domingo, 22 de março de 2015

Zanzibar — Fabienne & Michelle em Kiwengwa


A 40 km de Stone Town, depois de percorrer uma estrada que se dirige para leste até à costa oposta da ilha, fica Kiwengwa, uma aldeia pobre que me era totalmente desconhecida até ao dia em que, ao fim de quase quatro meses a viajar, escrutinei o mapa de Zanzibar em busca de um lugar para desfrutar de uma semana de praia e descanso. 

Cheguei ao Baby Bush Lodge a meio de uma tarde de domingo. Contrariamente à entrada de todos os outros hotéis de luxo, cujos grandes portões se viam junto à estrada de alcatrão que o táxi percorreu, o acesso a este meu humilde alojamento fez-se descendo um estreito caminho de cabras ladeado por casas pobres, algumas sem portas, janelas ou telhados: apenas quatro paredes erguidas e deixadas no reboco. O carro parou junto a um pequeno portão branco rodeado de entulho. Isamíli, um dos empregados, veio imediatamente ter connosco e trouxe consigo um sorriso amplo, honesto que foi uma das muitas alegrias dos dias serenos que ali passei. Pegou na bagagem, abriu o portão e segui-o por uma tosca escadaria de madeira e corda que conduzia à receção mais simples e despojada onde alguma vez estive. Por cima das nossas cabeças apenas um amplo telhado de folhas de palmeira que cobria também a contígua esplanada do restaurante e o grande lounge repleto de vastos sofás. Ali não há qualquer muro, qualquer janela, qualquer porta. Dali, daquele estrado de madeira elevado sobre estacas, só se vê uma frente de palmeiras imperiais. E depois delas, o areal mais branco e o mar mais belo. 

Neste pequeníssimo hotel sui generis plantado nas margens do Índico não há casais europeus em lua de mel. Na hora da verdade, são poucos os que aceitam "o amor e uma cabana", ainda que no paraíso. Porque ficava numa cabana o tosco quarto que me coube: a casa de banho sem porta; o chuveiro que pendia da parede sem que houvesse uma banheira ou um prato de duche; a água, que embora quente, era salobra e mal me retirava o sal da pele e do cabelo depois da praia; a cama, de colchão finíssimo e lençóis que não abri, tendo preferido dormir no meu saco-cama de cetim; o mosquiteiro que cheirava a maresia; a humidade que se entranhava em tudo ao anoitecer porque nada naquela divisão era estanque; o varandim com duas cadeiras rudimentares feitas de pele de cabra e a mesa de apoio acabada de pintar que empestava tudo com cheiro a tinta. Era assim a minha cabana erguida pelas mãos de um punhado de homens da Zanzibar — absolutamente genuína. 

Em Kiwengwa, apesar do muito que podemos fazer para nos entretermos, o tempo passa devagar, como julgo ser apanágio de qualquer paraíso na terra. Caminhar na praia infinita e maravilhar-me a cada passo com a textura finíssima da areia — cuja brancura, qual farinha, fere os olhos sob a luz do sol — foi das minhas atividades preferidas. Assim como a ida de canoa até aos corais onde observei a arte de apanhar os pequenos polvos que comi nessa mesma noite ao jantar. Ou ainda, a viagem de barco que me levou para longe da costa e onde, num mergulho, descobri a vida multicolor que há sob as águas do mar. E também a visita à aldeia de pescadores que esculpem dhows do tronco de uma única árvore. 

Para a Fabienne e a Michelle, a estadia de quinze dias em Kiwengwa serviu, ainda, para ler. Estas duas suíças, enfermeiras de profissão, chegaram ao Baby Bush Lodge um dia depois de mim, vindas de Moçambique. Tinham tirado três meses de férias para uma viagem que começou na África do Sul e que terminaria ali, em Zanzibar, onde passariam os últimos trinta dias. Naturalmente, passámos algum tempo à conversa sobre as nossas experiências enquanto "mochileiras" e cheguei a emprestar-lhes o meu computador para que acedessem à internet. Os seus iPhones tinham-lhes sido furtados logo no início da viagem, quando dormiram num hostel na Cidade do Cabo... Fabienne (à esquerda, na foto) contou-me que lê bastante, mas que é nas férias que aproveita ainda mais os livros. "Das Rache Spiel" — algo como "O Jogo da Vingança", um thriller sobre um grupo de quatro homens que se reencontram trinta anos depois de terem cometido um crime — era o quarto livro que lia nos dois meses que a viagem já levava. Michelle, por seu turno, admitiu que só mesmo nas férias é que lê e estava entretida com "Flieh, Wenn du Kannst" ("See Jane Run", no original em inglês), um romance sobre as relações e intrigas familiares. 

Voltei ao meu quarto apenas para pousar a câmara e dirigi-me, depois, para a praia. O sol começava a pôr-se na nossas costas e levantou-se um vento forte que fazia inclinar as palmeiras e ondular as túnicas de xadrez vermelho e preto dos Massai que trabalham nas lojinhas montadas no topo do areal. Da aldeia vêm crianças brincar comigo. Riem às gargalhadas e mostram as fileiras de dentes desalinhados. O mar encrespou-se e ouço um ligeiro rebentar de ondas. Penso no jantar que me espera, provavelmente uma lagosta envolta num molho de caril aveludado. Ou uma salada de polvo tenro. Vai para quatro meses que não pego num livro e estou em paz com isso. Porque a leitura que eu mais queria fazer era esta: perder-me no mundo onde vivo e que é tão belo que chega a doer.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Zanzibar - O cônsul alemão



Era uma vez uma princesa chamada Sayyida Salme, que nasceu em Zanzibar em 1844. Foi a mais nova dos 36 filhos do Sultão e aprendeu a escrever em segredo por essa ser uma habilidade proibida às meninas do seu tempo. Após a morte dos pais a princesa, já tornada mulher, muda-se para Stone Town. É aí que se apaixona pelo vizinho Rudolph, um comerciante alemão de quem fica grávida aos 22 anos. Um escândalo. Decididos a viver esta paixão até às suas últimas consequências, o casal foge numa fragata para Aden, uma colónia britânica no Médio Oriente. É aí que Salme se converte ao Cristianismo antes do casamento com Rudolph. Infelizmente, o bebé de ambos viria a morrer em França, quando iam a caminho da Alemanha. Mas, uma vez instalados em Hamburgo, Salme e Rudolph têm mais três filhos: um menino e duas meninas. Viveram felizes até que a morte súbita de Rudolph deixa Salme em dificuldades financeiras, uma vez que as autoridades alemãs não lhe permitem o aceso à herança do marido. Para fazer face às despesas Salme — que entretanto adotara o nome Emily Ruete — escreve “Memórias de Uma Princesa Árabe de Zanzibar”, considerada a primeira autobiografia de uma mulher árabe. O livro viria a ser publicado na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Salme voltou a Zanzibar duas vezes antes de falecer na Alemanha em 1924, aos 79 anos.

Foi esta a história que me veio de imediato à cabeça na manhã em que conheci Saada na loja da Adra, numa das vezes em que voltei à Rua Gizenga para visitá-la. À semelhança de Salme, também Saada se apaixonou por um alemão. Mas desta vez o romance começou na Alemanha e migrou, depois, para Zanzibar. Mulher confiante, comunicativa e desinibida, convidou-me a ir a sua casa conhecer Erich, assim que soube do Acordo Fotográfico e dos motivos que me levavam a viajar. Explicou-me que o marido, na sua qualidade de cônsul alemão, sabia imenso sobre a história de Zanzibar, tendo mesmo escrito um pequeno livro sobre a ilha. E então lá fui eu, atrás dela, pelas ruas estreitas de Stone Town, umas vezes escuras, outras luminosas, observando como Saada caminhava com um saco de compras numa mão enquanto a outra, livre, ajeitava constantemente o lenço que lhe escondia o cabelo. "Não costumo cobrir a cabeça", disse, "mas como estamos no Ramadão uso o lenço por respeito". 

