha viagem. Na manhã em que tinha de comprar a viagem para o Vietname, que faria mais uma vez autocarro, tive de voltar à zona mais trendy de Phnom Penh, conhecida por Sisowath Quay. Nessa longa avenida que bordeja o rio Tonle Sap, e nos quarteirões adjacentes, concentram-se grande parte das infraestruturas e serviços concebidos sobretudo para os turistas, nomeadamente hotéis, restaurantes, bares e todo o tipo de comércio. Há, até, uma pequena livraria. Numa das muitas esplanadas que existem ali, conheci a Anne Sofie, dinamarquesa e viajante a solo. "Sou estudante de medicina", contou-me, "mas precisei de fazer uma pausa e decidi tirar um ano para mim. Estou a viajar há três meses sozinha e nunca me senti insegura, até porque houve muitas ocasiões em que me integrei em grupos. Comecei por apanhar o Trans Mongolia Express e fui de Moscovo até Pequim. Daí parti para o Nepal, onde trabalhei como voluntária. Terminei a estadia em Kathmandu passando dez dias num mosteiro budista e foi de lá que vim para o Camboja. Ainda vou visitar o Laos e o Vietname e dentro de um mês devo estar a regressar à Dinamarca". O livro, esse, não me reservava grandes surpresas. A Anne Sophie é mais uma leitora irremediavelmente seduzida pelas Crónicas de Gelo e Fogo. Lia o segundo volume de "A Clash of Kings". "Já ouvi falar da série de televisão, mas nunca a vi. Os meus amigos também já me tinham falado dos livros e como os vi à venda muito baratos em Pokhara decidi comprar o primeiro volume. Fiquei viciada e comprei o segundo em Kathmandu. Quando voltar à Dinamarca tenho a certeza que vou ver a série!". E quantos aos seus hábitos de leitura? O assunto ficou arrumado com a resposta que me deu: "Em três meses de viagem já li 17 livros".

domingo, 19 de outubro de 2014

Camboja — Deim em Agkor


Sabia (e ainda sei) muito pouco sobre o Reino do Camboja. E o pouco que sabia prendia-se quase exclusivamente com duas coisas: os Templos de Angkor, Património Mundial da Humanidade que sonhava conhecer um dia; e o regime sanguinário dos Khmer Vermelhos, liderados por Pol Pot, assunto que nos anos 70 e 80 do século passado foi muito mediatizado a ocidente. Até a indústria do cinema deu o seu contributo na denúncia do Genocídio Cambojano quando estreou, em 1984, o filme "Terra Sangrenta" (The Killing Fields"). Vi-o quando era adolescente e marcou-me. Agora que sei um pouco mais sobre este país e que chego a envergonhar-me da imagem redutora que trouxe na cabeça durante tantos anos, recordo as palavras sábias de Chimamanda Ngozi Adichie, a autora nigeriana que numa TedTalk se debruçou sobre o "perigo da história única" a que somos todos tão vulneráveis muito por influência dos media. Diz ela: "Esta é a forma como se cria uma história única. Descrevam um povo como uma coisa, como apenas uma coisa, uma e outra vez, e é nisso que ele se torna (...) A história única cria estereótipos e o problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos. Fazem com que uma história seja a única história". Daí o português manso, o espanhol aguerrido, o francês racista, o alemão nazi, o angolano corrupto, o brasileiro trafulha, o chinês porco, o muçulmano terrorista... Tenho dito a quem me pergunta sobre os supostos perigos da viagem que fiz, que o mundo não é o que se vê nos noticiários das 20h. O que esses noticiários mostram é uma parcela ínfima do que é a vida no nosso planeta, feito na sua maioria de gente que, com mais ou menos dificuldade, leva um dia a dia rotineiro, "normal", em muitos aspetos semelhante ao meu. Como também disse Chimamanda, "a consequência da história única é que (...) enfatiza o quanto somos diferentes, mais do que o quanto somos similares". Por tudo isto, se me pedissem um dia para apontar apenas uma virtude ao ato de