domingo, 20 de Julho de 2014

Laos — Emma, deixando pegadas por aí


No dia em que acordei em Chiang Khong, na margem tailandesa do Mekong, ainda demorei a decidir se deveria ou não atravessar a fronteira para o Laos e iniciar nessa mesma manhã a descida do mítico rio asiático até Luang Prabang. Chovera torrencialmente durante toda a noite, como se a natureza tivesse decidido mostrar-me como é a monção no seu máximo esplendor, e faltam-me os adjetivos para qualificar a enormidade dos relâmpagos e dos trovões que foram interrompendo o meu sono. A descida, nos moldes em que eu quis fazê-la, implica viajar durante dois dias num "slow boat", uma embarcação a motor com 35 metros de comprimento que, tal como o nome indica, se desloca muito lentamente — mas muito lentamente mesmo! — e cujos antigos assentos de madeira foram recentemente substituídos por bancos de carros e carrinhas que devem ter tido a sucata como destino. Note-se que estes bancos não são reclináveis nem estão pregados ao chão, o que permite que cada freguês faça uma gestão muito particular do espaço que lhe cabe para as pernas... Outra característica destes "barcos lentos" é não terem janelas, por isso, quando chove, a única forma de proteger os passageiros das enxurradas é baixar uns oleados que tapam a vista quase por completo, arruinando aquele que era para mim o único objetivo deste passeio demorado: apreciar a paisagem. Vá-se lá saber porquê, decidi arriscar tudo e seguir viagem, cumprindo o calendário que tinha estipulado para este troço da pequena volta ao mundo. Naquele pedaço de terra que parece não pertencer a ninguém, ali entre a Tailândia e o Laos, estava eu na fila para tratar do visto laosiano e a conversar com a minha companheira de viagem, quando a pessoa à nossa frente se volta para trás e exclama: "Portuguesas!". Foi assim que conheci a Emma, felicíssima por encontrar as primeiras compatriotas em vários meses. Dona de um sorriso que lhe ocupa o rosto todo (sim, sou muito sensível a sorrisos), a Emma é um ser que transborda luz. E palavras. Mas não palavras ocas ou vãs. Palavras cativantes, cheias de histórias, de gentes, de paisagens, de sensações colhidas por esse mundo fora. Palavras carregadas de gratidão, também, por a vida lhe permitir viver o seu maior sonho: viajar durante três anos. Palavras que, por isso, se fazem acompanhar muitas vezes de lágrimas, daquelas que choramos de alegria e que eu acabei por chorar com ela. Determinada a viajar durante uma longa temporada, a Emma trabalhou arduamente em Londres durante vários anos e juntou de forma obstinada todos os tostões. Manteve o foco até ao dia em que largou o lugar de direção que ocupava numa empresa do mundo do petróleo. Quando nos conhecemos à entrada do Laos, já tinha passado sete meses entre a Índia, China, Singapura, Malásia e Tailândia. Tinha, portanto, cerca de dois anos e meio de viagem pela frente e mais do que nunca os meus seis meses de licença sem vencimento pareceram-me muito pouco... O primeiro dia de descida do Mekong já levava várias horas quando do meu lugar, na popa, olho para a proa e vejo a Emma com um tablet nas mãos. Por sorte, estava a começar a ler "Americanah", de Chimamanda Ngozi Adichie, e essa foi a deixa perfeita para lhe falar do Acordo Fotográfico, propôr-lhe a foto e obter licença para contar aqui a sua história. "Fiz o download deste livro depois de saber que a autora, tal como eu, defende ativamente os direitos dos homossexuais", disse, "mas ainda estou sob o efeito do livro que li antes deste". "Invencível" era o livro em questão, a espetacular biografia de Louie Zamperini, um atleta olímpico norte-americano que parte em combate durante a Segunda Guerra Mundial e cujo avião se despenha um dia no Oceano Pacífico. Depois de sobreviver a sete semanas à deriva, é resgatado por japoneses ao largo de uma ilha e quando pensava que o pior já tinha passado, na verdade estava apenas no início do seu calvário. "É um livro maravilhoso! Marcou-me tanto que não consigo parar de falar dele e de recomendá-lo a toda a gente!". Há mais de dois meses que não vejo a Emma. Por vezes trocamos mensagens via Facebook, mas consigo recordar o timbre da sua voz. Depois de três semanas no Laos, passou um mês no Cambodja, regressou à Tailândia e encontra-se por estes dias em Myanmar. Se quiserem acompanhar o seu périplo nos próximos dois anos e alguns meses podem fazê-lo através do seu blogue: Footprints in the clouds.

quinta-feira, 17 de Julho de 2014

Chiang Mai - O amor (p)e(l)os livros


Patrick é um norte-americano que sempre leu muito e que agora que está reformado tem ainda mais disponibilidade para os livros. Um dia, estava ele na Tailândia, entrou numa loja onde apenas se vendiam uns delicados marcadores de livros feitos em teca e pintados à mão. Foi atendido pela artista, por quem se apaixonou e com quem veio a casar mais tarde. "Por ser leitor, conheci a minha mulher e hoje vivo na Tailândia. Este marcador que aqui tenho no livro é da edição limitada que oferecemos aos convidados no dia do nosso casamento", disse-me visivelmente orgulhoso. Conhecemo-nos num domingo à noite, quando andava a percorrer a grande feira que ocupa a maior parte do centro histórico de Chiang Mai (a segunda maior cidade do país) aos fins de semana. Patrick fazia companhia a Runy, a sua mulher, que vendia os marcadores de livros num pequeno stand. Alheio aos milhares de pessoas que circulavam pelas ruas estreitas e à confusão instalada, lia "Thirtheen", uma história futurista sobre uma linhagem de soldados geneticamente modificados. "Sou da área de engenharia e tecnologia, por isso gosto muito de ficção científica. Para leitura de relaxamento, é o estilo que prefiro. E este é um livro que venceu o Prémio Arthur C. Clarke. De resto, depende... Por exemplo, estou a ler também um outro livro sobre a história política e económica do Ocidente nos séculos XIX e XX". 

