quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Celine, na Laginha


Passava pouco das nove da manhã quando pus os pés no areal e o olhar na beira mar à procura de um lugar para estender a toalha. A caminho da água turquesa hipnotizante, avistei a Celine a ler, assim mesmo como a vêem na imagem, e decidi que lhe pediria uma foto, nem que fosse porque a beleza do cenário o exigia fatalmente.

A Celine, que é francesa, está pela segunda vez de férias em Cabo Verde e tem aproveitado os 15 dias de descanso para se evadir entre as ilhas de S. Vicente e Santo Antão, onde satisfez a sua paixão pelas longas caminhadas no meio da natureza. Aqui no Mindelo, sob o sol radioso da Lajinha, dedicou-se a outra coisa que muito aprecia: ler. Ao explicar-lhe o que pretendia dela, Celine aceitou de imediato participar no Acordo Fotográfico, mas lamentou que a apanhasse com a edição de bolso de “Cinquante Nuances de Grey” ("As Cinquenta Sombras de Grey", na edição portuguesa).  Preferia que me fotografasse com o livro que acabei ontem, um romance de Eric-Emmanuel Schmitt, o meu autor favorito. Mas enfim... Este é o terceiro que leio nestas férias”.

Não foi com grande entusiasmo que falou do livro de E. L. James e depreendi, por isso, que o livro nem fosse seu. Mas enganei-me. Celine confirmou-me que foi ela que o comprou antes de partir e que o escolheu porque tinha muitas páginas e precisava de livros bem grandes para ter leitura garantida enquanto as férias durassem. “Para parar, relaxar, não pensar muito e esvaziar a cabeça é um bom livro. É um romance que se adequa às férias e à praia. Só isso”.

Grande apreciadora de romances históricos, Celine contou-me que lê desde muito pequena e que a mãe lhe incutiu o hábito de registar as leituras que faz. “Tomo nota de todos os livros que leio desde os dez anos e já tenho cinco cadernos cheios de títulos. É com base neles que recomendo livros a amigos e escolho os que ofereço. Nunca ofereço um livro que não tenha lido antes”.

E se para alguns é fácil eleger, por entre as longas listas de livros lidos, aquele que é o livro da sua vida ou o livro que mudou a sua vida de alguma forma, Celine diz que não consegue fazer essa escolha. “Mudamos muito ao longo da vida, mas atribuir isso à leitura não é claro para mim... Há, no entanto, um romance que me tocou verdadeiramente: “La Délicatesse”, de David Foenkinos (em Portugal, "A Delicadeza"). Também eu perdi alguém e este livro é a prova de que podemos recuperar. Para além disso, julgo que está muito bem escrito. É um livro que adoro e que gosto muito de oferecer”.

Voltei depois ao meu lugar, feliz com mais esta conversa, para também eu me agarrar ao livro que fui buscar no início da semana à Biblioteca Municipal do Mindelo. Continuo a apostar na literatura Cabo-Verdiana e regressei ao meu autor favorito até à data: Manuel Lopes. De frente para o mar, desbravei algumas páginas de "Chuva Braba" cuja acção decorre na ilha que se vê lá ao fundo, na foto, coberta de nuvens — Santo Antão. Um lugar que considero místico e onde há dias fotografei outra leitora. Mas para esse texto, preciso de mais tempo.

domingo, 12 de julho de 2015

Luís e os navegadores chineses


Convenci-me que não há um único canto do mundo que não tenha sido tocado pela diáspora chinesa quando, o ano passado, vi na cidade de S. Tomé um taberneiro chinês a falar crioulo e a vender vinho da palma aos clientes são-tomenses. Ficou-me profundamente gravada na memória aquela imagem, ao passar pela porta do lugar mal iluminado, cheio de homens, e ainda trago nos ouvidos a algaraviada que de lá brotava: falava-se alto, ria-se e o chinês, atrás do balcão, estava completamente integrado naquele quadro tropical e, a meu ver, surreal. Juro-vos que isto foi, para mim, o cúmulo, a prova dos nove, a total rendição — há chineses em todo o lado, ponto final!

Aqui no Mindelo, em Cabo Verde, não é preciso ficar-se muito tempo para se constatar que além de existir uma grande comunidade, os chineses tomaram nas suas mãos a quase totalidade do comércio: tudo se pode comprar nas muitas lojas de chineses que aqui existem. Dir-se-ia um monopólio. Só no trajecto que faço entre o lugar onde moro e o trabalho — pouco mais de cinco minutos a pé — conto oito! E esta comunidade, à semelhança da impressão que me deixou a cena de S. Tomé, parece-me muito mais integrada do que a que vive e trabalha em Portugal: não é fora do comum vê-los em horas de expediente a tomar um sumo natural num café ou a lanchar demoradamente nas pastelarias, a chinelar pelas ruas já com um certo gingar africano, as mulheres chinesas a caminhar de braço dado às amas cabo-verdianas que lhes carregam os filhos pequenos.

Andava já eu muito atenta a tudo isto quando o Luís veio hospedar-se na Casa Café Mindelo e o surpreendi na recepção do hotel a ler “1421 – O Ano em que a China Descobriu o Mundo”. Contou-me o Luís que o autor da obra, Gavin Menzies, é um oficial da marinha britânica que depois de reformado se dedicou ao estudo da história marítima da China — estudo que o levou, inclusive, a fazer investigação na Torre do Tombo, em Lisboa — tendo concluído que os chineses, entre 1421 e 1423, na recta final da dinastia Ming, não só chegaram à América muito antes de Cristóvão Colombo, como também circum-navegaram o globo antes de Fernão de Magalhães. Até que o enorme país se fechou sobre si próprio e um dos imperadores ordenou a destruição de todas as provas dos grandes feitos da armada chinesa. Por incrível que pareça, uma das provas que serve de base à teoria de Gavin Menzies está aqui, em Cabo-Verde, mais precisamente em Santo Antão. Há nesta ilha, aquela que eu vejo todos os dias aqui do Mindelo, um lugar chamado Penedo de Janela onde uma pedra, a que chamam Pedra Escrivida, exibe caracteres de uma língua indo-chinesa, supostamente gravados por navegantes chineses. Mas os mistérios em torno da pedra são muitos e outras explicações sugerem que os caracteres poderão ser de origem germânica, escandinava, berbere ou até portuguesa. Obviamente, coloquei Penedo de Janela na minha lista de lugares a visitar assim que tiver a oportunidade de voltar a Santo Antão. Mas é bom que se diga que, embora empolgante, a teoria de Gavin Menzies não está isenta de polémica: uma pesquisa rápida na net revela que foram vários os historiadores que a rejeitaram, apontando a total falta de metodologia e rigor científico, e apelidaram o seu autor de pseudo-historiador...