viajar, julgo que diria que é a possibilidade de nos libertarmos das muitas histórias únicas que reduzem o nosso planeta caleidoscópico a uma lista de preconceitos. Ainda antes de aterrar em Siem Reap, e com grande surpresa, a minha "história única" acerca dos Khmer desmoronou-se e a palavra ganhou toda uma nova dimensão, altamente positiva, que me permitiu ver o Camboja sob uma nova luz. Não, Khmer não são apenas os seguidores do Partido Comunista que governaram o país entre 1975 e 1979 e que são responsáveis pela morte de quase três milhões de compatriotas. Khmer é o nome dado à língua que se fala no Camboja, mas é, principalmente, o nome do maior grupo étnico cambodjano, aquele que entre os séculos IX e XVI estabeleceu o riquíssimo e muito sofisticado Império Khmer, que teve como principal capital a bela Angkor, a maior cidade pré-industrial do mundo. Aí, numa área de cerca de três mil quilómetros quadrados, ergueram-se mais de cem monumentos angkorianos e estabeleceu-se o coração político, cultural e religioso de uma das maiores civilizações do sudoeste asiático. Tive a felicidade de poder passar três dias a visitar alguns dos monumentos mais icónicos deste lugar extravagante. E fi-lo de bicicleta, apesar das temperaturas que chegaram a sensações térmicas na ordem dos 40 e muitos graus centígrados. A experiência superou todas as expectativas que eu poderia ter alimentado. Sim, o nascer do sol por detrás do templo principal, Angkor Wat, é de uma beleza esmagadora. Assim como é o por do sol precisamente no mesmo lugar. Mas o que dizer da liberdade que foi percorrer a selva luxuriante a pedal, por caminhos nem sempre alcatroados, e ver surgir no meio da vegetação o sorriso plácido de um gigantesco rosto de Buda esculpido na torre de um templo ou na abertura de uma muralha? E como descrever a emoção de entrar nesses templos, percorrer os corredores e as salas eximiamente decoradas com baixo-relevos de um requinte inesperado, subir ao topo dos edifícios e sentir-me pequeníssima perante a escala brutal daquela obra, a força do sol, a inclemência das temperaturas, o azul do céu, as grossas nuvens brancas imóveis, o verde da floresta e os sons que ela emana? "Que lindo! Que lindo!" era quase a única coisa que eu conseguia articular dia após dia, um monumento após o outro. Eu sei que sou dada a estes exageros e que muitos dos que já lá estiveram poderão não ter sentido o mesmo, mas visitar Angkor da maneira que o fiz — totalmente autónoma, ao meu ritmo, de acordo com o plano que eu mesma estabeleci, muitas vezes por trilhos desertos — não foi só um momento alto desta viagem; foi um dos momentos mais ricos da minha vida. E depois, aquilo que eu achava quase improvável: um cambojano a ler junto aos muros de Benteay Kdei, um templo budista construído em meados do século XII. "Sou funcionário do Parque Arqueológico de Angkor", disse-me, "e gosto de ler sobre a história do meu país, sobre os reis do Camboja e sobre estes templos em particular. Este livro é sobre a construção de dois dos monumentos mais importantes do Camboja: Angkor Wat e Bayon". E com isto, a estocada final numa outra história única: aquela em que se afirma que nos países pobres não se lê porque outras necessidades mais básicas se impõem. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Liu no Laos, a caminho do Camboja


