quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Niterói - Hanna & Bach



Não ando a fazer esta viagem pelo mundo sozinha. Tenho a sorte de ter por companheira a minha boa amiga Nilza, que é arquitecta de profissão. Quando decidiu embarcar nesta aventura comigo (mais uma!), eu já tinha alinhavado o trajecto, por isso o meu mote acabou por ser também o seu: enquanto eu parti para fotografar leitores em países de expressão portuguesa, ela partiu para fotografar arquitectura nesses mesmos países (podem visitar o seu bloque em mundoarquitecturalusofonia.blogspot.pt). Deste ponto de vista, visitar as quatro maiores cidades do Brasil é também visitar as obras dos seus maiores arquitectos, Óscar Niemeyer à cabeça. No que me diz respeito, a apoteose foi Brasília, mas também aguardava com grande expectativa a visita ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói, objectivo que tinha falhado em novembro de 2004 porque me aconteceu estar de férias no Rio de Janeiro na precisa semana em que os funcionários do Ministério da Cultura se encontravam de greve, o que obrigou várias instituições a fechar portas. Aproximarmo-nos do promontório rochoso e ver surgir este edifício futurista que parece pairar sobre o mar é arrepiante. Sempre o comparei a um óvni, mas Niemeyer explica que se inspirou numa flor para desenhá-lo. O jogo entre o branco dominante, o apontamento vermelho da rampa de acesso, o vidro da janela panorâmica, o espelho de água e os diferentes tons de azul do céu e do mar são hipnóticos. O interior do edifício é notável, mas o verdadeiro espectáculo é apreciá-lo de fora. Foi com certeza o que pensou a Hanna, que depois de uma visita às exposições decidiu ler um pouco de frente para o MAC e para o mar, enquanto esperava pelo namorado de quem se tinha perdido. Esta holandesa, que estava de férias no Brasil pela primeira vez, é produtora numa rádio de música clássica e ao regressar a Amesterdão ia começar a trabalhar num programa sobre Bach. Decidiu, por isso, aprofundar os seus conhecimentos sobre este compositor através do livro "J. S. Bach — A Life In Music". Assim se reúnem num só post dois monumentos: um da música clássica e outro da arquitectura moderna.

Mais fotografias desta leitora e do MAC aqui.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

Rio de Janeiro - Márcia, a investigadora



O Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro foi fundado em 1837 por um grupo de emigrantes portugueses com o objectivo de promover a cultura na então capital do Brasil e abriu as portas ao público em 1900. No interior deste edifício exuberante de estilo neomanuelino, que teve o Mosteiro dos Jerónimos como principal fonte de inspiração, encontram-se actualmente mais de 350 mil livros, alguns dos quais verdadeiras relíquias editoriais. Esta foi, talvez, a principal visita que deixei por fazer quando fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez. Volvidos dez anos, não deixei escapar a oportunidade de realizar mais este sonho. Entrar na sala de leitura deste Real Gabinete é um marco na vida de qualquer um, quer goste de livros ou não. Ninguém consegue ficar indiferente ao efeito mágico que resulta da combinação entre a arquitectura do edifício e as lombadas coloridas dos milhares de volumes que forram as paredes do rodapé ao teto. Podemos investir horas a deambular pelas prateleiras dos vários andares, espreitar títulos ao acaso e surpreendermo-nos com as descobertas feitas. A mim calhou-me também a sorte de descobrir a Márcia naquele cenário espectacular. Esta carioca que é professora de Literatura na Universidade de São Paulo e que tem três livros publicados em Portugal, dispõe de um ano para trabalhar em exclusivo numa tese de pós-doutoramento que incide sobre a vida dos pais de D. Sebastião, os príncipes D. João e D. Joana de Áustria. O objectivo é reconstruir um período da História através do cruzamento e análise de textos literários e poéticos da época como, por exemplo, os documentos redigidos em torno do casamento dos príncipes, sobre a morte de D. João ou mesmo o livro que consultava na manhã em que nos conhecemos: "Anedotas Portuguesas e Memórias Biográficas da Corte Quinhentista Histórias e Ditos Galantes que Sucederam e se Disseram no Paço". Leitora por obrigação, por causa da docência, mas acima de tudo leitora por gosto, a Márcia afirma "que é uma sorte poder trabalhar com o que dá prazer" e que acaba sempre por orientar as suas leituras e os seus estudos para o período que mais a fascina: o século XVI. 

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sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Rio de Janeiro - Fabiana num casamento blindado