Acerca dos seus hábitos de leitura, o Luís admitiu ser sobretudo um consumidor de livros de História e Literatura de Viagem, mas os livros que apontou como mais marcantes fogem um pouco a estas categorias: "O Princípio de Peter", "O Triunfo dos Porcos" e o colossal "Memórias de Adriano". 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Cabo Verde — Amílcar no Mindelo


A ilha de São Vicente e a sua capital, o Mindelo, entraram na minha vida em outubro de 1998, quando os meus pais regressaram de uma viagem a Cabo Verde. Desde então, ouvi relatar inúmeras vezes, e sempre com muita doçura, detalhes dos três ou quatro dias lá passados: a movimentada Casa do Benfica, a alegre Praça Amílcar Cabral percorrida por miúdos fardados à saída da escola, o colorido do mercado municipal, as casas de traça portuguesa, os espaços com música ao vivo, a simpatia do taxista que fez as vezes de guia turístico por um dia, o mar turquesa e quente da Baía das Gatas, a imponência e negritude dos vulcões extintos, a loja onde lhes recomendaram o CD do Bau que viria, já em Portugal, a embalar muitas das nossa refeições em família. Foi preciso que passassem dezasseis anos para que eu tivesse, por fim, a oportunidade de conhecer também a chamada capital cultural de Cabo Verde. Em 2014, o Mindelo foi a última das mais de trinta cidades que visitei no decorrer dos 168 dias que demorei a dar a volta ao globo. Daqui regressei apenas à cidade da Praia para apanhar o voo da TACV que me levou de volta a casa.

O Mindelo — outrora Porto Grande — existe, em parte, graças à persistência dos governantes portugueses, que sempre viram grande potencial na baía natural que a cratera submarina de um vulcão ali formou. Contudo, a falta de recursos e os longos períodos de seca, adiaram durante séculos o seu povoamento: a ilha de S. Vicente foi descoberta em 1462, mas só em 1765 chegaram os primeiros colonos à povoação do Porto Grande. Na primeira metade do século XIX, mais ou menos na mesma altura em que o Marquês de Sá da Bandeira decreta que o nome do lugar mude para Mindelo (em homenagem ao desembarque das tropas liberais de D. Pedro IV no norte de Portugal, perto do Mindelo, em 1832), várias companhias inglesas de carvão instalam-se na vila para abastecimento dos navios que viajavam da Europa para o Atlântico Sul. Já na segunda metade do século XIX, outras companhias inglesas começam a instalar na ilha cabos submarinos de telégrafo que permitem ligar Cabo Verde ao continente africano, à Europa, ao Brasil e até aos Estados Unidos. Este período de prosperidade sob o ciclo do carvão e das telecomunicações, permitiu ao Mindelo crescer e investir nas infraestruturas públicas. A vila tornou-se, então, um polo de atração para habitantes de outras ilhas do arquipélago, ao mesmo tempo que se instalava também uma considerável comunidade estrangeira. O Mindelo adquiria assim uma aura cosmopolita e requintada muito própria, onde a cultura crioula — de matriz africana e portuguesa — bebia também da cultura inglesa. Porém, quando no alvor do século XX o carvão começa a ser substituído pelo petróleo como combustível, o Mindelo entrou num período de decadência que a Grande Depressão de 1929, entre outros factores, acentuou ainda mais: o desemprego assolou a maioria dos trabalhadores portuários e do carvão, a pobreza deu lugar à fome e às doenças e as duas secas extremas da década de 40 provocaram milhares de mortos e obrigaram à emigração massiva dos mindelenses. Só no fim da década de 60, com o incremento das remessas enviadas pelos emigrantes e, mais tarde, com o processo de independência é que o longo período depressivo entrou em remissão.

Hoje, com cerca de 70 mil habitantes, o Mindelo é a segunda maior cidade de Cabo Verde. Daquela pequena vila que começou a crescer a partir da Pracinha da Igreja resta muito pouco. Há um reduzido mas bem conservado casco histórico, mais ou menos delimitado entre a Praça D. Luís, o Palácio do Governador (agora Palácio do Povo) e a Praça Nova (rebatizada de Amílcar Cabral) onde as influências portuguesas são mais do que evidentes e a arquitectura e urbanística do período áureo do século XIX se misturam com a traça do Estado Novo. A partir daí a cidade espraiou-se desordenadamente pelas colinas que contornam a baía, formando o que se parece com um presépio feito de prédios feios e casas inacabadas, outras deixadas no reboco, algumas pintadas de cores berrantes (disseram-me que conforme a tinta que houver no mercado ou a que for mais barata na altura). Há algo de favela carioca nestes bairros mindelenses de olhos postos no mar e na vizinha ilha de Sto. Antão. Mas há também neste conjunto caótico de ruas — parcas em passeios, pavimentadas de paralelos desordenados e salientes, muito limpas e salpicadas por escassas palmeiras, acácias, buganvílias e loendros que resistem estoicamente à falta de água — um travo encantador que vem do langor do povo, do exotismo do crioulo, da alegria da música, do calor da dança, da suculência dos pratos salpicados de malagueta, do ardor do grogue, da cor fascinante do mar, do clima ameno e constante, do reboliço do vento. No Mindelo os dias parecem ter mais horas, e talvez por isso tudo se faça devagar. E foi devagar, chinelando, saboreando a sua tão badalada morabeza, que me embrenhei na cidade e nos seus arredores, longe de imaginar que voltaria muito em breve. 

Na manhã que destinei à ida à Baía das Gatas, saí da Casa Café Mindelo, onde estava alojada, bem no centro da cidade, e percorri a rua de S. João em direção à Praça Estrela, lugar de onde saem aquilo a que os locais chamam os “carros de aluguer”, isto é, os pequenos autocarros que servem de transporte público. Nessa rua, sentado à soleira da porta estreita de um estabelecimento comercial, avistei o último leitor da volta ao mundo. Depois de feita a fotografia, convidou-me para entrar na pequena Papelaria S. João, de que é proprietário, e foi aí que conversámos.

