sábado, 22 de Novembro de 2014

Nuno, o leitor caminhante



"Estou a ler "The Magicians Land", de Lev Grossman, que é crítico de livros para a Time Magazine. Este é o terceiro e último volume da série "The Magicians", uma trilogia de fantasia. Estou quase a acabá-lo. Por acaso, ultimamente tenho vindo a recuperar esse hábito de ler fantasia, muito na onda daquilo a que as pessoas mais entendidas no género — e que fazem essas categorizações — chamam de fantasia épica, como Tolkien ou autores mais contemporâneos, como o que escreveu "A Game of Thrones" ("A Guerra dos Tronos"). Gosto muito de ficção científica e também gosto muito de não ficção, geralmente na vertente do jornalismo de investigação criminal, que é uma literatura que não se faz tanto em Portugal. É mais anglo-saxónica, como é o caso de "In Cold Blood" ("A Sangue Frio"). Não sou homem de um livro só e é-me muito difícil conseguir pôr alguma coisa nesses termos tão definitivos: é o livro da minha vida, é o filme da minha vida, é o álbum da minha vida... Compreendo que haja pessoas que o consigam fazer, mas eu não consigo. Nós somos um bocado um conjunto das coisas que lemos e se calhar há alturas da nossa vida em que um livro nos marca mais e há alturas em que estamos mais susceptíveis a outro tipo de literatura. Por exemplo, o livro mais importante da minha vida no último ano chama-se “Snow Leopard”, de Peter Matthiessen (vencedor por três vezes do National Book Award), um naturalista inglês que faleceu este ano. O livro é sobre uma expedição que ele fez aos Himalaias em busca do leopardo das neves. É uma obra como hoje em dia já não é muito comum fazer-se, um relato muito interessante de uma viagem que não foi só física, foi também uma viagem muito mental. O autor estava num período difícil da sua vida — a mulher tinha acabado de falecer de cancro — e então estava numa fase mais espiritual. Curiosamente, Matthiessen era budista e a expedição em que participou pretendia encontrar o leopardo das neves, que ainda hoje é um animal em vias de extinção, muito difícil de encontrar e que, pelos vistos, também tem um significado particular na mitologia budista. Portanto, houve ali uma série de círculos que se ligavam de forma ténue mas muito definitiva, digamos. E esse conjunto todo, também para mim, embora noutro contexto, fez muito sentido. Recomendo! Sobretudo para perceber-se que muitas vezes as viagens que temos de fazer interiormente têm um reflexo exterior e que às vezes temos mesmo de percorrer fisicamente um caminho para chegar onde queremos mentalmente. E os livros ajudam nesse processo. Acho que a importância da leitura não deve ser subestimada. Isto se calhar também é um bocadinho síndrome de velho do Restelo, apesar de eu não ser muito velho, mas acho que hoje em dia cada vez mais se perdem hábitos de leitura, perde-se a importância que se deve dar ao livro e à leitura. Acho que as pessoas devem ler, devem ler muito e devem ler tudo o que lhes apetece porque um dia haverão de encontrar algo que lhes diga respeito e que seja importante para elas. E para isso têm de ler. A leitura também é uma experiência de vida. Nós, quando lemos, experienciamos algo que outra pessoa viveu. Quando lemos um livro de fantasia épica ou um relato da Guerra do Peloponeso, vamos a lugares onde nunca poderíamos ir, como a Grécia antiga ou a Terra Média, e isso permite-nos ver as coisas de um ponto de vista completamente diferente, o que  nos enriquece. Quanto mais lemos mais ricos somos e melhor estamos preparados para lidar com o mundo, com diferentes  experiências, com diferentes pessoas e acho que no fundo também nos tornamos um bocadinho melhores enquanto seres humanos". 

Assim falou Nuno, que lia enquanto descia a Rua da Restauração, no Porto.

sábado, 15 de Novembro de 2014

Vietname — Andjana em Halong Bay


Era uma vez, há largas centenas de anos, um jovem país chamado Vietname que defendia as suas fronteiras com ferocidade. Um dia, no mar a norte, a batalha parecia perdida face à investida dos chineses. Foi quando o Imperador de Jade, o Deus primordial, enviou em auxílio dos vietnamitas a Mãe Dragão e as suas crias, que atacaram o inimigo cuspindo fogo e esmeraldas gigantes. Muitos barcos chineses foram afundados e os restantes não conseguiram transpor o muro de pedras preciosas que se ergueu sobre o mar. Abandonaram a luta e a paz regressou ao Vietname. Muito tempo depois, as esmeraldas gigantes transformaram-se em ilhas e ilhéus que se espraiaram pela baía, outrora campo de batalha. Assim reza a lenda de Halong, que em vietnamita antigo significa literalmente "dragão descendente" ou "dragão que desceu". Já a geologia conta-nos uma história completamente diferente, que começou há quinhentos milhões de anos. Este foi o tempo necessário à formação da baía tal e qual a conhecemos hoje, com as suas águas verdes, três mil ilhas e ilhéus de calcário, grutas, crateras, lagos e todas as criaturas que aí habitam. O valor geológico, histórico e cultural deste pedaço do Vietname é inestimável e de importância excecional para a Humanidade, razão pela qual o local passou a inscrever-se, em 1994, na lista do Património Mundial da UNESCO. Em 2007, a baía foi considerada, também, uma das Sete Novas Maravilhas Naturais do Mundo. A beleza da paisagem da Baía de Halong é esmagadora. À medida que o barco se afasta do cais e penetra pelo labirinto de ilhas esguias, inabitadas e cobertas de vegetação, parece que entramos num mundo irreal, fantasioso. Há muitas dezenas de barcos a fazer o mesmo trajeto e no entanto o silêncio predomina. Quase parece que algo na natureza absorve os sons das máquinas ou que estas se movem por artes mágicas. Durante o dia, o sol confere à pedra calcária um tom dourado e os reflexos das ilhas multiplicam-se sobre a superfície plácida do mar. À noite, se o luar ajudar, adivinham-se apenas os contornos dessas porções de terra. O verdadeiro espetáculo vem do céu e do número infinito de estrelas que brilham sobre as nossas cabeças. Encostada à amurada, no deck superior, só baixei o olhar para ver passar rente ao barco ancorado, quase à superficie, as gigantescas medusas de um branco luminoso, que arrastavam, lânguidas, as longas cabeleiras de tentáculos. Quem tem o privilégio de poder passar uma noite a bordo de um barco fundeado algures entre os ilhéus, pode imaginar o que seria estar na Baía de Halong antes da chegada das hordas de visitantes. A área é muito extensa e comporta os inúmeros barcos de passeio, mas há paragens para visitas obrigatórias a alguns ilhéus onde as extensas filas são inevitáveis e os atropelos para as fotografias da praxe também. Pior do que isso é constatar-se claramente que a água da baía está a ficar poluída: aqui e além surgem manchas de óleo, flutuam objetos de plástico, forma-se uma espuma suspeita sobre a superfície. A um dado momento, o guia que nos acompanha a bordo explica que as comunidades piscatórias, que sempre viveram em aldeias flutuantes, estão a ser obrigadas pelo governo a mudar-se para terra, onde lhes cederam habitação gratuita. Argumenta-se que os seus hábitos de vida poluem a baía e que isso é mau para o turismo. Alguém do grupo de ocidentais protesta, dizendo que os pescadores estavam lá primeiro. O guia responde que em terra as crianças podem ir à escola. E a conversa termina aí. Não posso, é claro, prever com grandes certezas o futuro da Baía de Halong, mas tudo aponta para transformações significativas e num sentido que me entristece. Ao aproximarmo-nos da zona portuária, a cidade está transformada num estaleiro a perder de vista. Os terrenos junto à costa estão loteados e há gruas por todo o lado. No edifício do porto, onde se compram os bilhetes para os passeios de barco, confirmo as minhas suspeitas: uma maqueta de grandes proporções apresenta-nos a Baia de Halong do futuro. E o futuro é uma combinação de moradias de luxo, hóteis, arranha-céus e avenidas largas. Em suma, uma paisagem urbanística completamente descaracterizada que me recordou uns bairros de Miami, muito explorados pelas imagens panorâmicas das séries de TV. E eu, que nunca estive em Miami... No topo de um dos ilhéus pensei nisto, no que verão aqueles que daqui a muitos anos visitarem a Baía de Halong. A maior parte dos meus companheiros de barco preferiram ficar na praia minúscula e sobrelotada. Eu, apesar do muito calor e da humidade elevada que parecia não deixar ar para respirar, preferi encarar centenas de degraus e chegar, com grande esforço, ao ponto mais alto daquela torre de calcário. À minha frente, até à linha do horizonte, milhares de ilhas, um assombro que tornou ainda mais complicado recuperar o fôlego. Após alguns minutos de contemplação em cima de uma pequena rocha que tive de disputar com outros turistas, empreendo a descida, mais rápida, e ao chegar lá abaixo, ao areal diminuto e sujo, encontro uma leitora. Andjana é alemã e estava de férias no Vietname. Três semanas, tantas quantas as que eu passei naquele país surpreendente. Nem sei como conseguiu concentrar-se nas páginas do livro, tal era o tumulto à nossa volta. Vários grupos de chineses comportavam-se como se nunca tivessem visto o mar ou mergulhado nele. Gritavam de excitação e esbracejavam com a água pela cintura como se estivessem a afogar-se. Mas Andjana lia. Era o segundo volume de "Herzenstimmen" (qualquer coisa como "A Voz do Coração"), de Jan-Philipp Sendker, uma história passada na Birmânia onde a jovem protagonista procura durante quatro anos o pai desaparecido. "Leio muito e gosto de histórias passadas em cenários radicalmente diferentes. Este é um bom romance, mas é muito triste", disse-me já com o livro dentro de um saco e enquanto sacudia e dobrava a toalha de praia. O seu barco estava de partida e os pais esperavam por ela.