Do pátio e das janelas da casa onde fiquei alojada no Rio de Janeiro via-se o Corcovado. Por isso era possível avaliar, logo pela manhã, se o dia estaria bom para visitar o Cristo Redentor. Sempre que a estátua amanhecia envolta em nuvens, a subida ficava adiada para o dia seguinte. Chegar lá acima e não desfrutar de uma das mais belas vistas do mundo seria lamentável. Na manhã em que fiz esta fotografia, o céu estava de novo coberto por nuvens densas o que me levou a optar pela visita ao Real Gabinete Português de Leitura. O Cristo teria de esperar. Ao entrar no autocarro que me levaria até ao centro do Rio de Janeiro, fui sentar-me ao lado da Fabiana que lia "Casamento Blindado - O Seu Casamento à Prova de Divórcio", um livro onde o casal de autores, Renato e Cristiane, defende que é possível ter um relacionamente feliz e duradouro. "Há mais de um ano que queria comprar esse livro, que toda a gente diz que é muito bom", contou-me. "No domingo passado consegui comprá-lo na igreja que frequento. Comecei a ler agora, mas só pela introdução já vi que é uma boa ferramenta para ajudar no casamento". Questionada sobre os seus hábitos de leitura, esta carioca admitiu que não lê com muita frequência, com excepção da Bíblia, o seu livro de eleição, e de outros livros da igreja, nomeadamente um pequeno volume que trazia consigo na bolsa e cujo aspecto denunciava o muito uso: "O Poder da Mulher Que Ora". "Leio e releio. Tem sido uma armadura para a minha vida. Gosto de ter ele sempre comigo. Não comprei quando tinha problemas. Comprei para não ter problemas", esclareceu. Como sempre faço, agradeci-lhe imenso ter-me permitido que a fotografasse, despedi-me, arrumei a câmara e o bloco de notas. Foi então que o céu abriu de repente e da janela à minha esquerda vi aparecer o Cristo em todo o seu esplendor. Parecia que as nuvens iam dar tréguas por umas boas horas. Num impulso, saltei do autocarro e apanhei um outro para o Cosme Velho, lugar de onde sai o bondinho que todo o santo dia leva milhares de turistas ao topo do Corcovado e ao encontro do Redentor. Afinal, o Real Gabinete Português de Leitura é que teve de esperar.

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quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Rio de Janeiro - Carlos & The Rolling Stones


No primeiro dia em que fui o centro do Rio de Janeiro tinha a Livraria da Travessa, na Rua Sete de Setembro, como referência. Foi por aí que comecei o meu passeio. Depois fui almoçar à Confeitaria Colombo de onde segui para a Catedral de São Sebastião e, posteriormente, para o Palácio Gustavo Capanema. Entre cada local fui caminhando devagar pelas avenidas da cidade, cheias de gente, cheias de carros, cheias de ónibus barulhentos. Parei nalgumas montras, apreciei edifícios, deambulei por entre os camelôs, observei o jeito de quem passava. E quando já o sol se punha e estava na hora de pensar no regresso à Gávea, onde estava alojada, decidi ir localizar o Real Gabinete Português de Leitura, que tencionava visitar no dia seguinte. Foi nesse trajecto pela Rua Luís de Camões que passei em frente à Letra Viva, uma livraria que é também alfarrabista (ou sebo, no português do Brasil) e onde funciona o Café Olé. De fora o espaço amplo pareceu-me muito bonito e depois de entrar descobri-lhe os toques extravagantes conferidos pelo mobiliário antigo, loiças, porcelanas e todo o género de quinquilharia inusitada. Foi nesta livraria fora do comum que conheci o Carlos, que folheava um álbum de fotografias. Vim a saber depois que o livro, com o título "The Early Stones 1963-1973", recolhia imagens capturadas nos primeiros anos da carreira da banda de Mick Jagger e que o Carlos procurava nesses registos inspiração para o seu trabalho. "Concebo padrões para estamparia e desenvolvo colecções. Neste momento estou a trabalhar numa colecção baseada no rock dos anos 50 e 60. Esta deve ser a quarta livraria em que entro hoje, olhando tudo", explicou-me.

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segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Rio de Janeiro - Diana & Alessandro Baricco


A viagem de Brasília para o Rio de Janeiro poderia ter sido feita de avião. Mas decidi ir de autocarro. Queria viver essa experiência de atravessar parte do Brasil num bus Marcopolo. E assim, transformei aquilo que seria uma viagem insípida entre dois aeroportos numa odisseia rica em pormenores que demorou 24 horas desde que saí da casa do meu anfitrião na capital até chegar à casa da minha anfitriã carioca. Fizemos o trajecto sem qualquer problema. Vimos paisagens magníficas enquanto foi dia, parámos no meio do nada para comer, espreitei um céu estrelado límpido (impossível de apreciar nas grandes cidades iluminadas) sempre que acordava do meu sono intermitente. Por volta das sete da manhã, quando já estávamos a entrar no Rio de Janeiro, o motorista decidiu que todos os passageiros deviam despertar ao som  da Rádio Tupi, uma emissora popular, de pendor católico e noticiário sensacionalista que transformou a nossa chegada à cidade maravilhosa numa descida aos infernos: o som altíssimo, os locutores aos berros, o relato dos engarrafamentos e dos acidentes rodoviários, o bairro que amanheceu com um corpo carbonizado numa esquina, os dois transeuntes que foram executados com tiros na cabeça por indivíduos que passaram de mota, os ataques violentos às Unidades de Polícia Pacificadora nas favelas (perdão, nas "comunidades pacificadas", que isto de dizer "favela" não é politicamente correto…) foram a nossa comitiva de boas vindas. E alguns minutos depois chega ainda a notícia, por intermédio dum passageiro, que os autocarros que saíram de Brasília ao início da noite para fazer o mesmo trajecto tinham sido abordados por grupos de bandidos e assaltados. Perante este cenário quase apocalíptico, de nada me serviu que os elementos do programa da manhã da Rádio Tupi tivessem rezado em coro um sonoro Pai Nosso. Achei que nesta cidade não haveria nunca protecção divina suficiente e uma das decisões que tomei de imediato foi que a vistosa câmara com que fotografo habitualmente ficaria trancada em casa não fosse o diabo tecê-las. Por isso tive por companheira a pequena Sony, dona de algumas imitações, o que se notará nos próximos posts. Curiosamente, o primeiro dia que passei no Rio, um sábado, teve contornos bucólicos que permitiram esquecer o cenário de guerra civil descrito por certos órgãos de comunicação social. Estive toda a manhã no belíssimo Jardim Botânico, a tarde no Instituto Moreira Sales e ao fim do dia na praia do Leblon. Foi nesse trajecto para a praia que passei junto à Livraria Argumento, na Rua Dias Ferreira, que tem em frente às vitrinas dois bancos que convidam os clientes a sentar-se e a começar a ler de imediato os livros que acabaram de comprar. Foi o que fez a Diana, uma argentina que vive na cidade há trinta anos. "Adoro o Rio de Janeiro", disse-me no seu português com sotaque "porteño". Tinha ido à livraria para trocar um livro que lhe ofereceram e que já tinha lido: "Madrugada Suja", de Miguel Sousa Tavares. Trouxe, como alternativa, o romance "Mr. Gwyn" de Alessandro Baricco, um autor de quem gosta muito e de quem não lia nada há muito tempo. Os seus romances "Seda" e "Novecentos" foram-me recomendados com grandes entusiasmo. "E que significa, para si, ler?", perguntei. "Adoro ler. A leitura é uma grande companhia. E é uma forma de aprofundarmos tudo: nós, o mundo, a vida", respondeu. 

