domingo, 19 de Outubro de 2014

Cambodja — Deim em Agkor


Sabia (e ainda sei) muito pouco sobre o Reino do Cambodja. E o pouco que sabia prendia-se quase exclusivamente com duas coisas: os Templos de Angkor, Património Mundial da Humanidade que sonhava conhecer um dia; e o regime sanguinário dos Khmer Vermelhos, liderados por Pol Pot, assunto que nos anos 70 e 80 do século passado foi muito mediatizado a ocidente. Até a indústria do cinema deu o seu contributo na denúncia do Genocídio Cambodjano quando estreou, em 1984, o filme "Terra Sangrenta" (The Killing Fields"). Vi-o quando era adolescente e marcou-me. Agora que sei um pouco mais sobre este país e que chego a envergonhar-me da imagem redutora que trouxe na cabeça durante tantos anos, recordo as palavras sábias de Chimamanda Ngozi Adichie, a autora nigeriana que numa TedTalk se debruçou sobre o "perigo da história única" a que somos todos tão vulneráveis muito por influência dos media. Diz ela: "Esta é a forma como se cria uma história única. Descrevam um povo como uma coisa, como apenas uma coisa, uma e outra vez, e é nisso que ele se torna (...) A história única cria estereótipos e o problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos. Fazem com que uma história seja a única história". Daí o português manso, o espanhol aguerrido, o francês racista, o alemão nazi, o angolano corrupto, o brasileiro trafulha, o chinês porco, o muçulmano terrorista... Tenho dito a quem me pergunta sobre os supostos perigos da viagem que fiz, que o mundo não é o que se vê nos noticiários das 20h. O que esses noticiários mostram é uma parcela ínfima do que é a vida no nosso planeta, feito na sua maioria de gente que, com mais ou menos dificuldade, leva um dia a dia rotineiro, "normal", em muitos aspetos semelhante ao meu. Como também disse Chimamanda, "a consequência da história única é que (...) enfatiza o quanto somos diferentes, mais do que o quanto somos similares". Por tudo isto, se me pedissem um dia para apontar apenas uma virtude ao ato de viajar, julgo que diria que é a possibilidade de nos libertarmos das muitas histórias únicas que reduzem o nosso planeta caleidoscópico a uma lista de preconceitos. Ainda antes de aterrar em Siem Reap, e com grande surpresa, a minha "história única" acerca dos Khmer desmoronou-se e a palavra ganhou toda uma nova dimensão, altamente positiva, que me permitiu ver o Cambodja sob uma nova luz. Não, Khmer não são apenas os seguidores do Partido Comunista que governaram o país entre 1975 e 1979 e que são responsáveis pela morte de quase três milhões de compatriotas. Khmer é o nome dado à língua que se fala no Cambodja, mas é, principalmente, o nome do maior grupo étnico cambodjano, aquele que entre os séculos IX e XVI estabeleceu o riquíssimo e muito sofisticado Império Khmer, que teve como principal capital a bela Angkor, a maior cidade pré-industrial do mundo. Aí, numa área de cerca de três mil quilómetros quadrados, ergueram-se mais de cem monumentos angkorianos e estabeleceu-se o coração político, cultural e religioso de uma das maiores civilizações do sudoeste asiático. Tive a felicidade de poder passar três dias a visitar alguns dos monumentos mais icónicos deste lugar extravagante. E fi-lo de bicicleta, apesar das temperaturas que chegaram a sensações térmicas na ordem dos 40 e muitos graus centígrados. A experiência superou todas as expectativas que eu poderia ter alimentado. Sim, o nascer do sol por detrás do templo principal, Angkor Wat, é de uma beleza esmagadora. Assim como é o por do sol precisamente no mesmo lugar. Mas o que dizer da liberdade que foi percorrer a selva luxuriante a pedal, por caminhos nem sempre alcatroados, e ver surgir no meio da vegetação o sorriso plácido de um gigantesco rosto de Buda esculpido na torre de um templo ou na abertura de uma muralha? E como descrever a emoção de entrar nesses templos, percorrer os corredores e as salas eximiamente decoradas com baixo-relevos de um requinte inesperado, subir ao topo dos edifícios e sentir-me pequeníssima perante a escala brutal daquela obra, a força do sol, a inclemência das temperaturas, o azul do céu, as grossas nuvens brancas imóveis, o verde da floresta e os sons que ela emana? "Que lindo! Que lindo!" era quase a única coisa que eu conseguia articular dia após dia, um monumento após o outro. Eu sei que sou dada a estes exageros e que muitos dos que já lá estiveram poderão não ter sentido o mesmo, mas visitar Angkor da maneira que o fiz — totalmente autónoma, ao meu ritmo, de acordo com o plano que eu mesma estabeleci, muitas vezes por trilhos desertos — não foi só um momento alto desta viagem; foi um dos momentos mais ricos da minha vida. E depois, aquilo que eu achava quase improvável: um cambodjano a ler junto aos muros de Benteay Kdei, um templo budista construído em meados do século XII. "Sou funcionário do Parque Arqueológico de Angkor", disse-me, "e gosto de ler sobre a história do meu país, sobre os reis do Cambodja e sobre estes templos em particular. Este livro é sobre a construção de dois dos monumentos mais importantes do Cambodja: Angkor Wat e Bayon". E com isto, a estocada final numa outra história única: aquela em que se afirma que nos países pobres não se lê porque outras necessidades mais básicas se impõem. 

quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

Liu no Laos, a caminho do Cambodja


Durante a viagem, não houve uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. De cada vez, foi inevitável questionar-me: voltarei um dia? Na manhã em que parti de tuk tuk do centro de Vientiane para o aeroporto internacional, levava um peso no peito. Voava dali a poucas horas para o Cambodja, um novo lugar cheio de promessas excitantes, mas lamentava que os dez dias vividos no Laos tivessem passado tão depressa. Não houve, de facto, uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. Porém o Laos faz parte daquele punhado de lugares de onde mais me doeu partir. Enquanto o tuk tuk acelerava pelas ruas e se aproximava o momento da despedida, apenas um outro aspeto conseguia ensombrar mais o meu dia — o voo propriamente dito. O bilhete, comprado online, indicava com diligência que a segunda parte da viagem, entre Pakse (ainda no Laos) e Siem Reap (perto de Angkor, no Cambodja) seria feita num ATR 72-600 e a pergunta "Mas que raio é um ATR 72-600?!" não parava de me martelar a cabeça. Uma pessoa sabe o que é um Airbus ou um Boeing. Sabe até o que é um Embraer ou um Cessna. Mas um ATR 72-600 não sabe o que é. Nem a pesquisa no Google e a descoberta de que o avião é fabricado em França e em Itália me tranquilizou. Deixei que os preconceitos viessem ao de cima e com o discernimento toldado só pensava numa coisa: estava prestes a embarcar numa lata minúscula, movida a hélices e operada pela companhia aérea de um dos países mais pobres e recônditos onde alguma vez tinha posto os pés. E isso não podia ser bom, claro está. No primeiro aeroporto consegui distrair-me com os pormenores surreais do lugar, que mais parecia um rudimentar terminal de autocarros. No segundo areoporto, a distração veio na forma de um leitor chinês a quem pedi uma fotografia, mas com quem não pude conversar muito. Valeu-nos a sua amiga Shen Li, que serviu de tradutora. Com a sua ajuda, pude saber o mínimo dos mínimos: Liu ia visitar os esplêndidos Templos de Angkor pela primeira vez e lia uma biografia de Buda na esperança de aprender mais sobre a sua sabedoria. Quando, por fim, me sentei no lugar que me coube no ATR 72-600, ia mais contente. Não só tinha fotografado um leitor, como vi com agrado que tinha por companheiros de viagem três monges budistas. Sim, eu também sou daquelas que embora adore voar e passe a vida a advogar em defesa do meio de transporte mais seguro do mundo, acha que a presença de qualquer sacerdote num avião é um sinal de proteção sempre bem vindo. Admito. Um dos monges era velhíssimo. Muito pequeno, magérrimo e curvado para a frente num permanente ângulo reto, chegou de cadeira de rodas até às escadas do avião, mas fez questão de subi-las, muito lentamente, sem qualquer ajuda. Quando entrou, por fim, na aeronave, a hospedeira recebeu-o ajoelhando-se com reverência. Este homem que devia ser santo sentou-se quase ao meu lado, no outro lado da coxia, junto a um outro monge muito mais jovem que parecia ser seu assistente. Adotaram a posição de lótus e pareceram entrar em transe. Nada os demoveu, durante todo o voo, daquele estado zen. Já o terceiro monge, também jovem, veio sentar-se no lugar à minha frente e era, todo ele, um desassossego. Primeiro reparei nos rios de suor que lhe escorriam do crânio rapado e que o lenço mil vezes esfregado não conseguia conter. Depois temi pela segurança de todos quando, ao levantarmos voo, o senhor se alvoraçou em espasmos repentinos que o levavam a gesticular os braços e a abanar a cabeça em todos os sentidos. Pensei que estivesse a ter um ataque de pânico, mas perante a persistência daqueles movimentos sobre os quais não tinha controlo, percebi que devia padecer de algum tipo de síndrome cujos sintomas se acentuavam sob stress. O contraste não podia ser maior: os outros dois companheiros seguiam viagem na maior paz, enquanto ele parecia dançar breakdance sem sair do lugar. Só alguns dias depois entendi que a agitação deste monge era justificada: a ficha da Lao Airlines na Aviation Safety Network conta com mais de 50 acidentes e o último, onde morreram todos os ocupantes do avião, ocorrera com um ATR 72-600 havia menos de seis meses, no preciso trajeto que acabáramos de percorrer.

domingo, 28 de Setembro de 2014

Vientiane, Houmphan e Khamnikhom



Decidi que a viagem de Luang Prabang para Vientiane, capital do Laos, se faria de autocarro. A outra hipótese era o avião, que me levaria de um ponto ao outro em quarenta minutos, mas sempre que as distâncias não eram exageradamente grandes e as paisagens prometedoras, escolhi deslocar-me por terra. Foi assim entre Brasília e o Rio de Janeiro (de autocarro), entre Banguecoque e Chiang Mai (de comboio), entre Chiang Khong e Luang Prabang (de barco). De Luang Prabang a Vientiane vão cerca de quatrocentos quilómetros, mas o trajeto leva no mínimo oito horas a ser percorrido. No meu entender, tanta demora só poderia dever-se à qualidade da via e ao estado do veículo que nos ia transportar, por isso, perante a perspetiva de passar o dia inteiro na estrada, optei por comprar um bilhete para o melhor autocarro disponível, aquele a que os laosianos chamam VIP e dizem ter ar condicionado. Na verdade, não tem. A partida estava marcada para as 9h, mas o tuk tuk deixou-me no terminal quinze minutos antes. O tempo de encontrar o autocarro certo, colocar a mochila na bagageira e garantir um lugar junto a uma janela. Dei-me conta de imediato que havia poucos passageiros. No interior, meia dúzia aguentava estoicamente as temperaturas similares às de uma sauna; lá fora, outros tantos sentavam-se à sombra, mas não era por isso que suavam menos. Ao fim de algum tempo percebi que o autocarro não partiria com uns minutos de atraso. Na verdade, o autocarro partiria apenas quando todos os lugares estivessem vendidos, o que aconteceu depois das 10h, quando um casal de mochileiros comprou os últimos bilhetes. Só à medida que Luang Prabang foi ficando para trás é que entendi por que razão iríamos demorar oito horas a percorrer trezentos e noventa quilómetros: embora soubesse, teoricamente, que o Laos é um país montanhoso, não sabia que é um país tão montanhoso e a demora não se deveria tanto ao estado da estrada, mas ao terreno acidentado que a estrada percorre. Julgo que não sentia tamanho desconforto a andar de autocarro desde 1999, ano em que atravessei a Cordilheira dos Andes para ir de Mendoza, na Argentina, a Santiago do Chile. Quinze anos volvidos, lá estava eu de novo a encarar uma estrada dos infernos, alcatroada, sim, mas estreita como uma tira de tagliatelle, a serpentear sempre em sentido ascendente, curva e contracurva, com ribanceiras brutais à esquerda e à direita, até aos 1500 metros de altitude. Para que o cenário se tornasse ainda mais dramático, abateu-se sobre um troço do trajeto uma daquelas tempestades típicas da monção e foi com horror que vi desenhar-se do céu à terra um relâmpago medonho que caiu com estrondo a poucos metros do autocarro. Muitos passageiros não conseguiram conter um grito. Pela janela vi os búfalos de água esbaforidos a correr em todas as direções pelos arrozais. Tal como nós, não ganharam para o susto. Mas para redimir tudo isto, havia a paisagem, a magnífica paisagem das montanhas do norte do Laos cujos cumes pontiagudos se perdiam nas nuvens e os sopés mergulhavam nas águas dos campos de arroz. No meu peito, o medo e o deslumbramento lutaram entre si para ver qual me tirava mais o fôlego. Ao fim de cinco horas de caminho, as montanhas foram-se tornando gradualmente mais pequenas e o terreno cada vez mais plano. As aldeolas esparsas foram dando lugar a aldeias maiores, na estrada o tráfego intensificou-se e por volta das 18h estávamos a atravessar os arredores da capital onde, a par das casas mais humildes de traça tradicional, se erguem casa apalaçadas — a maioria acabadas de construir ou ainda em construção — de inspiração ocidental e de gosto muito duvidoso, que deixam entrever jardins, piscinas e vários carros estacionados para lá dos portões. No Laos — um dos últimos estados socialistas de partido único — há, portanto, dinheiro fresco e gente determinada a mostrar que o tem em grande quantidade. Ainda assim, Vientiane é uma capital modesta e o pouco que há para visitar concentra-se de tal forma no centro da cidade que dois dias bastam para ficar a conhecê-la bem. Quase todos os caminhos levam à longa avenida Lane Xang, ladeada de frangipanis, cuja flor é o símbolo do país. Num extremo fica o Patouxai, um arco do triunfo ao qual se pode subir e de onde se tem uma ótima vista sobre a cidade. É de lá de cima que se confirma a inspiração soviética na arquitetura dos edifícios públicos, muito austeros, que contrastam com a exuberância multicolor dos templos budistas. No outro extremo da avenida, fica o Palácio Presidencial e para lá dele o rio Mekong, cuja margem foi transformada num extenso calçadão para onde toda a população da capital parece convergir à noitinha na esperança de se refrescar um pouco. Demorei-me aí, numa noite de enorme lua cheia, a observar os laosianos que passeavam exibindo as suas melhores roupas e acessórios. Em Vientiane, como em Lisboa, Tóquio ou Nova Iorque, também se brinca ao "ver e ser visto". Visitei o Museu de Arte e Antiguidades, que funciona no antigo templo budista do rei e que aglomera num espaço exíguo centenas de peças que imagino muito valiosas mas mal conservadas, mal expostas e sem qualquer tipo de legendas que nos permitam perceber do que se trata. Passei algumas horas no Museu National, que funciona num grande edifício decrépito e onde muitas vezes o meu interesse se virou mais para as ventoinhas e as saídas de ar condicionado, às quais me colei numa tentativa de arrefecer o corpo, do que para o rol de salas onde através de fotografias desbotadas e maquetes rudimentares se narra toda a história do Laos. Julgo que aprendi mais sobre os tempos remotos, do que sobre a história recente, onde se enaltece a luta e a vitória do proletariado sobre os imperialistas — franceses, japoneses e americanos — e se exaltam as virtudes do partido comunista. Também visitei o That Luang, o edifício religioso mais importante do Laos ao qual me desloquei numa louca corrida de tuk tuk que me custou o chapéu: voou-me da cabeça para nunca mais o ver. E, por fim, entrei na Biblioteca Nacional que funciona num antigo edifício de traça colonial, rés-do-chão e primeiro andar, onde funcionários, utentes e livros se acumulam em salas pequenas e atravancadas com estantes, mesas e cadeiras. Foi aí que meti conversa com o Houmphan (na primeira fotografia) e com Khamnikhom (na outra imagem). Ambos são estudantes universitários, vão com frequência à biblioteca para consultar livros e estudar. O primeiro, pouco à vontade com o inglês e muito mais tímido, contou-me que estava a estudar gestão e marketing. O segundo, que frequenta o curso de economia e administração, estava a estudar para o exame final de gestão hoteleira, mas contou-me que para além destas temáticas, também se interessa muito por filosofia e política. Os livros que tinha consigo eram em inglês e tailandês o que me surpreendeu. Fiquei depois a saber que o tailandês e o laosiano são idiomas muito parecidos, pelo que a maioria dos habitantes do Laos lê e fala tailandês. Infelizmente, no entender de Khamnikhom, no Laos os livros são muito caros. Trabalhou dois meses numa livraria e sabe do que fala: a maioria das edições é importada da Tailândia, o que as encarece muito. Por isso recorre por vezes a um amigo que lhe traz diretamente os livros de Banguecoque. Sobre o seu futuro, Khamnikhom tem uma convicção: passará por ajudar a desenvolver o seu país, tornando-o num lugar melhor. Como o fará é que ainda não sabe. Talvez vá trabalhar para a Organização das Nações Unidas, ou então ser um homem de negócios, ou enveredar pela carreira política. E foi então que me encostou à parede com a seguinte pergunta: "Que conselho me dá para que eu possa ajudar o meu país?". Senti a cabeça a andar à roda. Há tanto por fazer no Laos que nem soube por onde começar. Mas enquanto o meu cérebro parecia ter congelado perante a complexidade da resposta a dar, a minha boca abriu-se e ouvi-me afirmar, convicta: "Tens de apostar na tua educação. A educação será sempre a tua melhor ferramenta. A educação é a maior riqueza de um povo. Vais precisar de dinheiro, é certo. Mas isso é secundário. O dinheiro sem educação não está ao serviço do progresso. E se puderes, viaja. Conhece outras culturas, outras maneiras de viver e de fazer acontecer. Viajar é uma forma poderosíssima de educação. E quando regressares ao Laos, talvez tenhas uma ideia mais concreta do que queres para ti e para o teu país". Esta semana recebi um email do Khamnikhom. Diz que se lembra muitas vezes do que lhe disse quando conversámos e que quando voltar à sua aldeia irá passar a minha mensagem aos estudantes da escola local. Agora que penso nisso, gostaria de lhe ter dado um conselho menos utópico.

quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Luang Prabang - Oliver & Collin Cotterill


Antes de se unir ao rio Mekong, o rio Nam Khan desenha uma curva acentuada que contorna, à esquerda, a península de Luang Prabang. Quem se passeia pelas principais artérias da cidade — ruas Sisavangvong e Sakkaline — irá invariavelmente terminar alguma das suas caminhadas na colina que se ergue no local onde os dois rios de juntam. Nesse ponto alto existe um pequeno jardim relvado e com coqueiros altíssimos à sombra dos quais é comum encontrar gente sentada. Já lá tinha estado um dia e tinha ficado intrigada com o que estaria na outra margem, de maneira que regressei ao local decidida a pagar os 5000 Kips (0,47 Euros) para atravessar a ponte de bambu, que me pareceu saída de um filme do Indiana Jones. No outro lado encontrei, para além de dois templos budistas muito simples, uma aldeia atravessada por um caminho de terra batida. As casas tradicionais, construidas sobre estacas e preparadas para deixar passar as águas furiosas da época da chuva, alinhavam-se nos dois lados do caminho e albergavam uma pequena comunidade de pescadores, agricultores e tecelãs peritas na arte de fabricar as sedas mais finas e delicadas. Foi junto a um desses teares que fiquei mais tempo, entretida a observar os gestos repetitivos que dão origem a peças únicas. Ao regressar à outra margem e à proteção do coqueiral, sentei-me junto do Oliver, que lia. Sorvi uma garrafa inteira de água, levantei o chapéu para limpar o suor da testa, recuperei o fôlego e só depois meti conversa. Este alemão tinha tirado um mês para viajar pela Ásia. Havia 10 dias que andava de mochila às costas. Já tinha estado em Banguecoque e tinha chegado recentemente ao Laos. Leitor habitual daquilo a que chamou "clássicos modernos", lamenta não ler mais por falta de tempo. As férias serviam, portanto, para se redimir e tinha-lhe parecido muito boa ideia aproveitar para ler algo cuja ação se passasse no país que visitava. Era o caso de "Dr. Siri und Seine Totem" ("The Coroner's Lunch", na edição original), um dos policiais de Collin Cotterill, autor de nacionalidade inglesa e australiana que reside na Tailândia. A série que tem Dr. Siri, um médico legista, como principal personagem é totalmente passada no Laos e já arrecadou vários prémios literários. Os seus livros estão à venda nas poucas livrarias do país, assim como em quase todas as lojas de souvenirs e Cotterill tem a hombridade de fazer reverter os direitos de autor para projetos de solidariedade social a decorrer no Laos.