A casa onde Saada e Erich moram fica na Kenyatta Road, uma das principais vias de Stone Town. O edifício, antigo, tem à porta uma grande árvore e no primeiro andar um varandim debruado a madeira rendilhada. A entrada faz-se por uma porta ampla de madeira que dá acesso direto à sala de estar desafogada. No interior, pouca luz. As janelas e portadas estão fechadas para afastar o calor do meio-dia. Saada chama pelo marido, diz-lhe qualquer coisa que não entendo e desaparece numa outra divisão da casa. Não a verei mais. E então surge Erich, visivelmente surpreendido com a minha visita, farta e alvoraçada cabeleira branca e meio sorriso. Pareceu-me tímido, mas uma vez sentados nas velhas poltronas a conversa fluiu. Falei-lhe do meu percurso até ali, das minhas primeiras impressões sobre Zanzibar e quis saber, depois, como tinha ele ido ali parar. "Sou arquiteto e a minha ligação ao continente africano vem de há muito", contou-me. "Estava a trabalhar no Gana quando me convidaram a ir para o Quénia, onde leccionei e fui diretor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Nairobi. Daí parti numa missão das Nações Unidas para Dar es Salaam, na Tanzânia, onde fui também trabalhar na Escola de Arquitetura. Estávamos nos anos 80. E depois, já no fim da minha carreira, surgiu a oportunidade de vir para Zanzibar de novo pela ONU, para participar no projeto de reconstrução de Stone Town. Os edifícios históricos estavam a colapsar. Aqui, os edifícios a colapsar são uma tradição! Muitos perderam-se irremediavelmente... Quando, por fim me reformei, já cá vivia com a minha mulher, e foi então que o Embaixador alemão na Tanzânia me nomeou Cônsul de Zanzibar. Hoje em dia, uma das minhas principais tarefas é zelar pela manutenção do cemitério alemão que aqui existe. Sabe, é que os cemitérios são os nossos melhores livros de história."

Fotografei-o com o seu livro "Where to, Fair Beauty? A Zanzibar Guide" no colo. É uma edição de autor artesanal, feita de folhas fotocopiadas e coladas à mão. Antes de me vir embora, comprei-lhe um exemplar. Custou-me 25 mil Xelins. De oferta recebi um outro livro, muito pequeno, onde Erich compilou poemas da sua autoria sobre Zanzibar. Chama-se "Smell of Salt". 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Zanzibar — Adra, em Stone Town


Zanzibar. Experimentem proferir a palavra baixinho, como se a segredassem ao ouvido de alguém. Zanzibar. Sintam a língua roçar o céu da boca ao sibilar as duas primeiras sílabas. Notem como os lábios se unem e voltam a abrir e a língua rola quando a palavra termina. É como o início de um beijo lento. Zanzibar. Ouvi-la transporta-nos para um lugar sensual e langoroso, onde alternam a luz quente do sol e a sombra fresca das casas. Pronunciá-la é ansiarmos pela ilha muito antes de lá chegarmos, é entregarmo-nos de corpo e alma ao seu chamamento, é abraçar todo o seu exotismo, é encarnar toda a sua volúpia. Zanzibar é ideia fixa.

Parti da Índia, fiz escala no Qatar e passei algumas horas no Quénia. Viajei quase vinte e quatro horas para aterrar em Zanzibar City, a capital, numa noite de apagão. A cidade estava mergulhada na total obscuridade havia quase uma hora. As janelas das casas eram negrume e as ruas, deserto. Penso pela milésima vez no aviso feito nos vários livros que li ao preparar a longa jornada: mulheres que viajam sós devem evitar chegar a qualquer lugar à noite. O  táxi abranda e entra numa rua estreitíssima de terra batida e lixo no chão. Cheguei a duvidar que pudesse abrir a porta do carro sem tocar num dos muitos portões fechados à esquerda e à direita. O taxista garante que de dia a rua é uma importante artéria comercial, cheia de gente e de vida, mas pergunta por que razão fico naquele hotel. Esforço-me por responder soltando o aperto que trago na garganta: as críticas na net são boas, é barato e tem wi fi gratuito. Desço e entro com a mochila numa receção humilde iluminada por uma lanterna. Dois jovens negros e de sorriso branquíssimo estão atrás do balcão. Faço o check in e subo ao terceiro andar. Curiosamente, há luz no meu quarto. Abro a cama, fecho o mosquiteiro e adormeço em África. Zanzibar vigia com paciência o meu sono, na certeza que no dia seguinte me terá, arrebatada, a seus pés. 

Ainda a saborear o café do pequeno-almoço, assomo-me a uma das janelas do último piso do hotel. Vejo uma sucessão de edifícios brancos, minaretes e algumas torres de igreja que se espraiam até ao porto. Desse ponto em diante, estende-se o Índico turquesa que lá muito à frente toca o céu azul. Um risco alvo nesse horizonte anuncia outra ilha. É cedo, o sol já vai alto, a luz forte espalha-se e tudo brilha. Antes de sair para a rua peço aos rapazes da recepção para assinalarem o hotel no mapa da cidade. Pergunto por lugares que não posso deixar de visitar e certifico-me que não é perigoso andar na rua até tarde. "Hakuna matata!", respondem. Sem problema. Não faz mal. Tudo bem. As minhas primeiras palavras em suaíli. 

Transponho a porta do hotel e estanco perante o espetáculo: a rua inóspita da véspera desapareceu; à minha frente uma explosão de cores, sons, cheiros e gentes na azáfama de um novo dia em que parece haver muito para fazer. Dos portões antes fechados, jorram agora milhares de produtos: roupa, calçado, artigos de higiene e mercearia, especiarias, utensílios de cozinha, electrodomésticos, artesanato e tantas, tantas outras coisas; ouve-se música, grelha-se peixe, coze-se um pão achatado e fino; passam motas com carregamentos que desafiam a lei da gravidade e homens que puxam carrinhos de mão atulhados e gritam para que os outros se afastem do seu caminho; há mulheres de mãos tatuadas, que carregam os filhos às costas e se vestem como o arco-íris, numa combinação alucinada de cores e padrões; gritam-se pregões em estéreo; os vendedores cumprimentam-me, convidam-me a aproximar-me, querem que eu seja a primeira cliente do dia, para dar sorte. "Jambo!", exclamam, estendendo-me a mão. De tanto ouvir este cumprimento a que não sei retorquir, pergunto a um deles o que significa e o que devo dizer de volta. "Si jambo!", explica. Aprendo que estar em Zanzibar é passar o tempo de mão estendida, a cumprimentar homens, mulheres e crianças enquanto se repete a cantoria: Jambo! (Como está?) Sí jambo! (Bem, obrigada!). Caminho, embalada por este refrão e mergulho no labirinto de Stone Town, o bairro antigo de Zanzibar City.

A riquíssima história e herança cultural de Stone Town — a que não é alheia a presença portuguesa entre os séculos XVI e XVII por causa do cravinho, o ouro de Zanzibar — resultam da primorosa fusão de elementos árabes, persas, indianos e europeus. Este caráter único justificou a sua elevação a Património Mundial da Humanidade em 2000. Por isso, embora nunca de forma obstinada, procurei visitar aqueles pontos considerados obrigatórios numa primeira ida à cidade. "Pole Pole", o equivalente suaíli ao nosso "devagar, devagarinho", fui ao exuberante mercado Darajani, ao antigo mercado de escravos, à Catedral Anglicana, à Catedral de S. José, à fortaleza — o edifício mais antigo da cidade, construído no século XVII para repelir os ataques dos portugueses, entretanto escorraçados —, ao palácio do Sultão e ao lugar onde nasceu e viveu Freddy Mercury. Um outro palácio, chamado House of Wonders, estava fechado para restauro e não me foi permitida a entrada nas mesquitas. Consta que existem 51 em Stone Town, mas estávamos na véspera do Ramadão. Dei-me ao luxo, ainda, de pagar umas boas dezenas de dólares por uma visita a uma quinta de especiarias (um desafio para os sentidos que recomendo) e por uma manhã passada na paradisíaca Prison Island, a tal ilha que se via das janelas do hotel e onde pude aproximar-me, pela primeira vez na vida, de tartarugas gigantes e centenárias. 