Durante a viagem, não houve uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. De cada vez, foi inevitável questionar-me: voltarei um dia? Na manhã em que parti de tuk tuk do centro de Vientiane para o aeroporto internacional, levava um peso no peito. Voava dali a poucas horas para o Camboja, um novo lugar cheio de promessas excitantes, mas lamentava que os dez dias vividos no Laos tivessem passado tão depressa. Não houve, de facto, uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. Porém o Laos faz parte daquele punhado de lugares de onde mais me doeu partir. Enquanto o tuk tuk acelerava pelas ruas e se aproximava o momento da despedida, apenas um outro aspeto conseguia ensombrar mais o meu dia — o voo propriamente dito. O bilhete, comprado online, indicava com diligência que a segunda parte da viagem, entre Pakse (ainda no Laos) e Siem Reap (perto de Angkor, no Camboja) seria feita num ATR 72-600 e a pergunta "Mas que raio é um ATR 72-600?!" não parava de me martelar a cabeça. Uma pessoa sabe o que é um Airbus ou um Boeing. Sabe até o que é um Embraer ou um Cessna. Mas um ATR 72-600 não sabe o que é. Nem a pesquisa no Google e a descoberta de que o avião é fabricado em França e em Itália me tranquilizou. Deixei que os preconceitos viessem ao de cima e com o discernimento toldado só pensava numa coisa: estava prestes a embarcar numa lata minúscula, movida a hélices e operada pela companhia aérea de um dos países mais pobres e recônditos onde alguma vez tinha posto os pés. E isso não podia ser bom, claro está. No primeiro aeroporto consegui distrair-me com os pormenores surreais do lugar, que mais parecia um rudimentar terminal de autocarros. No segundo areoporto, a distração veio na forma de um leitor chinês a quem pedi uma fotografia, mas com quem não pude conversar muito. Valeu-nos a sua amiga Shen Li, que serviu de tradutora. Com a sua ajuda, pude saber o mínimo dos mínimos: Liu ia visitar os esplêndidos Templos de Angkor pela primeira vez e lia uma biografia de Buda na esperança de aprender mais sobre a sua sabedoria. Quando, por fim, me sentei no lugar que me coube no ATR 72-600, ia mais contente. Não só tinha fotografado um leitor, como vi com agrado que tinha por companheiros de viagem três monges budistas. Sim, eu também sou daquelas que embora adore voar e passe a vida a advogar em defesa do meio de transporte mais seguro do mundo, acha que a presença de qualquer sacerdote num avião é um sinal de proteção sempre bem vindo. Admito. Um dos monges era velhíssimo. Muito pequeno, magérrimo e curvado para a frente num permanente ângulo reto, chegou de cadeira de rodas até às escadas do avião, mas fez questão de subi-las, muito lentamente, sem qualquer ajuda. Quando entrou, por fim, na aeronave, a hospedeira recebeu-o ajoelhando-se com reverência. Este homem que devia ser santo sentou-se quase ao meu lado, no outro lado da coxia, junto a um outro monge muito mais jovem que parecia ser seu assistente. Adotaram a posição de lótus e pareceram entrar em transe. Nada os demoveu, durante todo o voo, daquele estado zen. Já o terceiro monge, também jovem, veio sentar-se no lugar à minha frente e era, todo ele, um desassossego. Primeiro reparei nos rios de suor que lhe escorriam do crânio rapado e que o lenço mil vezes esfregado não conseguia conter. Depois temi pela segurança de todos quando, ao levantarmos voo, o senhor se alvoroçou em espasmos repentinos que o levavam a gesticular os braços e a abanar a cabeça em todos os sentidos. Pensei que estivesse a ter um ataque de pânico, mas perante a persistência daqueles movimentos sobre os quais não tinha controlo, percebi que devia padecer de algum tipo de síndrome cujos sintomas se acentuavam sob stress. O contraste não podia ser maior: os outros dois companheiros seguiam viagem na maior paz, enquanto ele parecia dançar breakdance sem sair do lugar. Só alguns dias depois entendi que a agitação deste monge era justificada: a ficha da Lao Airlines na Aviation Safety Network conta com mais de 50 acidentes e o último, onde morreram todos os ocupantes do avião, ocorrera com um ATR 72-600 havia menos de seis meses, no preciso trajeto que acabáramos de percorrer.