domingo, 13 de Julho de 2014

Tailândia — Joe a caminho de Chiang Mai


Dos cinco dias que estive em Banguecoque, dois foram passados no quarto do hotel. Nunca saberei ao certo o que aconteceu ao meu estômago. Talvez tenha tido uma intolerância momentânea à profilaxia da Malária ou talvez tenha comido alguma coisa que não digeri bem. Só sei que essa má disposição e o quase jejum a que me forcei  durante 48 horas consumiram boa parte das minhas forças e que as temperaturas a rondar os 45 graus centígrados de sensação térmica acentuaram ainda mais o meu cansaço. Perante este cenário, carregar as mochilas — uma grande com cerca de 15 quilos e outra mais pequena com 8 quilos — até à carruagem do comboio noturno que me levou para Chiang Mai, no norte da Tailândia, representou um esforço titânico. Quando por fim me deixei cair no lugar que me coube, tinha a roupa colada ao corpo, escorria suor e arfava. Eram dez da noite, todas as janelas da velhíssima carruagem estavam escancaradas e todas as ventoinhas pregadas ao teto giravam furiosamente. Ainda assim, parecia não haver ar suficiente para se respirar. Só queria que o comboio partisse e que a sua marcha lenta me embalasse até ao sono profundo. Teria 13 horas para dormir. Quando por fim a máquina se pôs em movimento, produzindo um som metálico semelhante ao que ouvi no cinema quando o Titanic se afunda, ocorreu-me percorrer toda a carruagem com o olhar e ao virar-me para trás vi que um dos rapazes ingleses que tinha embarcado depois de mim estava a ler. Apesar das pernas trémulas e do meu muito mau aspeto, lá fui ter com ele e fiz a fotografia, enquanto os seus companheiros de viagem, gozões, me juravam que ele não sabia ler. "Está a fazer de conta! Ele só sabe ler os livros do "Onde está o Wally!", diziam por entre gargalhadas. Mas o Joe não desarmou e manteve a pose. "Não sou leitor habitual", disse-me depois, "mas estou a aproveitar a viagem pela Ásia para ler um pouco. Acabei o único livro que trouxe, por isso pedi este emprestado a um dos amigos que veio comigo". O livro em causa era "Do The Birds Still Sing in Hell?", um relato verídico escrito na primeira pessoa por Horace Greasley, um soldado britânico feito prisioneiro pelos alemães no decorrer da Segunda Guerra Mundial e que durante o seu cativeiro viveu uma intensa história de amor com a alemã que lhe servia de intérprete. Depois da nossa conversa, voltei ao meu lugar e adormeci de imediato. Na amanhã seguinte, já o sol ia alto, voltei a olhar para trás. O Joe e todos os seus camaradas de viagem estavam a ler.

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Banguecoque - Nina & Michael Robotham


Detesto reduzir um país a uma só coisa, mas é inevitável pensar em massagens quando se fala da Tailândia. E quando se está na Tailândia é quase fatal acabar num daqueles Spas — que em certas ruas de Banguecoque existem porta sim, porta sim — para uma sessão de deliciosa e energizante fricção ao corpo inteiro (que se assemelha em muito a uma luta greco-romana...) ou, no mínimo dos mínimos, aos pés. Foi o que aconteceu à Nina, uma alemã de férias na Tailândia que vi ao fim da tarde num Spa da Silom Road e que não se importou de falar comigo enquanto era massajada. Leitora habitual, a Nina aponta os thrillers como o seu género literário preferido. Durante muito tempo leu tudo o que encontrou de autores escandinavos, até que esgotou esse filão. Teve, por isso, de procurar outros escritores e foi então que descobriu o australiano Michael Robotham. "Este autor é muito bom", disse-me. "Acabei de ler um livro seu ontem à noite e gostei tanto que fui imediatamente fazer o download de outro. Comecei logo a ler". O livro em questão era "Adrenaline", numa edição alemã para o Kindle. 