domingo, 21 de Setembro de 2014

Luang Prabang, Touy e Winnie


Sobrenatural. Este é o primeiro adjetivo que me ocorre para vos descrever Luang Prabang. Há algo de sobrenatural em Luang Prabang. Há naquela pequena cidade, que foi capital do reino do Laos por mais de mil anos, uma energia única, uma força pura a que me entreguei sem reservas. E quando recordo os dias que lá vivi penso em leveza. Sim, acho que foi isso que aconteceu, andei por lá a levitar. Levitei sobre as ruas de velhas casas coloniais erguidas pelos franceses nos tempos da Indochina; sobre os montes de onde vi o pôr do sol cobrir a cidade de ouro; sobre os templos de telhados inclinados que se desdobram em sucessivas camadas até quase roçarem o chão; sobre as palmeiras verdíssimas e as frangipanis floridas, ainda mais belas quando em contraste com as nuvens negras da monção; sobre as filas de monges de vestes laranja que recolhem a comida ofertada pelos fiéis ao nascer do dia; sobre os rios Mekong e Khan, de águas castanhas, embora possa jurar que também os atravessei deslizando numa canoa ou pousando os meus pés, muito a medo, nas pontes de bambu. Levitei, apesar da canícula que a seguir ao almoço me empurrava com urgência para o ar condicionado do quarto de hotel, de onde só saía à tardinha para me dirigir, uma e outra vez, à margem do Mekong, o rio feitiço. Aí, a tomar uma BeerLao fresca, assistia sempre com espanto ao espetáculo da bruma que surgia do nada para se apoderar das fileiras infinitas de montanhas que, na riba em frente, se desenhavam até ao horizonte. Fui feliz em Luang Prabang, esse pedaço de alma do Laos. Fui feliz até nas pessoas que o acaso colocou no meu caminho, como aconteceu na primeira manhã que passei na cidade, quando entrei na modestíssima biblioteca pública: três pequenas salas, dois funcionários simpáticos, algumas estantes com livros laosianos, franceses e ingleses e cinco leitores. Foi aos noviços que pedi a fotografia, longe de adivinhar que iria vê-los todos os dias até à minha partida para Vientiane. O Touy (à esquerda) e o Winnie (à direita) vieram ambos de longe, de aldeias remotas, para continuar os seus estudos no Wat Pa Phai, um templo budista construído no início do século XIX. Ambos terão de decidir, aos 20 anos, se pretendem enveredar pelo sacerdócio. Para Winnie, o mais novo, essa decisão pode esperar, mas para Touy, com 19 anos, a escolha terá de ser feita em breve. Perguntei-lhe se já sabia o que fazer. Não me soube responder. A única certeza que tem, tal como Winnie, é que quer estudar inglês. Esse é o seu sonho, ser fluente em inglês e com essa ferramenta poder visitar outros países. No templo onde estudam já houve em tempos aulas de inglês, mas agora estão sem professor. Por isso, numa ânsia de saber mais, estudam sozinhos sempre que podem, quer no quarto onde dormem, quer na biblioteca onde para além dos livros têm acesso à internet e podem ver vídeos em inglês no Youtube. No templo não há televisão. Fotografei-os a ler em inglês e os livros escolhidos espelhavam o domínio que tinham do idioma. Embora Winnie fosse muito mais fluente, os dois liam livros infantis nada adequados às suas idades, mas adequados ao pouco que sabiam. Touy, por exemplo, lia uma história do urso Pooh. Nesse momento, o Laos ficou-me para sempre associado à imagem de um rapaz de 19 anos que, na viragem para a vida adulta, lê a história de um ursinho: um território milenar com episódios recentes de grande violência e, ainda assim, com um grau desconcertante de ingenuidade. Depois de tirada a fotografia, estes dois adolescentes, com uma delicadeza comovente a que já não estou habituada, perguntaram-me se não estaria na disposição de ir com eles para outra sala onde pudéssemos conversar em inglês à vontade. Explicaram-me que aproveitam todas as oportunidades para praticar um pouco. E assim fiz. Naquela manhã e em todas as outras que passei em Luang Prabang. Falámos de tudo um pouco: das aldeias de onde vêm, das famílias, da vida nos campos, dos grupos étnicos a que pertencem, dos seus projetos de vida, do pouco dinheiro que têm para realizar os seus sonhos, da minha viagem, da imensidão do mundo e do quanto tem de belo para ver. Diálogos que decorreram de forma lenta, com grandes silêncios pelo meio de cada vez que procuravam a palavra inglesa certa para se expressarem. Vi-os pela última vez num domingo à tarde no templo Wat Pa Phai, onde vivem. Nesse dia o Touy estava de guarda ao recinto e não podia ausentar-se. Quando cruzei a porta do templo levantou-se da mesa onde estava a estudar, sob uma árvore, e sorriu largamente enquanto ajeitava o hábito laranja. O resto dos colegas fazia as suas orações. Ouvia-lhes os cânticos. À nossa volta circulavam alguns cães, felizes, de caudas imparáveis. Dei uma vista de olhos aos exercícios em inglês que fazia, conversámos mais um pouco e despedimo-nos quando o sol se punha. Luang Prabang, Touy e Winnie. Um trio que tem lugar cativo nas minhas recordações mais emotivas dos dias passados no Laos. Pergunto-me com frequência o que será dos seus futuros.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Laos — Chris, a caminho de Luang Prabang


A maioria dos passageiros transportados pelo "slow boat" que deslizou com vagar pelo Mekong era ocidental. Para além da tripulação, praticamente não havia laosianos a bordo. Meia dúzia, talvez. E dos cinquenta ou sessenta estrangeiros que lá iam sentados, quase todos estavam na faixa entre os dezoito e os vinte e poucos anos. Ingleses, alemães, suecos, dinamarqueses, holandeses, todos estes mochileiros e mochileiras de ar pueril pareciam não ter ainda sequer frequentado a faculdade. Durante os dois dias em que estivemos confinados ao espaço exíguo do barco, pude observá-los e... invejá-los. Dei por mim a lamentar não ter passado por uma experiência destas mais cedo. Após uma viagem de longa duração, a vantagem que estes miúdos levam sobre os outros, ao enfrentar a vida académica ou um primeiro trabalho, só pode ser enorme. Todos os dias, durante semanas, por vezes durante meses, tomam decisões que os obrigam a crescer. Para além da gestão óbvia do tempo e do dinheiro, têm no mínimo de lidar com choques culturais consideráveis, adaptar-se a climas extremos, escolher com quem relacionar-se ou não, estabelecer novas redes de contactos e de apoio, definir itinerários que possam percorrer em segurança, negociar preços de refeições e de alojamentos com gente que não fala uma palavra de inglês ou optar entre preguiçar na praia ou explorar um museu. Ao mesmo tempo, estas viagens são também um grande exercício de liberdade, a ocasião para testarem os seus limites e se afirmarem longe da família e do habitual círculo social controlador. E naquele barco, durante os dois dias de ócio a que fomos forçados, a liberdade foi flirtar, beber litros de alcool, comer batatas fritas e consumir drogas. Depois, por vezes, num intervalo entre conversas, cervejas e charros, alguém puxava de um livro. A dada altura, eram tantos os leitores a bordo que me entretive a fotografá-los ao longe, sem que disso se apercebessem. Por fim, quando decidi falar com um deles, optei por me dirigir ao Chris, que lia "Catch 22". À semelhança da Emma, este britânico andava a viajar só e já ia no seu terceiro ano de aventuras. Apanhou o Transiberiano até à Mongólia, passou uma temporada a trabalhar na Coreia do Sul, partiu depois para as Filipinas e daí seguiu para a Austrália onde voltou a trabalhar. Visitou a Nova Zelândia e iniciou a seguir o périplo pelo sudoeste asiático. Depois do Laos ainda ia conhecer o Cambodja e o Vietname de onde voltaria, por fim, a casa. Quanto ao livro que lia, explicou: "Encontrei-o no último hostel onde estive alojado. Há muito tempo que queria lê-lo, por isso trouxe-o. Não compro livros. Vou de hostel em hostel e troco os que acabei de ler por outros. Só quando comecei a viajar é que comecei a ler mais. Na faculdade não tinha este hábito". A julgar pelo exemplo do Chris e de muitos outros que conheci, as viagens têm também esta grande virtude: despertar leitores adormecidos. O irónico é que comigo tenha acontecido exatamente o contrário. Não peguei num único livro durante seis meses. Talvez um dia escreva sobre isso. 