Mais fotos desta leitora aqui e fotos da Livraria Argumento aqui.

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

Brasília - Pedro Henrique & George R. R. Martin


Um dos grandes defeitos que os brasileiros apontam à Capital Federal (sobretudo os que não vivem lá!) é a sua enorme extensão (5,800 quilómetros quadrados) o que combinado com a rede de transportes públicos ineficiente, faz com que grande parte dos 2.790 milhões de habitantes optem por ter carro próprio e vivam presos em engarrafamentos. E eu, que já visitei as quatro maiores cidades do país na altura em que escrevo este post — São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador da Bahia e Brasília — acho muita piada a estas críticas porque o que sei agora é que este problema está longe de ser um exclusivo de Brasília... A minha experiência na cidade não foi de todo traumatizante no que diz respeito aos transportes. Diria até que foi o local onde menos perdi tempo no trânsito. De manhã tinha a vantagem de aproveitar a boleia do meu anfitrião para o centro e ao fim do dia dirigia-me ao gigantesco Terminal Rodoviário para apanhar o autocarro de regresso a casa. A viagem, feita por corredores exclusivos que garantem a fluidez do tráfego, durava pouco mais de meia hora. Este terminal, que foi inaugurado em setembro de 1960, é o marco zero de Brasília e fica no ponto onde se cruzam os seus dois principais eixos rodoviários. Estatísticas de 2012 indicam que o local é frequentado por cerca de 700 mil pessoas por dia. Conseguem imaginar o frenesim? Há gente que se desloca em todas as direções e cruza as filas que se formam para entrar nos autocarros. Há vendedores ambulantes que comercializam gadgets, brinquedos, frutas, doces e uma infinidade de outros produtos. Há bancas de jornais e revistas. Há pedintes e gente que dorme sob os viadutos. Nesse lugar, cujo caos foi adensado graças às obras a que está a ser sujeito por causa do mundial de futebol, passei pelo Pedro Henrique, que lia "A Guerra dos Tronos" e parecia alheio a tudo. Este jovem estudante universitário tinha acabado de ler os livros de Harry Potter havia pouco tempo e estava à procura de um novo livro que o prendesse profundamente e o ajudasse a passar pelas duas horas diárias que investe nos transportes públicos. "São seis a sete viagens todos os dias entre a faculdade, o trabalho, o ginásio e o regresso a casa", explicou-me. Uma vez que tinha gostado muito da série que viu na TV, decidiu avançar para a leitura da saga de George R. R. Martin e não estava nada arrependido. Esta história passada na época medieval estava a deliciá-lo.

Vejam mais fotografias deste leitor aqui.