Os dias restantes foram passados sem nada planeado. Esquecer o mapa e deixarmo-nos perder em Stone Town é algo que qualquer guia vos recomendará. Não o fazer é viver aquela cidade mágica pela metade. Demorei-me nas ruelas estreitas, onde admirei e percorri com os dedos os rendilhados das tradicionais portas de madeira maciça. Explorei as lojinhas, a maioria pensadas para os turistas, mas onde algum do artesanato vendido é de inquestionável qualidade, sobretudo os desenhos que retratam pormenores da cidade. Entrei várias vezes numa joalharia que vendia Tanzanite, a pedra preciosa de que nunca tinha ouvido falar. Deliciei-me ao almoço com caril de lagosta a um preço irrisório, nas horas mais quentes tomei café com especiarias à sombra de uma esplanada e assisti, na Catedral de S. José, a um casamento para o qual não fui convidada. Da cerimónia, toda celebrada em suaíli, só entendi as palavras "família" e "sacramento", ditas assim mesmo, no nosso português. E terminei sempre os passeios no Jardim Forodhani onde, numa esplanada sobre o mar, comi chamuças, bebi cerveja Kilimanjaro e me diverti com a multidão de rapazes que, depois da última oração do dia, se reúnem nas muralhas para dar saltos acrobáticos para a água. Foi dessa esplanada, ao som da música de Youssou N'Dour, que assisti ao incêndio que o sol despoleta quando mergulha no Índico. Os tons de vermelho que se espalham pelo céu parecem impossíveis e realçam ainda mais o perfil dos dhows, os elegantes barcos de vela triangular que àquela hora regressam a terra.

Nestas deambulações, percorri várias vezes a Rua Gizenga, antigamente chamada Rua dos Portugueses. Ao passar pela janela de uma das lojas vi uma mulher de costas, que lia o que me pareceu ser o Alcorão. Tirei-lhe uma fotografia e depois distraí-me a olhar para o resto de uns azulejos que cobriam parte da fachada do edifício antigo. Eram-me tão familiares... Foi então que a ouvi dizer, em inglês: "São azulejos portugueses". Voltei o rosto para a pessoa encostada à ombreira da porta. Era a mulher que lia. Era a Adra. Via-lhe agora o rosto e o sorriso com que me falava de algo português sem saber a minha origem. Expliquei-lhe de onde vinha e por entre a festa que fizemos e o aperto de mãos que demorámos a desfazer, fomos entrando na loja onde em tempos funcionou o consulado português de Stone Town. E fiquei, ignorando o tempo que passava, para conversar com a Adra, contar-lhe da minha vida e saber da sua. Adra, muçulmana sexagenária, falou-me sobretudo do amor que tem pela ilha e do quanto foi difícil a vida no período que se seguiu à revolução de 1964. Nesse ano, no seguimento de um processo eleitoral polémico, a maioria africana expulsou o sultão de Zanzibar do governo de minoria árabe. O conflito armado, breve mas violentíssimo, teve também graves consequências para a comunidade indiana. Estima-se que em poucas horas tenham morrido cerca de 20 mil pessoas. "Na época, o meu pai decidiu ficar em Zanzibar porque esta era a sua terra e aqui estavam enterrados os seus mortos. E apesar de todas as dificuldades, dou graças ao facto de termos ficado. É aqui que sou feliz e daqui nunca saí, embora tenha família espalhada por todo o mundo", disse. 

Contei-lhe do Acordo Fotográfico, é claro. Falámos sobre livros e sobre a importância que a escola tem no fomento do hábito de ler. E pedi-lhe uma fotografia. Recusou-a com toda a gentileza e não tive outra hipótese que não resignar-me. Deixou-me, porém, fotografar o seu livro sagrado. Estávamos no Ramadão. Um dia, hei-de de regressar. Insha'Allah!

Mais fotos de Zanzibar aqui.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Goa - Leanne, na Biblioteca Central


Foi o Sr. Roy Botelho — proprietário e gerente da hospedaria onde dormi em Pangim —, que me recomendou com entusiasmo uma visita à Biblioteca Central de Goa. Isto teria bastado para que me dirigisse de imediato para a zona de Patto, onde se ergue o edifício, mas os elogios que fez ao projeto de arquitetura e à sua modernidade aguçaram ainda mais a minha curiosidade. Soube depois que a obra é da autoria de Gerard d'Cunha, um muito premiado arquiteto goês que, curiosamente, foi casado com Arundhati Roy, a autora vencedora do Booker Prize em 1997 com o romance "O Deus das Pequenas Coisas". Após um copioso pequeno-almoço de sabores goeses que Roy me viu sorver com prazer, pus a mochila às costas, deixei o bairro das Fontainhas, atravessei a ponte azul e branca sobre o rio de Ourém e entrei no bairro de Patto onde o horizonte, num contraste evidente com o resto de Pangim, já é dominado por um conjunto de prédios altos e recentes. Aí, numa área onde ainda permanecem muitos terrenos vagos a pedir mais construção, eleva-se a biblioteca, um grande edifício de seis andares e janelas amplas que deixam adivinhar um espaço interior cheio de luz natural. 

De acordo com a informação disponiblizada no site da instituição, a Biblioteca Central de Goa é a mais antiga da Índia e conheceu, desde a sua fundação, várias designações: Pública Livraria (1832); Biblioteca Pública (1836); Biblioteca Nacional de Nova Goa (1897); Biblioteca Nacional Vasco da Gama (1925); Biblioteca Nacional de Goa (1959) e, nos dias de hoje, Biblioteca Central de Goa Krishnadas Shama, nome do fundador da literatura concani, a língua oficial deste estado. Estabelecida em 1832 pelo vice-Rei D. Manuel Francisco Zacarias de Portugal e Castro, a biblioteca beneficiou em 1834 da transferência dos espólios bibliográficos dos conventos e ordens religiosas extintas por ordem do monarca D. Pedro IV. Muitos anos mais tarde, em 1952, adquiriu o estatuto de Depósito Legal o que lhe permitiu enriquecer ainda mais a sua coleção com obras publicadas em Portugal e noutras províncias ultramarinas. Estima-se que até 1961, ano em que Portugal perdeu Goa para a União Indiana, a biblioteca tenha acumulado cerca de 40 000 livros e jornais em inglês, francês, latim, concani, marathi e português, claro. Aliás, é importante que se diga que a Biblioteca Central de Goa é considerada o maior depósito de livros em português de toda a Ásia. Atualmente conta 180 000 obras, a maioria em Hindi e Inglês.

Uma vez dentro da biblioteca, muito para além da dimensão e modernidade do edifício, impressionam sobretudo a forma como as diferentes áreas se distribuem e organizam no espaço, assim como o leque de serviços que a instituição coloca ao dispor dos cidadãos. Há razões óbvias e justificadas para que todos os goeses tenham orgulho nesta magnífica biblioteca. No rés-do-chão, a par da recepção, da área de cacifos e do balcão para devolução de livros requisitados, encontra-se a secção de publicações periódicas — revistas e jornais —, a zona de livros em braille e também uma galeria de arte que incentiva os artistas locais a mostrar o seu trabalho. E depois, de andar em andar, sucedem-se as surpresas: uma área dedicada em exclusivo às crianças, com 10 000 livros, brinquedos, computadores com acesso à internet, uma sala para projeção de filmes e respetiva coleção de DVDs e salas de estudo que funcionam vinte e quatro horas por dia; um centro de conferências e locais de trabalho equipados com secretárias e computadores com ligação à internet, que estudantes e investigadores podem alugar mensalmente; um centro para digitalização de obras antigas e um laboratório onde se aplicam as tecnologias mais avançadas na preservação dos livros; um piso inteiro dedicado às obras adquiridas durante o período colonial — e onde pude visitar uma exposição temporária de livros e fotografias sobre a luta pela independência de Goa — e, naturalmente, centenas de estantes intercaladas com aprazíveis áreas de leitura onde todo o espólio da biblioteca está ao alcance de qualquer apreciador de livros.

Sentada a uma mesa junto a uma grande janela por onde entrava a luz forte do sol, encontrei a jovem Leanne, Couto o seu apelido. Não pude deixar de lhe perguntar se falava português. Respondeu-me que não, mas contou-me que o pai ainda fala. Aceitou com um sorriso a minha sugestão de pedir ao pai que lhe ensinasse um pouco com o argumento de que saber português ainda é uma mais-valia nos dias que correm. Mas fiquei convencida que esse não é um empreendimento que a entusiasme por ai e além. Na altura em que conversámos a Leanne, quase a fazer 18 anos, estava mais empenhada em duas outras coisas: aproveitar ao máximo o seu primeiro ano na faculdade como estudante de Biotecnologia e retomar o hábito de ler. "Hoje as aulas acabaram mais cedo e então decidi passar pela biblioteca. Adoro ler, mas nos últimos dois anos quase não pude fazê-lo por causa dos estudos. Agora que consegui entrar para a faculdade estou a retomar essa rotina". Estava a ler as primeiras páginas de "The Time of My Life" ("O Meu Encontro com a Vida", na edição portuguesa), um livro da irlandesa Cecelia Ahern, que Leanne julgou ter um título apelativo. "Prefiro romances. Há pouco tempo li e gostei muito do livro 'Beautiful Disaster', ('Um Desastre Maravilhoso'), mas não posso dizer que seja o livro da minha vida. Ainda não sou capaz de fazer essa escolha", afirmou. 