domingo, 22 de Junho de 2014

Banguecoque — O meu Nirvana



Fui visitar Wat Pho, o templo mais antigo da capital da Tailândia, e não estava preparada para o que ali encontrei. Ainda bem. Sem saber ao que ia, sem ter visto antes qualquer imagem do local, a experiência foi avassaladora e tenho ainda hoje, passados quase dois meses, dificuldade em encontrar as palavras certas para descrever o que senti perante tanta beleza. Foi mágico... Chorei e ri, sem vergonha, na frente de toda a gente. Percorri com a ponta dos dedos o minucioso trabalho de cerâmica, vidrilho, madre pérola e folha de ouro que cobre a maior parte do exterior dos pagodes que se erguem no recinto. Segui atentamente as histórias contadas pelas figuras pintadas nos metros e metros de murais. Fui hipnotizada pela repetição exaustiva de padrões simples pintados em cores quentes nos tetos altos. Fiquei perplexa perante a elegância do Buda reclinado, apesar das suas dimensões colossais — 15 metros de altura e 43 metros de comprimento — e deliciei-me com o seu sorriso doce, sereno, um dos poucos que vi até hoje maiores que o meu: 5 metros de sorriso! Fechei os olhos e deixei que a poderosa energia que ali se concentrava tomasse conta de mim. Numa tentativa de evitar o caminho de um grupo de visitantes apressados, fiz um desvio súbito no meu trajeto, encontrei-me num recanto mais isolado e dei de caras com um monge a ler. Gostava de ter uma história maravilhosa para vos contar acerca desta fotografia. Uma história que contivesse uma revelação ou um ensinamento. Algo assim profundo. Mas não tenho. Contudo, este encontro breve, feito de parcas palavras e muitos sorrisos, fechou com chave de ouro o dia mais emocionante da minha curta passagem por Banguecoque. O monge, que não falava uma palavra de inglês, percebeu a minha intenção: tirar uma fotografia. Mas duvido que tenha percebido que o meu interesse era fotografá-lo a ler. Não percebi o seu nome. Não me soube explicar o que lia, nem porquê. Perguntei-lhe se teria um email para enviar-lhe a fotografia. Disse que sim. Passei-lhe o meu bloco de notas e a caneta para que o escrevesse, mas o que me deu foi a morada e o número de telefone de um templo numa província distante. Só o percebi mais tarde, quando a rececionista do hotel me traduziu os apontamentos. Foi, portanto, um encontro feito de alguns mal entendidos, mas ainda assim um encontro cheio de boas intenções. Foi o meu Nirvana.

Mais fotos deste encontro aqui.

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Malaca - Inga, a viajar há quarenta anos


Conheci a Inga no hostel onde fiquei alojada em Malaca. Passei pela cozinha, ao descer do meu quarto, e lá estava ela, sentada à grande mesa, agarrada a um livro. A Inga tem 60 anos e começou a viajar sozinha na década de 70. Um dos locais por onde esta holandesa andou mais tempo foi o continente africano, onde trabalhou dez anos e viajou outros dezassete. No que diz respeito a Malaca, esta era a sua quarta vez na cidade. "Adoro esta parte do globo. É seguro e as pessoas são muito simpáticas. E também porque não há ninguém a pedir. Já vi demasiada gente a pedir. Não posso apreciar a minha vida se estou rodeada de gente sem comida", explicou. Para além das viagens, a leitura é uma outra grande paixão sua. Lê imenso e diz não conseguir imaginar o mundo sem livros. Fotografei-a ler "Lost in Shangri-La", o relato de um episódio verídico ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de militares parte em busca dos sobreviventes de um acidente de aviação, perdidos na floresta tropical da Nova Guiné. Uma história que considerou entusiasmante!

domingo, 15 de Junho de 2014

Malaca — Nicolas & Emma



O coração de Malaca é o seu centro histórico, classificado como Património Mundial da Humanidade em 2008, e nesse centro histórico a principal artéria é Jalan Hang Jebat ou Jonker Walk, como é mais conhecida. Nesta rua não muito larga e de passeios estreitos, todas as casas de traça ocidental — construídas pelos portugueses e depois ocupadas e sucessivamente alteradas pelos holandeses, ingleses e chineses — foram transformadas em espaços comerciais, alguns deles muito elegantes. De maneira que é por ali que todos os turistas acabam a deambular durante o dia, acotovelando-se de loja em loja, e também à noite para jantar e tomar um copo. Num desses bares de rés-do-chão completamente aberto para a rua, a uma hora em que as temperaturas rondariam os 40 graus, a Emma e o Nicolas bebiam refrescos e liam. Ele, ecuatoriano, despedira-se de um trabalho do qual não gostava, em Hong Kong, para voltar a estudar a partir de Agosto. Mas enquanto as aulas do Mestrado não começavam tinha decidido viajar pelo Sudoeste Asiático. Estava a pouco tempo de ir para o Cambodja, por isso lia "First They Killed My Father". "É um livro escrito por uma mulher que, quando criança, viveu o genocídio. Quero perceber melhor um momento chave da História do Cambodja", explicou, referindo-se ao regime sanguinário de Pol Pot e dos Khmer Vermelhos. A Emma, que se definiu como uma mistura de malaios, indonésios e chineses, lia algo completamente distinto: "Law of Attraction", de Michael J. Losier. "Gosto de livros de autoajuda, acho-os interessantes, e nas férias faço este tipo de leitura para pensar na vida e nos meus objetivos", disse.

