domingo, 12 de julho de 2015

Luís e os navegadores chineses


Convenci-me que não há um único canto do mundo que não tenha sido tocado pela diáspora chinesa quando, o ano passado, vi na cidade de S. Tomé um taberneiro chinês a falar crioulo e a vender vinho da palma aos clientes são-tomenses. Ficou-me profundamente gravada na memória aquela imagem, ao passar pela porta do lugar mal iluminado, cheio de homens, e ainda trago nos ouvidos a algaraviada que de lá brotava: falava-se alto, ria-se e o chinês, atrás do balcão, estava completamente integrado naquele quadro tropical e, a meu ver, surreal. Juro-vos que isto foi, para mim, o cúmulo, a prova dos nove, a total rendição — há chineses em todo o lado, ponto final!

Aqui no Mindelo, em Cabo Verde, não é preciso ficar-se muito tempo para se constatar que além de existir uma grande comunidade, os chineses tomaram nas suas mãos a quase totalidade do comércio: tudo se pode comprar nas muitas lojas de chineses que aqui existem. Dir-se-ia um monopólio. Só no trajecto que faço entre o lugar onde moro e o trabalho — pouco mais de cinco minutos a pé — conto oito! E esta comunidade, à semelhança da impressão que me deixou a cena de S. Tomé, parece-me muito mais integrada do que a que vive e trabalha em Portugal: não é fora do comum vê-los em horas de expediente a tomar um sumo natural num café ou a lanchar demoradamente nas pastelarias, a chinelar pelas ruas já com um certo gingar africano, as mulheres chinesas a caminhar de braço dado às amas cabo-verdianas que lhes carregam os filhos pequenos.

Andava já eu muito atenta a tudo isto quando o Luís veio hospedar-se na Casa Café Mindelo e o surpreendi na recepção do hotel a ler “1421 – O Ano em que a China Descobriu o Mundo”. Contou-me o Luís que o autor da obra, Gavin Menzies, é um oficial da marinha britânica que depois de reformado se dedicou ao estudo da história marítima da China — estudo que o levou, inclusive, a fazer investigação na Torre do Tombo, em Lisboa — tendo concluído que os chineses, entre 1421 e 1423, na recta final da dinastia Ming, não só chegaram à América muito antes de Cristóvão Colombo, como também circum-navegaram o globo antes de Fernão de Magalhães. Até que o enorme país se fechou sobre si próprio e um dos imperadores ordenou a destruição de todas as provas dos grandes feitos da armada chinesa. Por incrível que pareça, uma das provas que serve de base à teoria de Gavin Menzies está aqui, em Cabo-Verde, mais precisamente em Santo Antão. Há nesta ilha, aquela que eu vejo todos os dias aqui do Mindelo, um lugar chamado Penedo de Janela onde uma pedra, a que chamam Pedra Escrivida, exibe caracteres de uma língua indo-chinesa, supostamente gravados por navegantes chineses. Mas os mistérios em torno da pedra são muitos e outras explicações sugerem que os caracteres poderão ser de origem germânica, escandinava, berbere ou até portuguesa. Obviamente, coloquei Penedo de Janela na minha lista de lugares a visitar assim que tiver a oportunidade de voltar a Santo Antão. Mas é bom que se diga que, embora empolgante, a teoria de Gavin Menzies não está isenta de polémica: uma pesquisa rápida na net revela que foram vários os historiadores que a rejeitaram, apontando a total falta de metodologia e rigor científico, e apelidaram o seu autor de pseudo-historiador...

Acerca dos seus hábitos de leitura, o Luís admitiu ser sobretudo um consumidor de livros de História e Literatura de Viagem, mas os livros que apontou como mais marcantes fogem um pouco a estas categorias: "O Princípio de Peter", "O Triunfo dos Porcos" e o colossal "Memórias de Adriano". 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Cabo Verde — Amílcar no Mindelo


A ilha de São Vicente e a sua capital, o Mindelo, entraram na minha vida em outubro de 1998, quando os meus pais regressaram de uma viagem a Cabo Verde. Desde então, ouvi relatar inúmeras vezes, e sempre com muita doçura, detalhes dos três ou quatro dias lá passados: a movimentada Casa do Benfica, a alegre Praça Amílcar Cabral percorrida por miúdos fardados à saída da escola, o colorido do mercado municipal, as casas de traça portuguesa, os espaços com música ao vivo, a simpatia do taxista que fez as vezes de guia turístico por um dia, o mar turquesa e quente da Baía das Gatas, a imponência e negritude dos vulcões extintos, a loja onde lhes recomendaram o CD do Bau que viria, já em Portugal, a embalar muitas das nossa refeições em família. Foi preciso que passassem dezasseis anos para que eu tivesse, por fim, a oportunidade de conhecer também a chamada capital cultural de Cabo Verde. Em 2014, o Mindelo foi a última das mais de trinta cidades que visitei no decorrer dos 168 dias que demorei a dar a volta ao globo. Daqui regressei apenas à cidade da Praia para apanhar o voo da TACV que me levou de volta a casa.

O Mindelo — outrora Porto Grande — existe, em parte, graças à persistência dos governantes portugueses, que sempre viram grande potencial na baía natural que a cratera submarina de um vulcão ali formou. Contudo, a falta de recursos e os longos períodos de seca, adiaram durante séculos o seu povoamento: a ilha de S. Vicente foi descoberta em 1462, mas só em 1765 chegaram os primeiros colonos à povoação do Porto Grande. Na primeira metade do século XIX, mais ou menos na mesma altura em que o Marquês de Sá da Bandeira decreta que o nome do lugar mude para Mindelo (em homenagem ao desembarque das tropas liberais de D. Pedro IV no norte de Portugal, perto do Mindelo, em 1832), várias companhias inglesas de carvão instalam-se na vila para abastecimento dos navios que viajavam da Europa para o Atlântico Sul. Já na segunda metade do século XIX, outras companhias inglesas começam a instalar na ilha cabos submarinos de telégrafo que permitem ligar Cabo Verde ao continente africano, à Europa, ao Brasil e até aos Estados Unidos. Este período de prosperidade sob o ciclo do carvão e das telecomunicações, permitiu ao Mindelo crescer e investir nas infraestruturas públicas. A vila tornou-se, então, um polo de atração para habitantes de outras ilhas do arquipélago, ao mesmo tempo que se instalava também uma considerável comunidade estrangeira. O Mindelo adquiria assim uma aura cosmopolita e requintada muito própria, onde a cultura crioula — de matriz africana e portuguesa — bebia também da cultura inglesa. Porém, quando no alvor do século XX o carvão começa a ser substituído pelo petróleo como combustível, o Mindelo entrou num período de decadência que a Grande Depressão de 1929, entre outros factores, acentuou ainda mais: o desemprego assolou a maioria dos trabalhadores portuários e do carvão, a pobreza deu lugar à fome e às doenças e as duas secas extremas da década de 40 provocaram milhares de mortos e obrigaram à emigração massiva dos mindelenses. Só no fim da década de 60, com o incremento das remessas enviadas pelos emigrantes e, mais tarde, com o processo de independência é que o longo período depressivo entrou em remissão.

Hoje, com cerca de 70 mil habitantes, o Mindelo é a segunda maior cidade de Cabo Verde. Daquela pequena vila que começou a crescer a partir da Pracinha da Igreja resta muito pouco. Há um reduzido mas bem conservado casco histórico, mais ou menos delimitado entre a Praça D. Luís, o Palácio do Governador (agora Palácio do Povo) e a Praça Nova (rebatizada de Amílcar Cabral) onde as influências portuguesas são mais do que evidentes e a arquitectura e urbanística do período áureo do século XIX se misturam com a traça do Estado Novo. A partir daí a cidade espraiou-se desordenadamente pelas colinas que contornam a baía, formando o que se parece com um presépio feito de prédios feios e casas inacabadas, outras deixadas no reboco, algumas pintadas de cores berrantes (disseram-me que conforme a tinta que houver no mercado ou a que for mais barata na altura). Há algo de favela carioca nestes bairros mindelenses de olhos postos no mar e na vizinha ilha de Sto. Antão. Mas há também neste conjunto caótico de ruas — parcas em passeios, pavimentadas de paralelos desordenados e salientes, muito limpas e salpicadas por escassas palmeiras, acácias, buganvílias e loendros que resistem estoicamente à falta de água — um travo encantador que vem do langor do povo, do exotismo do crioulo, da alegria da música, do calor da dança, da suculência dos pratos salpicados de malagueta, do ardor do grogue, da cor fascinante do mar, do clima ameno e constante, do reboliço do vento. No Mindelo os dias parecem ter mais horas, e talvez por isso tudo se faça devagar. E foi devagar, chinelando, saboreando a sua tão badalada morabeza, que me embrenhei na cidade e nos seus arredores, longe de imaginar que voltaria muito em breve. 