Fotos da Biblioteca Central de Goa, aqui.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Goa — Imamali, em Pangim


Estamos a meio de junho. Sobrevoo pela segunda vez na vida este pedaço de terra, no sul da Índia. Há quatro anos vim em março. Lá de cima, Goa era então verde, barro e luz. Desta vez é verde e parda, porque a vegetação densa e o céu pesado se duplicam na superfície da água que cobre quase tudo. O avião desce sobre o aeroporto de Dabolim e eu aterro na monção. Qualquer guia dir-vos-á, logo nas primeiras páginas, não ser boa altura para visitar este antigo pedaço de Portugal. A força e constância das chuvas que caem de junho a setembro ditam a época baixa. Em toda a costa o mar revolta-se, o turismo faz uma pausa e eu descubro que Goa tem muito mais encanto neste clima de fim de festa. 

Desta vez não haverá excursões de homens vindos do interior do estado para espreitar na praia as mulheres brancas em biquini. Também não haverá nórdicos hippies, alemães freaks, britânicos ganzados, russos alcoolizados ou americanas solitárias na rota "comer, orar e amar". Desta vez, haverá apenas o povo de Pangim. As ruas dos bairros com nomes portugueses — Altinho, Fontainhas, S. Tomé — estarão tranquilas; as crianças, enfeitadas com laços ao pescoço e no cabelo, terão voltado às escolas; o comércio aberto será o que existe para as pessoas da terra; o crocitar dos corvos e o canto dos pavões sobrepor-se-á ao ruído dos tuk tuk; os mais velhos terão tempo para retorquir em português aos meus bons dias e para longas conversas em que se enaltecerá o passado e lamentará o presente.

Fico numa hospedaria na Rua de Natal, em pleno bairro das Fontainhas. Tudo neste lugar me confunde: a toponímia, as ruas estreitas, as casas antigas — grandes sobrados de rés-do-chão e primeiro andar debruados com longas varandas, pintados de azul, amarelo, verde ou vermelho —, os portões de ferro forjado, as telhas de cerâmica, os vasos de flores às janelas, os nichos com figuras de Santo António, as cruzes desenhadas a branco nos muros, as capelas e igrejas. Parece que voltei a uma das colinas de Lisboa ou que todo o nordeste litoral brasileiro, com o verde dos seus coqueiros, atravessou meio mundo para me reencontrar aqui. 

O edifício da Hospedaria Abrigo de Botelho tem cento e cinquenta anos. O seu proprietário, Roy Botelho, é um goês de meia idade que abandonou o negócio da construção civil para devolver à casa todo o seu esplendor e pô-la ao serviço do turismo. Por fora pintou-a de um azul forte e orlou as janelas de branco. Por dentro recuperou madeiras, manteve tijoleiras, conservou tetos. E recebe-me num português tímido, mas correto que aprendeu em casa, com os pais. Em português me cumprimenta também o Sr. Sélvio, à porta da Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Curioso acerca da história da minha viagem, convida-me para um chá à saída da missa para que lhe conte tudo. Depois disso encontrar-nos-emos todos os dias. Durante aquela semana, o Sr. Sélvio é o meu anjo da guarda. Também em português volto ao convívio do Sr. Bento Fernandes, que com devoção mantém abertas as portas do Núcleo Sportinguista de Goa, um lugar incontornável para tertúlias sobre o nosso futebol. E assim passo os dias, ao som da minha língua: na casa de instrumentos musicais, na papelaria, num restaurante junto à praia, no despachante de encomendas perto da estação de correios, no ourives do mercado de Mapuçá. 

Num domingo à tarde em que Pangim estava ainda mais deserta, passei pelo Azad Maidan em direção ao rio Mandovi. Queria caminhar de novo na marginal Dayanand Bandodkar antes de regressar à hospedaria. O Azad Maidan consiste numa praça quadrangular, no coração da cidade, onde os portugueses ergueram em tempos uma estátua de Afonso de Albuquerque. Hoje, essa mesma praça, importante centro de reunião e convívio para os habitantes da cidade, alberga um memorial em homenagem a Tristão de Bragança Cunha, um goês nacionalista e ativista anti-colonial que morreu em 1958, três anos antes da invasão do território pelas forças armadas da Índia e subsequente anexação à União Indiana. Foi nesse largo de ar descuidado que conheci Imamali, um jovem de Hyderabad, uma cidade no interior do país, a 540 quilómetros de Pangim. "Estou em Goa a fazer um estágio de dois meses e como espero aqui pelo autocarro aproveitei para ler. Leio bastante, sobretudo clássicos da literatura e thrillers, mas neste momento os meus livros preferidos são os da 'Guerra dos Tronos'. Também sou fã da série de televisão". Fotografei-o no início da leitura de "Uncle Tom's Cabin" ("A Cabana do Pai Tomás"), da autora norte-americana Harriet Beecher Stowe. "Leio-o porque é um clássico e porque é muito bom", disse-me Imamali, "e também porque quero saber como eram os tempos da escravatura". 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Fion, em Hong Kong


Depois de ter deixado o Brasil nos últimos dias de março, passei vários meses a desbravar territórios que me eram absolutamente desconhecidos — Sidney, Dili, Kuala Lumpur, Malaca, Banguecoque, Shiang Mai, Luang Prabang, Vientiane, Angkor, Phnom Pehn, Saigão, Hanoi, SaPa, HaLong. Lugares tão distantes e tão exóticos, que achei fora do meu alcance, mas que pude por fim visitar com assombro. Aí, onde tenho poucas ou nenhumas referências, onde me vejo na estaca (quase) zero, sinto essa torrente de energia que brota das primeiras vezes. Viciei-me no confronto com o novo, com o estranho e em tudo o que isso exige de mim. Viciei-me na descarga de adrenalina provocada pela viagem, no desafio. Estou sempre pronta a partir. 

Porém, não posso negar que em meados de junho, quando voltei a pisar Hong Kong, o conforto do já conhecido me soube muito bem. Durante uns dias não tive de me preocupar com a orientação, arranjar pontos de referência, perceber como funcionam os transportes ou visitar monumentos ditos obrigatório. Em Hong Kong pude apenas vogar sem destino e usufruir das coisas mais simples que esta cidade vibrante tem para oferecer: a vista sobre os arranha-céus a partir do calçadão de Kowloon — uma das paisagens urbanas mais incríveis que já vi, estando parte do seu encanto na forma como muda com a passagem das horas — os jardins, o comércio, a comida, o choque entre as tradições centenárias e o ultra-moderno, o frenesi constante dos mais de sete milhões de habitantes. 

Num desses dias permiti-me ceder às saudades de duas coisas: comer um bom sushi e passar algum tempo sentada à mesa de um café para atualizar o diário da viagem. Matar o primeiro desejo não foi difícil, uma vez que não faltam restaurantes japoneses em Hong Kong. Já encontrar um café de rua que não pertencesse a uma qualquer cadeia ocidental foi tarefa impossível. Contrariada, dirigi-me ao Starbucks com vista para a baía e sentei-me numa mesa de dois lugares junto à grande janela. Foi então que constatei com surpresa, enquanto mexia o café expresso e trincava o brownie, que afinal aquele lugar comum até me sabia bem. Por uns momentos, o ambiente padronizado permitiu-me aquietar os sentidos e concentrar-me apenas na tarefa de escrever. Refleti pela milésima vez sobre as vantagens e desvantagens do mundo globalizado antes de abrir o caderno e pegar na caneta. Não me desviei da minha tarefa até a Fion se sentar na mesa em frente, de livro em punho. 