Nascido e criado no Mindelo, o Amílcar foi para Portugal antes do 25 de Abril para estudar Economia no Instituto Superior de Economia. Essa experiência na “Metrópole” foi determinante para que se envolvesse seriamente no movimento de libertação de Cabo Verde. “Fui combatente pela Liberdade da Pátria”, disse-me, com manifesto orgulho. Sobre si, pouco mais me contou (embora eu tenha vindo a saber, muitos meses mais tarde, que este leitor, mais conhecido no Mindelo por Sr. Picau, já foi Secretário de Estado). Acrescentou, apenas, que também é autor: publicou um livro intitulado “As Aventuras de Tibúrcio” (premiado pela Sonangol) e escreve de vez em quando para jornais cabo-verdianos. Já sobre o livro que estava a terminar de ler, “A Jangada de Pedra”, e sobre o seu autor, José Saramago, Amílcar não poupou palavras e expressou-se com entusiasmo. “Adoro Saramago!”, afirmou, categórico. “Para mim é um dos melhores escritores portugueses da atualidade. Pela singularidade da escrita, pelo conhecimento da realidade profunda de Portugal, pelo retratar das coisas sem ornamentos, pelo realismo, o seu posicionamento, a sua irreverência em relação ao status quo. Em relação a este título em particular, fiquei entusiasmado com o retrato que faz da perseguição política, da miséria, das doenças... Passei a adorar Saramago a partir do momento em que entendi a sua técnica de escrita. Entendendo essa técnica, a escrita de Saramago é muito mais simples do que se pensa à primeira.  Um conselho que dou aos leitores de Saramago é que o leiam em voz alta. Foi dessa forma que entendi a sua técnica”. Antes d’ “A Jangada de Pedra”, Amílcar tinha lido “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e para ler pela primeira vez ou reler tinha à espera o “Memorial do Convento”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “A Bagagem do Viajante” e “Caim”.

Não posso deixar de me comover com o facto do último leitor da minha grande viagem estar a ler um autor português, e logo o nosso único Prémio Nobel da Literatura. Nada faria mais sentido! Nada se adequaria melhor ao fecho de um ciclo que marcou profundamente o meu percurso e o deste blogue. Até hoje, passado quase um ano sobre o fim da volta ao mundo, todas as palavras não me chegam para expressar o quanto fui feliz durante aqueles 168 dias. Espero que tenham gostado de viajar comigo e que os quase 70 leitores fotografados em 14 países vos tenham inspirado a ler ainda mais.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Cabo Verde — Leniza no Tarrafal


Cabo Verde foi o primeiro país africano onde alguma vez estive. Muito antes de ir a Marrocos ou à Tunísia, foi na ilha do Sal que passei férias dois anos seguidos — em 2001 e 2002 —, alojada num modesto lugar que Miguel Sousa Tavares tão bem descreve no seu livro "Sul": o Hotel Morabeza. A ilha do Sal é pequena e na época não havia muito para ver. Um dia bastava para percorrer os principais lugares de interesse turístico ou cultural, pelo que essas semanas foram sobretudo passadas na praia a ler, a comer e a dormir. Obviamente, embora pudesse dizer que já tinha estado em Cabo Verde duas vezes, não podia de forma nenhuma afirmar que conhecia Cabo Verde.

Ao regressar ao país em 2014, quis sobretudo colmatar essa falha, afastar-me dos locais quase exclusivamente de praia e desbravar o Cabo Verde menos turístico. Estipulei, portanto, que visitaria a ilha de Santiago, onde fica a Praia, a capital política e maior cidade cabo-verdiana; a ilha de S. Vicente, onde se situa o Mindelo, considerado o coração cultural do país; e a ilha de Santo Antão, porque é possível lá ir de barco a partir do Mindelo e porque muitos a apontam como a ilha mais bonita do arquipélago: é de todas a mais verde e a mais montanhosa, chegando a atingir quase dois mil metros de altitude no Topo da Coroa, um vulcão inactivo. Estive lá três dias e passou a ser, das quatros ilhas que conheço, a minha predilecta.

Os dias em Santiago foram passados em ritmo lento, entre os passeios pelo Plateau — o bairro localizado num promontório sobre o mar, de arquitectura e urbanismo que nos confundem ao ponto de acharmos, por momentos, que estamos numa vila portuguesa — e pela marginal até à Quebra Canela, a praia de areia escura onde dei uns belos mergulhos e me diverti a observar a multidão de badios (assim se chamam, em crioulo, os habitantes da ilha de Santiago) a brincar nas ondas, a fazer acrobacias no areal, a conversar ou tão só no seu vai e vem alegre. Estávamos em Agosto, tempo de férias para a maioria. A minha volta ao mundo acabaria dentro de poucos dias. Era tempo de balanço e de emoções muito contraditórias...

Houve duas ocasiões, porém, em que me afastei da capital, a primeira delas para visitar a Cidade Velha, declarada Património Mundial da Humanidade em 2009. Esta pequeníssima cidade, fundada pelos portugueses em 1460 para servir de entreposto no comércio de escravos entre os continentes africano, americano e europeu, foi até 1770 a capital do arquipélago e é tida como o berço da nação cabo-verdiana, por lá ter nascido o homem crioulo. Na Cidade Velha aportaram Vasco da Gama, no seu caminho para a Índia, Pedro Álvares Cabral, na ida para o Brasil e Cristóvão Colombo, na terceira viagem às Américas. Considerei particularmente emocionante caminhar pela Rua de Banana, a mais antiga da África subsaariana, imaginando que estas figuras ilustres da história universal fizeram o mesmo um dia; visitar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde pregou o Padre António Vieira; percorrer as ruínas da primeira Sé Catedral erguida em África pelos portugueses e subir à Fortaleza de S. Filipe da qual se tem uma vista soberba sobre toda a costa daquela parte de Santiago e se avista também o verdíssimo Vale da Cidade Velha, um oásis que contrasta com a aridez da restante paisagem.

Na segunda ocasião em que saí da cidade da Praia, dirigi-me ao Tarrafal, esse lugar que na minha imaginação era apenas um ermo onde existia o campo de concentração e nada mais. Por isso, foi grande a surpresa quando a Hiace que fazia as vezes de transporte público passou a toda a velocidade pela placa que sinaliza o recinto infame e não parou. Nesse preciso momento fiquei a saber que o Tarrafal é, antes de mais, uma vila piscatória onde existe uma das poucas praias de areia branca da ilha de Santiago e onde a indústria do turismo começa agora a despontar. Chegada ao centro da vila tive de voltar para trás a pé, chinelando pelo alcatrão que já fervia. Depois, segui por um caminho de terra batida até ao portão do complexo prisional. E então, o lugar que tinha imaginado materializou-se e a desolação que emana abateu-se sobre mim.

Ironicamente localizado num lugar chamado Chão Bom, o Campo de Concentração do Tarrafal foi criado pelo Estado Novo em abril de 1936, de acordo com os modelos nazis em vigor na época, e começou a funcionar em outubro do mesmo ano com a chegada dos primeiros prisioneiros: 152 portugueses sentenciados ao desterro por crimes políticos ou de rebelião. Durante os seus quase 40 anos de funcionamento, passaram por lá ou ali morreram condenados por delitos comuns, militantes comunistas, anarquistas, sindicalistas, republicanos democratas, espanhóis derrotados na guerra civil, alemães anti-nazis, militantes e combatentes dos movimentos africanos anti-coloniais e, após a independência de Cabo-Verde e por um período muito breve, elementos considerados cúmplices do antigo regime colonial. Ultrapassado o portão de ferro é possível subir à muralha que contorna todo o recinto de planta rectangular e observar lá do alto o complexo prisional: num primeiro plano, o fosso; depois um muro ligeiramente mais baixo debruado a arame farpado e lá dentro uma vintena de edifícios térreos pintado de ocre, a cor que acentua ainda mais a secura da terra circundante. Apenas duas ou três acácias rebeldes dão um ar da sua graça pontilhando a paisagem com flores rubras (ou insistem tão só em recordar o sangue que ali se derramou?). E à volta de tudo isto, a Serra Malagueta e o Monte Graciosa acentuam o isolamento do Campo de Concentração. 