Na manhã que destinei à ida à Baía das Gatas, saí da Casa Café Mindelo, onde estava alojada, bem no centro da cidade, e percorri a rua de S. João em direção à Praça Estrela, lugar de onde saem aquilo a que os locais chamam os “carros de aluguer”, isto é, os pequenos autocarros que servem de transporte público. Nessa rua, sentado à soleira da porta estreita de um estabelecimento comercial, avistei o último leitor da volta ao mundo. Depois de feita a fotografia, convidou-me para entrar na pequena Papelaria S. João, de que é proprietário, e foi aí que conversámos.

Nascido e criado no Mindelo, o Amílcar foi para Portugal antes do 25 de Abril para estudar Economia no Instituto Superior de Economia. Essa experiência na “Metrópole” foi determinante para que se envolvesse seriamente no movimento de libertação de Cabo Verde. “Fui combatente pela Liberdade da Pátria”, disse-me, com manifesto orgulho. Sobre si, pouco mais me contou (embora eu tenha vindo a saber, muitos meses mais tarde, que este leitor, mais conhecido no Mindelo por Sr. Picau, já foi Secretário de Estado). Acrescentou, apenas, que também é autor: publicou um livro intitulado “As Aventuras de Tibúrcio” (premiado pela Sonangol) e escreve de vez em quando para jornais cabo-verdianos. Já sobre o livro que estava a terminar de ler, “A Jangada de Pedra”, e sobre o seu autor, José Saramago, Amílcar não poupou palavras e expressou-se com entusiasmo. “Adoro Saramago!”, afirmou, categórico. “Para mim é um dos melhores escritores portugueses da atualidade. Pela singularidade da escrita, pelo conhecimento da realidade profunda de Portugal, pelo retratar das coisas sem ornamentos, pelo realismo, o seu posicionamento, a sua irreverência em relação ao status quo. Em relação a este título em particular, fiquei entusiasmado com o retrato que faz da perseguição política, da miséria, das doenças... Passei a adorar Saramago a partir do momento em que entendi a sua técnica de escrita. Entendendo essa técnica, a escrita de Saramago é muito mais simples do que se pensa à primeira.  Um conselho que dou aos leitores de Saramago é que o leiam em voz alta. Foi dessa forma que entendi a sua técnica”. Antes d’ “A Jangada de Pedra”, Amílcar tinha lido “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e para ler pela primeira vez ou reler tinha à espera o “Memorial do Convento”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “A Bagagem do Viajante” e “Caim”.

Não posso deixar de me comover com o facto do último leitor da minha grande viagem estar a ler um autor português, e logo o nosso único Prémio Nobel da Literatura. Nada faria mais sentido! Nada se adequaria melhor ao fecho de um ciclo que marcou profundamente o meu percurso e o deste blogue. Até hoje, passado quase um ano sobre o fim da volta ao mundo, todas as palavras não me chegam para expressar o quanto fui feliz durante aqueles 168 dias. Espero que tenham gostado de viajar comigo e que os quase 70 leitores fotografados em 14 países vos tenham inspirado a ler ainda mais.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Cabo Verde — Leniza no Tarrafal


Cabo Verde foi o primeiro país africano onde alguma vez estive. Muito antes de ir a Marrocos ou à Tunísia, foi na ilha do Sal que passei férias dois anos seguidos — em 2001 e 2002 —, alojada num modesto lugar que Miguel Sousa Tavares tão bem descreve no seu livro "Sul": o Hotel Morabeza. A ilha do Sal é pequena e na época não havia muito para ver. Um dia bastava para percorrer os principais lugares de interesse turístico ou cultural, pelo que essas semanas foram sobretudo passadas na praia a ler, a comer e a dormir. Obviamente, embora pudesse dizer que já tinha estado em Cabo Verde duas vezes, não podia de forma nenhuma afirmar que conhecia Cabo Verde.

Ao regressar ao país em 2014, quis sobretudo colmatar essa falha, afastar-me dos locais quase exclusivamente de praia e desbravar o Cabo Verde menos turístico. Estipulei, portanto, que visitaria a ilha de Santiago, onde fica a Praia, a capital política e maior cidade cabo-verdiana; a ilha de S. Vicente, onde se situa o Mindelo, considerado o coração cultural do país; e a ilha de Santo Antão, porque é possível lá ir de barco a partir do Mindelo e porque muitos a apontam como a ilha mais bonita do arquipélago: é de todas a mais verde e a mais montanhosa, chegando a atingir quase dois mil metros de altitude no Topo da Coroa, um vulcão inactivo. Estive lá três dias e passou a ser, das quatros ilhas que conheço, a minha predilecta.

Os dias em Santiago foram passados em ritmo lento, entre os passeios pelo Plateau — o bairro localizado num promontório sobre o mar, de arquitectura e urbanismo que nos confundem ao ponto de acharmos, por momentos, que estamos numa vila portuguesa — e pela marginal até à Quebra Canela, a praia de areia escura onde dei uns belos mergulhos e me diverti a observar a multidão de badios (assim se chamam, em crioulo, os habitantes da ilha de Santiago) a brincar nas ondas, a fazer acrobacias no areal, a conversar ou tão só no seu vai e vem alegre. Estávamos em Agosto, tempo de férias para a maioria. A minha volta ao mundo acabaria dentro de poucos dias. Era tempo de balanço e de emoções muito contraditórias...

Houve duas ocasiões, porém, em que me afastei da capital, a primeira delas para visitar a Cidade Velha, declarada Património Mundial da Humanidade em 2009. Esta pequeníssima cidade, fundada pelos portugueses em 1460 para servir de entreposto no comércio de escravos entre os continentes africano, americano e europeu, foi até 1770 a capital do arquipélago e é tida como o berço da nação cabo-verdiana, por lá ter nascido o homem crioulo. Na Cidade Velha aportaram Vasco da Gama, no seu caminho para a Índia, Pedro Álvares Cabral, na ida para o Brasil e Cristóvão Colombo, na terceira viagem às Américas. Considerei particularmente emocionante caminhar pela Rua de Banana, a mais antiga da África subsaariana, imaginando que estas figuras ilustres da história universal fizeram o mesmo um dia; visitar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde pregou o Padre António Vieira; percorrer as ruínas da primeira Sé Catedral erguida em África pelos portugueses e subir à Fortaleza de S. Filipe da qual se tem uma vista soberba sobre toda a costa daquela parte de Santiago e se avista também o verdíssimo Vale da Cidade Velha, um oásis que contrasta com a aridez da restante paisagem.

Na segunda ocasião em que saí da cidade da Praia, dirigi-me ao Tarrafal, esse lugar que na minha imaginação era apenas um ermo onde existia o campo de concentração e nada mais. Por isso, foi grande a surpresa quando a Hiace que fazia as vezes de transporte público passou a toda a velocidade pela placa que sinaliza o recinto infame e não parou. Nesse preciso momento fiquei a saber que o Tarrafal é, antes de mais, uma vila piscatória onde existe uma das poucas praias de areia branca da ilha de Santiago e onde a indústria do turismo começa agora a despontar. Chegada ao centro da vila tive de voltar para trás a pé, chinelando pelo alcatrão que já fervia. Depois, segui por um caminho de terra batida até ao portão do complexo prisional. E então, o lugar que tinha imaginado materializou-se e a desolação que emana abateu-se sobre mim.