Nascida e criada em Hong Kong, Fion é professora primária e estava a preparar-se para começar a ensinar chinês. "Uns amigos que também são professores recomendaram que lesse este livro para me inteirar do que andam os miúdos a ler", contou-me. "Fui buscá-lo à biblioteca da escola. É de um autor também natural de Hong Kong e pertence a uma série que tem como herói um agente especial. Neste livro, o protagonista parte numa missão anti-terrorista no médio oriente." Disse-me a Fion que, na sua qualidade de professora, tenta ler o mais possível. Gosta particularmente de literatura infantil, que diz ser mais direta, fácil de entender e próxima do dia a dia. Mas não põe de parte os livros para os mais crescidos e aponta sem hesitações um autor de que gosta muito (e cujo nome entendi a muito custo): Paulo Coelho. Passei os minutos seguintes a ensiná-la a pronunciar corretamente o nome do autor, elucidando-a sobre a sua nacionalidade e a língua em que se expressa: o belíssimo português.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Vietname — Dunj & John Green


Era domingo à tarde e os domingos à tarde em Hanoi parecem-se com os domingos à tarde em qualquer outra parte do mundo. A cidade nunca pára, é um facto, mas havia mais gente disposta a preguiçar junto às margens do lago. Quis passar lá as minhas últimas horas no Vietname, já de nó apertado na garganta. Sabia que andaria por muito tempo com este país sob a pele. Mas desconhecia o poder duradouro do seu fascínio. 

Apostada em absorver ao máximo cada derradeiro minuto, fiz um esforço consciente para apurar ainda mais os meus sentidos e mergulhar no meio deles, os vietnamitas, enquanto uma forma de mantra se repetia no meu pensamento: estou aqui e agora. E observei para viver o momento e recordar para sempre. O sol já baixo, os casais com os filhos pelas mãos, as mulheres aos pares que se exercitavam em passo apressado, os homens que faziam o seu jogging de auriculares nos ouvidos, os grupos de amigas entretidas a tirar selfies, o quiosque que vendia os melhores gelados da cidade e cuja fila de clientes nunca diminuía, os bancos ocupados pelos mais velhos, os outros turistas, as árvores inclinadas cujos ramos mergulhavam no espelho de água, a dúzia de idosas que ao som de um rádio estridente realizavam em fila uma coreografia que implicava, em certos passes, que massajassem as costas umas das outras. E Dunj que, sentado na borda de um canteiro, começava a ler "A Culpa é das Estrelas", de John Green, um livro acabado de comprar. 

"Adoro ler e leio muito. Um amigo recomendou-me este livro, disse que era muito bom. Sei que estreou o filme lá fora, mas não vai passar cá no Vietname, por isso leio o livro. E até prefiro porque sei que de uma forma geral os livros são sempre melhores. O meu autor preferido é vietnamita e escreve romances. Chama-se  Anh Khang. Mas também gosto muito do George R. R. Martin. Acho que o preço dos livros no Vietname é justo, mas os vietnamitas leem pouco. Os mais velhos leem jornais e os mais novos passam o tempo todo online."

Afastei-me, depois, à procura de um lugar para também eu me sentar um pouco. Nesse momento, fui abordada por um grupo de rapazes e raparigas que vieram apresentar-se e que me perguntaram se me importaria de conversar um pouco com eles para que praticassem inglês. Pareceu-me que não havia melhor forma de me despedir de Hanoi. Eram todos estudantes universitários, das mais variadas áreas: uma aspirante a médica, um futuro jornalista, um quase engenheiro. Contaram-me das suas origens, dos lugares de onde vinham, dos sacrifícios que as famílias faziam para que estudassem na capital, do significado dos seus nomes próprios: sorte, prosperidade, riqueza. Falámos de sonhos e do futuro. Rimos. Tirámos fotografias. Abraçámo-nos. Anoiteceu. E naquele domingo à noite, tão semelhante a qualquer outro domingo à noite em qualquer outra parte do mundo, senti-me "simplesmente membro da família humana" (José Tolentino Mendonça).

domingo, 4 de janeiro de 2015

Vietname — Lost in translation



Ao fim de três anos a escrever para o Acordo Fotográfico impuseram-se alguns hábitos na hora de produzir um post. Normalmente, as primeiras frases nascem quando não estou na frente do computador, mas sim ocupada com tarefas corriqueiras como lavar a loiça, tomar banho ou regar as plantas. Esse é o ponto de partida. Mas depois, claro, sento-me à mesa da sala, ligo o portátil, pego no bloco e revejo as notas que tirei quando conversei com o leitor, numa tentativa de compor o resto da história que já começou a ser contada na minha cabeça. Foi tudo isso que fiz hoje de novo, pela 348ª vez. 

"08.06.2014 Hanoi / Nome do leitor: Bui Thanh Liêm (escrito pelo seu próprio punho) / Livro sobre Geografia da China e do Vietname" — a isto se reduzem as notas para o post de hoje, porque a barreira linguística não deu para mais conversa com Bui. Mas esta coisa pouca não me pareceu entrave. Podia explicar, como tenho vindo a fazer nos últimos meses, onde estava e o que fazia quando o conheci. Podia descrever os últimos momentos vividos em Hanoi, antes de voar para Macau, contar a minha intenção de passá-los na margem do lago e detalhar o percurso que fiz pela enésima vez pela rua Hàng Gai, no Old Quarter, a grande artéria que intermediava entre o meu hotel e o coração líquido da capital. Podia recordar essas horas longas, leves e livres que esbanjei a entrar e a sair de todas as lojinhas onde experimentei vestidos de seda que não comprei, mandei confeccionar por medida roupa em algodão e linho, usufruí dos serviços de um sapateiro ambulante e fotografei sofregamente pormenores da vida alheia, que aos meus olhos era repleta de exotismo. E então, fui procurar por entre as 23 mil fotografias da viagem as imagens do leitor do dia 08.06.2014. 

Sim, lembro-me bem do momento em que o conheci. Estranhei aquele estaminé de venda de acessórios para telemóveis e tablets, montado à entrada daquilo parecia um longo corredor escuro de acesso a habitações. Não o tinha visto ali antes, mas a verdade é que os vietnamitas são pródigos em negócios pop up... Demoro-me a apreciar as fotos e delicio-me com os detalhes que transpiram Vietname: os banquinhos azuis de plástico, que existem aos milhares por todo o lado; os chinelos bege também de plástico, que parecem ser o calçado oficial dos vietnamitas; a unha comprida do polegar que ajuda a virar a página do livro, sinal de quem não trabalha a terra. Mas há algo que não bate certo: o que faz uma caveira sinistra de caninos gigantescos na capa de um livro sobre a geografia da China e do Vietname? E estaria Bui assim tão interessado no tema para já estar a ler o terceiro volume? Só mesmo esta ferramenta diabólica que é a internet me poderia ajudar a desvendar o enigma em poucos minutos. 

Não foi preciso mais do que uma mensagem enviada pelo Facebook ao português amigo que vive e trabalha em Saigão. A resposta chegou, veloz: o livro, com o título "Loi Nguyen Lo Ban" (algo como "A Maldição de Lo Ban"), pertence a uma série de inspiração fantástica que relata a história de um homem que cria armas extraordinárias. Este génio despejou todo o seu conhecimento num livro misterioso. Aquele que um dia conseguir descodificar o seu conteúdo verá a sua vida devastada por uma terrível praga. 

Esqueçam, portanto, a geografia. Obviamente, algures durante a curta conversa com Bui, "perdemo-nos na tradução".

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Vietname — Linh, no Cong Caphe


Acordei naquela manhã de sábado determinada a visitar o Museu de História Nacional do Vietname. Por isso, depois do tomado o pequeno-almoço — café e panquecas de banana com mel, que a cozinheira servia com um sorriso maior de dia para dia porque eu insistia naquela receita e não deixava uma migalha no prato —, saí do hotel no Bairro Antigo para caminhar primeiro até ao lago e seguir daí para o Bairro Francês. 

Não muito longe da Ópera de Hanoi e do luxuoso Hilton fica o museu, instalado num edifício híbrido, misto de arquitetura colonial francesa e arquitetura tradicional vietnamita, construído em 1932 e pintado de ocre. Quando se está pouco tempo num país e não se conhece muito sobre a sua história, julgo que a visita a este género de museus ajuda a que possamos abarcar, de forma rápida e concisa, o percurso de um povo. Foram muitos os que visitei durante esta viagem e em todos eles aprendi imenso. O do Vietname não foi exceção e foi com muito prazer que lá passei toda a manhã. 