Fiz a visita sob um sol severo e na quase absoluta solidão. Apenas a N., que viajou comigo, me fazia companhia. Não havia mais vivalma. Não se ouvia um som. Só os nossos passos na terra ou o ranger de uma ou outra porta que abríssemos. Não tivéssemos nós de pagar para entrar, dir-se-ia um lugar abandonado. Todos os edifícios estão vazios, à excepção de um ou dois que exibem placares com informação sobre a história do complexo ou imagens de alguns dos prisioneiros mais notáveis, com respectivos testemunhos breves. Fotografei o de José Luandino Vieira, o escritor angolano que um dia recusou o prestigiado Prémio Camões por "motivos íntimos e pessoais". Será intencional a falta de espólio em exibição? Ou não haverá espólio de todo? Trago essa dúvida comigo até hoje, assim como a sensação de que se poderia fazer muito mais por um lugar que não pode de maneira nenhuma cair no esquecimento.

Por incrível que possa parecer, foi neste lugar triste que me foi dada a oportunidade de fotografar a primeira leitora em Cabo Verde. Podia ter acontecido numa praia, numa esplanada ou até num banco de jardim, mas ocorreu à porta do Campo de Concentração. Leniza, habitante do Tarrafal e estudante do ensino secundário, costuma trabalhar no complexo prisional para substituir funcionários em férias. Leitora muito pouco habitual, diz preferir romances, mas foi a ler uma biografia — "Testemunho de um Combatente", de Pedro Martins — que a retratei. "Acho o livro muito interessante. O autor esteve preso aqui no Tarrafal. Conta como os carcereiros o tratavam, a tortura... E fala da morte de Amílcar Cabral", explicou.

sábado, 16 de maio de 2015

São Tomé e Príncipe — Kilza na Roça S. João


Numa das piores fases da minha vida — a que me confinou à cama de um hospital durante seis meses — os meus dias foram em parte alegrados pela presença de João Carlos Silva e do seu programa "Na Roça com os Tachos", na altura emitido pela RTP2. O "Sr. S. Tomé", como eu gosto de lhe chamar, tinha o mérito de me fazer rir, sonhar com as ilhas do meio do mundo e, até, de me abrir o apetite (coisa rara naqueles dias...). E a sua influência foi tal que até hoje, passados mais de dez anos, os seus petiscos ainda se comem na casa dos meus pais: a receita de camarão com banana tem vindo a ser reinterpretada pelo meu pai e o bolo de chocolate é a sobremesa com que a minha mãe adoça as reuniões de família. 

Mas João Carlos Silva, que se diz "cozinhador", é muito mais do que o homem que dá a cara pela gastronomia são-tomense. É também uma figura proeminente noutras vertentes do panorama cultural do país, já que se desmultiplica em projetos para valorização e promoção das artes, das letras e da história: fundou a Teia de Artes, uma escola onde se formam novos artistas; fundou a CACAU — Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopias, que tem como missão promover mudanças culturais e de mentalidades essenciais ao progresso do país; é um dos fundadores da Associação Roçamundo, que apoia o desenvolvimento educativo, cultural, económico, social e ambiental de S. Tomé e Príncipe; é presidente da Bienal de Arte e Cultura de S. Tomé e Príncipe e é proprietário e administrador da belíssima pousada que funciona na Roça S. João, em Angolares. Aí, no edifício que era, nos tempos da colónia, o centro administrativo da roça, gastronomia, cultura e ecologia fundem-se numa experiência que dizem ser única. Eu, confinada ao meu orçamento de viajante low cost, limitei-me a visitar o edifício e a saborear um delicioso café de S. Tomé enquanto regalava os olhos com a vista soberba que se tem da ampla esplanada. 

Ao chegar a S. Tomé, uma das minhas expectativas era ter a sorte de me cruzar com João Carlos Silva. Nele vejo uma lufada de ar fresco, esperança no futuro e um caminho de progresso. Se o tivesse encontrado, estou segura de que teríamos pelo menos falado longa e apaixonadamente sobre livros, porque o sei um entusiasta da literatura, nomeadamente da poesia. Mas aconteceu-me visitar o seu país numa altura em que se tinha ausentado. Ainda assim, no que a livros diz respeito, a ida à Roça S. João foi proveitosa porque colocou a Kilza no meu caminho. Esta professora de português estava a acompanhar um primo de férias em S. Tomé e antes de partir da roça para outro ponto turístico, aproveitou para ler um pouco no carro. "Adoro ler", disse-me. "Leio desde pequena e para onde vou os livros vão comigo. Os romances são os meus livros preferidos. Este, comprei-o porque o título me chamou a atenção e quis saber como era a história". O livro era "A Demanda d'Ewilan — As Fronteiras do Gelo".

quinta-feira, 23 de abril de 2015

São Tomé e Príncipe — Deolindo e o cacau


Foi em junho de 2003. Parti de férias para Pipa, no nordeste brasileiro, e levei na mala a primeira edição de "Equador", a estreia de Miguel Sousa Tavares na escrita de romances. Ao partir do Porto estava longe de saber que os dias longos e preguiçosos passados entre o areal da Baía dos Golfinhos e a rede do bungalow ficariam para todo o sempre associados à história do Cônsul Luís Bernardo. As 518 páginas do romance foram lidas em 4 dias. Com esse livro nas mãos, ajudada pela paisagem, pelos sons e pelo clima da Mata Atlântica, as minhas férias não se limitaram ao Brasil; estive também em S. Tomé e Príncipe. Demorei onze anos a lá voltar, mas cumpri a promessa feita a mim mesma no fim de tarde em que a chuva quente e pesada que desabou sobre Pipa parecia ter como único propósito acompanhar o pranto com que terminei o livro. Caro Miguel Sousa Tavares, li há pouco tempo no seu "Não se encontra o que se procura" que muitos anos após a publicação do romance, também chorou o fim de "Equador". Não pense que com isso está perdoado! A única coisa que o redime foi a inquietude que plantou no meu íntimo e que deu frutos riquíssimos. Não descansei enquanto não fui ver com os meus próprios olhos o que já conhecia através do olhar do nosso saudoso cônsul.