Ironicamente localizado num lugar chamado Chão Bom, o Campo de Concentração do Tarrafal foi criado pelo Estado Novo em abril de 1936, de acordo com os modelos nazis em vigor na época, e começou a funcionar em outubro do mesmo ano com a chegada dos primeiros prisioneiros: 152 portugueses sentenciados ao desterro por crimes políticos ou de rebelião. Durante os seus quase 40 anos de funcionamento, passaram por lá ou ali morreram condenados por delitos comuns, militantes comunistas, anarquistas, sindicalistas, republicanos democratas, espanhóis derrotados na guerra civil, alemães anti-nazis, militantes e combatentes dos movimentos africanos anti-coloniais e, após a independência de Cabo-Verde e por um período muito breve, elementos considerados cúmplices do antigo regime colonial. Ultrapassado o portão de ferro é possível subir à muralha que contorna todo o recinto de planta rectangular e observar lá do alto o complexo prisional: num primeiro plano, o fosso; depois um muro ligeiramente mais baixo debruado a arame farpado e lá dentro uma vintena de edifícios térreos pintado de ocre, a cor que acentua ainda mais a secura da terra circundante. Apenas duas ou três acácias rebeldes dão um ar da sua graça pontilhando a paisagem com flores rubras (ou insistem tão só em recordar o sangue que ali se derramou?). E à volta de tudo isto, a Serra Malagueta e o Monte Graciosa acentuam o isolamento do Campo de Concentração. 

Fiz a visita sob um sol severo e na quase absoluta solidão. Apenas a N., que viajou comigo, me fazia companhia. Não havia mais vivalma. Não se ouvia um som. Só os nossos passos na terra ou o ranger de uma ou outra porta que abríssemos. Não tivéssemos nós de pagar para entrar, dir-se-ia um lugar abandonado. Todos os edifícios estão vazios, à excepção de um ou dois que exibem placares com informação sobre a história do complexo ou imagens de alguns dos prisioneiros mais notáveis, com respectivos testemunhos breves. Fotografei o de José Luandino Vieira, o escritor angolano que um dia recusou o prestigiado Prémio Camões por "motivos íntimos e pessoais". Será intencional a falta de espólio em exibição? Ou não haverá espólio de todo? Trago essa dúvida comigo até hoje, assim como a sensação de que se poderia fazer muito mais por um lugar que não pode de maneira nenhuma cair no esquecimento.

Por incrível que possa parecer, foi neste lugar triste que me foi dada a oportunidade de fotografar a primeira leitora em Cabo Verde. Podia ter acontecido numa praia, numa esplanada ou até num banco de jardim, mas ocorreu à porta do Campo de Concentração. Leniza, habitante do Tarrafal e estudante do ensino secundário, costuma trabalhar no complexo prisional para substituir funcionários em férias. Leitora muito pouco habitual, diz preferir romances, mas foi a ler uma biografia — "Testemunho de um Combatente", de Pedro Martins — que a retratei. "Acho o livro muito interessante. O autor esteve preso aqui no Tarrafal. Conta como os carcereiros o tratavam, a tortura... E fala da morte de Amílcar Cabral", explicou.

sábado, 16 de maio de 2015

São Tomé e Príncipe — Kilza na Roça S. João


Numa das piores fases da minha vida — a que me confinou à cama de um hospital durante seis meses — os meus dias foram em parte alegrados pela presença de João Carlos Silva e do seu programa "Na Roça com os Tachos", na altura emitido pela RTP2. O "Sr. S. Tomé", como eu gosto de lhe chamar, tinha o mérito de me fazer rir, sonhar com as ilhas do meio do mundo e, até, de me abrir o apetite (coisa rara naqueles dias...). E a sua influência foi tal que até hoje, passados mais de dez anos, os seus petiscos ainda se comem na casa dos meus pais: a receita de camarão com banana tem vindo a ser reinterpretada pelo meu pai e o bolo de chocolate é a sobremesa com que a minha mãe adoça as reuniões de família. 

Mas João Carlos Silva, que se diz "cozinhador", é muito mais do que o homem que dá a cara pela gastronomia são-tomense. É também uma figura proeminente noutras vertentes do panorama cultural do país, já que se desmultiplica em projetos para valorização e promoção das artes, das letras e da história: fundou a Teia de Artes, uma escola onde se formam novos artistas; fundou a CACAU — Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopias, que tem como missão promover mudanças culturais e de mentalidades essenciais ao progresso do país; é um dos fundadores da Associação Roçamundo, que apoia o desenvolvimento educativo, cultural, económico, social e ambiental de S. Tomé e Príncipe; é presidente da Bienal de Arte e Cultura de S. Tomé e Príncipe e é proprietário e administrador da belíssima pousada que funciona na Roça S. João, em Angolares. Aí, no edifício que era, nos tempos da colónia, o centro administrativo da roça, gastronomia, cultura e ecologia fundem-se numa experiência que dizem ser única. Eu, confinada ao meu orçamento de viajante low cost, limitei-me a visitar o edifício e a saborear um delicioso café de S. Tomé enquanto regalava os olhos com a vista soberba que se tem da ampla esplanada. 

Ao chegar a S. Tomé, uma das minhas expectativas era ter a sorte de me cruzar com João Carlos Silva. Nele vejo uma lufada de ar fresco, esperança no futuro e um caminho de progresso. Se o tivesse encontrado, estou segura de que teríamos pelo menos falado longa e apaixonadamente sobre livros, porque o sei um entusiasta da literatura, nomeadamente da poesia. Mas aconteceu-me visitar o seu país numa altura em que se tinha ausentado. Ainda assim, no que a livros diz respeito, a ida à Roça S. João foi proveitosa porque colocou a Kilza no meu caminho. Esta professora de português estava a acompanhar um primo de férias em S. Tomé e antes de partir da roça para outro ponto turístico, aproveitou para ler um pouco no carro. "Adoro ler", disse-me. "Leio desde pequena e para onde vou os livros vão comigo. Os romances são os meus livros preferidos. Este, comprei-o porque o título me chamou a atenção e quis saber como era a história". O livro era "A Demanda d'Ewilan — As Fronteiras do Gelo".

quinta-feira, 23 de abril de 2015

São Tomé e Príncipe — Deolindo e o cacau


Foi em junho de 2003. Parti de férias para Pipa, no nordeste brasileiro, e levei na mala a primeira edição de "Equador", a estreia de Miguel Sousa Tavares na escrita de romances. Ao partir do Porto estava longe de saber que os dias longos e preguiçosos passados entre o areal da Baía dos Golfinhos e a rede do bungalow ficariam para todo o sempre associados à história do Cônsul Luís Bernardo. As 518 páginas do romance foram lidas em 4 dias. Com esse livro nas mãos, ajudada pela paisagem, pelos sons e pelo clima da Mata Atlântica, as minhas férias não se limitaram ao Brasil; estive também em S. Tomé e Príncipe. Demorei onze anos a lá voltar, mas cumpri a promessa feita a mim mesma no fim de tarde em que a chuva quente e pesada que desabou sobre Pipa parecia ter como único propósito acompanhar o pranto com que terminei o livro. Caro Miguel Sousa Tavares, li há pouco tempo no seu "Não se encontra o que se procura" que muitos anos após a publicação do romance, também chorou o fim de "Equador". Não pense que com isso está perdoado! A única coisa que o redime foi a inquietude que plantou no meu íntimo e que deu frutos riquíssimos. Não descansei enquanto não fui ver com os meus próprios olhos o que já conhecia através do olhar do nosso saudoso cônsul.

Aterrei na cidade de S. Tomé vinda da África do Sul. Pelo meio, duas escalas: uma na Namíbia e outra em Angola. Saí do aeroporto já passava largamente da meia-noite e não tinha onde dormir. Foi o funcionário que me tratou do visto que recomendou os serviços do Adelino, um taxista e guia turístico que me entregou, por sua vez, aos cuidados da D. Lurdes. Chegados ao bairro Água Arroz, foi ela que nos abriu o portão da casa construída com o suor de uma vida de emigração: primeiro em Portugal, depois na Austrália. E assim que a vi — com a sua comprida camisa de noite branca, um lenço na cabeça e o andar bamboleante provocado pelas dores nos ossos —, não mais deixei de a comparar à Tia Nastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo. Mãe de nove filhos e avó de inúmeros netos espalhados por três continentes (ninguém está em S. Tomé, nem mesmo o seu segundo marido), a D. Lurdes, sem perder o foco no negócio que a ajuda a pagar as contas, recebe os seus hóspedes com um toque maternal e uma deliciosa infomalidade que permite, a quem vem de longe, vislumbrar detalhes do dia a dia de uma casa são-tomense. Trago gravada na memória a manhã em que saí do meu quarto e encontrei, na corda de secar roupa, as tranças postiças da D. Lurdes penduradas ao sol junto às t-shirts que eu tinha lavado à mão na véspera. Com a ajuda da sua empregada Fofinha, uma adolescente enfezada pela pobreza, esta matriarca sem séquito preparava-nos todas as manhãs um pequeno-almoço com café, leite, pão, manteiga, marmelada, papaia e banana e numa ou outra ocasião chegou a cozinhar a famosa omelete de peixe e folha de micocó, uma erva aromática célebre pelas suas propriedades afrodisíacas. E sentava-se connosco à mesa para nos contar episódios da sua já longa vida, enquanto bebericava um chá contra a prisão de ventre.