À saída optei por contratar o serviço de um riquexó para explorar a área do Bairro Francês, uma zona que encontrei particularmente calma, num contraste para mim muito evidente com o frenesim do resto da cidade. Enquanto o condutor pedalava vagarosamente, deliciei-me com a sombra que as grandes árvores das avenidas largas projetavam sobre as casas afrancesadas de rés-do-chão e primeiro andar. Aqui e ali boutiques, cafés, restaurantes, cabeleireiros, senhoras que passeavam cães pelas trelas, gente sentada nos bancos de uma praça ajardinada, taxistas à espera de clientes. O riquexó deslizava pelo asfalto, langoroso, e eu sentia uma ligeira brisa que atenuava o calor. Havia algo de anacrónico naquele lugar que me confundia. Belisquei-me pela milésima vez desde que deixara Portugal. Era certo que ali estava, mas não conseguia afastar a sensação de sonho... 

Terminado este passeio de 45 minutos, fui deixada junto ao lago, para onde todos os caminhos de Hanoi parecem convergir. Almocei no restaurante gerido por um grupo de mulheres — talvez irmãs, porque identificava em todas elas uma certa parecença—, cujos berros constantes nunca deixei que interferissem no deleite das várias refeições que lá fiz. E parti de novo, a pé, para os confins do Bairro Antigo onde me demorei até ao fim do dia. Há sempre ruas novas por desbravar, o pequeno comércio por explorar, aspetos insólitos do dia a dia dos vietnamitas para observar. Em Hanoi, o tédio é impossível e as horas passam velozes. 

A meio da tarde entrei na Catedral de São José, sede da arquidiocese católica romana da capital. Estava a decorrer uma cerimónia, motivo pelo qual não me demorei, mas pude observar, com surpresa, duas imagens que são símbolos de Portugal: Sto. António e Nossa Senhora de Fátima. Cá fora, na área que circunda a catedral, havia apenas um condutor de riquexó, que dormia profundamente, refastelado no assento vermelho do veículo. Entretive-me por uns instantes a tentar decifrar as mensagens afixadas num quadro, mas a única coisa que consegui entender era óbvia — a palavra "Phanxicô", escrita em letras garrafais num póster que exibia a fotografia do atual Papa. A certa altura fui abordada por um homem jovem, que saiu de uma porta lateral da catedral. Cumprimentou-me com um grande sorriso e convidou-me a entrar na igreja. Expliquei que já lá tinha estado e fiz alusão à imagem do Sto. António, dizendo-lhe que aquele era o meu santo protetor. "Ai, sim?", respondeu. "É também o protetor do meu pai e estamos a poucos dias de celebrar a data do seu nascimento, 13 de junho. O meu pai faz anos nesse dia". Não escondi a minha surpresa: um vietnamita fluente em inglês, com um pai católico devoto de Sto. António pareceu-me algo extraordinário. Disse-lhe que era Portuguesa e contei por alto o propósito da minha viagem. Foi então que me explicou ser o padre responsável pelas homilias em inglês na Catedral de S. José e ao saber que era portuguesa retorquiu: "Ouvi dizer que é um país muito bonito. Há lá um lugar muito especial que quero visitar um dia: Fátima". 

Ainda a digerir este encontro surpreendente, abandonei o recinto da igreja e dirigi-me ao pequeno café que, no cruzamento em frente, já me tinha chamado a atenção. A esplanada exígua era frequentada por turistas e vietnamitas com um cunho alternativo e a decoração do rés-do-chão denunciava um ambiente sofisticado e intimista. Subi ao primeiro andar, à procura de um lugar. Nas paredes, pósteres antigos de propaganda pacifista, estantes rudimentares com livros, rádios velhos. Do teto pendiam lâmpadas cujos abajours eram alguidares de plástico. A sala era pequena e, apesar da luz que entrava pelas janelas altas e se espraiava sobre as paredes de tijolos e as mesas de madeira, havia recantos que ficavam na penumbra. Num desses recantos estava sentada a Linh, um livro em cima da mesa e outro nas mãos. Pedi-lhe uma foto e foi à sua mesa que acabei por me sentar. Conversámos enquanto ela tomava o seu café gelado e eu, a minha limonada fresca. 

Os livros que Linh tinha consigo eram ambos de autoras vietnamitas. O que lia intitulava-se "Hoa Linh Lan", de Gào, um bestseller que conta a história de um triângulo amoroso entre um vietnamita solitário e duas miúdas, uma delas chinesa. O outro livro, chamado "Người yêu cũ có người yêu mới" era escrito por Iris Cao. Tinha-lhe sido oferecido por um amigo que nutria por ela mais do que um sentimento de amizade. Depreendi, pela sua expressão, que o sentimento não era mútuo e tive mais tarde a certeza, quando Linh me falou do namorado que, curiosamente, frequenta aulas de português na Universidade de Hanoi. "Ainda não tive coragem de começar a lê-lo", confidenciou-me. E eu achei triste saber de mais uma história de amor não correspondido. De resto, sobre os seus hábitos de leitura, Linh afirmou: "Gosto de estar sozinha neste café, a ler. Leio muito. Não gosto tanto de romances. Prefiro livros que me façam refletir. Quando leio, sinto que faço uma pausa e que tenho tempo para pensar. Os livros são como uma lente através dos quais se pode ver tudo. Quando estás confusa acerca de algo, lê e talvez encontres a solução".

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Vietname — Han, no Templo da Literatura


Nesta volta ao mundo, em que procurei sempre estabelecer uma ponte entre os lugares e os livros, saber que existe em Hanoi um Templo da Literatura foi música para os meus ouvidos. Achei verdadeiramente poético que uma capital contasse com um lugar quase milenar onde ainda hoje se veneram os sábios e os letrados da nação. Fundado em 1070, o Templo da Literatura é não só o principal santuário do Vietname dedicado a Confúcio, como é também um lugar histórico de aprendizagem, uma vez que aqui funcionou, até 1802, a primeira universidade do país. Exemplo ímpar da arquitetura tradicional vietnamita, o templo, que se encontra bem preservado, tem uma planta retangular e é composto por cinco pátios sucessivos onde se alinham relvados, árvores centenárias, lagos repletos de flores de lótus — o símbolo nacional do Vietname — e vários edifícios de madeira e telhas de barro que albergam imagens dos principais eruditos, assim como lápides onde se exibem os nomes e proezas de outros intelectuais. 

Foi aqui, entre estas paredes pintadas de vermelho vivo, que ao longo de séculos os melhores alunos de todo o Vietname estudaram os princípios de Confúcio, da literatura e da poesia. Estes estudos superiores podiam demorar três a sete anos, processo que culminava num exame nacional feito na presença do Imperador, que questionava e avaliava os finalistas. Fui ao templo no início de junho, num dia se semana em que havia muito poucos visitantes. Pude, por isso, desfrutar do ambiente relaxante dos jardins, que imaginei perfeitos para a concentração nos estudos que ali se faziam antigamente. Mas sei que em determinadas épocas do ano, muitas das celebrações académicas ainda se fazem aqui e que na véspera de exames importantes os estudantes ainda vêm aos magotes pedir proteção e sorte aos sábios ancestrais. 

Naturalmente, ao longo da visita pensei muitas vezes no quanto seria perfeito encontrar um leitor no magnífico Templo da Literatura. E, sortuda como tenho sido, foi o que acabou por acontecer, já mesmo na reta final, quando entrei na loja de souvenirs que existe na ala esquerda do edifício onde funcionava a universidade. Aí, aproveitando a calmaria daquele dia, a jovem Han lia a edição vietnamita de "Como Deixar de se Preocupar e Começar a Viver", de Dale Carnegie. Leitora assídua, sobretudo de literatura infantil que diz ser a sua preferida, Han procurava orientação nas palavras do guru norte-americano da motivação. "Sou uma pessoa que se preocupa muito, por isso preciso de ajuda. Espero poder preocupar-me menos e passar a divertir-me mais". E sabem com o que mais se preocupa a Han? Com o trabalho. Irónico é que estivesse a tentar travar esse processo no templo dedicado a Confúcio, o filósofo para quem o trabalho era uma das pedras basilares do seu pensamento.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Três anos


Tenho no desktop do meu computador — aquele que está agora mesmo pousado sobre os meus joelhos enquanto escrevo — uma pasta a que chamei "fotos_blogue". Abro-a com frequência para percorrer, sempre com espanto, este álbum fotográfico que tem o seu quê de inusitado. Hoje contei nessa pasta 343 rostos debruçados sobre livros. No dia em que assinalo, com orgulho, três anos de Acordo Fotográfico, o meu primeiro pensamento vai para estes 343 leitores a quem devo tudo. Sem eles não teria assunto. Sem eles os meus dias teriam menos sorrisos. Muitíssimo obrigada!