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

Kuala Lumpur — Livreiros: todos diferentes, todos iguais


Não sei do que gosto mais quando viajo: viver a experiência do choque cultural ou espantar-me com as semelhanças. Uma pessoa vai até ao outro lado do mundo, visita um país que nada tem a ver com o seu, perde quase todos os seus pontos de referência, mas encontra uma colega de profissão com quem tem imenso em comum. Estar a conversar com alguém de outra cultura pela primeira vez e dar por si a dizer "Pois é, é mesmo isso!" é tão emocionante quanto ficar alojada na casa de uma família Hmong, tribo do norte do Vietname, que está no extremo oposto do meu estilo de vida. Encontrei a Abbie no shopping das Torres Petronas, onde também eu tinha ido almoçar. Alegria pura foi o que senti quando me disse que era livreira na Books Kinokuniya, uma rede japonesa de livrarias. A partir desse primeiro ponto em comum coincidimos em muitas outras coisas. Tal como eu, a Abbie lê imenso e ri-se da ironia que é deixar parte considerável do seu salário no sítio onde trabalha. Tal como eu, a Abbie considera os livros caros, só que na Malásia isso não se deve à pequenez do mercado, mas sim ao facto de quase não haver edição nacional e trabalharem sobretudo com edições importadas dos EUA e do Reino Unido. Tal como eu, a Abbie tem a sorte de poder ler os livros que são oferecidos pelos editores, mas com uma diferença: quando me oferecem livros, recebo a edição que vai para o mercado, enquanto ela recebe uma "review copy", que é uma edição mais barata produzida para promover os livros junto de quem os vai vender. E tal como eu, a Abbie considera fundamental sentir-se agarrada pela primeira frase de um livro. Fotografei-a quando lia "The Killer Next Door", de Alex Marwood, um thriller psicológico que, na sua opinião, explora muito bem os meandros da mente humana. "É maravilhoso encontrar um bom livro!", disse-me. "É uma fonte de felicidade". E eu, tal como ela, sinto extamente o mesmo.

quinta-feira, 5 de Junho de 2014

Kuala Lumpur - Danusha, nas Petronas


Quis ir à Malásia por causa de Malaca. Meti na cabeça que queria conhecer o bairro português ou "Portuguese Settlement", como lhe chamam por lá. Infelizmente a visita ao bairro foi uma tremenda desilusão. Há duas ou três ruas com nomes portugueses, casas de arquitectura descaracterizada, uma praça com um par de restaurantes onde se confeccionam pratos de inspiração vagamente lusa e um museu liliputiano repleto de tralha que não interessa nem ao Menino Jesus. Verde, vermelho e motivos do folclore português pintados nas paredes. E eu que implico solenemente com esta imagem de Portugal parada no tempo, como se nos reduzíssemos a bacalhau e corridinhos. Ou viras. Trocámos algumas palavras com um senhor que nos levou ao museu. Discursou longamente sobre as diferenças entre o português que lá falam e o português de Portugal, mas fê-lo sempre em inglês. E ainda se queixou que as novas gerações não querem aprender o idioma dos tetravós. Pudera! Que interesse tem aprender o idioma de um país que, retratado desta forma, parece cheirar a mofo? Da nossa língua só ouvimos mesmo as palavras ditas por um pescador, que remendava redes sentado no chão. As vogais muito abertas, num sotaque vagamente tropical. E mais nada. Malaca, Património Mundial da Humanidade desde 2008, é engraçada e merece ser visitada. Dá prazer passear pelas ruas de travo europeu cheias de turistas e fazer o roteiro das lojinhas, que são muitas e de muito bom gosto. Mas o que salvou mesmo a ida à Malásia foi a sua capital, Kuala Lumpur, a cidade que parece encerrar vários países. Fiquei alojada no bairro chinês, contudo, ao virar da esquina, parecia chegar à Índia quando surgia um templo hindu de cores psicadélicas.  E cinco vezes por dia viajava até ao norte de África sempre que ouvia o muezim chamar os fiéis para as orações. Porém, os encantos de Kuala Lumpur não se reduzem a esta mistura surpreendente de culturas que parecem conviver em paz. Kuala Lumpur é, a par das tradições e rituais ancestrais, uma cidade moderníssima, que esbanja juventude, dinamismo e luxo, uma faceta que tem como expoente máximo as badaladíssimas torres Petronas, outrora as mais altas do mundo. Foi junto à entrada da Torre 2, mesmo antes de entrar no shopping que lhe está adjacente para ir almoçar, que conheci a Danusha, uma jovem malaia cujo trabalho de auditoria lhe consome muito tempo. "Trabalho aqui nas Petronas. Já li mais do que leio atualmente. Mas aproveito todo o tempo livre para fazê-lo. Leio sobretudo romances, mas também gosto de não ficção. Salman Rushdie é talvez o meu autor favorito, embora só tenha lido três romances dele", disse-me. O livro que tinha consigo naquele dia era "The Finkler Question" ("A Questão Finkler", na sua edição portuguesa), romance que valeu a Howard Jacobson o Booker Prize de 2010. "Foi-me oferecido por um amigo" contou-me. E enquanto me mostrava a extensa dedicatória escrita nas primeiras páginas, esse amigo chegou e  aproximou-se de nós. "Bem, na verdade ela queria o livro", disse ele rindo-se. Trocaram um olhar cúmplice e a Danusha completou: "Não costumo ler as sinopses. Leio apenas as críticas. E pelas críticas feitas a este romance achei que devia ser giro. E é mesmo muito divertido. Estou a gostar muito!" Olha de novo para o amigo e acrescenta "Quem também é escritor é ele. Está a escrever um livro que um dia será publicado". Ele não desmente. Explica que ainda não sabe o que é "aquilo". "Só palavras, por enquanto. Mas ela é que devia ser escritora", diz olhando para a Danusha. "Escreves muito bem". E deixei-os a discutir esse assunto não sem antes combinarmos que quem publicasse primeiro um livro teria de me dar conhecimento.