Fotos da Baía de Halong aqui.

domingo, 9 de Novembro de 2014

Carolina & Agatha Chistie


Julgo que hoje em dia já quase não acontece, mas antigamente era certinho: as páginas dos livros amareleciam com o tempo. É fácil deduzir que tal se devesse a um qualquer processo químico, a algum tipo de oxidação também responsável pelo cheiro ácido que os livros velhos exalam. Mas o que é que acontecia exatamente? Já ouviram falar em lignina? Pois... Eu também não. Até hoje. Esta tal de lignina ou lenhina é, a par da celulose, a principal componente da madeira — cabe-lhe conferir rigidez aos troncos das árvores. E é, também, uma substância que escurece em contacto com a luz e o oxigénio. Atualmente, no processo de produção da pasta de papel, esta matéria é eliminada quase a 100% graças a processos químicos. Mas aposto que o papel escolhido para a edição de "Death Comes as The End", em 1987, ainda era daqueles que tinha a branca celulose contaminada pela sensível lignina. O livro de miolo amarelo torrado foi requisitado pela Carolina na biblioteca do British Council, onde estuda inglês há quase 12 anos. Está nas vésperas de mais um exame e decidiu fazer como sempre tem feito nesta ocasião: ler um livro em inglês que a ajude a aprimorar o domínio da língua. "Nunca tinha lido nada da Agatha Christie e estou contente por estar a fazê-lo na língua original. Sinto-me muito mais próxima da autora por não haver a interferência de uma tradução. Para além de ler à noite e nas férias, passei a ler no metro desde que entrei para a faculdade. Não tenho um estilo literário preferido, leio de tudo um pouco, mas este é o meu primeiro policial. A não ser que "O Código da Vinci" conte. Mas acho que não... Não gostei d' "O Código da Vinci". Parecia que estava a ver um filme. Este livro da Agatha Christie é muito mais poético", disse-me a Carolina. 

terça-feira, 4 de Novembro de 2014

Vietname - Ty Ty em Saigon Square


Invejei a esperança no futuro dos timorenses. Fui seduzida pela sofisticação de Sydney. Vivi uma experiência mística nos Laos. Convenci-me que o paraíso existe e fica em Zanzibar. E ando obcecada há meses pela ilha agridoce de S. Tomé. Mas quando me perguntam em que país, dos catorze que visitei, gostaria de viver, a minha resposta é imediata: no Vietname. E que isto me tenha acontecido, constitui talvez a maior surpresa da viagem. Esqueçam todas as imagens da guerra. Esqueçam o país esventrado pelas bombas e queimado pelo napalm. O Vietname, sem renegar os seus fantasmas, soube renascer magistralmente das cinzas e é hoje uma nação vibrante. É claro que há as paisagens deslumbrantes, as praias exóticas, as montanhas envoltas em brumas eternas, as extensões incomensuráveis de arrozais. E há, também, as cidades frenéticas, de comércio vigoroso, tomadas por milhões de motociclos que rapidamente aprendemos a "tourear" para atravessar a estrada. Nas cidades do Vietname há um certo caos instalado, é verdade, mas é um caos encantador porque é energia, é dinâmica, é vida a acontecer e é otimismo. Mas há, acima de tudo, este povo resiliente, dono de um sentido de humor desconcertante, ávido de aprendizagens, que parece ter nascido com o único propósito de trabalhar e que dá provas de uma criatividade que nos surpreende a cada momento. Hão de ter muitos defeitos, eu sei, todos aqueles que eu não tive tempo de descobrir. Mas foram eles, os exuberantes vietnamitas, que me conquistaram. Eles e a sua fabulosa gastronomia, uma das mais ricas que alguma vez experimentei. No Vietname, levar à boca uma garfada equivale a um fogo de artifício no palato! Cheguei a Saigão (hoje chamada de Ho Chi Minh, mas Saigão é um nome tão mais bonito...) num domingo à tarde, vinda do Camboja. Percorri uma longa estrada durante quase todo o dia, atravessei mais uma vez o rio Mekong, e entrei na cidade sob uma chuva copiosa que não demoveu ninguém dos seus habituais afazeres. Alguns condutores vestiam capas plásticas com as motas em andamento e seguiam de sorriso estampado no rosto ao perceberem que nada os manteria secos. Era domingo, mas podia ser terça ou sexta. O comércio estava aberto e havia milhares de pessoas na rua. Saigão é uma cidade extravagante onde coexistem ambientes muitos distintos, que lhe conferem um caráter ímpar. Ali podemos atravessar um bairro labirintico, tipicamente asiático, desembocar numa grande avenida com edifícios de traço soviético, fazer uma pausa num pagode ou numa catedral católica para aliviar o calor, deambular pelo quarteirão francês com as suas boutiques de estilistas emergentes e cafés avant garde, e acabar o dia no District 1, zona onde os arranha-céus começam a dominar a paisagem e proliferam os restaurantes, os bares e as discotecas ao gosto ocidental. Foi inevitável visitar alguns monumentos e museus — o Palácio da Reunificação, o Pagode do Imperador de Jade, o Museu da Guerra, o Museu da História —, mas de resto foi essencialmente isto que fiz em Saigão: vaguear pelas ruas, sentir os ambientes, observar as gentes. Num desses dias, já ao cair da tarde, entrei no Saigon Square, uma galeria de rés-do-chão e primeiro andar a abarrotar de pequenos stands onde se vende roupa, calçado e outros acessórios que parecem ter sido desviados das fábricas que produzem para as marcas globais. Da Zara à GAP, da Adidas à Nike, este é o lugar para investir em pechinchas, sejam elas genuínas ou forjadas. Logo à entrada, num expositor de relógios, encontrei uma vendedora que, à falta de clientes, se ocupara com um livro. Ty Ty, nascida e criada em Saigão, diz trabalhar todo o dia no stand e ocupar as horas vagas a ler. De sorriso contido, explica-me que gosta sobretudo de romances e que lê três a quatro por mês. Naquele dia de fim de maio tinha começado "Chỉ được yêu mình anh" (qualquer coisa como "Só tu me amas"), da autora chinesa Nam Lăng, comprado precisamente na livraria onde umas horas antes não me permitiram fotografar. Na altura, valeu-me o telemóvel. Se quiserem espreitar o lugar onde a Ty Ty comprou o seu romance, basta que acedam aqui para ver as duas fotos que tirei à socapa.