No dia em que saí à rua pela primeira vez e comecei a desbravar as ruas da capital, os meus sentidos ficaram de tal forma baralhados que me senti mal disposta. Sentada na esplanada de um restaurante com vista para a baía de Ana Chaves, tive por momentos a impressão de ter voltado a Díli. O clima, a geografia e as cores da paisagem devolviam-me Timor. Mas, por outro lado, do interior do restaurante vinham os sons da RTP Internacional com ecos do escândalo BES, na mesa da família que almoçava atrás de mim bebia-se Super Bock e Compal, da minha própria mesa desprendia-se o aroma a azeite e vinagre vindo do galheteiro e por todo o lado ouvia-se falar português com um sotaque que me parecia ora algarvio, ora brasileiro. Havia cinco meses que não estava tão perto de Portugal e apercebia-me agora, de forma pungente, que não me apetecia regressar a casa. Cedi estupidamente a um sentimento de nostalgia pela viagem que ainda não tinha acabado e admito que a minha experiência em S. Tomé tenha sido afetada por esse estado de espírito. Costumo dizer que foram muitas as ocasiões durante a viagem em que chorei de alegria, mas foi S. Tomé que me arrancou as únicas lágrimas de tristeza. Dos 14 países onde estive no decorrer da viagem, este foi o que mais altos e baixos me provocou. Deslumbramento e nojo. Paz e revolta. Paixão e desprezo. Querer ficar mais tempo e não ver a hora de partir para bem longe. Foi quase um trauma. Não consigo parar de pensar em São Tomé, de falar sobre São Tomé, de me perguntar por que raio toda a gente, os são-tomenses incluídos, parece ter desistido de São Tomé. E embora tenha sido muito duro, tenho saudades de quase tudo o que lá vi e vivi. 

Tenho saudades daqueles momentos em que percorri as parcas estradas da ilha nas carrinhas Hiace amarelas e decrépitas que servem de transporte público e onde em vez dos 12 passageiros para os quais foram concebidas iam por vezes 25 pessoas. Nessas Hiace onde valia transportar tudo, onde suei, a minha pele colada à dos outros, conversei, ri e me aborreci por vezes (houve um passageiro que se recusou a ceder o lugar a uma mulher grávida), também ouvi aos altos berros kizombas que embalam até hoje as minhas memórias desses dias. Tenho saudades de todos os matizes de verde que pintam a densa floresta tropical cuja exuberância só encontra travão no momento em que toca o imenso mar. E nessa floresta, ainda virgem em tantas áreas do arquipélago, de cumes cobertos pelo céu pardo da gravana, eu vi brotar cascatas de água pura, vi erguer-se o absurdo pico do Cão Grande e aprendi a distinguir os pés de café e de cacau abandonados, as palmeiras que darão óleo, os coqueiros, os ocás, os embondeiros, os tamarindeiros, as árvores de figo porco e de fruta pão, as papaieiras e as lindas ravenalas. Tenho saudades do momento em que chegava às roças e era recebida com alegria pelos moradores, pelos poucos trabalhadores e pelas dezenas de crianças. "Brrranca! Brrranca! Doxi! Doxi!", gritavam, carregando nos "erres" e pedindo doces em crioulo. Outros, preferiam pousar para a câmara e dizer com ar grave: "Brrranca, tira-me um postal". Com estes miúdos sofregamente agarrados às minhas mãos, percorri os principais edifícios das roças, ainda tão dignos na forma como se mantêm erguidos, tenazes na sua postura aristocrata, apesar do lixo, apesar da podridão, apesar de todo o abandono do mundo. Na varanda do último andar do antigo hospital da Roça Água Izé — onde outrora nasciam crianças e agora se criam porcos, onde no passado se convalescia de malária e agora habitam famílias inteiras numa divisão transformada em apartamento, nos corredores onde antes circulavam médicos e enfermeiros e hoje os habitantes urinam por falta de saneamento básico —, a olhar para as telhas de barro do casario entremeado de palmeiras que descia até ao mar, desabei num pranto na frente do pobre Ali Babá, o empregado da roça que me mostrou tudo com tanto zelo e evidente orgulho. "Deixa lá, Sandra... Não fiques triste", foram as suas palavras de consolo. Tenho saudades das refeições que fiz nos restaurantes improvisados à beira da estrada — apenas uns panos e uns paus para delimitar o espaço, por vezes sem mesas ou cadeiras; aconteceu-me comer sentada no asfalto com o prato pousado nos joelhos. Aí comi peixe frito, arroz e matabala, tudo cozinhado sem quaisquer condições de higiene e a cada garfada deliciosa que levava à boca pensava que não tinha como escapar a uma doença. Mas que importava isso se o melhor de tudo era o brilho nos olhos da cozinheira a quem dávamos a distinção de provar dos seus petiscos? Tenho saudades dos mercados caóticos onde me abasteci de papaias, bananas e abacate que foram por vezes o meu jantar. Como, no meio de tanta cor e tanto produto fresco, podem imperar nesses mesmos mercados os cheiros mais nauseabundos? Tenho saudades das praias paradisíacas, tantas imaculadas, algumas refúgio de tartarugas marinhas, mas outras a servir de casa de banho e de lixeira das paupérrimas aldeias de pescadores. "Nós não temos latrinas, senhora!", disseram-me as mulheres, as mesmas que me perguntaram se não queria levar os meninos que traziam ao colo. Nalgumas dessas praias assisti ao espectáculo que é ver centenas de mulheres a lavar a roupa nos riachos de água doce que vêm do interior da ilha e desaguam no oceano. Jamais esquecerei a imagem do imenso areal negro, debruado a palmeiras e coberto de roupa colorida a secar ao sol. E tenho, também, saudades das longas conversas que tive com os são-tomenses acerca das suas vidas e do seu país: a falta de trabalho para os jovens, os políticos corruptos, o abandono a que tudo está votado, a emigração como alternativa. Aos mais velhos expliquei porque que me doía ouvi-los dizer que mais valia que os portugueses tivessem ficado. Aos mais novos sugeri que agissem para que algo mude. Mas no país pequeno onde a vida se leva "leve leve" e todos se conhecem, parece que as retaliações não são fora do comum...

Perante este cenário, supus que os livros não tivessem um papel relevante na vida dos são-tomenses. E julgo que não me enganei: o espólio da Biblioteca Nacional, pelo menos aquele que está à vista, é tão pobre que confrange; não me lembro de ver uma única livraria na capital; e os frequentadores do Instituto Camões pareciam estar mais interessados nos computadores e acesso grátis à internet. Porém, nos quase 15 dias em que lá estive, consegui fotografar dois leitores nativos. O primeiro foi o Deolindo. Encontrei-o quando ia a pé do bairro Água Arroz para a baía de Ana Chaves, e passei pela entrada da CECAB/STP — Cooperativa de Exportação da Cacau Biológico de S. Tomé e Príncipe. O Deolindo trabalha no cacau desde a infância e hoje é técnico agrícola especializado em cacau biológico. Na manhã em que falámos preparava-se para mais um dia de quebra de cacau, isto é, o momento em que o miolo é retirado do fruto. Mas antes de se dirigir ao campo e pôr as mãos à obra, fazia uma revisão dos seus conhecimentos com a ajuda do livro "Cacau - Tecnologia pós-colheita". Depois de seco, todo o cacau seria exportado para França onde a Kaoka produz deliciosos chocolates bio.

terça-feira, 7 de abril de 2015

África do Sul — Joanne em Joanesburgo


A viagem de Zanzibar para a África do Sul não correu bem. Aquilo que deveria ter sido um trajeto de meio dia com uma curta escala na Etiópia acabou por transformar-se numa odisseia de dia e meio que incluiu: um atraso de quatro horas num voo; discussões acesas com os funcionários de um aeroporto; um almoço forçado em Adis Abeda; uma escala no Quénia; uma avaria num outro avião que nos forçou a voltar para trás e uma noite passada em Nairóbi que se resumiu a três horas de sono.