domingo, 20 de Julho de 2014

Laos — Emma, deixando pegadas por aí


No dia em que acordei em Chiang Khong, na margem tailandesa do Mekong, ainda demorei a decidir se deveria ou não atravessar a fronteira para o Laos e iniciar nessa mesma manhã a descida do mítico rio asiático até Luang Prabang. Chovera torrencialmente durante toda a noite, como se a natureza tivesse decidido mostrar-me como é a monção no seu máximo esplendor, e faltam-me os adjetivos para qualificar a enormidade dos relâmpagos e dos trovões que foram interrompendo o meu sono. A descida, nos moldes em que eu quis fazê-la, implica viajar durante dois dias num "slow boat", uma embarcação a motor com 35 metros de comprimento que, tal como o nome indica, se desloca muito lentamente — mas muito lentamente mesmo! — e cujos antigos assentos de madeira foram recentemente substituídos por bancos de carros e carrinhas que devem ter tido a sucata como destino. Note-se que estes bancos não são reclináveis nem estão pregados ao chão, o que permite que cada freguês faça uma gestão muito particular do espaço que lhe cabe para as pernas... Outra característica destes "barcos lentos" é não terem janelas, por isso, quando chove, a única forma de proteger os passageiros das enxurradas é baixar uns oleados que tapam a vista quase por completo, arruinando aquele que era para mim o único objetivo deste passeio demorado: apreciar a paisagem. Vá-se lá saber porquê, decidi arriscar tudo e seguir viagem, cumprindo o calendário que tinha estipulado para este troço da pequena volta ao mundo. Naquele pedaço de terra que parece não pertencer a ninguém, ali entre a Tailândia e o Laos, estava eu na fila para tratar do visto laosiano e a conversar com a minha companheira de viagem, quando a pessoa à nossa frente se volta para trás e exclama: "Portuguesas!". Foi assim que conheci a Emma, felicíssima por encontrar as primeiras compatriotas em vários meses. Dona de um sorriso que lhe ocupa o rosto todo (sim, sou muito sensível a sorrisos), a Emma é um ser que transborda luz. E palavras. Mas não palavras ocas ou vãs. Palavras cativantes, cheias de histórias, de gentes, de paisagens, de sensações colhidas por esse mundo fora. Palavras carregadas de gratidão, também, por a vida lhe permitir viver o seu maior sonho: viajar durante três anos. Palavras que, por isso, se fazem acompanhar muitas vezes de lágrimas, daquelas que choramos de alegria e que eu acabei por chorar com ela. Determinada a viajar durante uma longa temporada, a Emma trabalhou arduamente em Londres durante vários anos e juntou de forma obstinada todos os tostões. Manteve o foco até ao dia em que largou o lugar de direção que ocupava numa empresa do mundo do petróleo. Quando nos conhecemos à entrada do Laos, já tinha passado sete meses entre a Índia, China, Singapura, Malásia e Tailândia. Tinha, portanto, cerca de dois anos e meio de viagem pela frente e mais do que nunca os meus seis meses de licença sem vencimento pareceram-me muito pouco... O primeiro dia de descida do Mekong já levava várias horas quando do meu lugar, na popa, olho para a proa e vejo a Emma com um tablet nas mãos. Por sorte, estava a começar a ler "Americanah", de Chimamanda Ngozi Adichie, e essa foi a deixa perfeita para lhe falar do Acordo Fotográfico, propôr-lhe a foto e obter licença para contar aqui a sua história. "Fiz o download deste livro depois de saber que a autora, tal como eu, defende ativamente os direitos dos homossexuais", disse, "mas ainda estou sob o efeito do livro que li antes deste". "Invencível" era o livro em questão, a espetacular biografia de Louie Zamperini, um atleta olímpico norte-americano que parte em combate durante a Segunda Guerra Mundial e cujo avião se despenha um dia no Oceano Pacífico. Depois de sobreviver a sete semanas à deriva, é resgatado por japoneses ao largo de uma ilha e quando pensava que o pior já tinha passado, na verdade estava apenas no início do seu calvário. "É um livro maravilhoso! Marcou-me tanto que não consigo parar de falar dele e de recomendá-lo a toda a gente!". Há mais de dois meses que não vejo a Emma. Por vezes trocamos mensagens via Facebook, mas consigo recordar o timbre da sua voz. Depois de três semanas no Laos, passou um mês no Cambodja, regressou à Tailândia e encontra-se por estes dias em Myanmar. Se quiserem acompanhar o seu périplo nos próximos dois anos e alguns meses podem fazê-lo através do seu blogue: Footprints in the clouds.

quinta-feira, 17 de Julho de 2014

Chiang Mai - O amor (p)e(l)os livros


Patrick é um norte-americano que sempre leu muito e que agora que está reformado tem ainda mais disponibilidade para os livros. Um dia, estava ele na Tailândia, entrou numa loja onde apenas se vendiam uns delicados marcadores de livros feitos em teca e pintados à mão. Foi atendido pela artista, por quem se apaixonou e com quem veio a casar mais tarde. "Por ser leitor, conheci a minha mulher e hoje vivo na Tailândia. Este marcador que aqui tenho no livro é da edição limitada que oferecemos aos convidados no dia do nosso casamento", disse-me visivelmente orgulhoso. Conhecemo-nos num domingo à noite, quando andava a percorrer a grande feira que ocupa a maior parte do centro histórico de Chiang Mai (a segunda maior cidade do país) aos fins de semana. Patrick fazia companhia a Runy, a sua mulher, que vendia os marcadores de livros num pequeno stand. Alheio aos milhares de pessoas que circulavam pelas ruas estreitas e à confusão instalada, lia "Thirtheen", uma história futurista sobre uma linhagem de soldados geneticamente modificados. "Sou da área de engenharia e tecnologia, por isso gosto muito de ficção científica. Para leitura de relaxamento, é o estilo que prefiro. E este é um livro que venceu o Prémio Arthur C. Clarke. De resto, depende... Por exemplo, estou a ler também um outro livro sobre a história política e económica do Ocidente nos séculos XIX e XX". 

domingo, 13 de Julho de 2014

Tailândia — Joe a caminho de Chiang Mai


Dos cinco dias que estive em Banguecoque, dois foram passados no quarto do hotel. Nunca saberei ao certo o que aconteceu ao meu estômago. Talvez tenha tido uma intolerância momentânea à profilaxia da Malária ou talvez tenha comido alguma coisa que não digeri bem. Só sei que essa má disposição e o quase jejum a que me forcei  durante 48 horas consumiram boa parte das minhas forças e que as temperaturas a rondar os 45 graus centígrados de sensação térmica acentuaram ainda mais o meu cansaço. Perante este cenário, carregar as mochilas — uma grande com cerca de 15 quilos e outra mais pequena com 8 quilos — até à carruagem do comboio noturno que me levou para Chiang Mai, no norte da Tailândia, representou um esforço titânico. Quando por fim me deixei cair no lugar que me coube, tinha a roupa colada ao corpo, escorria suor e arfava. Eram dez da noite, todas as janelas da velhíssima carruagem estavam escancaradas e todas as ventoinhas pregadas ao teto giravam furiosamente. Ainda assim, parecia não haver ar suficiente para se respirar. Só queria que o comboio partisse e que a sua marcha lenta me embalasse até ao sono profundo. Teria 13 horas para dormir. Quando por fim a máquina se pôs em movimento, produzindo um som metálico semelhante ao que ouvi no cinema quando o Titanic se afunda, ocorreu-me percorrer toda a carruagem com o olhar e ao virar-me para trás vi que um dos rapazes ingleses que tinha embarcado depois de mim estava a ler. Apesar das pernas trémulas e do meu muito mau aspeto, lá fui ter com ele e fiz a fotografia, enquanto os seus companheiros de viagem, gozões, me juravam que ele não sabia ler. "Está a fazer de conta! Ele só sabe ler os livros do "Onde está o Wally!", diziam por entre gargalhadas. Mas o Joe não desarmou e manteve a pose. "Não sou leitor habitual", disse-me depois, "mas estou a aproveitar a viagem pela Ásia para ler um pouco. Acabei o único livro que trouxe, por isso pedi este emprestado a um dos amigos que veio comigo". O livro em causa era "Do The Birds Still Sing in Hell?", um relato verídico escrito na primeira pessoa por Horace Greasley, um soldado britânico feito prisioneiro pelos alemães no decorrer da Segunda Guerra Mundial e que durante o seu cativeiro viveu uma intensa história de amor com a alemã que lhe servia de intérprete. Depois da nossa conversa, voltei ao meu lugar e adormeci de imediato. Na amanhã seguinte, já o sol ia alto, voltei a olhar para trás. O Joe e todos os seus camaradas de viagem estavam a ler.