domingo, 28 de setembro de 2014

Vientiane, Houmphan e Khamnikhom



Decidi que a viagem de Luang Prabang para Vientiane, capital do Laos, se faria de autocarro. A outra hipótese era o avião, que me levaria de um ponto ao outro em quarenta minutos, mas sempre que as distâncias não eram exageradamente grandes e as paisagens prometedoras, escolhi deslocar-me por terra. Foi assim entre Brasília e o Rio de Janeiro (de autocarro), entre Banguecoque e Chiang Mai (de comboio), entre Chiang Khong e Luang Prabang (de barco). De Luang Prabang a Vientiane vão cerca de quatrocentos quilómetros, mas o trajeto leva no mínimo oito horas a ser percorrido. No meu entender, tanta demora só poderia dever-se à qualidade da via e ao estado do veículo que nos ia transportar, por isso, perante a perspetiva de passar o dia inteiro na estrada, optei por comprar um bilhete para o melhor autocarro disponível, aquele a que os laosianos chamam VIP e dizem ter ar condicionado. Na verdade, não tem. A partida estava marcada para as 9h, mas o tuk tuk deixou-me no terminal quinze minutos antes. O tempo de encontrar o autocarro certo, colocar a mochila na bagageira e garantir um lugar junto a uma janela. Dei-me conta de imediato que havia poucos passageiros. No interior, meia dúzia aguentava estoicamente as temperaturas similares às de uma sauna; lá fora, outros tantos sentavam-se à sombra, mas não era por isso que suavam menos. Ao fim de algum tempo percebi que o autocarro não partiria com uns minutos de atraso. Na verdade, o autocarro partiria apenas quando todos os lugares estivessem vendidos, o que aconteceu depois das 10h, quando um casal de mochileiros comprou os últimos bilhetes. Só à medida que Luang Prabang foi ficando para trás é que entendi por que razão iríamos demorar oito horas a percorrer trezentos e noventa quilómetros: embora soubesse, teoricamente, que o Laos é um país montanhoso, não sabia que é um país tão montanhoso e a demora não se deveria tanto ao estado da estrada, mas ao terreno acidentado que a estrada percorre. Julgo que não sentia tamanho desconforto a andar de autocarro desde 1999, ano em que atravessei a Cordilheira dos Andes para ir de Mendoza, na Argentina, a Santiago do Chile. Quinze anos volvidos, lá estava eu de novo a encarar uma estrada dos infernos, alcatroada, sim, mas estreita como uma tira de tagliatelle, a serpentear sempre em sentido ascendente, curva e contracurva, com ribanceiras brutais à esquerda e à direita, até aos 1500 metros de altitude. Para que o cenário se tornasse ainda mais dramático, abateu-se sobre um troço do trajeto uma daquelas tempestades típicas da monção e foi com horror que vi desenhar-se do céu à terra um relâmpago medonho que caiu com estrondo a poucos metros do autocarro. Muitos passageiros não conseguiram conter um grito. Pela janela vi os búfalos de água esbaforidos a correr em todas as direções pelos arrozais. Tal como nós, não ganharam para o susto. Mas para redimir tudo isto, havia a paisagem, a magnífica paisagem das montanhas do norte do Laos cujos cumes pontiagudos se perdiam nas nuvens e os sopés mergulhavam nas águas dos campos de arroz. No meu peito, o medo e o deslumbramento lutaram entre si para ver qual me tirava mais o fôlego. Ao fim de cinco horas de caminho, as montanhas foram-se tornando gradualmente mais pequenas e o terreno cada vez mais plano. As aldeolas esparsas foram dando lugar a aldeias maiores, na estrada o tráfego intensificou-se e por volta das 18h estávamos a atravessar os arredores da capital onde, a par das casas mais humildes de traça tradicional, se erguem casa apalaçadas — a maioria acabadas de construir ou ainda em construção — de inspiração ocidental e de gosto muito duvidoso, que deixam entrever jardins, piscinas e vários carros