Aterrei na cidade de S. Tomé vinda da África do Sul. Pelo meio, duas escalas: uma na Namíbia e outra em Angola. Saí do aeroporto já passava largamente da meia-noite e não tinha onde dormir. Foi o funcionário que me tratou do visto que recomendou os serviços do Adelino, um taxista e guia turístico que me entregou, por sua vez, aos cuidados da D. Lurdes. Chegados ao bairro Água Arroz, foi ela que nos abriu o portão da casa construída com o suor de uma vida de emigração: primeiro em Portugal, depois na Austrália. E assim que a vi — com a sua comprida camisa de noite branca, um lenço na cabeça e o andar bamboleante provocado pelas dores nos ossos —, não mais deixei de a comparar à Tia Nastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo. Mãe de nove filhos e avó de inúmeros netos espalhados por três continentes (ninguém está em S. Tomé, nem mesmo o seu segundo marido), a D. Lurdes, sem perder o foco no negócio que a ajuda a pagar as contas, recebe os seus hóspedes com um toque maternal e uma deliciosa infomalidade que permite, a quem vem de longe, vislumbrar detalhes do dia a dia de uma casa são-tomense. Trago gravada na memória a manhã em que saí do meu quarto e encontrei, na corda de secar roupa, as tranças postiças da D. Lurdes penduradas ao sol junto às t-shirts que eu tinha lavado à mão na véspera. Com a ajuda da sua empregada Fofinha, uma adolescente enfezada pela pobreza, esta matriarca sem séquito preparava-nos todas as manhãs um pequeno-almoço com café, leite, pão, manteiga, marmelada, papaia e banana e numa ou outra ocasião chegou a cozinhar a famosa omelete de peixe e folha de micocó, uma erva aromática célebre pelas suas propriedades afrodisíacas. E sentava-se connosco à mesa para nos contar episódios da sua já longa vida, enquanto bebericava um chá contra a prisão de ventre.

No dia em que saí à rua pela primeira vez e comecei a desbravar as ruas da capital, os meus sentidos ficaram de tal forma baralhados que me senti mal disposta. Sentada na esplanada de um restaurante com vista para a baía de Ana Chaves, tive por momentos a impressão de ter voltado a Díli. O clima, a geografia e as cores da paisagem devolviam-me Timor. Mas, por outro lado, do interior do restaurante vinham os sons da RTP Internacional com ecos do escândalo BES, na mesa da família que almoçava atrás de mim bebia-se Super Bock e Compal, da minha própria mesa desprendia-se o aroma a azeite e vinagre vindo do galheteiro e por todo o lado ouvia-se falar português com um sotaque que me parecia ora algarvio, ora brasileiro. Havia cinco meses que não estava tão perto de Portugal e apercebia-me agora, de forma pungente, que não me apetecia regressar a casa. Cedi estupidamente a um sentimento de nostalgia pela viagem que ainda não tinha acabado e admito que a minha experiência em S. Tomé tenha sido afetada por esse estado de espírito. Costumo dizer que foram muitas as ocasiões durante a viagem em que chorei de alegria, mas foi S. Tomé que me arrancou as únicas lágrimas de tristeza. Dos 14 países onde estive no decorrer da viagem, este foi o que mais altos e baixos me provocou. Deslumbramento e nojo. Paz e revolta. Paixão e desprezo. Querer ficar mais tempo e não ver a hora de partir para bem longe. Foi quase um trauma. Não consigo parar de pensar em São Tomé, de falar sobre São Tomé, de me perguntar por que raio toda a gente, os são-tomenses incluídos, parece ter desistido de São Tomé. E embora tenha sido muito duro, tenho saudades de quase tudo o que lá vi e vivi. 

Tenho saudades daqueles momentos em que percorri as parcas estradas da ilha nas carrinhas Hiace amarelas e decrépitas que servem de transporte público e onde em vez dos 12 passageiros para os quais foram concebidas iam por vezes 25 pessoas. Nessas Hiace onde valia transportar tudo, onde suei, a minha pele colada à dos outros, conversei, ri e me aborreci por vezes (houve um passageiro que se recusou a ceder o lugar a uma mulher grávida), também ouvi aos altos berros kizombas que embalam até hoje as minhas memórias desses dias. Tenho saudades de todos os matizes de verde que pintam a densa floresta tropical cuja exuberância só encontra travão no momento em que toca o imenso mar. E nessa floresta, ainda virgem em tantas áreas do arquipélago, de cumes cobertos pelo céu pardo da gravana, eu vi brotar cascatas de água pura, vi erguer-se o absurdo pico do Cão Grande e aprendi a distinguir os pés de café e de cacau abandonados, as palmeiras que darão óleo, os coqueiros, os ocás, os embondeiros, os tamarindeiros, as árvores de figo porco e de fruta pão, as papaieiras e as lindas ravenalas. Tenho saudades do momento em que chegava às roças e era recebida com alegria pelos moradores, pelos poucos trabalhadores e pelas dezenas de crianças. "Brrranca! Brrranca! Doxi! Doxi!", gritavam, carregando nos "erres" e pedindo doces em crioulo. Outros, preferiam pousar para a câmara e dizer com ar grave: "Brrranca, tira-me um postal". Com estes miúdos sofregamente agarrados às minhas mãos, percorri os principais edifícios das roças, ainda tão dignos na forma como se mantêm erguidos, tenazes na sua postura aristocrata, apesar do lixo, apesar da podridão, apesar de todo o abandono do mundo. Na varanda do último andar do antigo hospital da Roça Água Izé — onde outrora nasciam crianças e agora se criam porcos, onde no passado se convalescia de malária e agora habitam famílias inteiras numa divisão transformada em apartamento, nos corredores onde antes circulavam médicos e enfermeiros e hoje os habitantes urinam por falta de saneamento básico —, a olhar para as telhas de barro do casario entremeado de palmeiras que descia até ao mar, desabei num pranto na frente do pobre Ali Babá, o empregado da roça que me mostrou tudo com tanto zelo e evidente orgulho. "Deixa lá, Sandra... Não fiques triste", foram as suas palavras de consolo. Tenho saudades das refeições que fiz nos restaurantes improvisados à beira da estrada — apenas uns panos e uns paus para delimitar o espaço, por vezes sem mesas ou cadeiras; aconteceu-me comer sentada no asfalto com o prato pousado nos joelhos. Aí comi peixe frito, arroz e matabala, tudo cozinhado sem quaisquer condições de higiene e a cada garfada deliciosa que levava à boca pensava que não tinha como escapar a uma doença. Mas que importava isso se o melhor de tudo era o brilho nos olhos da cozinheira a quem dávamos a distinção de provar dos seus petiscos? Tenho saudades dos mercados caóticos onde me abasteci de papaias, bananas e abacate que foram por vezes o meu jantar. Como, no meio de tanta cor e tanto produto fresco, podem imperar nesses mesmos mercados os cheiros mais nauseabundos? Tenho saudades das praias paradisíacas, tantas imaculadas, algumas refúgio de tartarugas marinhas, mas outras a servir de casa de banho e de lixeira das paupérrimas aldeias de pescadores. "Nós não temos latrinas, senhora!", disseram-me as mulheres, as mesmas que me perguntaram se não queria levar os meninos que traziam ao colo. Nalgumas dessas praias assisti ao espectáculo que é ver centenas de mulheres a lavar a roupa nos riachos de água doce que vêm do interior da ilha e desaguam no oceano. Jamais esquecerei a imagem do imenso areal negro, debruado a palmeiras e coberto de roupa colorida a secar ao sol. E tenho, também, saudades das longas conversas que tive com os são-tomenses acerca das suas vidas e do seu país: a falta de trabalho para os jovens, os políticos corruptos, o abandono a que tudo está votado, a emigração como alternativa. Aos mais velhos expliquei porque que me doía ouvi-los dizer que mais valia que os portugueses tivessem ficado. Aos mais novos sugeri que agissem para que algo mude. Mas no país pequeno onde a vida se leva "leve leve" e todos se conhecem, parece que as retaliações não são fora do comum...