Cheguei a Joanesburgo esgotada e o frio que se fez sentir mal saí do aeroporto não ajudou a levantar o ânimo. Voltei a lamentar a péssima ideia que foi chegar a Macau em junho e despachar para Portugal os poucos agasalhos que tinha na mochila. Apenas um dia depois de meter a encomenda no correio, ocorreu-que que na outra metade do mundo (aquela onde planeava passar três semanas muito em breve) se vive o pico do inverno entre julho e agosto. Passeie-me, portanto, pela magnífica "nação arco-íris" — Joanesburgo, Kruguer Park, Durban e Cidade do Cabo — de forma muito pouco glamorosa, vestida com várias camadas descoordenadas de roupa e por vezes envergando casacos e gorros emprestados. 

Fundada em 1886 por colonizadores britânicos, Joanesburgo tem a particularidade de ficar quase 1800 metros acima do nível do mar. Hoje, é não só a maior cidade sul africana — com cerca de 4 milhões de habitantes — como também a mais rica, já que constitui o principal centro financeiro, industrial e comercial do país. Mas essa riqueza, extremamente mal distribuída, as gigantescas bolsas de pobreza, a pesada herança do Apartheid e um conjunto complexo de fatores culturais estão na origem de tensões sociais que fazem de Joanesburgo um dos lugares mais perigosos de toda a África do Sul: assassinatos, raptos, assaltos violentos de toda a espécie e violações são coisas do dia-a-dia. Viver em Jozi — um diminutivo que não escamoteia as agruras da cidade — é, portanto, estar exaustivamente obcecado com a segurança. Uma obsessão que pauta e constrange qualquer atividade. Uma obsessão a que os meros visitantes não conseguem (nem devem!) ficar alheios. 


E depois há a raça, esse assunto que me atingiu como uma forte bofetada, abalou as minhas certezas, questionou os meus valores, provocou uma avalanche de dúvidas, colocou sob os holofotes a minha ignorância, trouxe à tona os meus preconceitos e me levou à náusea e às lágrimas. A raça, essa questão sobre a qual eu nunca quis refletir com seriedade, apesar de todos os meus estudos, apesar de todas as minhas leituras, apesar de todos os documentários e filmes a que assisti, apesar de todas as viagens que fiz e de todos os choques culturais que vivi. A raça, um tema que eu optei por nunca valorizar porque deste lugar privilegiado onde me encontro — uma branca da classe média, que teve a sorte de nascer num país rico, laico e liberal do ocidente — preferi afirmar sempre, com toda a convicção (e ingenuamente?), que a cor da pele pura e simplesmente não interessa. A raça — para mim um "não-assunto"; para milhões uma condenação —, o conceito com base no qual se instaurou um regime abjeto e se escreveu grande parte da história de um país extraordinário. 

Visitei Joanesburgo e outras cidades sul-africanas 20 anos depois de abolido o Apartheid e sete meses após a morte de Nelson Mandela. Na África do Sul a omnipresença de Madiba supera a de Deus. Venerado por todos — independentemente da cor da pele, credo religioso ou filiação partidária — a sua imagem está em todos os lugares, públicos ou privados, e a sua mensagem de luta, reconciliação e esperança decora os muros das cidades e as t-shirts dos jovens. Esforços legislativos são feitos tendo em vista a erradicação das desigualdades sociais e económicas criadas por 44 anos de políticas racistas. Largos milhares de sul-africanos saíram já da pobreza. E ainda assim a nação arco-íris, com a nova bandeira hasteada, o novo hino nacional na boca das crianças e os olhos postos num futuro que se quer cheio de oportunidades para todos sem excepção, luta e lutará durante muitas décadas para se libertar do lodaçal da segregação. 

Segurança e raça. Duas palavras que ditaram o ritmo dos meus dias em Joanesburgo. Porque fui forçada a procurar alojamento em bairros residenciais para brancos, delimitados por muros altos, cercados por vedações eléctricas e vigiados por câmaras. Porque os meus passos estavam limitados a uma poucas ruas onde também outros brancos caminhavam com relativa descontração. Porque não pude apanhar transportes públicos e até o taxista que me serviu de guia teve de ser recomendado por uma pessoa de confiança. Porque tive de ver o centro da cidade através dos vidros fechados de um carro cujas portas estavam sempre trancadas por dentro. Porque ainda há brancos racistas e negros racistas e brancos que se afirmam não racistas, mas que não gostam dos imigrantes nigerianos e negros que também dizem não ser racistas, mas também não gostam dos imigrantes nigerianos e afrikaners que ostracizam todos os que não são afrikaners e brancos que nem sequer são sul-africanos e odeiam afrikaners e mestiços que não sabem a que lado pertencem, porque os lados ainda existem!

Quando voltei a Joanesburgo, depois de quatro dias de safari no Kruguer Park, optei por ficar alojada numa pequena guest house em Melville, um bairro residencial nos arredores da cidade que é habitado maioritariamente por brancos. Ali predominam as casas térreas, os passeios com árvores frondosas, o pequeno comércio, bares e restaurantes para todos os gostos. É, aliás, um lugar onde à noite se vive uma certa "movida" e onde de uma forma geral é possível circular a pé sem grandes perigos. Todas as manhãs caminhava do meu quarto até ao Café de la Crème — um espaço de extremo bom gosto e excelente serviço, gerido por portugueses — onde tomei sempre o pequeno-almoço. E foi aí, por entre iogurtes com cereais, cafés e sumos de laranja que fiz a única fotografia para o Acordo Fotográfico na África do Sul.

Joanne lê muito porque para si ler é uma necessidade absoluta. Normalmente, anda sempre com dois livros na carteira e em casa, na mesinha de cabeceira, tem outros vinte, alguns novos, outros por reler. Aquele que lia na manhã em que a fotografei — Confessions of a Sociopath — fora uma compra por impulso. "Vi-o na livraria e despertou-me a atenção. É sobre uma mulher que sempre percebeu claramente que era diferente até ao dia em que alguém lhe diz que tem características sociopáticas. A partir desse momento esta mulher começa a investigar a fundo as origens da sua condição — será genético? Será social? Será fruto de algum trauma de infância? — e faz um relato do que é viver com esse mal. Este livro é, na verdade, uma autobiografia muito interessante, sobretudo se considerarmos que estatisticamente uma em cada vinte e cinco pessoas tem traços de sociopatia, que podem ir de ligeiros a severos. E o mais curioso é que a sociopatia não tem tratamento. Não há medicação ou terapia que ajude. Nasce-se assim e pronto".

Fui feliz na nação de Mandela e quero muito lá voltar. Ficou tanto por ver, tanto por fazer. E ficaram lá amigos, também. A África do Sul deslumbrou-me com a sua beleza natural, enriqueceu-me com a sua história e cultura, comoveu-me profundamente ao proporcionar-me aquela que foi, talvez, a experiência humana mais extrema da minha vida (e sobre a qual ainda não devo escrever). Mas, passados tantos meses sobre a minha estadia dou-me conta, agora que tento com tanta dificuldade contar-vos uma milésima fração do que experienciei, o quanto é complexo o nó que ainda trago por desatar no peito. Terá sido por isso que não quis fotografar mais? Não sei... Se calhar fui apenas preguiçosa.

domingo, 22 de março de 2015

Zanzibar — Fabienne & Michelle em Kiwengwa


A 40 km de Stone Town, depois de percorrer uma estrada que se dirige para leste até à costa oposta da ilha, fica Kiwengwa, uma aldeia pobre que me era totalmente desconhecida até ao dia em que, ao fim de quase quatro meses a viajar, escrutinei o mapa de Zanzibar em busca de um lugar para desfrutar de uma semana de praia e descanso. 