terça-feira, 1 de Abril de 2014

Brasília - Alexandre & Bernard Cornwell


Há já muitos anos que queria visitar Brasília e lembro-me perfeitamente do momento em que essa vontade surgiu. Foi em 1999, quando vivi no Uruguai e tive a sorte de encontrar em Montevideo um álbum belíssimo a preço de saldo que, para assinalar os quinhentos anos da chegada de Cristóvão Colombo à América, recolhia fotografias de diferentes locais em todos os países iberoamericanos, Portugal incluído. Aí, nas páginas desse livro, deslumbrei-me com o trabalho de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e retive-me particularmente nas imagens da magnífica Catedral Metropolitana de Brasília. Conhecê-la tornou-se uma ideia fixa, um sonho que tive a oportunidade de concretizar há poucos dias. Agora sim, posso dizer que conheço as três capitais do Brasil: Salvador da Bahia (a primeira), Rio de Janeiro (a segunda) e Brasília (a atual). Curiosamente, sempre que partilhei este meu desejo com amigos ou conhecidos brasileiros todos reagiam com surpresa: "E porque é que você quer ir a Brasília?!" Diziam-me que a cidade era monótona, apenas uma grande avenida com prédios iguais à esquerda e à direita e sem nada de especial para ver. No meu entender, nada de mais errado! Ainda bem que persisti de forma obstinada no meu ojetivo: adorei esta cidade diáfana, que a UNESCO classificou como Património Mundial devido ao seu conjunto arquitetónico e urbanístico. Mais: nunca me tinha divertido e emocionado tanto a fotografar arquitetura. Nos quatro dias que lá estive não me cansei de percorrer o Eixo Monumental, que subi e desci várias vezes, demorando-me na apreciação e visita dos seus edifícios mais icónicos: o Congresso Nacional, o Panteão da Pátria Tancredo Neves, a Pira da Liberdade, o Palácio da Justiça, o Palácio do Planalto, o Palácio de Itamaraty, o Supremo Tribunal Federal, o Museu Nacional, a Catedral Metropolitana e, claro está, a Biblioteca Nacional que foi aberta ao público apenas em 2008. Foi aí, no interior desse edifício que pedi ao Alexandre para fotografá-lo enquanto lia "O Forte", de Bernard Cornwell, o autor de que ele mais gosta. Pouco antes de tê-lo abordado, estava a estudar, mas decidiu pegar neste romance histórico para relaxar um pouco. Leitor habitual de todo o tipo de livros, para o Alexandre ler é a diversão máxima. "Fico em casa a ler o fim de semana todo, sem necessidade de sair", disse. Quanto aos livros que mais o marcaram até hoje, foram "Os Pilares da Terra", de Ken Follett, e "A Ditadura Escancarada", do jornalista Elio Gaspari. 

Fotografias da Biblioteca Nacional de Brasília aqui.

domingo, 30 de Março de 2014

Salvador da Bahia - Helia & Chimamanda Ngozi Adichie


Não foi há muito tempo que a Helia descobriu o Acordo Fotográfico — descoberta que se deveu à Inês, autora do InesBooks, que também já foi protagonista de um post —, mas tornou-se rapidamente uma seguidora assídua e entusiasta do trabalho que vou fazendo por aqui. E quando divulguei o projeto de volta ao mundo e a minha intenção de passar uns dias em Salvador da Bahia, a Helia, que tem um filho que já fez uma viagem semelhante, ofereceu-se de imediato para me receber. Na época, a sua mudança de Cascais para o Brasil por causa do trabalho do marido ainda estava a ser organizada, mas ficou logo combinado que quando estivesse definitivamente instalada haveria um quarto reservado para mim. E foi assim que, após vários meses de trocas de mensagens e conversas online, nos conhecemos pessoalmente na madrugada de 11 de março, quando me abriu a porta da sua casa com um sorriso meigo e me cumprimentou com a sua voz quente e doce. Esta luso-brasileira é, nos dias que correm, uma leitora inveterada e com muita disponibilidade para satisfazer a sua fome de livros. Mas nem sempre foi assim porque, embora tenha gostado de ler desde pequena, durante muitos anos a sua prioridade foi a educação dos filhos e o trabalho. "Agora estou numa fase mais caseira e voltei a ler muito para recuperar. O tempo em que você não está lendo é tempo perdido", disse. Nos dias em que estive em sua casa, estava a ler "Meio Sol Amarelo", de Chimamanda Ngozi Adichie, livro com o qual fiz questão de fotografá-la. Antes deste romance, a Helia tinha lido "A Cor do Hibisco", de que gostou muito, e a sua intenção é ler por ordem todos os títulos desta autora nigeriana. "Gosto de ler os textos cronologicamente", explicou, "foi o que fiz com os romances do Machado de Assis e da Philippa Gregory, por exemplo. E odeio deixar livros pela metade. Eu Não acho certo! Fico agoniada se não acabar de ler", rematou.

quinta-feira, 27 de Março de 2014

Salvador da Bahia - Mariana & Dan Brown


Conheci a Mariana no autocarro que me levou da Avenida Sete e Setembro, no centro de Salvador, para o bairro de Itaigara, num fim de dia em que chovia torrencialmente. Desabou sobre a cidade uma daquelas chuvadas tropicais com direito a relâmpagos e trovões. Num ápice a água começou a tomar conta das estradas e dos passeios e as pessoas faziam os possíveis para abrigar-se em qualquer canto, tarefa nada fácil. Eu ainda consegui proteger-me, mas a Mariana estava ensopada. Esta estudantes de Artes, filha de pai arquitecto, sentou-se atrás de mim e pegou no livro que lhe foi emprestado por um amigo. Teria uns 45 minutos para ler "Inferno", de Dan Brown, até chegar ao seu destino. "O primeiro que li foi Anjos e Demónios e apaixonei-me perdidamente pelo livro. Depois li todos os outros livros do autor. São todos maravilhosos! Adoro as descrições de edifícios, quadros, da arte em geral, a forma como se aprende através da ficção", afirmou. 