Perante este cenário, supus que os livros não tivessem um papel relevante na vida dos são-tomenses. E julgo que não me enganei: o espólio da Biblioteca Nacional, pelo menos aquele que está à vista, é tão pobre que confrange; não me lembro de ver uma única livraria na capital; e os frequentadores do Instituto Camões pareciam estar mais interessados nos computadores e acesso grátis à internet. Porém, nos quase 15 dias em que lá estive, consegui fotografar dois leitores nativos. O primeiro foi o Deolindo. Encontrei-o quando ia a pé do bairro Água Arroz para a baía de Ana Chaves, e passei pela entrada da CECAB/STP — Cooperativa de Exportação da Cacau Biológico de S. Tomé e Príncipe. O Deolindo trabalha no cacau desde a infância e hoje é técnico agrícola especializado em cacau biológico. Na manhã em que falámos preparava-se para mais um dia de quebra de cacau, isto é, o momento em que o miolo é retirado do fruto. Mas antes de se dirigir ao campo e pôr as mãos à obra, fazia uma revisão dos seus conhecimentos com a ajuda do livro "Cacau - Tecnologia pós-colheita". Depois de seco, todo o cacau seria exportado para França onde a Kaoka produz deliciosos chocolates bio.

terça-feira, 7 de abril de 2015

África do Sul — Joanne em Joanesburgo


A viagem de Zanzibar para a África do Sul não correu bem. Aquilo que deveria ter sido um trajeto de meio dia com uma curta escala na Etiópia acabou por transformar-se numa odisseia de dia e meio que incluiu: um atraso de quatro horas num voo; discussões acesas com os funcionários de um aeroporto; um almoço forçado em Adis Abeda; uma escala no Quénia; uma avaria num outro avião que nos forçou a voltar para trás e uma noite passada em Nairóbi que se resumiu a três horas de sono.

Cheguei a Joanesburgo esgotada e o frio que se fez sentir mal saí do aeroporto não ajudou a levantar o ânimo. Voltei a lamentar a péssima ideia que foi chegar a Macau em junho e despachar para Portugal os poucos agasalhos que tinha na mochila. Apenas um dia depois de meter a encomenda no correio, ocorreu-que que na outra metade do mundo (aquela onde planeava passar três semanas muito em breve) se vive o pico do inverno entre julho e agosto. Passeie-me, portanto, pela magnífica "nação arco-íris" — Joanesburgo, Kruguer Park, Durban e Cidade do Cabo — de forma muito pouco glamorosa, vestida com várias camadas descoordenadas de roupa e por vezes envergando casacos e gorros emprestados. 

Fundada em 1886 por colonizadores britânicos, Joanesburgo tem a particularidade de ficar quase 1800 metros acima do nível do mar. Hoje, é não só a maior cidade sul africana — com cerca de 4 milhões de habitantes — como também a mais rica, já que constitui o principal centro financeiro, industrial e comercial do país. Mas essa riqueza, extremamente mal distribuída, as gigantescas bolsas de pobreza, a pesada herança do Apartheid e um conjunto complexo de fatores culturais estão na origem de tensões sociais que fazem de Joanesburgo um dos lugares mais perigosos de toda a África do Sul: assassinatos, raptos, assaltos violentos de toda a espécie e violações são coisas do dia-a-dia. Viver em Jozi — um diminutivo que não escamoteia as agruras da cidade — é, portanto, estar exaustivamente obcecado com a segurança. Uma obsessão que pauta e constrange qualquer atividade. Uma obsessão a que os meros visitantes não conseguem (nem devem!) ficar alheios. 


E depois há a raça, esse assunto que me atingiu como uma forte bofetada, abalou as minhas certezas, questionou os meus valores, provocou uma avalanche de dúvidas, colocou sob os holofotes a minha ignorância, trouxe à tona os meus preconceitos e me levou à náusea e às lágrimas. A raça, essa questão sobre a qual eu nunca quis refletir com seriedade, apesar de todos os meus estudos, apesar de todas as minhas leituras, apesar de todos os documentários e filmes a que assisti, apesar de todas as viagens que fiz e de todos os choques culturais que vivi. A raça, um tema que eu optei por nunca valorizar porque deste lugar privilegiado onde me encontro — uma branca da classe média, que teve a sorte de nascer num país rico, laico e liberal do ocidente — preferi afirmar sempre, com toda a convicção (e ingenuamente?), que a cor da pele pura e simplesmente não interessa. A raça — para mim um "não-assunto"; para milhões uma condenação —, o conceito com base no qual se instaurou um regime abjeto e se escreveu grande parte da história de um país extraordinário. 

Visitei Joanesburgo e outras cidades sul-africanas 20 anos depois de abolido o Apartheid e sete meses após a morte de Nelson Mandela. Na África do Sul a omnipresença de Madiba supera a de Deus. Venerado por todos — independentemente da cor da pele, credo religioso ou filiação partidária — a sua imagem está em todos os lugares, públicos ou privados, e a sua mensagem de luta, reconciliação e esperança decora os muros das cidades e as t-shirts dos jovens. Esforços legislativos são feitos tendo em vista a erradicação das desigualdades sociais e económicas criadas por 44 anos de políticas racistas. Largos milhares de sul-africanos saíram já da pobreza. E ainda assim a nação arco-íris, com a nova bandeira hasteada, o novo hino nacional na boca das crianças e os olhos postos num futuro que se quer cheio de oportunidades para todos sem excepção, luta e lutará durante muitas décadas para se libertar do lodaçal da segregação. 