Cheguei ao Baby Bush Lodge a meio de uma tarde de domingo. Contrariamente à entrada de todos os outros hotéis de luxo, cujos grandes portões se viam junto à estrada de alcatrão que o táxi percorreu, o acesso a este meu humilde alojamento fez-se descendo um estreito caminho de cabras ladeado por casas pobres, algumas sem portas, janelas ou telhados: apenas quatro paredes erguidas e deixadas no reboco. O carro parou junto a um pequeno portão branco rodeado de entulho. Isamíli, um dos empregados, veio imediatamente ter connosco e trouxe consigo um sorriso amplo, honesto que foi uma das muitas alegrias dos dias serenos que ali passei. Pegou na bagagem, abriu o portão e segui-o por uma tosca escadaria de madeira e corda que conduzia à receção mais simples e despojada onde alguma vez estive. Por cima das nossas cabeças apenas um amplo telhado de folhas de palmeira que cobria também a contígua esplanada do restaurante e o grande lounge repleto de vastos sofás. Ali não há qualquer muro, qualquer janela, qualquer porta. Dali, daquele estrado de madeira elevado sobre estacas, só se vê uma frente de palmeiras imperiais. E depois delas, o areal mais branco e o mar mais belo. 

Neste pequeníssimo hotel sui generis plantado nas margens do Índico não há casais europeus em lua de mel. Na hora da verdade, são poucos os que aceitam "o amor e uma cabana", ainda que no paraíso. Porque ficava numa cabana o tosco quarto que me coube: a casa de banho sem porta; o chuveiro que pendia da parede sem que houvesse uma banheira ou um prato de duche; a água, que embora quente, era salobra e mal me retirava o sal da pele e do cabelo depois da praia; a cama, de colchão finíssimo e lençóis que não abri, tendo preferido dormir no meu saco-cama de cetim; o mosquiteiro que cheirava a maresia; a humidade que se entranhava em tudo ao anoitecer porque nada naquela divisão era estanque; o varandim com duas cadeiras rudimentares feitas de pele de cabra e a mesa de apoio acabada de pintar que empestava tudo com cheiro a tinta. Era assim a minha cabana erguida pelas mãos de um punhado de homens da Zanzibar — absolutamente genuína. 

Em Kiwengwa, apesar do muito que podemos fazer para nos entretermos, o tempo passa devagar, como julgo ser apanágio de qualquer paraíso na terra. Caminhar na praia infinita e maravilhar-me a cada passo com a textura finíssima da areia — cuja brancura, qual farinha, fere os olhos sob a luz do sol — foi das minhas atividades preferidas. Assim como a ida de canoa até aos corais onde observei a arte de apanhar os pequenos polvos que comi nessa mesma noite ao jantar. Ou ainda, a viagem de barco que me levou para longe da costa e onde, num mergulho, descobri a vida multicolor que há sob as águas do mar. E também a visita à aldeia de pescadores que esculpem dhows do tronco de uma única árvore. 

Para a Fabienne e a Michelle, a estadia de quinze dias em Kiwengwa serviu, ainda, para ler. Estas duas suíças, enfermeiras de profissão, chegaram ao Baby Bush Lodge um dia depois de mim, vindas de Moçambique. Tinham tirado três meses de férias para uma viagem que começou na África do Sul e que terminaria ali, em Zanzibar, onde passariam os últimos trinta dias. Naturalmente, passámos algum tempo à conversa sobre as nossas experiências enquanto "mochileiras" e cheguei a emprestar-lhes o meu computador para que acedessem à internet. Os seus iPhones tinham-lhes sido furtados logo no início da viagem, quando dormiram num hostel na Cidade do Cabo... Fabienne (à esquerda, na foto) contou-me que lê bastante, mas que é nas férias que aproveita ainda mais os livros. "Das Rache Spiel" — algo como "O Jogo da Vingança", um thriller sobre um grupo de quatro homens que se reencontram trinta anos depois de terem cometido um crime — era o quarto livro que lia nos dois meses que a viagem já levava. Michelle, por seu turno, admitiu que só mesmo nas férias é que lê e estava entretida com "Flieh, Wenn du Kannst" ("See Jane Run", no original em inglês), um romance sobre as relações e intrigas familiares. 

Voltei ao meu quarto apenas para pousar a câmara e dirigi-me, depois, para a praia. O sol começava a pôr-se na nossas costas e levantou-se um vento forte que fazia inclinar as palmeiras e ondular as túnicas de xadrez vermelho e preto dos Massai que trabalham nas lojinhas montadas no topo do areal. Da aldeia vêm crianças brincar comigo. Riem às gargalhadas e mostram as fileiras de dentes desalinhados. O mar encrespou-se e ouço um ligeiro rebentar de ondas. Penso no jantar que me espera, provavelmente uma lagosta envolta num molho de caril aveludado. Ou uma salada de polvo tenro. Vai para quatro meses que não pego num livro e estou em paz com isso. Porque a leitura que eu mais queria fazer era esta: perder-me no mundo onde vivo e que é tão belo que chega a doer.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Zanzibar — O cônsul alemão



Era uma vez uma princesa chamada Sayyida Salme, que nasceu em Zanzibar em 1844. Foi a mais nova dos 36 filhos do Sultão e aprendeu a escrever em segredo por essa ser uma habilidade proibida às meninas do seu tempo. Após a morte dos pais a princesa, já tornada mulher, muda-se para Stone Town. É aí que se apaixona pelo vizinho Rudolph, um comerciante alemão de quem fica grávida aos 22 anos. Um escândalo. Decididos a viver esta paixão até às suas últimas consequências, o casal foge numa fragata para Aden, uma colónia britânica no Médio Oriente. É aí que Salme se converte ao Cristianismo antes do casamento com Rudolph. Infelizmente, o bebé de ambos viria a morrer em França, quando iam a caminho da Alemanha. Mas, uma vez instalados em Hamburgo, Salme e Rudolph têm mais três filhos: um menino e duas meninas. Viveram felizes até que a morte súbita de Rudolph deixa Salme em dificuldades financeiras, uma vez que as autoridades alemãs não lhe permitem o aceso à herança do marido. Para fazer face às despesas Salme — que entretanto adotara o nome Emily Ruete — escreve “Memórias de Uma Princesa Árabe de Zanzibar”, considerada a primeira autobiografia de uma mulher árabe. O livro viria a ser publicado na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Salme voltou a Zanzibar duas vezes antes de falecer na Alemanha em 1924, aos 79 anos.

Foi esta a história que me veio de imediato à cabeça na manhã em que conheci Saada na loja da Adra, numa das vezes em que voltei à Rua Gizenga para visitá-la. À semelhança de Salme, também Saada se apaixonou por um alemão. Mas desta vez o romance começou na Alemanha e migrou, depois, para Zanzibar. Mulher confiante, comunicativa e desinibida, convidou-me a ir a sua casa conhecer Erich, assim que soube do Acordo Fotográfico e dos motivos que me levavam a viajar. Explicou-me que o marido, na sua qualidade de cônsul alemão, sabia imenso sobre a história de Zanzibar, tendo mesmo escrito um pequeno livro sobre a ilha. E então lá fui eu, atrás dela, pelas ruas estreitas de Stone Town, umas vezes escuras, outras luminosas, observando como Saada caminhava com um saco de compras numa mão enquanto a outra, livre, ajeitava constantemente o lenço que lhe escondia o cabelo. "Não costumo cobrir a cabeça", disse, "mas como estamos no Ramadão uso o lenço por respeito". 

A casa onde Saada e Erich moram fica na Kenyatta Road, uma das principais vias de Stone Town. O edifício, antigo, tem à porta uma grande árvore e no primeiro andar um varandim debruado a madeira rendilhada. A entrada faz-se por uma porta ampla de madeira que dá acesso direto à sala de estar desafogada. No interior, pouca luz. As janelas e portadas estão fechadas para afastar o calor do meio-dia. Saada chama pelo marido, diz-lhe qualquer coisa que não entendo e desaparece numa outra divisão da casa. Não a verei mais. E então surge Erich, visivelmente surpreendido com a minha visita, farta e alvoraçada cabeleira branca e meio sorriso. Pareceu-me tímido, mas uma vez sentados nas velhas poltronas a conversa fluiu. Falei-lhe do meu percurso até ali, das minhas primeiras impressões sobre Zanzibar e quis saber, depois, como tinha ele ido ali parar. "Sou arquiteto e a minha ligação ao continente africano vem de há muito", contou-me. "Estava a trabalhar no Gana quando me convidaram a ir para o Quénia, onde leccionei e fui diretor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Nairobi. Daí parti numa missão das Nações Unidas para Dar es Salaam, na Tanzânia, onde fui também trabalhar na Escola de Arquitetura. Estávamos nos anos 80. E depois, já no fim da minha carreira, surgiu a oportunidade de vir para Zanzibar de novo pela ONU, para participar no projeto de reconstrução de Stone Town. Os edifícios históricos estavam a colapsar. Aqui, os edifícios a colapsar são uma tradição! Muitos perderam-se irremediavelmente... Quando, por fim me reformei, já cá vivia com a minha mulher, e foi então que o Embaixador alemão na Tanzânia me nomeou Cônsul de Zanzibar. Hoje em dia, uma das minhas principais tarefas é zelar pela manutenção do cemitério alemão que aqui existe. Sabe, é que os cemitérios são os nossos melhores livros de história."