estacionados para lá dos portões. No Laos — um dos últimos estados socialistas de partido único — há, portanto, dinheiro fresco e gente determinada a mostrar que o tem em grande quantidade. Ainda assim, Vientiane é uma capital modesta e o pouco que há para visitar concentra-se de tal forma no centro da cidade que dois dias bastam para ficar a conhecê-la bem. Quase todos os caminhos levam à longa avenida Lane Xang, ladeada de frangipanis, cuja flor é o símbolo do país. Num extremo fica o Patouxai, um arco do triunfo ao qual se pode subir e de onde se tem uma ótima vista sobre a cidade. É de lá de cima que se confirma a inspiração soviética na arquitetura dos edifícios públicos, muito austeros, que contrastam com a exuberância multicolor dos templos budistas. No outro extremo da avenida, fica o Palácio Presidencial e para lá dele o rio Mekong, cuja margem foi transformada num extenso calçadão para onde toda a população da capital parece convergir à noitinha na esperança de se refrescar um pouco. Demorei-me aí, numa noite de enorme lua cheia, a observar os laosianos que passeavam exibindo as suas melhores roupas e acessórios. Em Vientiane, como em Lisboa, Tóquio ou Nova Iorque, também se brinca ao "ver e ser visto". Visitei o Museu de Arte e Antiguidades, que funciona no antigo templo budista do rei e que aglomera num espaço exíguo centenas de peças que imagino muito valiosas mas mal conservadas, mal expostas e sem qualquer tipo de legendas que nos permitam perceber do que se trata. Passei algumas horas no Museu National, que funciona num grande edifício decrépito e onde muitas vezes o meu interesse se virou mais para as ventoinhas e as saídas de ar condicionado, às quais me colei numa tentativa de arrefecer o corpo, do que para o rol de salas onde através de fotografias desbotadas e maquetes rudimentares se narra toda a história do Laos. Julgo que aprendi mais sobre os tempos remotos, do que sobre a história recente, onde se enaltece a luta e a vitória do proletariado sobre os imperialistas — franceses, japoneses e americanos — e se exaltam as virtudes do partido comunista. Também visitei o That Luang, o edifício religioso mais importante do Laos ao qual me desloquei numa louca corrida de tuk tuk que me custou o chapéu: voou-me da cabeça para nunca mais o ver. E, por fim, entrei na Biblioteca Nacional que funciona num antigo edifício de traça colonial, rés-do-chão e primeiro andar, onde funcionários, utentes e livros se acumulam em salas pequenas e atravancadas com estantes, mesas e cadeiras. Foi aí que meti conversa com o Houmphan (na primeira fotografia) e com Khamnikhom (na outra imagem). Ambos são estudantes universitários, vão com frequência à biblioteca para consultar livros e estudar. O primeiro, pouco à vontade com o inglês e muito mais tímido, contou-me que estava a estudar gestão e marketing. O segundo, que frequenta o curso de economia e administração, estava a estudar para o exame final de gestão hoteleira, mas contou-me que para além destas temáticas, também se interessa muito por filosofia e política. Os livros que tinha consigo eram em inglês e tailandês o que me surpreendeu. Fiquei depois a saber que o tailandês e o laosiano são idiomas muito parecidos, pelo que a maioria dos habitantes do Laos lê e fala tailandês. Infelizmente, no entender de Khamnikhom, no Laos os livros são muito caros. Trabalhou dois meses numa livraria e sabe do que fala: a maioria das edições é importada da Tailândia, o que as encarece muito. Por isso recorre por vezes a um amigo que lhe traz diretamente os livros de Banguecoque. Sobre o seu futuro, Khamnikhom tem uma convicção: passará por ajudar a desenvolver o seu país, tornando-o num lugar melhor. Como o fará é que ainda não sabe. Talvez vá trabalhar para a Organização