domingo, 26 de Outubro de 2014

Phnom Penh — Anne Sofie e George R. R. Martin


Cheguei a Phnom Penh depois de uma nova viagem de autocarro que demorou praticamente todo o dia. Foram pouco mais de 300 quilómetros percorridos a partir de Siem Reap, numa estrada em construção. Prevê-se que daqui a algum tempo essa estrada venha a parecer-se com qualquer outra via secundária portuguesa, mas por enquanto não passa de um caminho de terra vermelha que se entranhou em todas as frinchas do autocarro, em particular na bagageira. Ao descermos na capital, foram inglórios os esforços dos funcionários para sacudir com palmadas a camada fina de pó que pousou sobre as bagagens. O trajeto foi feito quase sempre aos solavancos e em marcha muito lenta para contornar buracos, valas, maquinaria e trabalhadores. Valeu-me o belo dia de sol, a típica paisagem do sudoeste asiático onde dominam os reflexos dos arrozais alagados e as palmeiras que nos parecem sempre incrivelmente verdes, o lugar onde parámos para o almoço e onde me diverti a fotografar a vendedora de insetos (esse petisco que não ousei provar...), e os programas humorísticos e telediscos cambojanos exibidos na televisão a bordo, que me fizeram rir pela algaraviada e pela produção rudimentar. A entrada em Phnom Penh é tão pouco impactante que tenho sobre esse momento memórias difusas. É bem provável que isso se deva, também, ao cansaço. Recordo apenas as longas avenidas ladeadas por prédios sem portas e sem janelas, negros de sujidade ou humidade e que pareciam prestes a desmoronar-se. Só mesmo quando nos aproximamos do centro, abrindo alas por entre os milhares de motas e tuk tuks, é que a capital começa lentamente a revelar o seu charme. E digo lentamente porque Phnom Penh é, talvez, a capital mais decadente onde estive naquela região do globo, pelo que é preciso fazer-se um esforço para, por entre o caos e o lixo, se descobrirem encantos. A verdade é que à medida que os dias foram passando, Phnom Penh entranhou-se-me e descobri o prazer de pura e simplesmente flanar pelos seus boulevards herdados dos tempo dos franceses e da Indochina, entrar e sair das pequenas lojas requintadas que vendem os algodões e as sedas mais finas e onde ainda é possível ser-se atendido num francês correctíssimo, visitar ateliês de pintores e fotógrafos, erguer o olhar apreciar os edifícios coloniais que apesar da decrepitude mantêm uma aura nobre. Só o espectáculo do que acontece nos passeios de Phnom Penh é por si só um entretenimento. Naquela cidade, os passeios servem para tudo, menos para a circulação dos peões. Nesses troços de via pública tudo pode acontecer: estacionam-se centenas de motas, estendem-se redes onde os condutores de tuk tuk e de riquexó dormem nos momentos de ócio, montam-se barbearias ou restaurantes em poucos minutos, expõe-se todo o stock de uma loja, reparam-se veículos em oficinas improvisadas ou acumula-se ferro velho. Enfim, em Phnom Penh os peões habituam-se depressa a partilhar a estrada com quem anda sobre rodas. Embora a ida ao Palácio Real, ao Museu Nacional e ao Wat Phnom — o templo mais popular da cidade — sejam recomendáveis, até porque consomem muito pouco tempo, a visita mais marcante que qualquer viajante fará em Phnom Penh será sem dúvida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, uma antiga escola que se viu transformada em prisão e centro de tortura nos anos em que vigorou no Camboja o regime de terror de Pol Pot. E depois, há a ida ao campo de morte Choeung Ek, a 15 quilómetros de Phnom Penh, uma experiência aterradora, mas que eu não quis evitar (embora a tivesse adiado o mais que pude). Só aqui foram exumados em 1980, de 86 valas comuns, os corpos de quase 9 mil vítimas dos Khmer Vermelhos. Outras 43 valas foram deixadas por abrir. Homens, mulheres e crianças foram barbaramente assassinados neste local. Ainda hoje, quando a água da chuva alaga o campo, vêm ao de cima restos de roupas, pedaços de ossos e dentes que vão sendo recolhidos e guardados em caixas de acrílico espalhadas pelo recinto. O Killing Filed de Choeung Ek é apenas um dos 300 que existem em todo o Cambodja e a sua visita, juntamente com a ida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, foi o momento mais triste de toda a minha viagem. Na manhã em que tinha de comprar a viagem para o Vietname, que faria mais uma vez autocarro, tive de voltar à zona mais trendy de Phnom Penh, conhecida por Sisowath Quay. Nessa longa avenida que bordeja o rio Tonle Sap, e nos quarteirões adjacentes, concentram-se grande parte das infraestruturas e serviços concebidos sobretudo para os turistas, nomeadamente hotéis, restaurantes, bares e todo o tipo de comércio. Há, até, uma pequena livraria. Numa das muitas esplanadas que existem ali, conheci a Anne Sofie, dinamarquesa e viajante a solo. "Sou estudante de medicina", contou-me, "mas precisei de fazer uma pausa e decidi tirar um ano para mim. Estou a viajar há três meses sozinha e nunca me senti insegura, até porque houve muitas ocasiões em que me integrei em grupos. Comecei por apanhar o Trans Mongolia Express e fui de Moscovo até Pequim. Daí parti para o Nepal, onde trabalhei como voluntária. Terminei a estadia em Kathmandu passando dez dias num mosteiro budista e foi de lá que vim para o Camboja. Ainda vou visitar o Laos e o Vietname e dentro de um mês devo estar a regressar à Dinamarca". O livro, esse, não me reservava grandes surpresas. A Anne Sophie é mais uma leitora irremediavelmente seduzida pelas Crónicas de Gelo e Fogo. Lia o segundo volume de "A Clash of Kings". "Já ouvi falar da série de televisão, mas nunca a vi. Os meus amigos também já me tinham falado dos livros e como os vi à venda muito baratos em Pokhara decidi comprar o primeiro volume. Fiquei viciada e comprei o segundo em Kathmandu. Quando voltar à Dinamarca tenho a certeza que vou ver a série!". E quantos aos seus hábitos de leitura? O assunto ficou arrumado com a resposta que me deu: "Em três meses de viagem já li 17 livros".

domingo, 19 de Outubro de 2014

Camboja — Deim em Agkor


Sabia (e ainda sei) muito pouco sobre o Reino do Camboja. E o pouco que sabia prendia-se quase exclusivamente com duas coisas: os Templos de Angkor, Património Mundial da Humanidade que sonhava conhecer um dia; e o regime sanguinário dos Khmer Vermelhos, liderados por Pol Pot, assunto que nos anos 70 e 80 do século passado foi muito mediatizado a ocidente. Até a indústria do cinema deu o seu contributo na denúncia do Genocídio Cambojano quando estreou, em 1984, o filme "Terra Sangrenta" (The Killing Fields"). Vi-o quando era adolescente e marcou-me. Agora que sei um pouco mais sobre este país e que chego a envergonhar-me da imagem redutora que trouxe na cabeça durante tantos anos, recordo as palavras sábias de Chimamanda Ngozi Adichie, a autora nigeriana que numa TedTalk se debruçou sobre o "perigo da história única" a que somos todos tão vulneráveis muito por influência dos media. Diz ela: "Esta é a forma como se cria uma história única. Descrevam um povo como uma coisa, como apenas uma coisa, uma e outra vez, e é nisso que ele se torna (...) A história única cria estereótipos e o problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos. Fazem com que uma história seja a única história". Daí o português manso, o espanhol aguerrido, o francês racista, o alemão nazi, o angolano corrupto, o brasileiro trafulha, o chinês porco, o muçulmano terrorista... Tenho dito a quem me pergunta sobre os supostos perigos da viagem que fiz, que o mundo não é o que se vê nos noticiários das 20h. O que esses noticiários mostram é uma parcela ínfima do que é a vida no nosso planeta, feito na sua maioria de gente que, com mais ou menos dificuldade, leva um dia a dia rotineiro, "normal", em muitos aspetos semelhante ao meu. Como também disse Chimamanda, "a consequência da história única é que (...) enfatiza o quanto somos diferentes, mais do que o quanto somos similares". Por tudo isto, se me pedissem um dia para apontar apenas uma virtude ao ato de viajar, julgo que diria que é a possibilidade de nos libertarmos das muitas histórias únicas que reduzem o nosso planeta caleidoscópico a uma lista de preconceitos. Ainda antes de aterrar em Siem Reap, e com grande surpresa, a minha "história única" acerca dos Khmer desmoronou-se e a palavra ganhou toda uma nova dimensão, altamente positiva, que me permitiu ver o Camboja sob uma nova luz. Não, Khmer não são apenas os seguidores do Partido Comunista que governaram o país entre 1975 e 1979 e que são responsáveis pela morte de quase três milhões de compatriotas. Khmer é o nome dado à língua que se fala no Camboja, mas é, principalmente, o nome do maior grupo étnico cambodjano, aquele que entre os séculos IX e XVI estabeleceu o riquíssimo e muito sofisticado Império Khmer, que teve como principal capital a bela Angkor, a maior cidade pré-industrial do mundo. Aí, numa área de cerca de três mil quilómetros quadrados, ergueram-se mais de cem monumentos angkorianos e estabeleceu-se o coração político, cultural e religioso de uma das maiores civilizações do sudoeste asiático. Tive a felicidade de poder passar três dias a visitar alguns dos monumentos mais icónicos deste lugar extravagante. E fi-lo de bicicleta, apesar das temperaturas que chegaram a sensações térmicas na ordem dos 40 e muitos graus centígrados. A experiência superou todas as expectativas que eu poderia ter alimentado. Sim, o nascer do sol por detrás do templo principal, Angkor Wat, é de uma beleza esmagadora. Assim como é o por do sol precisamente no mesmo lugar. Mas o que dizer da liberdade que foi percorrer a selva luxuriante a pedal, por caminhos nem sempre alcatroados, e ver surgir no meio da vegetação o sorriso plácido de um gigantesco rosto de Buda esculpido na torre de um templo ou na abertura de uma muralha? E como descrever a emoção de entrar nesses templos, percorrer os corredores e as salas eximiamente decoradas com baixo-relevos de um requinte inesperado, subir ao topo dos edifícios e sentir-me pequeníssima perante a escala brutal daquela obra, a força do sol, a inclemência das temperaturas, o azul do céu, as grossas nuvens brancas imóveis, o verde da floresta e os sons que ela emana? "Que lindo! Que lindo!" era quase a única coisa que eu conseguia articular dia após dia, um monumento após o outro. Eu sei que sou dada a estes exageros e que muitos dos que já lá estiveram poderão não ter sentido o mesmo, mas visitar Angkor da maneira que o fiz — totalmente autónoma, ao meu ritmo, de acordo com o plano que eu mesma estabeleci, muitas vezes por trilhos desertos — não foi só um momento alto desta viagem; foi um dos momentos mais ricos da minha vida. E depois, aquilo que eu achava quase improvável: um cambojano a ler junto aos muros de Benteay Kdei, um templo budista construído em meados do século XII. "Sou funcionário do Parque Arqueológico de Angkor", disse-me, "e gosto de ler sobre a história do meu país, sobre os reis do Camboja e sobre estes templos em particular. Este livro é sobre a construção de dois dos monumentos mais importantes do Camboja: Angkor Wat e Bayon". E com isto, a estocada final numa outra história única: aquela em que se afirma que nos países pobres não se lê porque outras necessidades mais básicas se impõem. 

quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

Liu no Laos, a caminho do Camboja


Durante a viagem, não houve uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. De cada vez, foi inevitável questionar-me: voltarei um dia? Na manhã em que parti de tuk tuk do centro de Vientiane para o aeroporto internacional, levava um peso no peito. Voava dali a poucas horas para o Camboja, um novo lugar cheio de promessas excitantes, mas lamentava que os dez dias vividos no Laos tivessem passado tão depressa. Não houve, de facto, uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. Porém o Laos faz parte daquele punhado de lugares de onde mais me doeu partir. Enquanto o tuk tuk acelerava pelas ruas e se aproximava o momento da despedida, apenas um outro aspeto conseguia ensombrar mais o meu dia — o voo propriamente dito. O bilhete, comprado online, indicava com diligência que a segunda parte da viagem, entre Pakse (ainda no Laos) e Siem Reap (perto de Angkor, no Camboja) seria feita num ATR 72-600 e a pergunta "Mas que raio é um ATR 72-600?!" não parava de me martelar a cabeça. Uma pessoa sabe o que é um Airbus ou um Boeing. Sabe até o que é um Embraer ou um Cessna. Mas um ATR 72-600 não sabe o que é. Nem a pesquisa no Google e a descoberta de que o avião é fabricado em França e em Itália me tranquilizou. Deixei que os preconceitos viessem ao de cima e com o discernimento toldado só pensava numa coisa: estava prestes a embarcar numa lata minúscula, movida a hélices e operada pela companhia aérea de um dos países mais pobres e recônditos onde alguma vez tinha posto os pés. E isso não podia ser bom, claro está. No primeiro aeroporto consegui distrair-me com os pormenores surreais do lugar, que mais parecia um rudimentar terminal de autocarros. No segundo areoporto, a distração veio na forma de um leitor chinês a quem pedi uma fotografia, mas com quem não pude conversar muito. Valeu-nos a sua amiga Shen Li, que serviu de tradutora. Com a sua ajuda, pude saber o mínimo dos mínimos: Liu ia visitar os esplêndidos Templos de Angkor pela primeira vez e lia uma biografia de Buda na esperança de aprender mais sobre a sua sabedoria. Quando, por fim, me sentei no lugar que me coube no ATR 72-600, ia mais contente. Não só tinha fotografado um leitor, como vi com agrado que tinha por companheiros de viagem três monges budistas. Sim, eu também sou daquelas que embora adore voar e passe a vida a advogar em defesa do meio de transporte mais seguro do mundo, acha que a presença de qualquer sacerdote num avião é um sinal de proteção sempre bem vindo. Admito. Um dos monges era velhíssimo. Muito pequeno, magérrimo e curvado para a frente num permanente ângulo reto, chegou de cadeira de rodas até às escadas do avião, mas fez questão de subi-las, muito lentamente, sem qualquer ajuda. Quando entrou, por fim, na aeronave, a hospedeira recebeu-o ajoelhando-se com reverência. Este homem que devia ser santo sentou-se quase ao meu lado, no outro lado da coxia, junto a um outro monge muito mais jovem que parecia ser seu assistente. Adotaram a posição de lótus e pareceram entrar em transe. Nada os demoveu, durante todo o voo, daquele estado zen. Já o terceiro monge, também jovem, veio sentar-se no lugar à minha frente e era, todo ele, um desassossego. Primeiro reparei nos rios de suor que lhe escorriam do crânio rapado e que o lenço mil vezes esfregado não conseguia conter. Depois temi pela segurança de todos quando, ao levantarmos voo, o senhor se alvoroçou em espasmos repentinos que o levavam a gesticular os braços e a abanar a cabeça em todos os sentidos. Pensei que estivesse a ter um ataque de pânico, mas perante a persistência daqueles movimentos sobre os quais não tinha controlo, percebi que devia padecer de algum tipo de síndrome cujos sintomas se acentuavam sob stress. O contraste não podia ser maior: os outros dois companheiros seguiam viagem na maior paz, enquanto ele parecia dançar breakdance sem sair do lugar. Só alguns dias depois entendi que a agitação deste monge era justificada: a ficha da Lao Airlines na Aviation Safety Network conta com mais de 50 acidentes e o último, onde morreram todos os ocupantes do avião, ocorrera com um ATR 72-600 havia menos de seis meses, no preciso trajeto que acabáramos de percorrer.