terça-feira, 25 de Março de 2014

Salvador da Bahia - Gilbevan prefere a Ciência


Enquanto estive em Salvador da Bahia apanhava todas as manhãs um autocarro que me levava de Itaigara, onde estava alojada, para o Campo Grande, uma praça monumental próxima ao Pelourinho, o coração histórico da cidade. Esta praça fica no roteiro dos festejos de Carnaval e nos primeiros dias da minha estadia em Salvador ainda estavam a ser desmontadas as arquibancadas onde se sentaram milhares de baianos para ver passar os trios eléctricos e a multidão que os segue ao longo de 25 quilómetros de folia. O enorme estaleiro em que esta zona da cidade estava transformado escondia a beleza do jardim e dissuadia qualquer um de querer lá entrar, mas ao fim de algum tempo as bancadas desapareceram, o ruído dos trabalhos diminuiu e eu lá me decidi a revisitar este espaço. Em boa hora o fiz porque logo à entrada dei de caras com o Gilbevan que tinha acabado de comprar no quiosque da praça o livro "O Melhor da Super: 1987 - 2012", uma edição comemorativa da revista "Super Interessante" que reúne as melhores reportagens dos últimos 25 anos. "A minha irmã é assinante da Super Interessante e eu lia todas as edições quando era menino. Não me identifico muito com romance. Prefiro livros científicos", explicou. Assim o deixei, agarrado ao seu livro novinho em folha, para ir ver mais de perto o monumento aos heróis das batalhas da independência da Bahia, que se ergue no centro do Campo Grande.

sábado, 22 de Março de 2014

Salvador da Bahia - Ana & os Extraterrestres


Ao fim do dia, quando o sol já não escalda a Praça Tomé de Souza, é montada junto ao Elevador Lacerda uma pequena esplanada com vista para a Baía de Todos os Santos. Aí, sentada à sombra e a desfrutar da brisa do final do dia, vi a Ana debruçada sobre "A 5ª Onda", um romance de ficção científica que lhe foi emprestado por um amigo que vive consigo. "É uma tentativa de fugir um pouco do quotidiano e da leitura de obras para a faculdade. Este livro lida com o surreal, com coisas impossíveis de acontecer, mas que podemos criar na nossa cabeça. E é uma leitura que prende ao ponto de nos colocar dentro da história e de nos levar a imaginar como seria se fossemos invadidos por alienígenas e todas as consequências dessa invasão nas nossas vidas". A Ana diz ser uma leitora assídua, andar sempre com um livro atrás e ler de tudo um pouco. Antes de "A 5ª Onda" tinha acabado de ler "Deuses de Dois Mundos", uma trilogia sobre a religião de matriz africana, tema de que gosta muito. "Sinto-me muito ligada à História de África e dos seus povos", sublinhou.

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quinta-feira, 20 de Março de 2014

Salvador da Bahia - Albérico & a Bíblia


Cheguei à Igreja do Senhor do Bonfim a tempo de ouvir os últimos acordes da música tocada durante a missa. O sol estava a pôr-se. Era a minha terceira visita. Já cá tinha estado em duas viagens anteriores. Contudo, é sempre com espanto que se admira a fachada do monumento e a paisagem sobre Salvador vista deste morro bem alto. Um fim de dia perfeito prestes a tornar-se ainda mais perfeito: na paragem de táxis em frente à igreja vejo o Albérico com um livro nas mãos e quando me aproximo para lhe perguntar o que lê diz-me que é a Bíblia. A Bíblia, finalmente! O livro dos livros. Aquele que, pela sua carga histórica e simbólica, eu mais queria fotografar. "Sou católico não praticante", explicou-me, "mas a minha família é, vai na missa todo o dia. Eu vou na missa esporadicamente. Os meus pais eram bastante católicos. Fui criado dentro da igreja". Eu também costumo dizer que sou católica não praticante, mas perante o que o Albérico me contou depois, o meu catolicismo ficou reduzido a nada. Porque embora não praticante, o Albérico lê diariamente e sem falta a pagela do Sr. do Bonfim, um salmo e o evangelho (naquele dia: Lucas, capítulo 11; versículos 29 a 32). Depois faz a oração do mês (março), do dia (sempre a S. Jorge) e a novena. "Mas veja só a coincidência de ter vindo falar comigo" disse, "as pagelas trazem sempre um pensamento e o de hoje diz o seguinte: A pessoa que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre a pessoa que não sabe ler". E a mim pareceu-me quase milagroso que uma citação de Mark Twain sobre a leitura surgisse magistralmente para rematar a nossa conversa. Uma conversa a propósito da Bíblia, o livro primeiro. Obrigada Senhor do Bonfim. 