Mais fotos da Danusha e das torres Petronas aqui.

sexta-feira, 30 de Maio de 2014

Timor-Leste — Ás vezes mais vale estar calada


Francisco Pereira. Assim se chama este leitor timorense que não entende uma palavra de português. O pouco que pude comunicar consigo foi possível por intermédio de um jovem australiano fluente em Tetum, o idioma em que estava escrita a Bíblia que o Francisco lia (Evangelho Segundo Mateus 17:24-27). "Francisco Pereira! Com esse nome devia falar português", exclamei. E arrependi-me de o ter dito no mesmo segundo. É como afirmar que todos os Iuris e todas as Kátias de sangue puro lusitano deviam falar russo... Perante a minha baboseira, o silêncio do Francisco foi de ouro. Fotografei-o na linda Praia dos Portugueses no sábado de Aleluia.

terça-feira, 27 de Maio de 2014

Timor-Leste - Ana, na Praia dos Portugueses


Timor-Leste tem 12 anos. É um país pré-adolesente que não larga o telemóvel, gosta de novelas coreanas, conduz uma mota, vai ao único shopping para comer no único MacDonald's e define o seu caráter sobre a riquíssima história dos seus antepassados (que não rejeita), os traumas da ocupação indonésia (que não quer esquecer), os anos de luta e resistência (que lhe servem de inspiração) e a certeza de um futuro melhor (a que os petrodólares não são alheios). Acho que foi isso que mais invejei aos timorenses, esse sentido de esperança que Portugal perdeu. Em Timor-Leste havia muito pouco e consta que os indonésios, na sua retirada, destruíram o mais que puderam. Por isso, em Timor-Leste está quase tudo por fazer e nesse caminho longo de crescimento a ajuda internacional, mais ou menos desinteressada, tem tido um papel preponderante. A comunidade de expatriados em Dili, trabalhadores com contratos ou voluntários, é muito grande. Os australianos são os que existem em maior número. Mas também há portugueses, norte-americanos, neozelandeses, chineses e até filipinos, como é o caso da Ana, que vive e trabalha em Dili desde 2006. "Não sei quanto tempo mais ficarei por cá. Julgo que enquanto houver trabalho. Mas todos os anos vou às Filipinas uma ou duas vezes", disse-me. Encontrei-a a ler na Praia dos Portugueses, na véspera de Domingo de Páscoa, quando decidi caminhar até o topo do promontório onde existe uma estátua do Cristo Rei. Estava a ler "The Farmer's Wife", um romance muito simples, como a própria Ana o definiu. "Senti-me seduzida pelo personagem e pela história. Gosto de personagens extraordinários e realistas. Até nos filmes a minha preferência vai para histórias simples". Esta engenheira de profissão diz não ter muito tempo livre para os livros, mas que quando pode lê. Era o caso daquele fim de semana prolongado. "Fui trocar livros ali no hotel da praia. Deixei dois e trouxe outros dois". Para quem lê pouco, não é nada mau.

Mais fotos aqui.

sábado, 24 de Maio de 2014

Timor-Leste - Tudo o que os livros são



Os livros são viagem. Os livros são conhecimento. Os livros são entretenimento. Poderia continuar a enumerar tudo aquilo que os livros são para os muitos leitores com quem já conversei. Mas para a Elizabeth o livro é aquilo que talvez mais me toque: o legado de alguém que amávamos e que já partiu. O livro é memória. O livro é prolongamento. No dia em que a conheci, a Elizabeth tinha começado a ler "Divine Guidance" de Swami Govinda, um título que o seu melhor amigo muito lhe tinha recomendado. Nesse mesmo dia assinalavam-se os três meses da morte súbita desse seu melhor amigo. "Está a ajudar-me a reconectar-me com o meu caminho espiritual. Leio-o por mim, mas também por ele. Antes de morrer, deixou-me quatro livros. Este é o último". A Elizabeth, que é australiana, mudou-se este ano para Timor-Leste e está a dar aulas em Dili. Levou consigo a filha adolescente. Tem pela frente um contrato de dois anos para cumprir, pelo que contam ficar no país pelo menos esse tempo. Ambas estão a gostar muito de lá viver. A Leilani também lia, mas admitiu que não o faz com muita frequência. "Estou a tentar ler mais", disse-me. "Por isso passei pela biblioteca da escola e achei que "Eat, Pray and Love" seria interessante". Fotografei-as na esplanada do Hotel Esplanada, na Avenida de Portugal, uma marginal que percorre parte da costa de Dili. Ali, sentada à sombra, fintei o sol inclemente e recebi com alívio a pouca brisa que soprava do mar à minha frente. Almocei, bebi o melhor sumo de lima que alguma vez provei e relaxei ao som de uma boa música enquanto acedia à net, principal razão que me levou a lá ir. Um dia que visitem Timor-Leste não deixem de passar por lá, nem que seja para tomar um delicioso café timorense.

quarta-feira, 21 de Maio de 2014

Sydney - Dana, na Ópera


Estive uma semana em Sydney e fui ao edifício da ópera quase todos os dias. É impossível resistir ao fascínio que exerce. De dia ou de noite, quando está todo iluminado, faça chuva ou faça sol, lá de cima do jardim botânico ou mesmo a partir da sua grande escadaria, apetece sempre contemplá-lo mais um pouco. Numa das vezes fui mesmo fazer a visita guiada ao seu interior (30 Euros bem investidos, aliás), ocasião para entrar nas principais salas de espetáculo — que lindo que é o Concert Hall, com capacidade para quase 2700 espetadores! —, ficar a par de episódios anedóticos da sua história e conhecer os detalhes da sua complexa construção, um magnífico trabalho de arquitetura e engenharia. Para além de ter descoberto que a Ópera de Sydney é Património Mundial da Humanidade desde 2007 (não, não sabia...), também aprendi que não é só em Portugal que este tipo de empreendimento derrapa: o que estava previsto construir em três anos, demorou dezassete a erguer (nem a construção da Casa da Música correu tão mal) e o orçamento inicial foi escandalosamente ultrapassado. A poucos minutos do início da visita, a Nilza diz-me entusiasmada que estava uma senhora a ler, sentada na escadaria. Ainda pensei duas vezes porque temi não ter tempo para fazer as fotos e conversar com calma, mas lá fui focada nesta grande oportunidade para o Acordo Fotográfico. A Dana, senhora de uns olhos azuis belíssimos que não pude captar, é norte-americana e estava de férias em Sydney. Viciada em livros, lia um clássico australiano que lhe foi recomendado e emprestado por um amigo: "Cloudstreet". Este livro, escrito por Tim Winton, retrata a vida de duas famílias da classe trabalhadora entre 1943 e 1963. Passado em Perth, o romance aborda temas caros aos australianos, tais como as relações familiares,  a busca de valores orientadores para a vida e a preocupação em ser um verdadeiro "aussie", empenhado e lutador. "Estou a gostar. É bom. Tem alguns termos australianos e calão que não entendo muito bem, mas à parte isso estou a gostar", comentou. 