domingo, 28 de Setembro de 2014

Vientiane, Houmphan e Khamnikhom



Decidi que a viagem de Luang Prabang para Vientiane, capital do Laos, se faria de autocarro. A outra hipótese era o avião, que me levaria de um ponto ao outro em quarenta minutos, mas sempre que as distâncias não eram exageradamente grandes e as paisagens prometedoras, escolhi deslocar-me por terra. Foi assim entre Brasília e o Rio de Janeiro (de autocarro), entre Banguecoque e Chiang Mai (de comboio), entre Chiang Khong e Luang Prabang (de barco). De Luang Prabang a Vientiane vão cerca de quatrocentos quilómetros, mas o trajeto leva no mínimo oito horas a ser percorrido. No meu entender, tanta demora só poderia dever-se à qualidade da via e ao estado do veículo que nos ia transportar, por isso, perante a perspetiva de passar o dia inteiro na estrada, optei por comprar um bilhete para o melhor autocarro disponível, aquele a que os laosianos chamam VIP e dizem ter ar condicionado. Na verdade, não tem. A partida estava marcada para as 9h, mas o tuk tuk deixou-me no terminal quinze minutos antes. O tempo de encontrar o autocarro certo, colocar a mochila na bagageira e garantir um lugar junto a uma janela. Dei-me conta de imediato que havia poucos passageiros. No interior, meia dúzia aguentava estoicamente as temperaturas similares às de uma sauna; lá fora, outros tantos sentavam-se à sombra, mas não era por isso que suavam menos. Ao fim de algum tempo percebi que o autocarro não partiria com uns minutos de atraso. Na verdade, o autocarro partiria apenas quando todos os lugares estivessem vendidos, o que aconteceu depois das 10h, quando um casal de mochileiros comprou os últimos bilhetes. Só à medida que Luang Prabang foi ficando para trás é que entendi por que razão iríamos demorar oito horas a percorrer trezentos e noventa quilómetros: embora soubesse, teoricamente, que o Laos é um país montanhoso, não sabia que é um país tão montanhoso e a demora não se deveria tanto ao estado da estrada, mas ao terreno acidentado que a estrada percorre. Julgo que não sentia tamanho desconforto a andar de autocarro desde 1999, ano em que atravessei a Cordilheira dos Andes para ir de Mendoza, na Argentina, a Santiago do Chile. Quinze anos volvidos, lá estava eu de novo a encarar uma estrada dos infernos, alcatroada, sim, mas estreita como uma tira de tagliatelle, a serpentear sempre em sentido ascendente, curva e contracurva, com ribanceiras brutais à esquerda e à direita, até aos 1500 metros de altitude. Para que o cenário se tornasse ainda mais dramático, abateu-se sobre um troço do trajeto uma daquelas tempestades típicas da monção e foi com horror que vi desenhar-se do céu à terra um relâmpago medonho que caiu com estrondo a poucos metros do autocarro. Muitos passageiros não conseguiram conter um grito. Pela janela vi os búfalos de água esbaforidos a correr em todas as direções pelos arrozais. Tal como nós, não ganharam para o susto. Mas para redimir tudo isto, havia a paisagem, a magnífica paisagem das montanhas do norte do Laos cujos cumes pontiagudos se perdiam nas nuvens e os sopés mergulhavam nas águas dos campos de arroz. No meu peito, o medo e o deslumbramento lutaram entre si para ver qual me tirava mais o fôlego. Ao fim de cinco horas de caminho, as montanhas foram-se tornando gradualmente mais pequenas e o terreno cada vez mais plano. As aldeolas esparsas foram dando lugar a aldeias maiores, na estrada o tráfego intensificou-se e por volta das 18h estávamos a atravessar os arredores da capital onde, a par das casas mais humildes de traça tradicional, se erguem casa apalaçadas — a maioria acabadas de construir ou ainda em construção — de inspiração ocidental e de gosto muito duvidoso, que deixam entrever jardins, piscinas e vários carros estacionados para lá dos portões. No Laos — um dos últimos estados socialistas de partido único — há, portanto, dinheiro fresco e gente determinada a mostrar que o tem em grande quantidade. Ainda assim, Vientiane é uma capital modesta e o pouco que há para visitar concentra-se de tal forma no centro da cidade que dois dias bastam para ficar a conhecê-la bem. Quase todos os caminhos levam à longa avenida Lane Xang, ladeada de frangipanis, cuja flor é o símbolo do país. Num extremo fica o Patouxai, um arco do triunfo ao qual se pode subir e de onde se tem uma ótima vista sobre a cidade. É de lá de cima que se confirma a inspiração soviética na arquitetura dos edifícios públicos, muito austeros, que contrastam com a exuberância multicolor dos templos budistas. No outro extremo da avenida, fica o Palácio Presidencial e para lá dele o rio Mekong, cuja margem foi transformada num extenso calçadão para onde toda a população da capital parece convergir à noitinha na esperança de se refrescar um pouco. Demorei-me aí, numa noite de enorme lua cheia, a observar os laosianos que passeavam exibindo as suas melhores roupas e acessórios. Em Vientiane, como em Lisboa, Tóquio ou Nova Iorque, também se brinca ao "ver e ser visto". Visitei o Museu de Arte e Antiguidades, que funciona no antigo templo budista do rei e que aglomera num espaço exíguo centenas de peças que imagino muito valiosas mas mal conservadas, mal expostas e sem qualquer tipo de legendas que nos permitam perceber do que se trata. Passei algumas horas no Museu National, que funciona num grande edifício decrépito e onde muitas vezes o meu interesse se virou mais para as ventoinhas e as saídas de ar condicionado, às quais me colei numa tentativa de arrefecer o corpo, do que para o rol de salas onde através de fotografias desbotadas e maquetes rudimentares se narra toda a história do Laos. Julgo que aprendi mais sobre os tempos remotos, do que sobre a história recente, onde se enaltece a luta e a vitória do proletariado sobre os imperialistas — franceses, japoneses e americanos — e se exaltam as virtudes do partido comunista. Também visitei o That Luang, o edifício religioso mais importante do Laos ao qual me desloquei numa louca corrida de tuk tuk que me custou o chapéu: voou-me da cabeça para nunca mais o ver. E, por fim, entrei na Biblioteca Nacional que funciona num antigo edifício de traça colonial, rés-do-chão e primeiro andar, onde funcionários, utentes e livros se acumulam em salas pequenas e atravancadas com estantes, mesas e cadeiras. Foi aí que meti conversa com o Houmphan (na primeira fotografia) e com Khamnikhom (na outra imagem). Ambos são estudantes universitários, vão com frequência à biblioteca para consultar livros e estudar. O primeiro, pouco à vontade com o inglês e muito mais tímido, contou-me que estava a estudar gestão e marketing. O segundo, que frequenta o curso de economia e administração, estava a estudar para o exame final de gestão hoteleira, mas contou-me que para além destas temáticas, também se interessa muito por filosofia e política. Os livros que tinha consigo eram em inglês e tailandês o que me surpreendeu. Fiquei depois a saber que o tailandês e o laosiano são idiomas muito parecidos, pelo que a maioria dos habitantes do Laos lê e fala tailandês. Infelizmente, no entender de Khamnikhom, no Laos os livros são muito caros. Trabalhou dois meses numa livraria e sabe do que fala: a maioria das edições é importada da Tailândia, o que as encarece muito. Por isso recorre por vezes a um amigo que lhe traz diretamente os livros de Banguecoque. Sobre o seu futuro, Khamnikhom tem uma convicção: passará por ajudar a desenvolver o seu país, tornando-o num lugar melhor. Como o fará é que ainda não sabe. Talvez vá trabalhar para a Organização das Nações Unidas, ou então ser um homem de negócios, ou enveredar pela carreira política. E foi então que me encostou à parede com a seguinte pergunta: "Que conselho me dá para que eu possa ajudar o meu país?". Senti a cabeça a andar à roda. Há tanto por fazer no Laos que nem soube por onde começar. Mas enquanto o meu cérebro parecia ter congelado perante a complexidade da resposta a dar, a minha boca abriu-se e ouvi-me afirmar, convicta: "Tens de apostar na tua educação. A educação será sempre a tua melhor ferramenta. A educação é a maior riqueza de um povo. Vais precisar de dinheiro, é certo. Mas isso é secundário. O dinheiro sem educação não está ao serviço do progresso. E se puderes, viaja. Conhece outras culturas, outras maneiras de viver e de fazer acontecer. Viajar é uma forma poderosíssima de educação. E quando regressares ao Laos, talvez tenhas uma ideia mais concreta do que queres para ti e para o teu país". Esta semana recebi um email do Khamnikhom. Diz que se lembra muitas vezes do que lhe disse quando conversámos e que quando voltar à sua aldeia irá passar a minha mensagem aos estudantes da escola local. Agora que penso nisso, gostaria de lhe ter dado um conselho menos utópico.

quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Luang Prabang - Oliver & Collin Cotterill


