segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

De blogue a site



Para aceder à nova morada do Acordo Fotográfico basta clicar sobre a imagem. 
Obrigada!




quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Acabar o ano assim é bom demais!


Terminou agora mesmo, às 18h, um dos episódios mais emocionantes do meu ano de 2015 — a campanha de crowdfunding para financiar a compra da nova câmara do Acordo Fotográfico.

Se eu soubesse em Agosto deste ano (mês em que a minha obsoleta Canon avariou) o que sei atualmente sobre o que implica uma acção deste género, provavelmente não teria demorado tantos meses a ponderar avançar ou não. Embora alguns possam pensar que o fiz levianamente, enganam-se se acham que não me debati até ao fim — e ainda agora enquanto escrevo este post — sobre a legitimidade de pedir dinheiro para algo que, à primeira vista, pode não parecer muito... nobre. 

Poderão apontar-me que agora é fácil falar, já que sei que o processo foi um sucesso. Mas eu acredito que mesmo que não tivesse conseguido angariar toda a quantia necessária, as emoções vividas nestas últimas semanas do ano teriam valido muitíssimo a pena. A plataforma portuguesa que escolhi para levar esta ideia avante é altamente profissional, mas esquece-se de fazer um aviso importante aos novatos como eu. Algures na literatura inclusa do site, devia anunciar-se: “Atenção, o recurso ao crowdfunding pode gerar emoções fortes, quiçá, lágrimas de alegria e gratidão”.

É verdade: estava preparada para as críticas e estava preparada para o fracasso, mas não estava preparada para a jornada emocional em que me vi envolvida. Angariar fundos desta forma vai muito além do dinheiro. Aliás, provavelmente, tem muito pouco a ver com dinheiro. Tem a ver com a fé, com o amor, com a amizade, com o carinho, com a generosidade, com o reconhecimento de que fui e sou alvo. E eu, que me sinto infinitamente grata e emocionada às lágrimas por merecer tamanha distinção, prometo que trabalharei no Acordo Fotográfico com fé, amor, amizade e carinho pensando a cada momento em todos vós, os que ajudaram com dinheiro ou com palavras de apoio ou propagando a mensagem e apelando à participação ou inundando-me de energia positiva. Tudo isto é válido e está, para mim, no mesmíssimo patamar. 

Embora este ano não tenha sido fácil nem para mim nem para o Acordo Fotográfico, 2015 acaba da melhor maneira: com uma vitória. Uma vitória conjunta e que sabe, por isso, ainda melhor. O Acordo Fotográfico, que deixou de ser meu no dia em que publiquei o primeiro post, é agora, mais do que nunca, de todos nós e dos que ainda estão por vir. 

Que venha 2016, que eu estou cheia de ganas de continuar a fazer acontecer “coisas” em torno dos livros e dos leitores. Em Portugal e além fronteiras. ;)

Desejo-vos um excelente 2016!

Bem hajam!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

4 anos de Acordo Fotográfico



O Acordo Fotográfico completa hoje quatro anos. Foram anos maravilhosos, de emoções intensamente boas. Mas sei que o melhor ainda está por vir!

Hoje estou a 400€ de atingir o valor de que preciso para comprar uma nova câmara. A câmara com a qual quero fotografar pelo menos mais 400 leitores em Portugal e além fronteiras. Ajudem-me a atingir esse sonho neste dia de aniversário: basta contribuir com 1€.

http://ppl.com.pt/pt/prj/acordofotografico

Obrigada a todos os que já ajudaram. Obrigada a todos os que participaram no Acordo Fotográfico. Obrigada a todos os que seguem o blogue atentamente. Obrigada a todos os que ajudaram a divulgá-lo um pouco por todo o mundo. Obrigada a quem sempre o apoiou e louvou. Só eu sei o tamanho da gratidão que sinto por todos vós.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Uma câmara para o Acordo Fotográfico!



Como julgo que sabem, estou sem câmara desde Agosto deste ano, razão pelo qual o blogue está parado, o que me entristece muitíssimo...  Decidi, por isso, lançar uma acção de CROWDFUNDING que tem como objectivo angariar 2000€ até ao dia 31 de Dezembro de 2015 para a compra de novo material fotográfico para o Acordo Fotográfico. 