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Banguecoque - Nina & Michael Robotham


Detesto reduzir um país a uma só coisa, mas é inevitável pensar em massagens quando se fala da Tailândia. E quando se está na Tailândia é quase fatal acabar num daqueles Spas — que em certas ruas de Banguecoque existem porta sim, porta sim — para uma sessão de deliciosa e energizante fricção ao corpo inteiro (que se assemelha em muito a uma luta greco-romana...) ou, no mínimo dos mínimos, aos pés. Foi o que aconteceu à Nina, uma alemã de férias na Tailândia que vi ao fim da tarde num Spa da Silom Road e que não se importou de falar comigo enquanto era massajada. Leitora habitual, a Nina aponta os thrillers como o seu género literário preferido. Durante muito tempo leu tudo o que encontrou de autores escandinavos, até que esgotou esse filão. Teve, por isso, de procurar outros escritores e foi então que descobriu o australiano Michael Robotham. "Este autor é muito bom", disse-me. "Acabei de ler um livro seu ontem à noite e gostei tanto que fui imediatamente fazer o download de outro. Comecei logo a ler". O livro em questão era "Adrenaline", numa edição alemã para o Kindle. 

domingo, 22 de Junho de 2014

Banguecoque — O meu Nirvana



Fui visitar Wat Pho, o templo mais antigo da capital da Tailândia, e não estava preparada para o que ali encontrei. Ainda bem. Sem saber ao que ia, sem ter visto antes qualquer imagem do local, a experiência foi avassaladora e tenho ainda hoje, passados quase dois meses, dificuldade em encontrar as palavras certas para descrever o que senti perante tanta beleza. Foi mágico... Chorei e ri, sem vergonha, na frente de toda a gente. Percorri com a ponta dos dedos o minucioso trabalho de cerâmica, vidrilho, madre pérola e folha de ouro que cobre a maior parte do exterior dos pagodes que se erguem no recinto. Segui atentamente as histórias contadas pelas figuras pintadas nos metros e metros de murais. Fui hipnotizada pela repetição exaustiva de padrões simples pintados em cores quentes nos tetos altos. Fiquei perplexa perante a elegância do Buda reclinado, apesar das suas dimensões colossais — 15 metros de altura e 43 metros de comprimento — e deliciei-me com o seu sorriso doce, sereno, um dos poucos que vi até hoje maiores que o meu: 5 metros de sorriso! Fechei os olhos e deixei que a poderosa energia que ali se concentrava tomasse conta de mim. Numa tentativa de evitar o caminho de um grupo de visitantes apressados, fiz um desvio súbito no meu trajeto, encontrei-me num recanto mais isolado e dei de caras com um monge a ler. Gostava de ter uma história maravilhosa para vos contar acerca desta fotografia. Uma história que contivesse uma revelação ou um ensinamento. Algo assim profundo. Mas não tenho. Contudo, este encontro breve, feito de parcas palavras e muitos sorrisos, fechou com chave de ouro o dia mais emocionante da minha curta passagem por Banguecoque. O monge, que não falava uma palavra de inglês, percebeu a minha intenção: tirar uma fotografia. Mas duvido que tenha percebido que o meu interesse era fotografá-lo a ler. Não percebi o seu nome. Não me soube explicar o que lia, nem porquê. Perguntei-lhe se teria um email para enviar-lhe a fotografia. Disse que sim. Passei-lhe o meu bloco de notas e a caneta para que o escrevesse, mas o que me deu foi a morada e o número de telefone de um templo numa província distante. Só o percebi mais tarde, quando a rececionista do hotel me traduziu os apontamentos. Foi, portanto, um encontro feito de alguns mal entendidos, mas ainda assim um encontro cheio de boas intenções. Foi o meu Nirvana.

Mais fotos deste encontro aqui.

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Malaca - Inga, a viajar há quarenta anos


Conheci a Inga no hostel onde fiquei alojada em Malaca. Passei pela cozinha, ao descer do meu quarto, e lá estava ela, sentada à grande mesa, agarrada a um livro. A Inga tem 60 anos e começou a viajar sozinha na década de 70. Um dos locais por onde esta holandesa andou mais tempo foi o continente africano, onde trabalhou dez anos e viajou outros dezassete. No que diz respeito a Malaca, esta era a sua quarta vez na cidade. "Adoro esta parte do globo. É seguro e as pessoas são muito simpáticas. E também porque não há ninguém a pedir. Já vi demasiada gente a pedir. Não posso apreciar a minha vida se estou rodeada de gente sem comida", explicou. Para além das viagens, a leitura é uma outra grande paixão sua. Lê imenso e diz não conseguir imaginar o mundo sem livros. Fotografei-a ler "Lost in Shangri-La", o relato de um episódio verídico ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de militares parte em busca dos sobreviventes de um acidente de aviação, perdidos na floresta tropical da Nova Guiné. Uma história que considerou entusiasmante!

domingo, 15 de Junho de 2014

Malaca — Nicolas & Emma



O coração de Malaca é o seu centro histórico, classificado como Património Mundial da Humanidade em 2008, e nesse centro histórico a principal artéria é Jalan Hang Jebat ou Jonker Walk, como é mais conhecida. Nesta rua não muito larga e de passeios estreitos, todas as casas de traça ocidental — construídas pelos portugueses e depois ocupadas e sucessivamente alteradas pelos holandeses, ingleses e chineses — foram transformadas em espaços comerciais, alguns deles muito elegantes. De maneira que é por ali que todos os turistas acabam a deambular durante o dia, acotovelando-se de loja em loja, e também à noite para jantar e tomar um copo. Num desses bares de rés-do-chão completamente aberto para a rua, a uma hora em que as temperaturas rondariam os 40 graus, a Emma e o Nicolas bebiam refrescos e liam. Ele, ecuatoriano, despedira-se de um trabalho do qual não gostava, em Hong Kong, para voltar a estudar a partir de Agosto. Mas enquanto as aulas do Mestrado não começavam tinha decidido viajar pelo Sudoeste Asiático. Estava a pouco tempo de ir para o Cambodja, por isso lia "First They Killed My Father". "É um livro escrito por uma mulher que, quando criança, viveu o genocídio. Quero perceber melhor um momento chave da História do Cambodja", explicou, referindo-se ao regime sanguinário de Pol Pot e dos Khmer Vermelhos. A Emma, que se definiu como uma mistura de malaios, indonésios e chineses, lia algo completamente distinto: "Law of Attraction", de Michael J. Losier. "Gosto de livros de autoajuda, acho-os interessantes, e nas férias faço este tipo de leitura para pensar na vida e nos meus objetivos", disse.