Antes de se unir ao rio Mekong, o rio Nam Khan desenha uma curva acentuada que contorna, à esquerda, a península de Luang Prabang. Quem se passeia pelas principais artérias da cidade — ruas Sisavangvong e Sakkaline — irá invariavelmente terminar alguma das suas caminhadas na colina que se ergue no local onde os dois rios de juntam. Nesse ponto alto existe um pequeno jardim relvado e com coqueiros altíssimos à sombra dos quais é comum encontrar gente sentada. Já lá tinha estado um dia e tinha ficado intrigada com o que estaria na outra margem, de maneira que regressei ao local decidida a pagar os 5000 Kips (0,47 Euros) para atravessar a ponte de bambu, que me pareceu saída de um filme do Indiana Jones. No outro lado encontrei, para além de dois templos budistas muito simples, uma aldeia atravessada por um caminho de terra batida. As casas tradicionais, construidas sobre estacas e preparadas para deixar passar as águas furiosas da época da chuva, alinhavam-se nos dois lados do caminho e albergavam uma pequena comunidade de pescadores, agricultores e tecelãs peritas na arte de fabricar as sedas mais finas e delicadas. Foi junto a um desses teares que fiquei mais tempo, entretida a observar os gestos repetitivos que dão origem a peças únicas. Ao regressar à outra margem e à proteção do coqueiral, sentei-me junto do Oliver, que lia. Sorvi uma garrafa inteira de água, levantei o chapéu para limpar o suor da testa, recuperei o fôlego e só depois meti conversa. Este alemão tinha tirado um mês para viajar pela Ásia. Havia 10 dias que andava de mochila às costas. Já tinha estado em Banguecoque e tinha chegado recentemente ao Laos. Leitor habitual daquilo a que chamou "clássicos modernos", lamenta não ler mais por falta de tempo. As férias serviam, portanto, para se redimir e tinha-lhe parecido muito boa ideia aproveitar para ler algo cuja ação se passasse no país que visitava. Era o caso de "Dr. Siri und Seine Totem" ("The Coroner's Lunch", na edição original), um dos policiais de Collin Cotterill, autor de nacionalidade inglesa e australiana que reside na Tailândia. A série que tem Dr. Siri, um médico legista, como principal personagem é totalmente passada no Laos e já arrecadou vários prémios literários. Os seus livros estão à venda nas poucas livrarias do país, assim como em quase todas as lojas de souvenirs e Cotterill tem a hombridade de fazer reverter os direitos de autor para projetos de solidariedade social a decorrer no Laos.

domingo, 21 de Setembro de 2014

Luang Prabang, Touy e Winnie


Sobrenatural. Este é o primeiro adjetivo que me ocorre para vos descrever Luang Prabang. Há algo de sobrenatural em Luang Prabang. Há naquela pequena cidade, que foi capital do reino do Laos por mais de mil anos, uma energia única, uma força pura a que me entreguei sem reservas. E quando recordo os dias que lá vivi penso em leveza. Sim, acho que foi isso que aconteceu, andei por lá a levitar. Levitei sobre as ruas de velhas casas coloniais erguidas pelos franceses nos tempos da Indochina; sobre os montes de onde vi o pôr do sol cobrir a cidade de ouro; sobre os templos de telhados inclinados que se desdobram em sucessivas camadas até quase roçarem o chão; sobre as palmeiras verdíssimas e as frangipanis floridas, ainda mais belas quando em contraste com as nuvens negras da monção; sobre as filas de monges de vestes laranja que recolhem a comida ofertada pelos fiéis ao nascer do dia; sobre os rios Mekong e Khan, de águas castanhas, embora possa jurar que também os atravessei deslizando numa canoa ou pousando os meus pés, muito a medo, nas pontes de bambu. Levitei, apesar da canícula que a seguir ao almoço me empurrava com urgência para o ar condicionado do quarto de hotel, de onde só saía à tardinha para me dirigir, uma e outra vez, à margem do Mekong, o rio feitiço. Aí, a tomar uma BeerLao fresca, assistia sempre com espanto ao espetáculo da bruma que surgia do nada para se apoderar das fileiras infinitas de montanhas que, na riba em frente, se desenhavam até ao horizonte. Fui feliz em Luang Prabang, esse pedaço de alma do Laos. Fui feliz até nas pessoas que o acaso colocou no meu caminho, como aconteceu na primeira manhã que passei na cidade, quando entrei na modestíssima biblioteca pública: três pequenas salas, dois funcionários simpáticos, algumas estantes com livros laosianos, franceses e ingleses e cinco leitores. Foi aos noviços que pedi a fotografia, longe de adivinhar que iria vê-los todos os dias até à minha partida para Vientiane. O Touy (à esquerda) e o Winnie (à direita) vieram ambos de longe, de aldeias remotas, para continuar os seus estudos no Wat Pa Phai, um templo budista construído no início do século XIX. Ambos terão de decidir, aos 20 anos, se pretendem enveredar pelo sacerdócio. Para Winnie, o mais novo, essa decisão pode esperar, mas para Touy, com 19 anos, a escolha terá de ser feita em breve. Perguntei-lhe se já sabia o que fazer. Não me soube responder. A única certeza que tem, tal como Winnie, é que quer estudar inglês. Esse é o seu sonho, ser fluente em inglês e com essa ferramenta poder visitar outros países. No templo onde estudam já houve em tempos aulas de inglês, mas agora estão sem professor. Por isso, numa ânsia de saber mais, estudam sozinhos sempre que podem, quer no quarto onde dormem, quer na biblioteca onde para além dos livros têm acesso à internet e podem ver vídeos em inglês no Youtube. No templo não há televisão. Fotografei-os a ler em inglês e os livros escolhidos espelhavam o domínio que tinham do idioma. Embora Winnie fosse muito mais fluente, os dois liam livros infantis nada adequados às suas idades, mas adequados ao pouco que sabiam. Touy, por exemplo, lia uma história do urso Pooh. Nesse momento, o Laos ficou-me para sempre associado à imagem de um rapaz de 19 anos que, na viragem para a vida adulta, lê a história de um ursinho: um território milenar com episódios recentes de grande violência e, ainda assim, com um grau desconcertante de ingenuidade. Depois de tirada a fotografia, estes dois adolescentes, com uma delicadeza comovente a que já não estou habituada, perguntaram-me se não estaria na disposição de ir com eles para outra sala onde pudéssemos conversar em inglês à vontade. Explicaram-me que aproveitam todas as oportunidades para praticar um pouco. E assim fiz. Naquela manhã e em todas as outras que passei em Luang Prabang. Falámos de tudo um pouco: das aldeias de onde vêm, das famílias, da vida nos campos, dos grupos étnicos a que pertencem, dos seus projetos de vida, do pouco dinheiro que têm para realizar os seus sonhos, da minha viagem, da imensidão do mundo e do quanto tem de belo para ver. Diálogos que decorreram de forma lenta, com grandes silêncios pelo meio de cada vez que procuravam a palavra inglesa certa para se expressarem. Vi-os pela última vez num domingo à tarde no templo Wat Pa Phai, onde vivem. Nesse dia o Touy estava de guarda ao recinto e não podia ausentar-se. Quando cruzei a porta do templo levantou-se da mesa onde estava a estudar, sob uma árvore, e sorriu largamente enquanto ajeitava o hábito laranja. O resto dos colegas fazia as suas orações. Ouvia-lhes os cânticos. À nossa volta circulavam alguns cães, felizes, de caudas imparáveis. Dei uma vista de olhos aos exercícios em inglês que fazia, conversámos mais um pouco e despedimo-nos quando o sol se punha. Luang Prabang, Touy e Winnie. Um trio que tem lugar cativo nas minhas recordações mais emotivas dos dias passados no Laos. Pergunto-me com frequência o que será dos seus futuros.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Laos — Chris, a caminho de Luang Prabang


A maioria dos passageiros transportados pelo "slow boat" que deslizou com vagar pelo Mekong era ocidental. Para além da tripulação, praticamente não havia laosianos a bordo. Meia dúzia, talvez. E dos cinquenta ou sessenta estrangeiros que lá iam sentados, quase todos estavam na faixa entre os dezoito e os vinte e poucos anos. Ingleses, alemães, suecos, dinamarqueses, holandeses, todos estes mochileiros e mochileiras de ar pueril pareciam não ter ainda sequer frequentado a faculdade. Durante os dois dias em que estivemos confinados ao espaço exíguo do barco, pude observá-los e... invejá-los. Dei por mim a lamentar não ter passado por uma experiência destas mais cedo. Após uma viagem de longa duração, a vantagem que estes miúdos levam sobre os outros, ao enfrentar a vida académica ou um primeiro trabalho, só pode ser enorme. Todos os dias, durante semanas, por vezes durante meses, tomam decisões que os obrigam a crescer. Para além da gestão óbvia do tempo e do dinheiro, têm no mínimo de lidar com choques culturais consideráveis, adaptar-se a climas extremos, escolher com quem relacionar-se ou não, estabelecer novas redes de contactos e de apoio, definir itinerários que possam percorrer em segurança, negociar preços de refeições e de alojamentos com gente que não fala uma palavra de inglês ou optar entre preguiçar na praia ou explorar um museu. Ao mesmo tempo, estas viagens são também um grande exercício de liberdade, a ocasião para testarem os seus limites e se afirmarem longe da família e do habitual círculo social controlador. E naquele barco, durante os dois dias de ócio a que fomos forçados, a liberdade foi flirtar, beber litros de alcool, comer batatas fritas e consumir drogas. Depois, por vezes, num intervalo entre conversas, cervejas e charros, alguém puxava de um livro. A dada altura, eram tantos os leitores a bordo que me entretive a fotografá-los ao longe, sem que disso se apercebessem. Por fim, quando decidi falar com um deles, optei por me dirigir ao Chris, que lia "Catch 22". À semelhança da Emma, este britânico andava a viajar só e já ia no seu terceiro ano de aventuras. Apanhou o Transiberiano até à Mongólia, passou uma temporada a trabalhar na Coreia do Sul, partiu depois para as Filipinas e daí seguiu para a Austrália onde voltou a trabalhar. Visitou a Nova Zelândia e iniciou a seguir o périplo pelo sudoeste asiático. Depois do Laos ainda ia conhecer o Cambodja e o Vietname de onde voltaria, por fim, a casa. Quanto ao livro que lia, explicou: "Encontrei-o no último hostel onde estive alojado. Há muito tempo que queria lê-lo, por isso trouxe-o. Não compro livros. Vou de hostel em hostel e troco os que acabei de ler por outros. Só quando comecei a viajar é que comecei a ler mais. Na faculdade não tinha este hábito". A julgar pelo exemplo do Chris e de muitos outros que conheci, as viagens têm também esta grande virtude: despertar leitores adormecidos. O irónico é que comigo tenha acontecido exatamente o contrário. Não peguei num único livro durante seis meses. Talvez um dia escreva sobre isso. 