Convido-vos a recordarem aqui algumas dezenas de leitores.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Vietname — Robert em Hanoi


Esta coisa das rivalidades entre cidades de um mesmo país é um fenómeno que me ultrapassa e que a maior parte das vezes me irrita, mas no decorrer da viagem as opiniões tendenciosas que fui colhendo sobre os locais que me preparava para visitar não só trouxeram algum colorido às conversas com autóctones e expatriados, como estiveram na origem de boas surpresas. As mesmas considerações que ouvi de cariocas ou paulistanos sobre Brasília — que não há muito para ver ou fazer na cidade... — ouvi meses mais tarde em Saigão acerca de Hanoi. Por isso, quando parti do sul para a capital do Vietname ia quase convencida que a cidade mais estimulante do país estava a ficar para trás. Puro engano! 

Notoriamente mais pequena e com menos população que Saigão, Hanoi é uma capital tranquila e elegante. Obviamente, para nós, portugueses, tudo isto é relativo, sobretudo se tivermos em conta que esta "pequena" e "tranquila" capital conta com pelo menos seis milhões de habitantes. Mas, para quem chega de Saigão, acreditem que a diferença é substancial. O coração da cidade é um lago diminuto chamado Hoan Kiem, que alberga, numa extremidade, um templo ao qual se acede por uma ponte vermelha. O seu reflexo sobre o espelho de água deve ser uma das imagens mais captadas pelas câmaras dos visitantes. Este lago, que podemos contornar numa caminhada que não dura mais de meia hora, é o grande ponto de encontro dos habitantes de Hanoi. É à sua volta que fazem jogging, é nos jardins que o envolvem que praticam tai chi, ginástica ou dança, é nos seus bancos que os casais namoram, é nas suas margens que os grupos de amigos se sentam para conversar enquanto comem gelados e é nas suas imediações que existem algumas das melhores lojas da cidade, assim como hotéis e restaurantes. A partir deste ponto cheio de vida, estende-se para norte o Old Quarter e para sul o French Quarter, os dois bairros que juntamente com o lago definem o núcleo de Hanoi. E foi aqui, flanando pelas ruas destes bairros e sentada na margem deste lago, que a minha paixão súbita pelo Vietname se consolidou. 

Vejo e revejo as fotos desses dias à procura de uma razão objetiva que justifique o impacto que esta cidade teve em mim. Mas como é que se explica objetivamente uma espécie de feitiço? À partida, Hanoi tinha tudo para me enlouquecer: a propaganda do Partido Comunista debitada a partir das sete da manhã através dos altifalantes espalhados pela cidade; a falta de limpeza e de higiene; o trânsito caótico; o perigo que é atravessar qualquer estrada, mesmo onde há semáforos; o idioma que não entendo; os milhares de motos que ocupam os passeios forçando-me a andar na estrada; o ruído constante; o sol que não se vê e o mar a centenas de quilómetros. 

Mas depois há o insólito. Há o karaoke de rua, à noite, com uma aparelhagem rudimentar e colunas de som fanhoso. Um jovem parece assassinar uma qualquer canção vietnamita, enquanto centenas de pessoas assistem, sentadas em banquinhos de plástico azul, bebendo cerveja e comendo sementes, como se estivessem a ouvir o melhor cantor lírico. Há os dois negócios mesmo em frente ao hotel onde me alojo e cuja atividade constante observo ao pequeno-almoço: à esquerda um cubículo onde um jovem passa o dia a lavar motociclos; à direita um talho, onde uma mulher, sentada numa banqueta de madeira, decapita e depena frangos metodicamente. Há o homem na esquina que, naquilo que parece uma simples abertura numa parede, montou uma oficina para reparação de eletrodomésticos. E as peças que ocupam aquela abertura são tantas e estão de tal forma entaladas do chão ao teto que temo pela segurança do homem caso tudo aquilo lhe caia em cima. Há a farmácia onde entro para comprar lenços de papel e onde, perto do balcão, se coze arroz numa panela. Há a vendedora de postais, a quem a Nilza faz a primeira compra do dia e que à noite, ao rever-nos, se aproxima numa grande agitação, gritando "Good luck! Good luck". Pede uma foto com a cliente que lhe deu sorte. No dia seguinte, no mesmo lugar, espera por nós para nos apresentar os filhos e tira-nos mais fotos, desta vez com o seu telemóvel. Há o sapateiro, apenas uma criança, que aparece do nada, aponta para os meus pés enquanto solta uma algaraviada incompreensível. Sem que pudesse antecipá-lo, arranca-me a sapatilha do pé direito e vai esconder-se para lá de uma esquina, senta-se num degrau e empreende o arranjo da sola descolada. Há o condutor de riquexó, pequeno e franzino, que depois de nos passear quarenta e cinco minutos, pedalando pelas ruas requintadas do bairro francês, leva a cabo, de sua livre iniciativa, toda uma sessão fotográfica com uma das nossas câmaras, sugerindo-nos as mais variadas poses em cima da sua bicicleta. E há as ruas ladeadas por grandes árvores; as vendedoras de flores de lótus que se deslocam de bicicleta; as vendedoras de ananases que perfumam as ruas com o cheiro da fruta madura; as lojas exíguas onde em menos de vinte e quatro horas se confecciona qualquer peça de roupa à nossa medida no melhor linho, no mais puro algodão ou na seda mais delicada; o restaurante gerido por um grupo de mulheres, irmãs talvez, que se entendem aos berros, naquilo que aparenta ser uma eterna discussão e que servem com modos rudes as melhores refeições que faço na cidade. E tantos, tantos outros pormenores inebriantes

Todos os dias, como se tivesse necessidade das suas águas paradas para serenar, dei por mim junto à margem do Hoan Kiem. Ao meu redor, o burburinho de Hanoi, a cidade com mil anos, não cessava. Mas o arvoredo à volta do lago transmitia uma sensação de paz. Foi sem surpresa que aí encontrei alguns leitores, porque os bancos estrategicamente colocados pareciam ter sido concebidos apenas para esse efeito: ler. Talvez Robert, um escocês de férias no Vietname, tenha sentido também a necessidade de se evadir. Então, por uns momento, esqueceu o rumor de milhares de motociclos, as temperaturas elevadas e o ar saturado de humidade para ir até Westeros, aquela terra da Europa medieval, coberta de gelo e dilacerada por um conflito sangrento que George R. R. Martin descreve n' "A Guerra dos Tronos". 

domingo, 30 de novembro de 2014

Vietname — Huy em Sa Pa



Deixei Ha Long Bay num domingo à tarde e parti em direção a Hanoi onde, umas horas depois, apanhei um comboio noturno para Lao Cai, uma pequena cidade no extremo norte do Vietname, junto à fronteira com a China. O objetivo era chegar a Sa Pa, um vilarejo pitoresco aninhado no sopé do Fan Si Pan, o ponto mais alto do país. 

Fiz a viagem num compartimento pequeníssimo onde havia quatro beliches. Eu e a Nilza ocupámos os da direita, ela em baixo e eu em cima; os outros foram ocupados por dois vietnamitas, aparentemente pai e filho, ambos homens de poucas palavras. Depois de várias semanas a queixar-me dos ares condicionados débeis dos transportes que frequentei, nessa noite dei graças por ter um polar para me agasalhar. Lá fora as temperaturas mantinham-se elevadas e a humidade não dava tréguas, mas a cabina onde me preparava para passar a noite parecia o pólo norte e os nossos companheiros de viagem, refastelados nas suas camas, estavam deliciados com o choque térmico. Porque o polar não chegou para me aquecer, enrolei-me o mais que pude na manta grossíssima colocada sob a almofada e deixei-me levar pelo embalo do velho comboio que, muito lentamente, deixava Hanoi. Pela janela, apesar da noite cerrada, consegui observar cenas fugazes da vida na capital do Vietname: as casas pobres de um bairro parcamente iluminado, as vendedoras de um mercado montado junto à linha, os casais que escolhem a ponte ferroviária para namorar na semi obscuridade, as famílias sentadas sobre mantas num descampado onde se entretêm a ver passar as pesadas carruagens de madeira e ferro. 