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

Kuala Lumpur — Livreiros: todos diferentes, todos iguais


Não sei do que gosto mais quando viajo: viver a experiência do choque cultural ou espantar-me com as semelhanças. Uma pessoa vai até ao outro lado do mundo, visita um país que nada tem a ver com o seu, perde quase todos os seus pontos de referência, mas encontra uma colega de profissão com quem tem imenso em comum. Estar a conversar com alguém de outra cultura pela primeira vez e dar por si a dizer "Pois é, é mesmo isso!" é tão emocionante quanto ficar alojada na casa de uma família Hmong, tribo do norte do Vietname, que está no extremo oposto do meu estilo de vida. Encontrei a Abbie no shopping das Torres Petronas, onde também eu tinha ido almoçar. Alegria pura foi o que senti quando me disse que era livreira na Books Kinokuniya, uma rede japonesa de livrarias. A partir desse primeiro ponto em comum coincidimos em muitas outras coisas. Tal como eu, a Abbie lê imenso e ri-se da ironia que é deixar parte considerável do seu salário no sítio onde trabalha. Tal como eu, a Abbie considera os livros caros, só que na Malásia isso não se deve à pequenez do mercado, mas sim ao facto de quase não haver edição nacional e trabalharem sobretudo com edições importadas dos EUA e do Reino Unido. Tal como eu, a Abbie tem a sorte de poder ler os livros que são oferecidos pelos editores, mas com uma diferença: quando me oferecem livros, recebo a edição que vai para o mercado, enquanto ela recebe uma "review copy", que é uma edição mais barata produzida para promover os livros junto de quem os vai vender. E tal como eu, a Abbie considera fundamental sentir-se agarrada pela primeira frase de um livro. Fotografei-a quando lia "The Killer Next Door", de Alex Marwood, um thriller psicológico que, na sua opinião, explora muito bem os meandros da mente humana. "É maravilhoso encontrar um bom livro!", disse-me. "É uma fonte de felicidade". E eu, tal como ela, sinto extamente o mesmo.

quinta-feira, 5 de Junho de 2014

Kuala Lumpur - Danusha, nas Petronas


Quis ir à Malásia por causa de Malaca. Meti na cabeça que queria conhecer o bairro português ou "Portuguese Settlement", como lhe chamam por lá. Infelizmente a visita ao bairro foi uma tremenda desilusão. Há duas ou três ruas com nomes portugueses, casas de arquitectura descaracterizada, uma praça com um par de restaurantes onde se confeccionam pratos de inspiração vagamente lusa e um museu liliputiano repleto de tralha que não interessa nem ao Menino Jesus. Verde, vermelho e motivos do folclore português pintados nas paredes. E eu que implico solenemente com esta imagem de Portugal parada no tempo, como se nos reduzíssemos a bacalhau e corridinhos. Ou viras. Trocámos algumas palavras com um senhor que nos levou ao museu. Discursou longamente sobre as diferenças entre o português que lá falam e o português de Portugal, mas fê-lo sempre em inglês. E ainda se queixou que as novas gerações não querem aprender o idioma dos tetravós. Pudera! Que interesse tem aprender o idioma de um país que, retratado desta forma, parece cheirar a mofo? Da nossa língua só ouvimos mesmo as palavras ditas por um pescador, que remendava redes sentado no chão. As vogais muito abertas, num sotaque vagamente tropical. E mais nada. Malaca, Património Mundial da Humanidade desde 2008, é engraçada e merece ser visitada. Dá prazer passear pelas ruas de travo europeu cheias de turistas e fazer o roteiro das lojinhas, que são muitas e de muito bom gosto. Mas o que salvou mesmo a ida à Malásia foi a sua capital, Kuala Lumpur, a cidade que parece encerrar vários países. Fiquei alojada no bairro chinês, contudo, ao virar da esquina, parecia chegar à Índia quando surgia um templo hindu de cores psicadélicas.  E cinco vezes por dia viajava até ao norte de África sempre que ouvia o muezim chamar os fiéis para as orações. Porém, os encantos de Kuala Lumpur não se reduzem a esta mistura surpreendente de culturas que parecem conviver em paz. Kuala Lumpur é, a par das tradições e rituais ancestrais, uma cidade moderníssima, que esbanja juventude, dinamismo e luxo, uma faceta que tem como expoente máximo as badaladíssimas torres Petronas, outrora as mais altas do mundo. Foi junto à entrada da Torre 2, mesmo antes de entrar no shopping que lhe está adjacente para ir almoçar, que conheci a Danusha, uma jovem malaia cujo trabalho de auditoria lhe consome muito tempo. "Trabalho aqui nas Petronas. Já li mais do que leio atualmente. Mas aproveito todo o tempo livre para fazê-lo. Leio sobretudo romances, mas também gosto de não ficção. Salman Rushdie é talvez o meu autor favorito, embora só tenha lido três romances dele", disse-me. O livro que tinha consigo naquele dia era "The Finkler Question" ("A Questão Finkler", na sua edição portuguesa), romance que valeu a Howard Jacobson o Booker Prize de 2010. "Foi-me oferecido por um amigo" contou-me. E enquanto me mostrava a extensa dedicatória escrita nas primeiras páginas, esse amigo chegou e  aproximou-se de nós. "Bem, na verdade ela queria o livro", disse ele rindo-se. Trocaram um olhar cúmplice e a Danusha completou: "Não costumo ler as sinopses. Leio apenas as críticas. E pelas críticas feitas a este romance achei que devia ser giro. E é mesmo muito divertido. Estou a gostar muito!" Olha de novo para o amigo e acrescenta "Quem também é escritor é ele. Está a escrever um livro que um dia será publicado". Ele não desmente. Explica que ainda não sabe o que é "aquilo". "Só palavras, por enquanto. Mas ela é que devia ser escritora", diz olhando para a Danusha. "Escreves muito bem". E deixei-os a discutir esse assunto não sem antes combinarmos que quem publicasse primeiro um livro teria de me dar conhecimento.

Mais fotos da Danusha e das torres Petronas aqui.

sexta-feira, 30 de Maio de 2014

Timor-Leste — Ás vezes mais vale estar calada


Francisco Pereira. Assim se chama este leitor timorense que não entende uma palavra de português. O pouco que pude comunicar consigo foi possível por intermédio de um jovem australiano fluente em Tetum, o idioma em que estava escrita a Bíblia que o Francisco lia (Evangelho Segundo Mateus 17:24-27). "Francisco Pereira! Com esse nome devia falar português", exclamei. E arrependi-me de o ter dito no mesmo segundo. É como afirmar que todos os Iuris e todas as Kátias de sangue puro lusitano deviam falar russo... Perante a minha baboseira, o silêncio do Francisco foi de ouro. Fotografei-o na linda Praia dos Portugueses no sábado de Aleluia.

terça-feira, 27 de Maio de 2014

Timor-Leste - Ana, na Praia dos Portugueses


Timor-Leste tem 12 anos. É um país pré-adolesente que não larga o telemóvel, gosta de novelas coreanas, conduz uma mota, vai ao único shopping para comer no único MacDonald's e define o seu caráter sobre a riquíssima história dos seus antepassados (que não rejeita), os traumas da ocupação indonésia (que não quer esquecer), os anos de luta e resistência (que lhe servem de inspiração) e a certeza de um futuro melhor (a que os petrodólares não são alheios). Acho que foi isso que mais invejei aos timorenses, esse sentido de esperança que Portugal perdeu. Em Timor-Leste havia muito pouco e consta que os indonésios, na sua retirada, destruíram o mais que puderam. Por isso, em Timor-Leste está quase tudo por fazer e nesse caminho longo de crescimento a ajuda internacional, mais ou menos desinteressada, tem tido um papel preponderante. A comunidade de expatriados em Dili, trabalhadores com contratos ou voluntários, é muito grande. Os australianos são os que existem em maior número. Mas também há portugueses, norte-americanos, neozelandeses, chineses e até filipinos, como é o caso da Ana, que vive e trabalha em Dili desde 2006. "Não sei quanto tempo mais ficarei por cá. Julgo que enquanto houver trabalho. Mas todos os anos vou às Filipinas uma ou duas vezes", disse-me. Encontrei-a a ler na Praia dos Portugueses, na véspera de Domingo de Páscoa, quando decidi caminhar até o topo do promontório onde existe uma estátua do Cristo Rei. Estava a ler "The Farmer's Wife", um romance muito simples, como a própria Ana o definiu. "Senti-me seduzida pelo personagem e pela história. Gosto de personagens extraordinários e realistas. Até nos filmes a minha preferência vai para histórias simples". Esta engenheira de profissão diz não ter muito tempo livre para os livros, mas que quando pode lê. Era o caso daquele fim de semana prolongado. "Fui trocar livros ali no hotel da praia. Deixei dois e trouxe outros dois". Para quem lê pouco, não é nada mau.