das Nações Unidas, ou então ser um homem de negócios, ou enveredar pela carreira política. E foi então que me encostou à parede com a seguinte pergunta: "Que conselho me dá para que eu possa ajudar o meu país?". Senti a cabeça a andar à roda. Há tanto por fazer no Laos que nem soube por onde começar. Mas enquanto o meu cérebro parecia ter congelado perante a complexidade da resposta a dar, a minha boca abriu-se e ouvi-me afirmar, convicta: "Tens de apostar na tua educação. A educação será sempre a tua melhor ferramenta. A educação é a maior riqueza de um povo. Vais precisar de dinheiro, é certo. Mas isso é secundário. O dinheiro sem educação não está ao serviço do progresso. E se puderes, viaja. Conhece outras culturas, outras maneiras de viver e de fazer acontecer. Viajar é uma forma poderosíssima de educação. E quando regressares ao Laos, talvez tenhas uma ideia mais concreta do que queres para ti e para o teu país". Esta semana recebi um email do Khamnikhom. Diz que se lembra muitas vezes do que lhe disse quando conversámos e que quando voltar à sua aldeia irá passar a minha mensagem aos estudantes da escola local. Agora que penso nisso, gostaria de lhe ter dado um conselho menos utópico.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Luang Prabang — Oliver & Collin Cotterill


Antes de se unir ao rio Mekong, o rio Nam Khan desenha uma curva acentuada que contorna, à esquerda, a península de Luang Prabang. Quem se passeia pelas principais artérias da cidade — ruas Sisavangvong e Sakkaline — irá invariavelmente terminar alguma das suas caminhadas na colina que se ergue no local onde os dois rios de juntam. Nesse ponto alto existe um pequeno jardim relvado e com coqueiros altíssimos à sombra dos quais é comum encontrar gente sentada. Já lá tinha estado um dia e tinha ficado intrigada com o que estaria na outra margem, de maneira que regressei ao local decidida a pagar os 5000 Kips (0,47 Euros) para atravessar a ponte de bambu, que me pareceu saída de um filme do Indiana Jones. No outro lado encontrei, para além de dois templos budistas muito simples, uma aldeia atravessada por um caminho de terra batida. As casas tradicionais, construidas sobre estacas e preparadas para deixar passar as águas furiosas da época da chuva, alinhavam-se nos dois lados do caminho e albergavam uma pequena comunidade de pescadores, agricultores e tecelãs peritas na arte de fabricar as sedas mais finas e delicadas. Foi junto a um desses teares que fiquei mais tempo, entretida a observar os gestos repetitivos que dão origem a peças únicas. Ao regressar à outra margem e à proteção do coqueiral, sentei-me junto do Oliver, que lia. Sorvi uma garrafa inteira de água, levantei o chapéu para limpar o suor da testa, recuperei o fôlego e só depois meti conversa. Este alemão tinha tirado um mês para viajar pela Ásia. Havia 10 dias que andava de mochila às costas. Já tinha estado em Banguecoque e tinha chegado recentemente ao Laos. Leitor habitual daquilo a que chamou "clássicos modernos", lamenta não ler mais por falta de tempo. As férias serviam, portanto, para se redimir e tinha-lhe parecido muito boa ideia aproveitar para ler algo cuja ação se passasse no país que visitava. Era o caso de "Dr. Siri und Seine Totem" ("The Coroner's Lunch", na edição original), um dos policiais de Collin Cotterill, autor de nacionalidade inglesa e australiana que reside na Tailândia. A série que tem Dr. Siri, um médico legista, como principal personagem é totalmente passada no Laos e já arrecadou vários prémios literários. Os seus livros estão à venda nas poucas livrarias do país, assim como em quase todas as lojas de souvenirs e Cotterill tem a hombridade de fazer reverter os direitos de autor para projetos de solidariedade social a decorrer no Laos.