Segurança e raça. Duas palavras que ditaram o ritmo dos meus dias em Joanesburgo. Porque fui forçada a procurar alojamento em bairros residenciais para brancos, delimitados por muros altos, cercados por vedações eléctricas e vigiados por câmaras. Porque os meus passos estavam limitados a uma poucas ruas onde também outros brancos caminhavam com relativa descontração. Porque não pude apanhar transportes públicos e até o taxista que me serviu de guia teve de ser recomendado por uma pessoa de confiança. Porque tive de ver o centro da cidade através dos vidros fechados de um carro cujas portas estavam sempre trancadas por dentro. Porque ainda há brancos racistas e negros racistas e brancos que se afirmam não racistas, mas que não gostam dos imigrantes nigerianos e negros que também dizem não ser racistas, mas também não gostam dos imigrantes nigerianos e afrikaners que ostracizam todos os que não são afrikaners e brancos que nem sequer são sul-africanos e odeiam afrikaners e mestiços que não sabem a que lado pertencem, porque os lados ainda existem!

Quando voltei a Joanesburgo, depois de quatro dias de safari no Kruguer Park, optei por ficar alojada numa pequena guest house em Melville, um bairro residencial nos arredores da cidade que é habitado maioritariamente por brancos. Ali predominam as casas térreas, os passeios com árvores frondosas, o pequeno comércio, bares e restaurantes para todos os gostos. É, aliás, um lugar onde à noite se vive uma certa "movida" e onde de uma forma geral é possível circular a pé sem grandes perigos. Todas as manhãs caminhava do meu quarto até ao Café de la Crème — um espaço de extremo bom gosto e excelente serviço, gerido por portugueses — onde tomei sempre o pequeno-almoço. E foi aí, por entre iogurtes com cereais, cafés e sumos de laranja que fiz a única fotografia para o Acordo Fotográfico na África do Sul.

Joanne lê muito porque para si ler é uma necessidade absoluta. Normalmente, anda sempre com dois livros na carteira e em casa, na mesinha de cabeceira, tem outros vinte, alguns novos, outros por reler. Aquele que lia na manhã em que a fotografei — Confessions of a Sociopath — fora uma compra por impulso. "Vi-o na livraria e despertou-me a atenção. É sobre uma mulher que sempre percebeu claramente que era diferente até ao dia em que alguém lhe diz que tem características sociopáticas. A partir desse momento esta mulher começa a investigar a fundo as origens da sua condição — será genético? Será social? Será fruto de algum trauma de infância? — e faz um relato do que é viver com esse mal. Este livro é, na verdade, uma autobiografia muito interessante, sobretudo se considerarmos que estatisticamente uma em cada vinte e cinco pessoas tem traços de sociopatia, que podem ir de ligeiros a severos. E o mais curioso é que a sociopatia não tem tratamento. Não há medicação ou terapia que ajude. Nasce-se assim e pronto".

Fui feliz na nação de Mandela e quero muito lá voltar. Ficou tanto por ver, tanto por fazer. E ficaram lá amigos, também. A África do Sul deslumbrou-me com a sua beleza natural, enriqueceu-me com a sua história e cultura, comoveu-me profundamente ao proporcionar-me aquela que foi, talvez, a experiência humana mais extrema da minha vida (e sobre a qual ainda não devo escrever). Mas, passados tantos meses sobre a minha estadia dou-me conta, agora que tento com tanta dificuldade contar-vos uma milésima fração do que experienciei, o quanto é complexo o nó que ainda trago por desatar no peito. Terá sido por isso que não quis fotografar mais? Não sei... Se calhar fui apenas preguiçosa.

domingo, 22 de março de 2015

Zanzibar — Fabienne & Michelle em Kiwengwa


A 40 km de Stone Town, depois de percorrer uma estrada que se dirige para leste até à costa oposta da ilha, fica Kiwengwa, uma aldeia pobre que me era totalmente desconhecida até ao dia em que, ao fim de quase quatro meses a viajar, escrutinei o mapa de Zanzibar em busca de um lugar para desfrutar de uma semana de praia e descanso. 

Cheguei ao Baby Bush Lodge a meio de uma tarde de domingo. Contrariamente à entrada de todos os outros hotéis de luxo, cujos grandes portões se viam junto à estrada de alcatrão que o táxi percorreu, o acesso a este meu humilde alojamento fez-se descendo um estreito caminho de cabras ladeado por casas pobres, algumas sem portas, janelas ou telhados: apenas quatro paredes erguidas e deixadas no reboco. O carro parou junto a um pequeno portão branco rodeado de entulho. Isamíli, um dos empregados, veio imediatamente ter connosco e trouxe consigo um sorriso amplo, honesto que foi uma das muitas alegrias dos dias serenos que ali passei. Pegou na bagagem, abriu o portão e segui-o por uma tosca escadaria de madeira e corda que conduzia à receção mais simples e despojada onde alguma vez estive. Por cima das nossas cabeças apenas um amplo telhado de folhas de palmeira que cobria também a contígua esplanada do restaurante e o grande lounge repleto de vastos sofás. Ali não há qualquer muro, qualquer janela, qualquer porta. Dali, daquele estrado de madeira elevado sobre estacas, só se vê uma frente de palmeiras imperiais. E depois delas, o areal mais branco e o mar mais belo. 

Neste pequeníssimo hotel sui generis plantado nas margens do Índico não há casais europeus em lua de mel. Na hora da verdade, são poucos os que aceitam "o amor e uma cabana", ainda que no paraíso. Porque ficava numa cabana o tosco quarto que me coube: a casa de banho sem porta; o chuveiro que pendia da parede sem que houvesse uma banheira ou um prato de duche; a água, que embora quente, era salobra e mal me retirava o sal da pele e do cabelo depois da praia; a cama, de colchão finíssimo e lençóis que não abri, tendo preferido dormir no meu saco-cama de cetim; o mosquiteiro que cheirava a maresia; a humidade que se entranhava em tudo ao anoitecer porque nada naquela divisão era estanque; o varandim com duas cadeiras rudimentares feitas de pele de cabra e a mesa de apoio acabada de pintar que empestava tudo com cheiro a tinta. Era assim a minha cabana erguida pelas mãos de um punhado de homens da Zanzibar — absolutamente genuína. 

Em Kiwengwa, apesar do muito que podemos fazer para nos entretermos, o tempo passa devagar, como julgo ser apanágio de qualquer paraíso na terra. Caminhar na praia infinita e maravilhar-me a cada passo com a textura finíssima da areia — cuja brancura, qual farinha, fere os olhos sob a luz do sol — foi das minhas atividades preferidas. Assim como a ida de canoa até aos corais onde observei a arte de apanhar os pequenos polvos que comi nessa mesma noite ao jantar. Ou ainda, a viagem de barco que me levou para longe da costa e onde, num mergulho, descobri a vida multicolor que há sob as águas do mar. E também a visita à aldeia de pescadores que esculpem dhows do tronco de uma única árvore. 