No interior do comboio instalou-se por fim o silêncio. Os passageiros estavam todos acomodados, o vai-vém nos corredores tinha cessado, a porta do nosso compartimento estava fechada com o trinco para evitar que se abrisse a cada curva e eu tentava adormecer fazendo de conta que não me deixava algo apreensiva estar trancada numa divisão de poucos metros quadrados com dois estranhos. O mais velho, em baixo, roncava; o mais novo, deitado ao meu nível e à distância de um braço esticado, vinha entretido com o telemóvel, que me passou para as mãos sem pré-aviso para que visse este vídeo. Devolvi-lhe o aparelho emocionada. Ele sorriu-me, tímido, e eu adormeci confiante: dali não vinha qualquer perigo, nem para nós, nem para a nossa bagagem. Ainda assim, passei a noite agarrada à pequena mochila que continha os meus documentos, algum dinheiro, o computador e as câmaras fotográficas, enfim, os meus bens mais valiosos. Passadas oito horas, acordámos todos com os berros de um funcionário dos caminhos de ferro que anunciava a chegada a Lao Cai ao mesmo tempo que batia nas portas das cabinas. Estremunhada, coloquei os cerca de vinte e cinco quilos de bagagem às costas, desci para a plataforma e segui as centenas de passageiros para fora da estação. Daí a uns minutos, apareceu a carrinha que nos levaria, montanha acima, até ao nosso destino final. 

Situada a cerca de quatrocentos quilómetros a noroeste de Hanoi, na zona mais montanhosa do Vietname, Sa Pa foi frequentada pelo colonizadores franceses entre os finais do século XIX e o fim da Segunda Guerra Mundial, tendo funcionado não só como base militar, mas também, graças ao seu clima ameno, como sanatório e estância de férias para os mais abastados. Entre as décadas de 50 e 60 do século XX, no seguimento de vários conflitos armados, Sa Pa ficou arrasada e votada ao abandono. O processo foi revertido pelas autoridades vietnamitas nos início dos anos 80, quando investiram no repovoamento da zona, até que nos anos 90 se apostou na abertura do lugar ao turismo. Desde então, nas últimas duas décadas, milhares de visitantes de todo o mundo chegam a Sa Pa ano após ano para mergulhar por uns dias na cultura das minorias étnicas que habitam a região. Foi o que eu fiz, também. 

Dos quatro dias que lá estive, dois foram passados a caminhar por entre os campos de arroz. Depois de os ter visto à distância durante tantas semanas pude, por fim, embrenhar-me neles, sentir-lhes o cheiro e, literalmente, a textura quando por acidente me desiquilibrei e enfiei um pé até ao tornozelo num arrozal alagado e lamacento. Nessa caminhada tivemos por guia a Mou, da tribo Hmong. Era tão pequena e franzina que mais parecia uma adolescente, mas Mou tinha vinte e oito anos, era casada e mãe de duas crianças. Assim que nos metemos a caminho, percebi que o seu ar de menina era muito enganador: Mou transbordava energia física e possuía um sentido de humor desconcertante. Não foram poucas as vezes em que gozou comigo, simulando sentir-se ofendida por algo que eu tivesse feito, para depois rir-se da minha surpresa, soltando gargalhadas infantis e fechando os olhos que ganhavam a forma de simples rasgos no rosto. Era linda a Mou, nas suas vestes tradicionais pintadas de índigo, a camisa verde alface, a saia de barras bordadas, as feições perfeitas e delicadas, a voz fina e meiga, as mãos miúdas, o cabelo negro comprido que quando solto lhe roçava a curva das nádegas, os pés pequeníssimos e a pernas torneadas pelos quilómetros que a profissão a obriga a percorrer. 

Para além dela, um grupo de meia dúzia de mulheres com os filhos às costas caminhou conosco com o único intuito de nos vender alguma coisa mal parássemos para comer ou antes de chegarmos à casa da família onde passaríamos a noite. Ágeis como gazelas, percorreram sem dificuldade os caminhos mais íngremes e escorregadios e foi graças à sua ajuda que não me estatelei um par de vezes. Estas mulheres, que tingem de azul escuro os panos que tecem com cânhamo e confeccionam com eles as suas próprias roupas, trazem quase todas as mãos pintadas de índigo até aos pulsos e eu cheguei a agarrar-me com tanta força e por tanto tempo às mãos de uma delas, que também as minhas pele se tingiu. Na sua companhia, a caminhada de muitas horas ganhou outro encanto. Quiseram saber das nossas vidas, fizeram inúmeras perguntas, pasmavam com as nossa respostas. Jurei ver no rosto de algumas pena por me saberem só, sem marido nem filhos. Mas outras houve que vieram depois dizer-me, entre risinhos, que eu é que tinha razão, que estava bem assim, porque os homens e os filhos só davam trabalho e faziam envelhecer. 

A família Hmong que nos recebeu nesse fim de dia em sua casa mal falava inglês. Os nossos diálogos reduziram-se ao mais básico: pedir água, perguntar pela casa de banho, comentar a beleza da paisagem, elogiar a comida que nos serviram. A casa, lá bem no alto, tinha na frente um alpendre que fazia as vezes de miradouro. De ali avistava-se grande parte do vale feito de arrozais em socalcos por onde tínhamos caminhado todo o dia. A senhora trazia ao colo um bebé recém-nascido que não largou um minuto. Olhava-o embevecida, como se adorasse um Deus menino. Dir-se-ia que era o seu primeiro filho, mas era o quinto. Quem tratou de nós — eu, a Nilza, um jovem britânico e a sua namorada filipina — foi o primogénito, um rapaz de catorze anos que confeccionou num forno a lenha a melhor refeição vegetariana que comi na minha vida. 

Ali, nas montanhas do Vietname, como em qualquer outra zona rural do mundo, os dias vivem-se ao ritmo da luz solar, por isso, pouco depois de ter escurecido retirámo-nos para o sótão onde dormimos em colchões espalhados pelo chão. Há anos que não me deitava tão cedo, mas o corpo agradeceu. E quando todos os sons humanos  cessaram — o choro do bebé, as gargalhadas das famílias vizinhas, as loiças a chocalhar na cozinha — os sons da natureza impuseram-se de tal forma que pareciam amplificados por colunas de som gigantescas. Não sei que criaturas são capazes de cantos tão ensurdecedores. Só sei que os achei fascinantes e que de todas as vezes que acordei por causa dessa sinfonia exótica, dei por mim a sorrir no escuro. Era maravilhoso! 

Na manhã seguinte, depois de um pequeno almoço de chá com leite e panquecas com banana e mel, calcei a muito custo as botas, os pés forrados com pensos rápidos. Começámos a caminhar antes das sete da manhã e o percurso, de regresso à vila de Sa Pa, terminaria só após o almoço. Esses quilómetros acabaram por me custar um par de unhas, que caíram, e ainda hoje me recomponho das mazelas que me ficaram nas outras... Feitas as despedidas da Mou e do casal que nos acompanhou, regressámos ao hotel onde as mochilas grandes tinham ficado, tomámos um banho retemperador e, de havaiana nos pés doridos, saímos para explorar a vila. Na verdade não há muito para ver: um par de ruas principais onde se alinham hotéis, restaurantes, cafés e lojas, um largo com uma igreja pequena que vi sempre fechada e um pequeno mercado que se visita em poucos minutos.

Ao nos aventurarmos por uma zona mais residencial, de onde se tinha uma vista espetacular sobre o vale e as montanhas, passei pela entrada de uma casa onde um grupo de crianças brincava com triciclos e outros dois miúdos, mais velhos, se entretinham com um livro de banda desenhada. Fiz-me entender o suficiente para que percebessem que queria fotografá-los, mas a excitação que o meu pedido causou quase me fez desistir. É que um deles, o que se vê na foto a fazer uma careta, tomado pela euforia passou com o triciclo por cima de um dos meus pés, já de si muito mal tratados. A dor foi tanta que me vieram as lágrimas ao olhos. Fiz a foto a muito custo e depois ainda tive de erguer a câmara no ar o mais que pude para evitar que aquele bando de pirralhos irrequietos ma tirasse das mãos na ânsia de ver a imagem. Levantei a voz, fiz cara de má, mostrei-lhes a fotografia na fração de segundos em que a histeria amainou e, agradecendo à pressa, voltei costas e fui-me embora a mancar. 

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