domingo, 21 de setembro de 2014

Luang Prabang, Touy e Winnie


Sobrenatural. Este é o primeiro adjetivo que me ocorre para vos descrever Luang Prabang. Há algo de sobrenatural em Luang Prabang. Há naquela pequena cidade, que foi capital do reino do Laos por mais de mil anos, uma energia única, uma força pura a que me entreguei sem reservas. E quando recordo os dias que lá vivi penso em leveza. Sim, acho que foi isso que aconteceu, andei por lá a levitar. Levitei sobre as ruas de velhas casas coloniais erguidas pelos franceses nos tempos da Indochina; sobre os montes de onde vi o pôr do sol cobrir a cidade de ouro; sobre os templos de telhados inclinados que se desdobram em sucessivas camadas até quase roçarem o chão; sobre as palmeiras verdíssimas e as frangipanis floridas, ainda mais belas quando em contraste com as nuvens negras da monção; sobre as filas de monges de vestes laranja que recolhem a comida ofertada pelos fiéis ao nascer do dia; sobre os rios Mekong e Khan, de águas castanhas, embora possa jurar que também os atravessei deslizando numa canoa ou pousando os meus pés, muito a medo, nas pontes de bambu. Levitei, apesar da canícula que a seguir ao almoço me empurrava com urgência para o ar condicionado do quarto de hotel, de onde só saía à tardinha para me dirigir, uma e outra vez, à margem do Mekong, o rio feitiço. Aí, a tomar uma BeerLao fresca, assistia sempre com espanto ao espetáculo da bruma que surgia do nada para se apoderar das fileiras infinitas de montanhas que, na riba em frente, se desenhavam até ao horizonte. Fui feliz em Luang Prabang, esse pedaço de alma do Laos. Fui feliz até nas pessoas que o acaso colocou no meu caminho, como aconteceu na primeira manhã que passei na cidade, quando entrei na modestíssima biblioteca pública: três pequenas salas, dois funcionários simpáticos, algumas estantes com livros laosianos, franceses e ingleses e cinco leitores. Foi aos noviços que pedi a fotografia, longe de adivinhar que iria vê-los todos os dias até à minha partida para Vientiane. O Touy (à esquerda) e o Winnie (à direita) vieram ambos de longe, de aldeias remotas, para continuar os seus estudos no Wat Pa Phai, um templo budista construído no início do século XIX. Ambos terão de decidir, aos 20 anos, se pretendem enveredar pelo sacerdócio. Para Winnie, o mais novo, essa decisão pode esperar, mas para Touy, com 19 anos, a escolha terá de ser feita em breve. Perguntei-lhe se já sabia o que fazer. Não me soube responder. A única certeza que tem, tal como Winnie, é que quer estudar inglês. Esse é o seu sonho, ser fluente em inglês e com essa ferramenta poder visitar outros países. No templo onde estudam já houve em tempos aulas de inglês, mas agora estão sem professor. Por isso, numa ânsia de saber mais, estudam sozinhos sempre que podem, quer no quarto onde dormem, quer na biblioteca onde para além dos livros têm acesso à internet e podem ver vídeos em inglês no Youtube. No templo não há televisão. Fotografei-os a ler em inglês e os livros escolhidos espelhavam o domínio que tinham do idioma. Embora Winnie fosse muito mais fluente, os dois liam livros infantis nada adequados às suas idades, mas adequados ao pouco que sabiam. Touy, por exemplo, lia uma história do urso Pooh. Nesse momento, o Laos ficou-me para sempre associado à imagem de um rapaz de 19 anos que, na viragem para a vida adulta, lê a história de um ursinho: um território milenar com episódios recentes de grande violência e, ainda assim, com um grau desconcertante de ingenuidade. Depois de tirada a fotografia, estes dois adolescentes, com uma delicadeza comovente a que já não estou habituada, perguntaram-me se não estaria na disposição de ir com eles para outra sala onde pudéssemos conversar em inglês à vontade. Explicaram-me que aproveitam todas as oportunidades para praticar um pouco. E assim fiz. Naquela manhã e em todas as outras que passei em Luang Prabang. Falámos de tudo um pouco: das aldeias de onde vêm, das famílias, da vida nos campos, dos grupos étnicos a que pertencem, dos seus projetos de vida, do pouco dinheiro que têm para realizar os seus