terça-feira, 18 de Março de 2014

Salvador da Bahia - Fernando & Olavo de Carvalho


No que diz respeito ao uso do material fotográfico no Brasil, as recomendações foram muitas. Desde o não usar de todo, usar apenas em locais com muita gente ou usar só quando não houvesse muita gente por perto... Decidi usá-lo com discrição e saí todos os dias de casa com duas câmaras na mochila: a velhinha Canon e a Sony compacta. Até agora tem corrido tudo muito bem, mas tenho de admitir que na primeira manhã em que enfrentei Salvador ia um pouco apreensiva. Queria muito encontrar leitores e queria muito fazer a minha primeira fotografia em terra — já que as anteriores foram todas tiradas a cerca de onze mil metros de altitude —, mas havia demasiadas condicionantes. O acaso, porém, encarregou-se de me proporcionar a melhor situação possível para a primeira foto, uma espécie de "toma lá um leitor num sítio perfeito para ver se relaxas". Ao sair do local onde estava alojada — um apartamento num condomínio fechado no Alto de Itaigara, bairro distinto — deparei-me com o Fernando a ler nas áreas comuns do edifício, perto da entrada, onde corria uma aragem e fazia sombra. O Fernando é Paulista, de Ribeirão Preto, mas vive em Salvador há vinte e dois anos. Geólogo e Físico de formação é, também, praticante de Astrologia Helenística e, no seu entender, o desenvolvimento da Astrologia, da Física e da Geologia só tem significado diante da Filosofia. Era essa a razão pela qual lia "A Filosofia e Seu Universo", do consagrado filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, livro que lhe permitia rever os principais conceitos da Filosofia. Leitor habitual, o Fernando reconhece, no entanto, que hoje em dia lê menos por causa do seu trabalho como consultor. Ainda assim, diz que ainda consegue ler cerca de 25 livros por ano, de estilos literários muito variados, mais uma série de trabalhos académicos. Obrigada Fernando por este momento. Acabou por me dar sorte. Desde que aterrei no Brasil fotografei leitores todos os dias!

domingo, 16 de Março de 2014

Raquel & Richard Bach no voo TAM 3152


Salvador da Bahia estava cada vez mais perto. Depois de um voo de 10 horas entre Madrid e o Rio de Janeiro faltava uma última viagem, de hora e meia apenas, para regressar à cidade que foi o meu primeiro amor brasileiro. Do outro lado da coxia, perto do meu lugar, sentou-se a Raquel que se dirigia a Salvador para assistir à festa dos 15 anos da sua neta, uma espécie de baile de debutante que, na América do Sul, é um evento muito importante na vida de uma jovem mulher e da sua família. A viagem da Raquel já tinha começado em São Paulo, onde vive, e a leitura pareceu-lhe uma boa forma de ocupar essas horas vagas. Tinha consigo "Ilusões", de Richard Bach, um livro que o marido já tinha lido e recomendado. Deste autor, a Raquel recorda ter lido "Fernão Capelo Gaivota" há muitos anos, quando era adolescente, mas admite que não é o estilo literário com que mais se identifica. Os livros de que a Raquel gosta mesmo são os que contam histórias verídicas e dentro desse género aquele que mais a marcou foi "Cisnes Selvagens". 

sexta-feira, 14 de Março de 2014

Gustavo & Mr. Penumbra no voo IB 6025


O voo entre Madrid e o Rio de Janeiro já levava umas horas. O almoço tinha sido servido, a romaria às casas de banho tinha sido retomada, os filmes iam começar a ser exibidos e eu sabia que faltava muito pouco para que apagassem as luzes. Se queria fazer uma fotografia, tinha de ser naquele momento. Levantei-me para me obrigar a mexer as pernas e caminhei pela coxia. Num A340-600 cheio que nem um ovo, com mais de 300 passageiros a bordo, tinha de haver alguém a ler. E não me enganei. Uns lugares mais à frente do meu fui encontrar o Gustavo, um brasileiro que regressava a casa depois de umas férias em Marraquexe e no sul de Espanha. Estava absorto na leitura d' "A Livraria 24 Horas de Mr. Penumbra" (cuja edição portuguesa tem o título "A Livraria Noite e Dia do Senhor Sombra"), um thriller bem humorado sobre as aventuras de um web designer que se vê desempregado por causa da crise financeira e arranja trabalho numa estranha livraria onde acontecem coisas deveras intrigantes. "Gosto de entrar em livrarias e fossar livros. Como trabalho com computadores achei que este seria divertido e peguei".

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quarta-feira, 12 de Março de 2014

João & Kafka no voo IB 3107


No dia 10 de março de 2014, pelas 6h55, o meu sonho começou a tornar-se realidade. Parti de Lisboa para Madrid, o primeiro de três voos que me levariam a Salvador da Bahía, no Brasil, país que escolhi para começar a minha pequena volta ao mundo lusófono, viagem tão desejada. Foi a bordo do A319 a caminho de Barajas que conheci o João. Também ele tinha pela frente uma longa viagem, por isso levou um livro consigo. Contou-me que hesitou entre os contos de Tchekhov e os de Kafka, mas optou por estes últimos. Lia o primeiro volume d' "Os Contos", com a chancela da Assírio & Alvim. Kafka é um autor que o João já conhece bem: para além de o ter estudado na faculdade, leu vários textos seus, nomeadamente "O Processo", "A Metamorfose" e "Amérika". "Gosto muito do autor", disse, "embora seja difícil. E ainda que estes contos sejam curtos, são muito densos".

sábado, 22 de Fevereiro de 2014

Conversar sobre livros e esquecer a chuva
To talk about books and forget the rain