domingo, 20 de Julho de 2014

Laos — Emma, deixando pegadas por aí


No dia em que acordei em Chiang Khong, na margem tailandesa do Mekong, ainda demorei a decidir se deveria ou não atravessar a fronteira para o Laos e iniciar nessa mesma manhã a descida do mítico rio asiático até Luang Prabang. Chovera torrencialmente durante toda a noite, como se a natureza tivesse decidido mostrar-me como é a monção no seu máximo esplendor, e faltam-me os adjetivos para qualificar a enormidade dos relâmpagos e dos trovões que foram interrompendo o meu sono. A descida, nos moldes em que eu quis fazê-la, implica viajar durante dois dias num "slow boat", uma embarcação a motor com 35 metros de comprimento que, tal como o nome indica, se desloca muito lentamente — mas muito lentamente mesmo! — e cujos antigos assentos de madeira foram recentemente substituídos por bancos de carros e carrinhas que devem ter tido a sucata como destino. Note-se que estes bancos não são reclináveis nem estão pregados ao chão, o que permite que cada freguês faça uma gestão muito particular do espaço que lhe cabe para as pernas... Outra característica destes "barcos lentos" é não terem janelas, por isso, quando chove, a única forma de proteger os passageiros das enxurradas é baixar uns oleados que tapam a vista quase por completo, arruinando aquele que era para mim o único objetivo deste passeio demorado: apreciar a paisagem. Vá-se lá saber porquê, decidi arriscar tudo e seguir viagem, cumprindo o calendário que tinha estipulado para este troço da pequena volta ao mundo. Naquele pedaço de terra que parece não pertencer a ninguém, ali entre a Tailândia e o Laos, estava eu na fila para tratar do visto laosiano e a conversar com a minha companheira de viagem, quando a pessoa à nossa frente se volta para trás e exclama: "Portuguesas!". Foi assim que conheci a Emma, felicíssima por encontrar as primeiras compatriotas em vários meses. Dona de um sorriso que lhe ocupa o rosto todo (sim, sou muito sensível a sorrisos), a Emma é um ser que transborda luz. E palavras. Mas não palavras ocas ou vãs. Palavras cativantes, cheias de histórias, de gentes, de paisagens, de sensações colhidas por esse mundo fora. Palavras carregadas de gratidão, também, por a vida lhe permitir viver o seu maior sonho: viajar durante três anos. Palavras que, por isso, se fazem acompanhar muitas vezes de lágrimas, daquelas que choramos de alegria e que eu acabei por chorar com ela. Determinada a viajar durante uma longa temporada, a Emma trabalhou arduamente em Londres durante vários anos e juntou de forma obstinada todos os tostões. Manteve o foco até ao dia em que largou o lugar de direção que ocupava numa empresa do mundo do petróleo. Quando nos conhecemos à entrada do Laos, já tinha passado sete meses entre a Índia, China, Singapura, Malásia e Tailândia. Tinha, portanto, cerca de dois anos e meio de viagem pela frente e mais do que nunca os meus seis meses de licença sem vencimento pareceram-me muito pouco... O primeiro dia de descida do Mekong já levava várias horas quando do meu lugar, na popa, olho para a proa e vejo a Emma com um tablet nas mãos. Por sorte, estava a começar a ler "Americanah", de Chimamanda Ngozi Adichie, e essa foi a deixa perfeita para lhe falar do Acordo Fotográfico, propôr-lhe a foto e obter licença para contar aqui a sua história. "Fiz o download deste livro depois de saber que a autora, tal como eu, defende ativamente os direitos dos homossexuais", disse, "mas ainda estou sob o efeito do livro que li antes deste". "Invencível" era o livro em questão, a espetacular biografia de Louie Zamperini, um atleta olímpico norte-americano que parte em combate durante a Segunda Guerra Mundial e cujo avião se despenha um dia no Oceano Pacífico. Depois de sobreviver a sete semanas à deriva, é resgatado por japoneses ao largo de uma ilha e quando pensava que o pior já tinha passado, na verdade estava apenas no início do seu calvário. "É um livro maravilhoso! Marcou-me tanto que não consigo parar de falar dele e de recomendá-lo a toda a gente!". Há mais de dois meses que não vejo a Emma. Por vezes trocamos mensagens via Facebook, mas consigo recordar o timbre da sua voz. Depois de três semanas no Laos, passou um mês no Cambodja, regressou à Tailândia e encontra-se por estes dias em Myanmar. Se quiserem acompanhar o seu périplo nos próximos dois anos e alguns meses podem fazê-lo através do seu blogue: Footprints in the clouds.

quinta-feira, 17 de Julho de 2014

Chiang Mai - O amor (p)e(l)os livros


Patrick é um norte-americano que sempre leu muito e que agora que está reformado tem ainda mais disponibilidade para os livros. Um dia, estava ele na Tailândia, entrou numa loja onde apenas se vendiam uns delicados marcadores de livros feitos em teca e pintados à mão. Foi atendido pela artista, por quem se apaixonou e com quem veio a casar mais tarde. "Por ser leitor, conheci a minha mulher e hoje vivo na Tailândia. Este marcador que aqui tenho no livro é da edição limitada que oferecemos aos convidados no dia do nosso casamento", disse-me visivelmente orgulhoso. Conhecemo-nos num domingo à noite, quando andava a percorrer a grande feira que ocupa a maior parte do centro histórico de Chiang Mai (a segunda maior cidade do país) aos fins de semana. Patrick fazia companhia a Runy, a sua mulher, que vendia os marcadores de livros num pequeno stand. Alheio aos milhares de pessoas que circulavam pelas ruas estreitas e à confusão instalada, lia "Thirtheen", uma história futurista sobre uma linhagem de soldados geneticamente modificados. "Sou da área de engenharia e tecnologia, por isso gosto muito de ficção científica. Para leitura de relaxamento, é o estilo que prefiro. E este é um livro que venceu o Prémio Arthur C. Clarke. De resto, depende... Por exemplo, estou a ler também um outro livro sobre a história política e económica do Ocidente nos séculos XIX e XX". 