Fotografei-o com o seu livro "Where to, Fair Beauty? A Zanzibar Guide" no colo. É uma edição de autor artesanal, feita de folhas fotocopiadas e coladas à mão. Antes de me vir embora, comprei-lhe um exemplar. Custou-me 25 mil Xelins. De oferta recebi um outro livro, muito pequeno, onde Erich compilou poemas da sua autoria sobre Zanzibar. Chama-se "Smell of Salt". 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Zanzibar — Adra, em Stone Town


Zanzibar. Experimentem proferir a palavra baixinho, como se a segredassem ao ouvido de alguém. Zanzibar. Sintam a língua roçar o céu da boca ao sibilar as duas primeiras sílabas. Notem como os lábios se unem e voltam a abrir e a língua rola quando a palavra termina. É como o início de um beijo lento. Zanzibar. Ouvi-la transporta-nos para um lugar sensual e langoroso, onde alternam a luz quente do sol e a sombra fresca das casas. Pronunciá-la é ansiarmos pela ilha muito antes de lá chegarmos, é entregarmo-nos de corpo e alma ao seu chamamento, é abraçar todo o seu exotismo, é encarnar toda a sua volúpia. Zanzibar é ideia fixa.

Parti da Índia, fiz escala no Qatar e passei algumas horas no Quénia. Viajei quase vinte e quatro horas para aterrar em Zanzibar City, a capital, numa noite de apagão. A cidade estava mergulhada na total obscuridade havia quase uma hora. As janelas das casas eram negrume e as ruas, deserto. Penso pela milésima vez no aviso feito nos vários livros que li ao preparar a longa jornada: mulheres que viajam sós devem evitar chegar a qualquer lugar à noite. O  táxi abranda e entra numa rua estreitíssima de terra batida e lixo no chão. Cheguei a duvidar que pudesse abrir a porta do carro sem tocar num dos muitos portões fechados à esquerda e à direita. O taxista garante que de dia a rua é uma importante artéria comercial, cheia de gente e de vida, mas pergunta por que razão fico naquele hotel. Esforço-me por responder soltando o aperto que trago na garganta: as críticas na net são boas, é barato e tem wi fi gratuito. Desço e entro com a mochila numa receção humilde iluminada por uma lanterna. Dois jovens negros e de sorriso branquíssimo estão atrás do balcão. Faço o check in e subo ao terceiro andar. Curiosamente, há luz no meu quarto. Abro a cama, fecho o mosquiteiro e adormeço em África. Zanzibar vigia com paciência o meu sono, na certeza que no dia seguinte me terá, arrebatada, a seus pés. 

Ainda a saborear o café do pequeno-almoço, assomo-me a uma das janelas do último piso do hotel. Vejo uma sucessão de edifícios brancos, minaretes e algumas torres de igreja que se espraiam até ao porto. Desse ponto em diante, estende-se o Índico turquesa que lá muito à frente toca o céu azul. Um risco alvo nesse horizonte anuncia outra ilha. É cedo, o sol já vai alto, a luz forte espalha-se e tudo brilha. Antes de sair para a rua peço aos rapazes da recepção para assinalarem o hotel no mapa da cidade. Pergunto por lugares que não posso deixar de visitar e certifico-me que não é perigoso andar na rua até tarde. "Hakuna matata!", respondem. Sem problema. Não faz mal. Tudo bem. As minhas primeiras palavras em suaíli. 

Transponho a porta do hotel e estanco perante o espetáculo: a rua inóspita da véspera desapareceu; à minha frente uma explosão de cores, sons, cheiros e gentes na azáfama de um novo dia em que parece haver muito para fazer. Dos portões antes fechados, jorram agora milhares de produtos: roupa, calçado, artigos de higiene e mercearia, especiarias, utensílios de cozinha, electrodomésticos, artesanato e tantas, tantas outras coisas; ouve-se música, grelha-se peixe, coze-se um pão achatado e fino; passam motas com carregamentos que desafiam a lei da gravidade e homens que puxam carrinhos de mão atulhados e gritam para que os outros se afastem do seu caminho; há mulheres de mãos tatuadas, que carregam os filhos às costas e se vestem como o arco-íris, numa combinação alucinada de cores e padrões; gritam-se pregões em estéreo; os vendedores cumprimentam-me, convidam-me a aproximar-me, querem que eu seja a primeira cliente do dia, para dar sorte. "Jambo!", exclamam, estendendo-me a mão. De tanto ouvir este cumprimento a que não sei retorquir, pergunto a um deles o que significa e o que devo dizer de volta. "Si jambo!", explica. Aprendo que estar em Zanzibar é passar o tempo de mão estendida, a cumprimentar homens, mulheres e crianças enquanto se repete a cantoria: Jambo! (Como está?) Sí jambo! (Bem, obrigada!). Caminho, embalada por este refrão e mergulho no labirinto de Stone Town, o bairro antigo de Zanzibar City.

A riquíssima história e herança cultural de Stone Town — a que não é alheia a presença portuguesa entre os séculos XVI e XVII por causa do cravinho, o ouro de Zanzibar — resultam da primorosa fusão de elementos árabes, persas, indianos e europeus. Este caráter único justificou a sua elevação a Património Mundial da Humanidade em 2000. Por isso, embora nunca de forma obstinada, procurei visitar aqueles pontos considerados obrigatórios numa primeira ida à cidade. "Pole Pole", o equivalente suaíli ao nosso "devagar, devagarinho", fui ao exuberante mercado Darajani, ao antigo mercado de escravos, à Catedral Anglicana, à Catedral de S. José, à fortaleza — o edifício mais antigo da cidade, construído no século XVII para repelir os ataques dos portugueses, entretanto escorraçados —, ao palácio do Sultão e ao lugar onde nasceu e viveu Freddy Mercury. Um outro palácio, chamado House of Wonders, estava fechado para restauro e não me foi permitida a entrada nas mesquitas. Consta que existem 51 em Stone Town, mas estávamos na véspera do Ramadão. Dei-me ao luxo, ainda, de pagar umas boas dezenas de dólares por uma visita a uma quinta de especiarias (um desafio para os sentidos que recomendo) e por uma manhã passada na paradisíaca Prison Island, a tal ilha que se via das janelas do hotel e onde pude aproximar-me, pela primeira vez na vida, de tartarugas gigantes e centenárias. 

Os dias restantes foram passados sem nada planeado. Esquecer o mapa e deixarmo-nos perder em Stone Town é algo que qualquer guia vos recomendará. Não o fazer é viver aquela cidade mágica pela metade. Demorei-me nas ruelas estreitas, onde admirei e percorri com os dedos os rendilhados das tradicionais portas de madeira maciça. Explorei as lojinhas, a maioria pensadas para os turistas, mas onde algum do artesanato vendido é de inquestionável qualidade, sobretudo os desenhos que retratam pormenores da cidade. Entrei várias vezes numa joalharia que vendia Tanzanite, a pedra preciosa de que nunca tinha ouvido falar. Deliciei-me ao almoço com caril de lagosta a um preço irrisório, nas horas mais quentes tomei café com especiarias à sombra de uma esplanada e assisti, na Catedral de S. José, a um casamento para o qual não fui convidada. Da cerimónia, toda celebrada em suaíli, só entendi as palavras "família" e "sacramento", ditas assim mesmo, no nosso português. E terminei sempre os passeios no Jardim Forodhani onde, numa esplanada sobre o mar, comi chamuças, bebi cerveja Kilimanjaro e me diverti com a multidão de rapazes que, depois da última oração do dia, se reúnem nas muralhas para dar saltos acrobáticos para a água. Foi dessa esplanada, ao som da música de Youssou N'Dour, que assisti ao incêndio que o sol despoleta quando mergulha no Índico. Os tons de vermelho que se espalham pelo céu parecem impossíveis e realçam ainda mais o perfil dos dhows, os elegantes barcos de vela triangular que àquela hora regressam a terra.