Mais fotos da Dana e da Ópera de Sydney aqui.

domingo, 18 de Maio de 2014

Sydney - Sophie, que também é viajante


Não percebo patavina de botânica, mas adoro plantas. Embeveço-me com o porte das árvores, espanto-me com a complexidade de certas flores ou a simplicidade de outras e concluo sempre que a natureza produz seres belíssimos. Orgulho-me das poucas plantas que possuo e tratar delas é um dos meus maiores prazeres. Vê-las crescer saudáveis e florir com a passagem das estações é um motivo de alegria. Notá-las menos viçosas deixa-me triste. E deixá-las bem entregues foi uma das minhas grandes preocupações antes de partir de viagem. São plantas-animais-de-estimação. Este meu interesse leva-me a não perder a oportunidade de visitar os jardins botânicos que surgem no meu caminho. Foi o que aconteceu, primeiro, no Rio de Janeiro e umas semanas depois, noutro continente, em Sydney. Com uma diferença: o do Rio obrigada a pagar a entrada e o de Sydney é de acesso livre. O Royal Botanic Garden que visitei é o mais central dos três jardins botânicos que existem naquela cidade australiana. Fundado em 1816, ocupa 30 hectares e faz fronteira com os dois ícones de Sydney: o edifício da ópera e o porto. E foi na descida para o porto, já com as suas águas calmas bem visíveis, que reparei na Sophie a ler sob a extensa copa de uma árvore cujo nome não vos sei dizer (embora estivesse identificada), porque me esqueci completamente de apontá-lo algures... A Sophie, que é britânica, foi mais uma das viajantes que tive a sorte de conhecer. Estava a viver havia um ano em Sydney, mas antes disso tinha passado uma boa temporada no sudoeste asiático. Em breve seguiria para a Índia de onde deveria voltar a casa apenas por uns dias. É que estava nos seus planos partir para a América do Sul e ir também visitar o Canadá. Uma vez que estudou Literatura Inglesa na Faculdade, a Sophie diz que lê muito e aponta Khaled Housseini como um dos seus autores preferidos. "Mistery", de Peter Straub, foi o livro com que a fotografei, um policial passado numa pequena ilha das Caraíbas. "Foi-me oferecido pela minha irmã, que o leu e o recomendou. Avisou-me que iria demorar a entrar na história, mas que quando isso acontecesse iria gostar muito". E assim foi. A Sophie explicou-me que já tinha lido cem páginas e que a história tinha sido algo lenta até esse ponto. "Só agora começa a cativar-me", disse.

Mais fotos da Sophie e do Royal Botanic Garden de Sydney aqui.

quinta-feira, 15 de Maio de 2014

Sydney - Sophie & Stephen King


Coragem. Esta foi a palavra que mais ouvi quando anunciei que ia partir numa viagem de seis meses pelo mundo. Nunca concordei e garanto-vos que não há nesta minha atitude ponta de falsa modéstia. Não tomei nenhuma decisão radical: não me despedi, não parti com apenas uns trocos nos bolsos, não estou sequer a viajar sozinha, embora esse fosse o plano inicial. Coragem teve a Emma (portuguesa de quem vos falarei num futuro post), que se despediu de um cargo de direção e largou uma carreira de topo para viajar pelo mundo durante três anos. Conheci-a ao entrar no Laos. Coragem teve o Francisco, espanhol de Málaga, que depois de ser apunhalado sete vezes no abdómen numa tentativa de carjacking decidiu correr mundo sozinho, embrenhar-se nos lugares mais remotos e confiar de novo no ser humano. Conheci-o a bordo de um autocarro no norte da Tailândia. E coragem teve a muito jovem Sophie que foi sozinha desbravar território australiano durante três meses e que eu conheci em Sydney na véspera do seu regresso a Inglaterra. Fotografei-a no Hyde Park quando relia "The Shining", de Stephen King. "Adoro livros de horror! Sou fã deste clássico e adoro a adaptação ao cinema. Por isso estou a relê-lo".