sonhos, da minha viagem, da imensidão do mundo e do quanto tem de belo para ver. Diálogos que decorreram de forma lenta, com grandes silêncios pelo meio de cada vez que procuravam a palavra inglesa certa para se expressarem. Vi-os pela última vez num domingo à tarde no templo Wat Pa Phai, onde vivem. Nesse dia o Touy estava de guarda ao recinto e não podia ausentar-se. Quando cruzei a porta do templo levantou-se da mesa onde estava a estudar, sob uma árvore, e sorriu largamente enquanto ajeitava o hábito laranja. O resto dos colegas fazia as suas orações. Ouvia-lhes os cânticos. À nossa volta circulavam alguns cães, felizes, de caudas imparáveis. Dei uma vista de olhos aos exercícios em inglês que fazia, conversámos mais um pouco e despedimo-nos quando o sol se punha. Luang Prabang, Touy e Winnie. Um trio que tem lugar cativo nas minhas recordações mais emotivas dos dias passados no Laos. Pergunto-me com frequência o que será dos seus futuros.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Laos — Chris, a caminho de Luang Prabang


A maioria dos passageiros transportados pelo "slow boat" que deslizou com vagar pelo Mekong era ocidental. Para além da tripulação, praticamente não havia laosianos a bordo. Meia dúzia, talvez. E dos cinquenta ou sessenta estrangeiros que lá iam sentados, quase todos estavam na faixa entre os dezoito e os vinte e poucos anos. Ingleses, alemães, suecos, dinamarqueses, holandeses, todos estes mochileiros e mochileiras de ar pueril pareciam não ter ainda sequer frequentado a faculdade. Durante os dois dias em que estivemos confinados ao espaço exíguo do barco, pude observá-los e... invejá-los. Dei por mim a lamentar não ter passado por uma experiência destas mais cedo. Após uma viagem de longa duração, a vantagem que estes miúdos levam sobre os outros, ao enfrentar a vida académica ou um primeiro trabalho, só pode ser enorme. Todos os dias, durante semanas, por vezes durante meses, tomam decisões que os obrigam a crescer. Para além da gestão óbvia do tempo e do dinheiro, têm no mínimo de lidar com choques culturais consideráveis, adaptar-se a climas extremos, escolher com quem relacionar-se ou não, estabelecer novas redes de contactos e de apoio, definir itinerários que possam percorrer em segurança, negociar preços de refeições e de alojamentos com gente que não fala uma palavra de inglês ou optar entre preguiçar na praia ou explorar um museu. Ao mesmo tempo, estas viagens são também um grande exercício de liberdade, a ocasião para testarem os seus limites e se afirmarem longe da família e do habitual círculo social controlador. E naquele barco, durante os dois dias de ócio a que fomos forçados, a liberdade foi flirtar, beber litros de alcool, comer batatas fritas e consumir drogas. Depois, por vezes, num intervalo entre conversas, cervejas e charros, alguém puxava de um livro. A dada altura, eram tantos os leitores a bordo que me entretive a fotografá-los ao longe, sem que disso se apercebessem. Por fim, quando decidi falar com um deles, optei por me dirigir ao Chris, que lia "Catch 22". À semelhança da Emma, este britânico andava a viajar só e já ia no seu terceiro ano de aventuras. Apanhou o Transiberiano até à Mongólia, passou uma temporada a trabalhar na Coreia do Sul, partiu depois para as Filipinas e daí seguiu para a Austrália onde voltou a trabalhar. Visitou a Nova Zelândia e iniciou a seguir o périplo pelo sudoeste asiático. Depois do Laos ainda ia conhecer o Cambodja e o Vietname de onde voltaria, por fim, a casa. Quanto ao livro que lia, explicou: "Encontrei-o no último hostel onde estive alojado. Há muito tempo que queria lê-lo, por isso trouxe-o. Não compro livros. Vou de hostel em hostel e troco os que acabei de ler por outros. Só quando comecei a viajar é que comecei a ler mais. Na faculdade não tinha este hábito". A julgar pelo exemplo do Chris e de muitos outros que conheci, as viagens têm também esta grande virtude: despertar leitores adormecidos. O irónico é que comigo tenha acontecido exatamente o contrário. Não peguei num único livro durante seis meses. Talvez um dia escreva sobre isso.