Mais fotos aqui.

sábado, 24 de Maio de 2014

Timor-Leste - Tudo o que os livros são



Os livros são viagem. Os livros são conhecimento. Os livros são entretenimento. Poderia continuar a enumerar tudo aquilo que os livros são para os muitos leitores com quem já conversei. Mas para a Elizabeth o livro é aquilo que talvez mais me toque: o legado de alguém que amávamos e que já partiu. O livro é memória. O livro é prolongamento. No dia em que a conheci, a Elizabeth tinha começado a ler "Divine Guidance" de Swami Govinda, um título que o seu melhor amigo muito lhe tinha recomendado. Nesse mesmo dia assinalavam-se os três meses da morte súbita desse seu melhor amigo. "Está a ajudar-me a reconectar-me com o meu caminho espiritual. Leio-o por mim, mas também por ele. Antes de morrer, deixou-me quatro livros. Este é o último". A Elizabeth, que é australiana, mudou-se este ano para Timor-Leste e está a dar aulas em Dili. Levou consigo a filha adolescente. Tem pela frente um contrato de dois anos para cumprir, pelo que contam ficar no país pelo menos esse tempo. Ambas estão a gostar muito de lá viver. A Leilani também lia, mas admitiu que não o faz com muita frequência. "Estou a tentar ler mais", disse-me. "Por isso passei pela biblioteca da escola e achei que "Eat, Pray and Love" seria interessante". Fotografei-as na esplanada do Hotel Esplanada, na Avenida de Portugal, uma marginal que percorre parte da costa de Dili. Ali, sentada à sombra, fintei o sol inclemente e recebi com alívio a pouca brisa que soprava do mar à minha frente. Almocei, bebi o melhor sumo de lima que alguma vez provei e relaxei ao som de uma boa música enquanto acedia à net, principal razão que me levou a lá ir. Um dia que visitem Timor-Leste não deixem de passar por lá, nem que seja para tomar um delicioso café timorense.

quarta-feira, 21 de Maio de 2014

Sydney - Dana, na Ópera


Estive uma semana em Sydney e fui ao edifício da ópera quase todos os dias. É impossível resistir ao fascínio que exerce. De dia ou de noite, quando está todo iluminado, faça chuva ou faça sol, lá de cima do jardim botânico ou mesmo a partir da sua grande escadaria, apetece sempre contemplá-lo mais um pouco. Numa das vezes fui mesmo fazer a visita guiada ao seu interior (30 Euros bem investidos, aliás), ocasião para entrar nas principais salas de espetáculo — que lindo que é o Concert Hall, com capacidade para quase 2700 espetadores! —, ficar a par de episódios anedóticos da sua história e conhecer os detalhes da sua complexa construção, um magnífico trabalho de arquitetura e engenharia. Para além de ter descoberto que a Ópera de Sydney é Património Mundial da Humanidade desde 2007 (não, não sabia...), também aprendi que não é só em Portugal que este tipo de empreendimento derrapa: o que estava previsto construir em três anos, demorou dezassete a erguer (nem a construção da Casa da Música correu tão mal) e o orçamento inicial foi escandalosamente ultrapassado. A poucos minutos do início da visita, a Nilza diz-me entusiasmada que estava uma senhora a ler, sentada na escadaria. Ainda pensei duas vezes porque temi não ter tempo para fazer as fotos e conversar com calma, mas lá fui focada nesta grande oportunidade para o Acordo Fotográfico. A Dana, senhora de uns olhos azuis belíssimos que não pude captar, é norte-americana e estava de férias em Sydney. Viciada em livros, lia um clássico australiano que lhe foi recomendado e emprestado por um amigo: "Cloudstreet". Este livro, escrito por Tim Winton, retrata a vida de duas famílias da classe trabalhadora entre 1943 e 1963. Passado em Perth, o romance aborda temas caros aos australianos, tais como as relações familiares,  a busca de valores orientadores para a vida e a preocupação em ser um verdadeiro "aussie", empenhado e lutador. "Estou a gostar. É bom. Tem alguns termos australianos e calão que não entendo muito bem, mas à parte isso estou a gostar", comentou. 

Mais fotos da Dana e da Ópera de Sydney aqui.

domingo, 18 de Maio de 2014

Sydney - Sophie, que também é viajante


Não percebo patavina de botânica, mas adoro plantas. Embeveço-me com o porte das árvores, espanto-me com a complexidade de certas flores ou a simplicidade de outras e concluo sempre que a natureza produz seres belíssimos. Orgulho-me das poucas plantas que possuo e tratar delas é um dos meus maiores prazeres. Vê-las crescer saudáveis e florir com a passagem das estações é um motivo de alegria. Notá-las menos viçosas deixa-me triste. E deixá-las bem entregues foi uma das minhas grandes preocupações antes de partir de viagem. São plantas-animais-de-estimação. Este meu interesse leva-me a não perder a oportunidade de visitar os jardins botânicos que surgem no meu caminho. Foi o que aconteceu, primeiro, no Rio de Janeiro e umas semanas depois, noutro continente, em Sydney. Com uma diferença: o do Rio obrigada a pagar a entrada e o de Sydney é de acesso livre. O Royal Botanic Garden que visitei é o mais central dos três jardins botânicos que existem naquela cidade australiana. Fundado em 1816, ocupa 30 hectares e faz fronteira com os dois ícones de Sydney: o edifício da ópera e o porto. E foi na descida para o porto, já com as suas águas calmas bem visíveis, que reparei na Sophie a ler sob a extensa copa de uma árvore cujo nome não vos sei dizer (embora estivesse identificada), porque me esqueci completamente de apontá-lo algures... A Sophie, que é britânica, foi mais uma das viajantes que tive a sorte de conhecer. Estava a viver havia um ano em Sydney, mas antes disso tinha passado uma boa temporada no sudoeste asiático. Em breve seguiria para a Índia de onde deveria voltar a casa apenas por uns dias. É que estava nos seus planos partir para a América do Sul e ir também visitar o Canadá. Uma vez que estudou Literatura Inglesa na Faculdade, a Sophie diz que lê muito e aponta Khaled Housseini como um dos seus autores preferidos. "Mistery", de Peter Straub, foi o livro com que a fotografei, um policial passado numa pequena ilha das Caraíbas. "Foi-me oferecido pela minha irmã, que o leu e o recomendou. Avisou-me que iria demorar a entrar na história, mas que quando isso acontecesse iria gostar muito". E assim foi. A Sophie explicou-me que já tinha lido cem páginas e que a história tinha sido algo lenta até esse ponto. "Só agora começa a cativar-me", disse.

Mais fotos da Sophie e do Royal Botanic Garden de Sydney aqui.