segunda-feira, 12 de Maio de 2014

Sydney - Sarah, no Queen Victoria Building


Embora também tenha passeado nos arredores de Sydney — Bondi Beach, La Perouse, Wollongong, Kiama — passei a maior parte do meu tempo no Central Business District (CBD), zona de negócios e comércio por excelência. Aqui, por entre os arranha-céus e outros prédios modernos, há um edifício do século XIX que ocupa um quarteirão inteiro. É o Queen Victoria Building. Construído para funcionar como mercado, o edifício foi votado ao abandono entre as décadas de 60 e 70 do século XX, tendo estado à beira da demolição. Felizmente, tal acabou por não acontecer. Depois de um profundo restauro, voltou a abrir as portas ao público no fim dos anos 80 e é hoje uma referência na cidade. Para além da beleza arquitetónica do edifício, o comércio é de altíssima qualidade e os pequenos cafés e restaurantes são um mimo. Foi por aqui mesmo que decidi lanchar numa tarde chuvosa, mas teria de aguentar a fome um pouco mais. É que pelo caminho passei pela Sarah que lia e não quis perder a oportunidade de lhe pedir uma foto. O livro que tinha consigo intitulava-se "Smart Brain, Healthy Brain". "Fui a uma livraria, vi o livro e achei-o interessante", explicou-me. "A minha mãe teve problemas de memória e achei que seria bom se pudesse fazer algo para evitar que me aconteça o mesmo. Mas na mesma ocasião comprei outro livro, porque leio todos os dias, sobretudo romances de pendor mais literário. Há pouco tempo acabei de reler "O Amor nos Tempos de Cólera", que adoro". Contente por ter encontrado alguém que partilha o meu entusiasmo por este romance de Gabriel Garcia Márquez (também eu o li duas vezes) e satisfeita por ter mais um leitor em Sydney, o café e o strudel de maçã com gelado de nata souberam-me ainda melhor.

sexta-feira, 9 de Maio de 2014

Sydney - Mario & Cassandra Claire



Para além de querer visitar os países e territórios de língua oficial portuguesa, também queria dar a volta ao mundo. E uma vez que decidi começar a viagem pelo Brasil, contornar o globo implicava seguir para Timor-Leste atravessando o Pacífico. Ao pesquisar os voos para este troço da viagem, o percurso mais sedutor obrigava a uma escala em Sydney. E quem é que já não desejou um dia ir à Austrália? Eu fazia parte desse grupo de sonhadores. Por isso, rapidamente transformei a escala numa estadia de uma semana para poder formar uma primeira opinião (muito superficial, admito) acerca deste país-continente que está praticamente nos antípodas de Portugal. Sabia, e ainda sei, muito pouco sobre a Austrália. E acerca de Sydney ainda menos. Levava comigo esta imagem da cidade: a bela baía num dia de verão, pejada de barcos à vela que passam sob a ponte de ferro e frente à ópera que refulge ao sol. Ou a mesma baía, a mesma ponte e a mesma ópera numa versão noturna, no momento em que tudo explode em fogo de artifício e os australianos entram no novo ano quando eu ainda estou a almoçar. Cheguei a Sydney no fim de uma tarde de domingo e a cidade recebeu-me com chuva. Isso não impediu que tivesse gostado de imediato do que vi assim que o carro começou a percorrer as ruas do bairro adjacente ao aeroporto. Um bairro residencial de pequenas casas térreas com cercas e relvados. Para quem tinha vindo do Brasil, onde o povo vive enjaulado nas suas próprias habitações, circular por ruas e ruas de casas sem grades desapertou um nó que trazia no peito e do qual não me tinha apercebido. O dia seguinte, quando fui percorrer as ruas do centro da cidade pela primeira vez, reforçou a minha boa impressão. Sydney é uma espécie de mistura entre uma cidade europeia e uma cidade americana, como se tivesse ido buscar o melhor de Londres e de Nova Iorque. É um lugar sofisticado e requintado, mas depois tem aquele tom cool e relax que lhe é conferido pela proximidade do mar e pelo estilo de vida que a praia confere. Em duas palavras: fiquei fã! Depois de um breve reconhecimento dos pontos turísticos mais relevantes, o primeiro local onde passei mais tempo foi na Custom House, junto ao porto, um edifício antigo onde funcionam hoje em dia uma biblioteca pública, do rés do chão ao último piso, e um restaurante apenas no rés do chão. Na entrada, à direita, há uma área de leitura e uma receção. À esquerda a zona para leitura da imprensa, onde estão disponíveis jornais e revistas australianos e de outras regiões do mundo. Ao fundo estão os computadores para acesso livre à Internet. E o centro é quase todo ocupado por uma maquete de Sydney em grande escala que fica sob o nossos pés e sobre a qual podemos caminhar, já que aí o piso é todo de vidro. Por volta das 13h o piso inferior da biblioteca estava cheio. Uma turma em visita de estudo apreciava Sydney em miniatura com espanto e havia utentes sentados em toda a parte. Um deles era o Mario, que trabalha numa companhia de ferries na zona do porto e que vai à biblioteca todos os dias à hora de almoço para evadir-se e relaxar. Lia "The Mortal Instruments — City of Bones" (em português, "Caçadores de Sombras — A Cidade dos Ossos", de Cassandra Claire, uma série de cinco volumes que a filha leu e que achou fantástica. "Ela insistiu tanto para que eu os lesse que decidi ler o primeiro capítulo da saga só para lhe fazer a vontade e não consegui para de ler. Agora tenho mais quatro livros pela frente", explicou-me satisfeito.