Para a Fabienne e a Michelle, a estadia de quinze dias em Kiwengwa serviu, ainda, para ler. Estas duas suíças, enfermeiras de profissão, chegaram ao Baby Bush Lodge um dia depois de mim, vindas de Moçambique. Tinham tirado três meses de férias para uma viagem que começou na África do Sul e que terminaria ali, em Zanzibar, onde passariam os últimos trinta dias. Naturalmente, passámos algum tempo à conversa sobre as nossas experiências enquanto "mochileiras" e cheguei a emprestar-lhes o meu computador para que acedessem à internet. Os seus iPhones tinham-lhes sido furtados logo no início da viagem, quando dormiram num hostel na Cidade do Cabo... Fabienne (à esquerda, na foto) contou-me que lê bastante, mas que é nas férias que aproveita ainda mais os livros. "Das Rache Spiel" — algo como "O Jogo da Vingança", um thriller sobre um grupo de quatro homens que se reencontram trinta anos depois de terem cometido um crime — era o quarto livro que lia nos dois meses que a viagem já levava. Michelle, por seu turno, admitiu que só mesmo nas férias é que lê e estava entretida com "Flieh, Wenn du Kannst" ("See Jane Run", no original em inglês), um romance sobre as relações e intrigas familiares. 

Voltei ao meu quarto apenas para pousar a câmara e dirigi-me, depois, para a praia. O sol começava a pôr-se na nossas costas e levantou-se um vento forte que fazia inclinar as palmeiras e ondular as túnicas de xadrez vermelho e preto dos Massai que trabalham nas lojinhas montadas no topo do areal. Da aldeia vêm crianças brincar comigo. Riem às gargalhadas e mostram as fileiras de dentes desalinhados. O mar encrespou-se e ouço um ligeiro rebentar de ondas. Penso no jantar que me espera, provavelmente uma lagosta envolta num molho de caril aveludado. Ou uma salada de polvo tenro. Vai para quatro meses que não pego num livro e estou em paz com isso. Porque a leitura que eu mais queria fazer era esta: perder-me no mundo onde vivo e que é tão belo que chega a doer.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Zanzibar — O cônsul alemão



Era uma vez uma princesa chamada Sayyida Salme, que nasceu em Zanzibar em 1844. Foi a mais nova dos 36 filhos do Sultão e aprendeu a escrever em segredo por essa ser uma habilidade proibida às meninas do seu tempo. Após a morte dos pais a princesa, já tornada mulher, muda-se para Stone Town. É aí que se apaixona pelo vizinho Rudolph, um comerciante alemão de quem fica grávida aos 22 anos. Um escândalo. Decididos a viver esta paixão até às suas últimas consequências, o casal foge numa fragata para Aden, uma colónia britânica no Médio Oriente. É aí que Salme se converte ao Cristianismo antes do casamento com Rudolph. Infelizmente, o bebé de ambos viria a morrer em França, quando iam a caminho da Alemanha. Mas, uma vez instalados em Hamburgo, Salme e Rudolph têm mais três filhos: um menino e duas meninas. Viveram felizes até que a morte súbita de Rudolph deixa Salme em dificuldades financeiras, uma vez que as autoridades alemãs não lhe permitem o aceso à herança do marido. Para fazer face às despesas Salme — que entretanto adotara o nome Emily Ruete — escreve “Memórias de Uma Princesa Árabe de Zanzibar”, considerada a primeira autobiografia de uma mulher árabe. O livro viria a ser publicado na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Salme voltou a Zanzibar duas vezes antes de falecer na Alemanha em 1924, aos 79 anos.

Foi esta a história que me veio de imediato à cabeça na manhã em que conheci Saada na loja da Adra, numa das vezes em que voltei à Rua Gizenga para visitá-la. À semelhança de Salme, também Saada se apaixonou por um alemão. Mas desta vez o romance começou na Alemanha e migrou, depois, para Zanzibar. Mulher confiante, comunicativa e desinibida, convidou-me a ir a sua casa conhecer Erich, assim que soube do Acordo Fotográfico e dos motivos que me levavam a viajar. Explicou-me que o marido, na sua qualidade de cônsul alemão, sabia imenso sobre a história de Zanzibar, tendo mesmo escrito um pequeno livro sobre a ilha. E então lá fui eu, atrás dela, pelas ruas estreitas de Stone Town, umas vezes escuras, outras luminosas, observando como Saada caminhava com um saco de compras numa mão enquanto a outra, livre, ajeitava constantemente o lenço que lhe escondia o cabelo. "Não costumo cobrir a cabeça", disse, "mas como estamos no Ramadão uso o lenço por respeito". 

A casa onde Saada e Erich moram fica na Kenyatta Road, uma das principais vias de Stone Town. O edifício, antigo, tem à porta uma grande árvore e no primeiro andar um varandim debruado a madeira rendilhada. A entrada faz-se por uma porta ampla de madeira que dá acesso direto à sala de estar desafogada. No interior, pouca luz. As janelas e portadas estão fechadas para afastar o calor do meio-dia. Saada chama pelo marido, diz-lhe qualquer coisa que não entendo e desaparece numa outra divisão da casa. Não a verei mais. E então surge Erich, visivelmente surpreendido com a minha visita, farta e alvoraçada cabeleira branca e meio sorriso. Pareceu-me tímido, mas uma vez sentados nas velhas poltronas a conversa fluiu. Falei-lhe do meu percurso até ali, das minhas primeiras impressões sobre Zanzibar e quis saber, depois, como tinha ele ido ali parar. "Sou arquiteto e a minha ligação ao continente africano vem de há muito", contou-me. "Estava a trabalhar no Gana quando me convidaram a ir para o Quénia, onde leccionei e fui diretor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Nairobi. Daí parti numa missão das Nações Unidas para Dar es Salaam, na Tanzânia, onde fui também trabalhar na Escola de Arquitetura. Estávamos nos anos 80. E depois, já no fim da minha carreira, surgiu a oportunidade de vir para Zanzibar de novo pela ONU, para participar no projeto de reconstrução de Stone Town. Os edifícios históricos estavam a colapsar. Aqui, os edifícios a colapsar são uma tradição! Muitos perderam-se irremediavelmente... Quando, por fim me reformei, já cá vivia com a minha mulher, e foi então que o Embaixador alemão na Tanzânia me nomeou Cônsul de Zanzibar. Hoje em dia, uma das minhas principais tarefas é zelar pela manutenção do cemitério alemão que aqui existe. Sabe, é que os cemitérios são os nossos melhores livros de história."

Fotografei-o com o seu livro "Where to, Fair Beauty? A Zanzibar Guide" no colo. É uma edição de autor artesanal, feita de folhas fotocopiadas e coladas à mão. Antes de me vir embora, comprei-lhe um exemplar. Custou-me 25 mil Xelins. De oferta recebi um outro livro, muito pequeno, onde Erich compilou poemas da sua autoria sobre Zanzibar. Chama-se "Smell of Salt".