domingo, 13 de Julho de 2014

Tailândia — Joe a caminho de Chiang Mai


Dos cinco dias que estive em Banguecoque, dois foram passados no quarto do hotel. Nunca saberei ao certo o que aconteceu ao meu estômago. Talvez tenha tido uma intolerância momentânea à profilaxia da Malária ou talvez tenha comido alguma coisa que não digeri bem. Só sei que essa má disposição e o quase jejum a que me forcei  durante 48 horas consumiram boa parte das minhas forças e que as temperaturas a rondar os 45 graus centígrados de sensação térmica acentuaram ainda mais o meu cansaço. Perante este cenário, carregar as mochilas — uma grande com cerca de 15 quilos e outra mais pequena com 8 quilos — até à carruagem do comboio noturno que me levou para Chiang Mai, no norte da Tailândia, representou um esforço titânico. Quando por fim me deixei cair no lugar que me coube, tinha a roupa colada ao corpo, escorria suor e arfava. Eram dez da noite, todas as janelas da velhíssima carruagem estavam escancaradas e todas as ventoinhas pregadas ao teto giravam furiosamente. Ainda assim, parecia não haver ar suficiente para se respirar. Só queria que o comboio partisse e que a sua marcha lenta me embalasse até ao sono profundo. Teria 13 horas para dormir. Quando por fim a máquina se pôs em movimento, produzindo um som metálico semelhante ao que ouvi no cinema quando o Titanic se afunda, ocorreu-me percorrer toda a carruagem com o olhar e ao virar-me para trás vi que um dos rapazes ingleses que tinha embarcado depois de mim estava a ler. Apesar das pernas trémulas e do meu muito mau aspeto, lá fui ter com ele e fiz a fotografia, enquanto os seus companheiros de viagem, gozões, me juravam que ele não sabia ler. "Está a fazer de conta! Ele só sabe ler os livros do "Onde está o Wally!", diziam por entre gargalhadas. Mas o Joe não desarmou e manteve a pose. "Não sou leitor habitual", disse-me depois, "mas estou a aproveitar a viagem pela Ásia para ler um pouco. Acabei o único livro que trouxe, por isso pedi este emprestado a um dos amigos que veio comigo". O livro em causa era "Do The Birds Still Sing in Hell?", um relato verídico escrito na primeira pessoa por Horace Greasley, um soldado britânico feito prisioneiro pelos alemães no decorrer da Segunda Guerra Mundial e que durante o seu cativeiro viveu uma intensa história de amor com a alemã que lhe servia de intérprete. Depois da nossa conversa, voltei ao meu lugar e adormeci de imediato. Na amanhã seguinte, já o sol ia alto, voltei a olhar para trás. O Joe e todos os seus camaradas de viagem estavam a ler.

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Banguecoque - Nina & Michael Robotham


Detesto reduzir um país a uma só coisa, mas é inevitável pensar em massagens quando se fala da Tailândia. E quando se está na Tailândia é quase fatal acabar num daqueles Spas — que em certas ruas de Banguecoque existem porta sim, porta sim — para uma sessão de deliciosa e energizante fricção ao corpo inteiro (que se assemelha em muito a uma luta greco-romana...) ou, no mínimo dos mínimos, aos pés. Foi o que aconteceu à Nina, uma alemã de férias na Tailândia que vi ao fim da tarde num Spa da Silom Road e que não se importou de falar comigo enquanto era massajada. Leitora habitual, a Nina aponta os thrillers como o seu género literário preferido. Durante muito tempo leu tudo o que encontrou de autores escandinavos, até que esgotou esse filão. Teve, por isso, de procurar outros escritores e foi então que descobriu o australiano Michael Robotham. "Este autor é muito bom", disse-me. "Acabei de ler um livro seu ontem à noite e gostei tanto que fui imediatamente fazer o download de outro. Comecei logo a ler". O livro em questão era "Adrenaline", numa edição alemã para o Kindle. 

domingo, 22 de Junho de 2014

Banguecoque — O meu Nirvana



Fui visitar Wat Pho, o templo mais antigo da capital da Tailândia, e não estava preparada para o que ali encontrei. Ainda bem. Sem saber ao que ia, sem ter visto antes qualquer imagem do local, a experiência foi avassaladora e tenho ainda hoje, passados quase dois meses, dificuldade em encontrar as palavras certas para descrever o que senti perante tanta beleza. Foi mágico... Chorei e ri, sem vergonha, na frente de toda a gente. Percorri com a ponta dos dedos o minucioso trabalho de cerâmica, vidrilho, madre pérola e folha de ouro que cobre a maior parte do exterior dos pagodes que se erguem no recinto. Segui atentamente as histórias contadas pelas figuras pintadas nos metros e metros de murais. Fui hipnotizada pela repetição exaustiva de padrões simples pintados em cores quentes nos tetos altos. Fiquei perplexa perante a elegância do Buda reclinado, apesar das suas dimensões colossais — 15 metros de altura e 43 metros de comprimento — e deliciei-me com o seu sorriso doce, sereno, um dos poucos que vi até hoje maiores que o meu: 5 metros de sorriso! Fechei os olhos e deixei que a poderosa energia que ali se concentrava tomasse conta de mim. Numa tentativa de evitar o caminho de um grupo de visitantes apressados, fiz um desvio súbito no meu trajeto, encontrei-me num recanto mais isolado e dei de caras com um monge a ler. Gostava de ter uma história maravilhosa para vos contar acerca desta fotografia. Uma história que contivesse uma revelação ou um ensinamento. Algo assim profundo. Mas não tenho. Contudo, este encontro breve, feito de parcas palavras e muitos sorrisos, fechou com chave de ouro o dia mais emocionante da minha curta passagem por Banguecoque. O monge, que não falava uma palavra de inglês, percebeu a minha intenção: tirar uma fotografia. Mas duvido que tenha percebido que o meu interesse era fotografá-lo a ler. Não percebi o seu nome. Não me soube explicar o que lia, nem porquê. Perguntei-lhe se teria um email para enviar-lhe a fotografia. Disse que sim. Passei-lhe o meu bloco de notas e a caneta para que o escrevesse, mas o que me deu foi a morada e o número de telefone de um templo numa província distante. Só o percebi mais tarde, quando a rececionista do hotel me traduziu os apontamentos. Foi, portanto, um encontro feito de alguns mal entendidos, mas ainda assim um encontro cheio de boas intenções. Foi o meu Nirvana.

Mais fotos deste encontro aqui.

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Malaca - Inga, a viajar há quarenta anos


Conheci a Inga no hostel onde fiquei alojada em Malaca. Passei pela cozinha, ao descer do meu quarto, e lá estava ela, sentada à grande mesa, agarrada a um livro. A Inga tem 60 anos e começou a viajar sozinha na década de 70. Um dos locais por onde esta holandesa andou mais tempo foi o continente africano, onde trabalhou dez anos e viajou outros dezassete. No que diz respeito a Malaca, esta era a sua quarta vez na cidade. "Adoro esta parte do globo. É seguro e as pessoas são muito simpáticas. E também porque não há ninguém a pedir. Já vi demasiada gente a pedir. Não posso apreciar a minha vida se estou rodeada de gente sem comida", explicou. Para além das viagens, a leitura é uma outra grande paixão sua. Lê imenso e diz não conseguir imaginar o mundo sem livros. Fotografei-a ler "Lost in Shangri-La", o relato de um episódio verídico ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de militares parte em busca dos sobreviventes de um acidente de aviação, perdidos na floresta tropical da Nova Guiné. Uma história que considerou entusiasmante!

domingo, 15 de Junho de 2014

Malaca — Nicolas & Emma



O coração de Malaca é o seu centro histórico, classificado como Património Mundial da Humanidade em 2008, e nesse centro histórico a principal artéria é Jalan Hang Jebat ou Jonker Walk, como é mais conhecida. Nesta rua não muito larga e de passeios estreitos, todas as casas de traça ocidental — construídas pelos portugueses e depois ocupadas e sucessivamente alteradas pelos holandeses, ingleses e chineses — foram transformadas em espaços comerciais, alguns deles muito elegantes. De maneira que é por ali que todos os turistas acabam a deambular durante o dia, acotovelando-se de loja em loja, e também à noite para jantar e tomar um copo. Num desses bares de rés-do-chão completamente aberto para a rua, a uma hora em que as temperaturas rondariam os 40 graus, a Emma e o Nicolas bebiam refrescos e liam. Ele, ecuatoriano, despedira-se de um trabalho do qual não gostava, em Hong Kong, para voltar a estudar a partir de Agosto. Mas enquanto as aulas do Mestrado não começavam tinha decidido viajar pelo Sudoeste Asiático. Estava a pouco tempo de ir para o Cambodja, por isso lia "First They Killed My Father". "É um livro escrito por uma mulher que, quando criança, viveu o genocídio. Quero perceber melhor um momento chave da História do Cambodja", explicou, referindo-se ao regime sanguinário de Pol Pot e dos Khmer Vermelhos. A Emma, que se definiu como uma mistura de malaios, indonésios e chineses, lia algo completamente distinto: "Law of Attraction", de Michael J. Losier. "Gosto de livros de autoajuda, acho-os interessantes, e nas férias faço este tipo de leitura para pensar na vida e nos meus objetivos", disse.