Mais um dia de chuva torrencial no Porto. Entro na carruagem do metro apinhada de gente, o ar saturado de humidade, as janelas embaciadas. Tento manter-me afastada dos guarda-chuvas molhados dos outros e procuro não incomodar ninguém com o meu. Detesto guarda-chuvas. Detesto! Algumas paragens mais adiante vaga um lugar. É a satisfação de me sentar por uns quinze minutos, pegar num livro e esquecer os pés molhados dentro das botas que cederam ao dilúvio. Só quero chegar a casa. Mas este fim de dia neurótico reserva-me um desenlace feliz: ao ocupar o meu lugar dou de caras com a Marlene que lê. Consumidora habitual de romances, romances históricos e livros de teor espiritual — os seus géneros literários preferidos —, a Marlene considera que ler é um prazer que tem grandes virtudes: permite que conheçamos histórias (reais ou fictícias) que servem de exemplos orientadores para as nossas vidas, amplia o nosso vocabulário e a nossa capacidade de expressão, estimula o nosso imaginário. "Idealizamos  os locais, os objectos, as personagens fisicamente e aí é que está a magia da leitura. Por vezes quando acabo um livro e começo outro, tenho dificuldade em desligar-me do anterior", diz. O livro que tinha consigo quando a conheci era "A Herança", de Danielle Steel. "É uma escritora de que gosto muito. Já li vários livros dela. A escrita é simples, com histórias intrigantes e empolgantes que envolvem sempre o amor", explica. O romance fora-lhe emprestado, algo normal para Marlene que troca frequentemente de livros com familiares, amigos e colegas de trabalho. Pedi-lhe que me dissesse qual é o livro da sua vida. Respondeu que talvez seja "A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón. E a mensagem ou ensinamento mais importante que um livro já lhe transmitiu? A Marlene foi buscar a resposta a um outro livro de Zafón, "O Jogo do Anjo": "As boas palavras são bondades inúteis que não exigem sacrifício algum e recebem mais agradecimentos do que as verdadeiras bondades".
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It is another stormy day at Porto. I go into the crowded subway carriage, air is filled with moist, the windows misty. I try to stay away from other people wet umbrellas and try not to bother anyone with mine. I hate umbrellas. I hate it! A few stops further a seat is left vacant. The satisfaction to be able to seat for fifteen minutes, grab a book and forget the wet feet inside the boots that couldn't handle the flood. I just want to get home. But this neurotic finish for the day has a happy end: while taking my seat I find Marlene reading. A usual consumer of romances, historic novels and spiritual books - her favorite literary styles -, Marlene thinks reading is a pleasure with great virtues: it allow us to know (real or fictitious) stories which work as guiding examples for our lives, it enlarges our vocabulary and the ability to express ourselves, it stimulates our imagination. "We idealize the places, the objects, the characters in their physical form and that is where the magic of reading lies in. Sometimes when I finish a book and start another, I have troubles getting rid of the one before”, she says. The book she had with her when we met was "Legacy", by Danielle Steel. “It is a writer I like very much. I read several of her books. The writing is simple, with intriguing and exciting stories that always involve love", she explains. The novel was loaned to her, something common for Marlene who usually trades books with relatives, friends and co-workers. I asked her to tell me what is the book of her life. She answered that possibly is “Shadow of the Wind", by Carlos Ruiz Zafón. And the most important message or teaching given by a book? Marlene got the answer form another Zafón book, "The Angel’s Game": “Good words are useless kindness that demands no sacrifices and get more thanks than true kindness".
Translated by Marisa Silva

terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014

Irena & Jonas Jonasson


Foi o Programa Erasmus que trouxe a Irena até ao Porto. Chegou enquanto estudante de Design Industrial, ficou para fazer o Mestrado e foi graças à sua tese que arranjou um trabalho em Guimarães, no âmbito da Capital Europeia da Cultura. Depois disso, decidiu continuar por cá a trabalhar como designer. E assim se passaram quatro anos. A Irena, que é austro-alemã, gosta de viver na Invicta, cidade que aprecia ainda mais quando faz sol. "Quando chove tanto como nos últimos dias não gosto. Para isso prefiro a minha terra onde em vez de chover, neva. Ao menos posso fazer ski ou snowboard", disse rindo. Mas no último domingo, todos tivemos direito a uma pausa no mau tempo e fomos brindados com um dia luminoso, quase sem nuvens. À semelhança do que eu fiz por uns minutos junto ao Douro, a Irena aproveitou-o para se espraiar um pouco ao sol nas traseiras da Reitoria da Universidade do Porto, um spot perfeito. Consigo tinha o livro "Der Undertjährige der aus dem Fenster stieg und verschwand", isto é, "O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu", caso sério de sucesso editorial. "Foi-me emprestado por uma amiga austríaca quando fui visitá-la", explicou. "Agora tenho três semanas para acabá-lo porque tenho de entregá-lo a um outro amigo austríaco que vai levá-lo de volta". Não é tão linda esta livre circulação de livros?