Fotos da biblioteca aqui.

domingo, 4 de Maio de 2014

São Paulo - Vanessa & George R. R. Martin


Creio não exagerar se disser que o Parque de Ibirapuera é o pulmão de São Paulo. E não só. Esta área verde com mais de 1500 Km2 é também um centro de atividade cultural e desportiva da cidade. Aqui se situam, por exemplo, o Pavilhão da Bienal de São Paulo, o Museu de Arte Contemporânea, o Museu de Arte Moderna, o Museu Afro Brasil, a Oca, o Auditório Ibirapuera e o Ginásio de Esportes. Para além disso, o recinto conta com uma ciclovia, percursos para jogging e extensos relvados que fazem as delícias dos paulistas. Como podem imaginar, há assunto suficiente para se passar muitas horas em Ibirapuera, por isso reservei um dia inteiro para conhecê-lo com calma. Foi no decorrer desse passeio, no intervalo entre a visita aos edifícios projetados por Oscar Niemeyer, que vi a Vanessa sentada num banco de jardim muito fora do comum, uma estrutura que me pareceu um carro retirado de um desenho animado dos Flintstones. E embora este banco cómico não me tenha parecido muito confortável, a Vanessa e a sua cadelinha estavam comodamente instaladas, uma atenta a quem passava, a outra a ler o segundo volume de "A Guerra dos Tronos". "Adoro o livro! É maravilhoso!", disse-me com grande entusiasmo. "Foi o meu noivo, que é fissurado em leitura e tem uma biblioteca enorme, que insinuou que queria a coleção toda. Eu ofereci e acabei lendo primeiro! Eu não tinha o hábito de ler. Meu noivo, ele é assim meio nerd sabe?, lê muito e eu me perguntava: o que é que ele vê nos livros? Mas ele insistiu tanto para que eu lesse essa saga que fui levada pela curiosidade e acabei adquirindo um vício que eu não tinha". Caro noivo da Vanessa, o meu muito obrigada por trazê-la para o lado luminoso da força. 

Mais fotos da Vanessa e do Parque de Ibirapuera aqui.

sexta-feira, 2 de Maio de 2014

São Paulo - Raúl & Rosana Rios


A dez minutos a pé da casa onde passei a semana em São Paulo fica um pequeno jardim chamado Martin Luther King que é muito frequentado pelos moradores da zona: durante a semana são os mais velhos que aproveitam o recinto para fazer exercício físico e ao fim de semana o espaço é invadido por crianças que ocupam o parque infantil. Mas este jardim, que poderia ser apenas mais um na gigantesca "Selva de Pedra", tem uma faceta peculiar que me levou a querer vistá-lo: a existência de uma biblioteca pública que funciona ao ar livre e de onde todos podem levar livros sem dar cavaco a ninguém. A sua simplicidade é extrema e a forma como foi montada espelha as preocupações ambientais que orientam a filosofia de todo o jardim: reduzir, reutilizar, reciclar. Quando lá cheguei, andavam algumas pessoas de roda das prateleira e dos dois carrinhos que, numa zona mais exposta, também disponibilizam livros, mas ninguém estava verdadeiramente a ler. Só mais tarde encontrei o Raúl entretido com "Um Bairro Encantado", de Rosana Rios, o livro que o seu filho tinha escolhido na biblioteca do jardim. Incentivado a ler desde pequeno, o pequeno Gabriel correspondeu aos estímulos dos pais. Foi com evidente satisfação que o Raúl me disse: "E o bom é que ele gosta muito de ler!". 

Fotos do jardim Martin Luther King aqui.

quinta-feira, 1 de Maio de 2014

São Paulo - Sarah & Edgar Morin


Ouvi falar pela primeira vez no SESC — Serviço Social do Comércio — quando a Nilza mencionou um edifício da arquiteta Lina Bo Bardi que queria visitar em São Paulo, no bairro Pompeia. Vim a saber depois que esta instituição criada em 1946 é mantida pelos empresários de bens e serviços do Brasil, está presente em todos os estados do país e aposta na educação de qualidade para o desenvolvimento dos cidadãos. Aliás, educação, saúde, cultura e lazer são as suas principais áreas de atuação. Chegadas ao SESC Pompeia o que encontrámos foi uma antiga fábrica totalmente convertida num grande espaço de cultura e lazer (o projeto arquitetónico data de 1977) onde coexistem teatros, salas para workshops e exposições, uma biblioteca e respetivo espaço de leitura, uma cafetaria, uma piscina e outras infraestruturas desportivas, a par de áreas exteriores muito agradáveis onde é possível passear, ler ou tão só apanhar banhos de sol. Depois de saciado o apetite na lanchonete, dirigi-me de imediato ao antigo arnazém que ostentava uma placa onde se lia "Espaço de Leitura" e foi lá que acabei por passar a maior parte do meu tempo. À primeira vista demasiado amplo e despojado, a verdade é que este galpão, como dizem os brasileiros, reúne ótimas condições para que aí dediquemos horas aos livros no maior conforto. É fresco, bem iluminado, tem Wi Fi grátis, sofás, grandes mesas para quiser trabalhar e uma biblioteca muito concorrida, em particular na zona da imprensa. Foi lá bem no fundo do edifício, afastada da zona de maior agitação, que fui dar com a Sarah a ler "Introdução ao Pensamento Compexo", do filósofo francês Edgar Morin. A Sarah, nascida e criada em São Paulo, é estudante de Artes Visuais, mas interessa-se bastante por filosofia e diz precisar de aprofundar os seus conhecimentos nessa área. Tal como eu, andava a passear pelo SESC Pompeia quando decidiu dar uma vista de olhos na secção de Filosofia da biblioteca e este título lhe chamou a atenção. Leitora habitual, aposta sobretudo em livros que interessam aos seus estudos na faculdade, mas quando precisa de descansar é na Banda Desenhada que se refugia.

Mais fotos desta leitora e do SESC Pompeia aqui.