Nestas deambulações, percorri várias vezes a Rua Gizenga, antigamente chamada Rua dos Portugueses. Ao passar pela janela de uma das lojas vi uma mulher de costas, que lia o que me pareceu ser o Alcorão. Tirei-lhe uma fotografia e depois distraí-me a olhar para o resto de uns azulejos que cobriam parte da fachada do edifício antigo. Eram-me tão familiares... Foi então que a ouvi dizer, em inglês: "São azulejos portugueses". Voltei o rosto para a pessoa encostada à ombreira da porta. Era a mulher que lia. Era a Adra. Via-lhe agora o rosto e o sorriso com que me falava de algo português sem saber a minha origem. Expliquei-lhe de onde vinha e por entre a festa que fizemos e o aperto de mãos que demorámos a desfazer, fomos entrando na loja onde em tempos funcionou o consulado português de Stone Town. E fiquei, ignorando o tempo que passava, para conversar com a Adra, contar-lhe da minha vida e saber da sua. Adra, muçulmana sexagenária, falou-me sobretudo do amor que tem pela ilha e do quanto foi difícil a vida no período que se seguiu à revolução de 1964. Nesse ano, no seguimento de um processo eleitoral polémico, a maioria africana expulsou o sultão de Zanzibar do governo de minoria árabe. O conflito armado, breve mas violentíssimo, teve também graves consequências para a comunidade indiana. Estima-se que em poucas horas tenham morrido cerca de 20 mil pessoas. "Na época, o meu pai decidiu ficar em Zanzibar porque esta era a sua terra e aqui estavam enterrados os seus mortos. E apesar de todas as dificuldades, dou graças ao facto de termos ficado. É aqui que sou feliz e daqui nunca saí, embora tenha família espalhada por todo o mundo", disse. 

Contei-lhe do Acordo Fotográfico, é claro. Falámos sobre livros e sobre a importância que a escola tem no fomento do hábito de ler. E pedi-lhe uma fotografia. Recusou-a com toda a gentileza e não tive outra hipótese que não resignar-me. Deixou-me, porém, fotografar o seu livro sagrado. Estávamos no Ramadão. Um dia, hei-de de regressar. Insha'Allah!

Mais fotos de Zanzibar aqui.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Goa — Leanne, na Biblioteca Central


Foi o Sr. Roy Botelho — proprietário e gerente da hospedaria onde dormi em Pangim —, que me recomendou com entusiasmo uma visita à Biblioteca Central de Goa. Isto teria bastado para que me dirigisse de imediato para a zona de Patto, onde se ergue o edifício, mas os elogios que fez ao projeto de arquitetura e à sua modernidade aguçaram ainda mais a minha curiosidade. Soube depois que a obra é da autoria de Gerard d'Cunha, um muito premiado arquiteto goês que, curiosamente, foi casado com Arundhati Roy, a autora vencedora do Booker Prize em 1997 com o romance "O Deus das Pequenas Coisas". Após um copioso pequeno-almoço de sabores goeses que Roy me viu sorver com prazer, pus a mochila às costas, deixei o bairro das Fontainhas, atravessei a ponte azul e branca sobre o rio de Ourém e entrei no bairro de Patto onde o horizonte, num contraste evidente com o resto de Pangim, já é dominado por um conjunto de prédios altos e recentes. Aí, numa área onde ainda permanecem muitos terrenos vagos a pedir mais construção, eleva-se a biblioteca, um grande edifício de seis andares e janelas amplas que deixam adivinhar um espaço interior cheio de luz natural. 

De acordo com a informação disponiblizada no site da instituição, a Biblioteca Central de Goa é a mais antiga da Índia e conheceu, desde a sua fundação, várias designações: Pública Livraria (1832); Biblioteca Pública (1836); Biblioteca Nacional de Nova Goa (1897); Biblioteca Nacional Vasco da Gama (1925); Biblioteca Nacional de Goa (1959) e, nos dias de hoje, Biblioteca Central de Goa Krishnadas Shama, nome do fundador da literatura concani, a língua oficial deste estado. Estabelecida em 1832 pelo vice-Rei D. Manuel Francisco Zacarias de Portugal e Castro, a biblioteca beneficiou em 1834 da transferência dos espólios bibliográficos dos conventos e ordens religiosas extintas por ordem do monarca D. Pedro IV. Muitos anos mais tarde, em 1952, adquiriu o estatuto de Depósito Legal o que lhe permitiu enriquecer ainda mais a sua coleção com obras publicadas em Portugal e noutras províncias ultramarinas. Estima-se que até 1961, ano em que Portugal perdeu Goa para a União Indiana, a biblioteca tenha acumulado cerca de 40 000 livros e jornais em inglês, francês, latim, concani, marathi e português, claro. Aliás, é importante que se diga que a Biblioteca Central de Goa é considerada o maior depósito de livros em português de toda a Ásia. Atualmente conta 180 000 obras, a maioria em Hindi e Inglês.

Uma vez dentro da biblioteca, muito para além da dimensão e modernidade do edifício, impressionam sobretudo a forma como as diferentes áreas se distribuem e organizam no espaço, assim como o leque de serviços que a instituição coloca ao dispor dos cidadãos. Há razões óbvias e justificadas para que todos os goeses tenham orgulho nesta magnífica biblioteca. No rés-do-chão, a par da recepção, da área de cacifos e do balcão para devolução de livros requisitados, encontra-se a secção de publicações periódicas — revistas e jornais —, a zona de livros em braille e também uma galeria de arte que incentiva os artistas locais a mostrar o seu trabalho. E depois, de andar em andar, sucedem-se as surpresas: uma área dedicada em exclusivo às crianças, com 10 000 livros, brinquedos, computadores com acesso à internet, uma sala para projeção de filmes e respetiva coleção de DVDs e salas de estudo que funcionam vinte e quatro horas por dia; um centro de conferências e locais de trabalho equipados com secretárias e computadores com ligação à internet, que estudantes e investigadores podem alugar mensalmente; um centro para digitalização de obras antigas e um laboratório onde se aplicam as tecnologias mais avançadas na preservação dos livros; um piso inteiro dedicado às obras adquiridas durante o período colonial — e onde pude visitar uma exposição temporária de livros e fotografias sobre a luta pela independência de Goa — e, naturalmente, centenas de estantes intercaladas com aprazíveis áreas de leitura onde todo o espólio da biblioteca está ao alcance de qualquer apreciador de livros.

Sentada a uma mesa junto a uma grande janela por onde entrava a luz forte do sol, encontrei a jovem Leanne, Couto o seu apelido. Não pude deixar de lhe perguntar se falava português. Respondeu-me que não, mas contou-me que o pai ainda fala. Aceitou com um sorriso a minha sugestão de pedir ao pai que lhe ensinasse um pouco com o argumento de que saber português ainda é uma mais-valia nos dias que correm. Mas fiquei convencida que esse não é um empreendimento que a entusiasme por ai e além. Na altura em que conversámos a Leanne, quase a fazer 18 anos, estava mais empenhada em duas outras coisas: aproveitar ao máximo o seu primeiro ano na faculdade como estudante de Biotecnologia e retomar o hábito de ler. "Hoje as aulas acabaram mais cedo e então decidi passar pela biblioteca. Adoro ler, mas nos últimos dois anos quase não pude fazê-lo por causa dos estudos. Agora que consegui entrar para a faculdade estou a retomar essa rotina". Estava a ler as primeiras páginas de "The Time of My Life" ("O Meu Encontro com a Vida", na edição portuguesa), um livro da irlandesa Cecelia Ahern, que Leanne julgou ter um título apelativo. "Prefiro romances. Há pouco tempo li e gostei muito do livro 'Beautiful Disaster', ('Um Desastre Maravilhoso'), mas não posso dizer que seja o livro da minha vida. Ainda não sou capaz de fazer essa escolha", afirmou. 

Fotos da Biblioteca Central de Goa, aqui.