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Erasmus brought Irena to Porto. She arrived as an Industrial Designer student, stayed to do her master's degree and thanks to her thesis she got a job at Guimarães in 2012, when the city was hosting the European Capital of Culture events. After that, she decided to stick around working as a designer. And so four years went by. Irena, who is Austro-German, likes living at the Invicta, city she enjoys even more when it is sunny. "When it rains so much like in the past few days I don't like it. I prefer my homeland where it snows instead of raining. At least there I can ski or snowboard", she said laughing. But last Sunday, we were all entitled to a break from the bad weather and were awarded with a shinny day, almost cloudless. Like I did for a few minutes near Douro, Irena took the time to stretch out on the sun at the back door of Porto University Rectory, a perfect spot. She had with her the book "Der Undertjährige der aus dem Fenster stieg und verschwand", I mean "The Hundred-Year-Old Man Who Stepped Out Of The Window And Disappeared", a huge case of editorial success. “An Austrian friend borrowed it when I went for a visit her”, she explained. "Now I have three weeks to finish it because I will deliver it to another Austrian friend who will take it back". Isn't this free trading of books beautiful?

Translated by Marisa Silva

quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

Zombies ao almoço
Zombies for lunch


O Sérgio é um dos colegas de trabalho que vejo frequentemente na cantina acompanhado de um livro. E também já o tinha visto entretido com um tablet enquanto espera na fila para ser servido. Mas quando alguém olha fixamente para um tablet é difícil saber o que esse alguém está a fazer: ver um vídeo, folhear os jornais diários ou simplesmente atualizar o status no Facebook são algumas hipóteses e nenhuma delas interessa ao Acordo Fotográfico. Hoje, graças aos ziguezagues da fila para o almoço, pude confirmar que o que levava o Sérgio a não levantar os olhos do pequeno ecrã era uma história aos quadradinhos. Comentei com a I. e a G.: "Dava uma boa foto, não dava?". E fui ter com ele. Espectador de "Dead Man Walking" na televisão, o Sérgio encontrou na net a adaptação desta série ao formato Banda Desenhada e, curioso, decidiu ler. A coleção é composta por 114 livros, o Sérgio já vai no 21º volume. Escusado será dizer-vos que está a gostar. No entanto, para ler outras coisas além da Banda Desenhada, dos jornais ou de uma eventual revista, este leitor assíduo dispensa as modernices. Quando se trata de um romance ou de qualquer outro livro de ficção, do que ele gosta mesmo é do tradicional formato em papel. "O Perfume", de Patrick Süskind, "The Shining", de Stephen King e "Os Retornados", de Júlio Magalhães são os seus preferidos, este último em particular. "Identifiquei-me com a história em tudo porque também vim de Angola".

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Sérgio is one of my co-workers who I often see at the cafeteria accompanied by a book. And I have also seen him entertained with a tablet while waiting in line to be served. But when someone fixedly stares to a tablet it is hard to find out what that someone is doing: watching a video, go trough daily newspapers or just updating his or her Facebook status are a few of the hypotheses and none of them matters to Acordo Fotográfico. Today, thanks to the zigzags of the line for lunch, I could check that Sergio didn't lift his eyes from the small screen because he was reading a comic book. I remarked to I. and G: "That would make a great photo, wouldn't it?". And I approached him. Viewer of "Dead Man Walking" on TV, Sergio found online this series adaptation to the comic book format and, curious as he is, decided to read it. 114 books compose the collection, Sergio is on the 21st volume. Needless to say that he is enjoying them. However, to read other things besides Comic Books, newspapers or an eventual magazine, this regular reader discards modern devices. To read a novel or some other fiction book, what he really likes is the traditional paper format. "Perfume" by Patrick Süskind, "The Shining", by Stephen King and "Os Retornados" by Júlio Magalhães are his favourites, particularly this last one. "I identified with everything in the story because I also came from Angola”.


Translated by Marisa Silva

domingo, 9 de Fevereiro de 2014

O Autor & O Livro - VII
The Author & The Book - VII


Tenho de admiti-lo: sei muito pouco sobre Miguel Miranda. Soube primeiro que era escritor, quando passou a editar os seus livros na editora onde trabalho. Só depois descobri que também é médico e que os seus pacientes se encontram por entre os seus leitores mais fiéis. Muito mais tarde, por causa destas coisas dos blogues e dos livros, amigámo-nos no Facebook e, finalmente, em dezembro de 2013 conhecemo-nos na reunião inaugural do Clube Literário de Gaia, que tem em Miguel Miranda um dos principais dinamizadores. Foi aí que o fotografei com o seu mais recente livro (acabado de sair da gráfica e na altura ainda indisponível nas livrarias), "A Fome do Licantropo e Outras Histórias", um conjunto de 25 contos que abordam profissões, das mais vulgares às mais estranhas. Sei muito pouco sobre Miguel Miranda, mas já pude testemunhar o seu dom da palavra e o humor refinado. Aposto, por isso, que ler este seu último trabalho será um momento muito bem passado. 


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I have to admit: I know very little about Miguel Miranda. First I knew he was a writer, when he started publishing his books at the publisher where I work. Only after I found out that he is also a doctor and that his patients are among his more loyal readers. Much later, because of these things of blogs and books, we became Facebook friends and, finally in December 2013 we met at the opening meeting of Gaia Literary Club, who has in Miguel Miranda one of the main organizers. There, I took his picture with his latest book (fresh out of the printer and at the time still unavailable on the bookstores), "A Fome do Licantropo e Outras Histórias", a mix of 25 short stories about jobs, from the more common to the more bizarre. I don’t know much about Miguel Miranda, but I could testify his gift for words and his refined sense of humor. So, I bet reading his last work will be a moment well spent.


Translated by Marisa Silva