O Acordo Fotográfico tornou-se parte integrante da minha vida e não há nada que eu queira mais do que continuar a caçar leitores por aí! Aliás, a minha cabeça fervilha com projectos que pretendo concretizar a curto prazo assim que me for possível ter a nova câmara e a nova lente. 

Convido-vos, por isso, a acederem aqui — http://ppl.com.pt/pt/prj/acordofotografico —  e a contribuírem com o que vos for possível. 

E peço-vos, também, que partilhem a iniciativa. Ficar-vos-ei eternamente grata!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Marie, no Tarrafal de Monte Trigo



Se há coisa que me custa é esquecer aquele primeiro momento em que conheço alguém que passa depois a ser um bom amigo. Trocaria de boa vontade a recordação clara do momento em que conheci um ser abominável pela do instante em que acolhi na minha vida uma alma boa. Por que permito eu que a memória me pregue estas partidas?

O meu caminho cruzou o da Marie em S. Tomé e Príncipe, há mais de um ano. Estávamos ambas alojadas na casa da carismática D. Lurdes, que aluga quartos no bairro Água Arroz. Eu viajava com a Nilza havia cinco meses; a Marie tinha deixado Paris com a Ruth para umas férias de três semanas. Nós estávamos a fazer uma volta ao mundo, que passava por visitar países de língua oficial portuguesa; elas quiseram conhecer o lugar de onde vinha o cacau que estava na origem do melhor chocolate que alguma vez tinham comido. Não fosse essa prova e talvez nunca tivessem ouvido falar do pequeno arquipélago na costa ocidental africana, que é atravessado pela linha do Equador. Não fosse esse pedaço de chocolate e talvez nunca nos tivéssemos tornado amigas.

Recordo o nosso primeiro jantar juntas, num paupérrimo restaurante montado na berma da estrada que passava em frente à casa da  D. Lurdes, nada mais que um espaço delimitado por paus cobertos com panos velhos, onde comemos peixe frito com arroz e matabala. Recordo também o primeiro passeio que fizemos as quatro, já na companhia do grande Tiago (um escuteiro português em missão no arquipélago), para visitar o Jardim Botânico, a Roça Monte Café e a Cascata S. João. Tenho memórias vívidas de todas as experiências que partilhámos na semana seguinte e das lágrimas à despedida. Só não me recordo do nosso primeiro “Olá!”.

No dia em que voltei a colocar a mochila às costas para voar de S. Tomé e Príncipe para a Cidade da Praia, nenhuma de nós poderia imaginar que dali a um ano estaríamos de novo juntas, precisamente em Cabo Verde. Parecia-nos mais plausível que nos encontrássemos em Paris ou no Porto. Mas quando a Marie e a Ruth souberam que eu ia trabalhar para o Mindelo, começaram a acarinhar a ideia de me visitar. E foi isso mesmo que aconteceu, dois meses após a minha mudança. Elas chegaram a S. Vicente na noite do Kavala Fresk Festival (havia milhares de pessoas na rua) e uns dias mais tarde, fui encontrá-las na pacatez de Santo Antão. O catamarã que faz a ligação entre as duas ilhas demora apenas 30 minutos a atravessar o canal de S. Vicente. Percorri essa distância mergulhada nos meus pensamentos sobre as voltas que a vida dá, e a ironia que é estas três cidadãs do Velho Continente nunca se terem visto senão em ilhas africanas.

Tínhamos encontro marcado na Vila das Pombas, um lugarejo na parte oriental da ilha, entalado entre o mar e a montanha. Cheguei ao início da noite. Morrinhava e nuvens baixas prendiam-se, imóveis, ao promontório negro onde uma enorme estátua de Santo António resplandecia iluminada por vários holofotes. Jantámos numa esplanada dando-lhe costas, mas volta e meia olhava para trás apenas pelo prazer de vê-lo, o Santo António, para lá de uma fileira de coqueiros esguios, como que a pairar sobre a vila e a olhar por todos nós com a santidade que lhe é devida. Quando nos calávamos ou pousávamos os talheres, só se ouvia o estrondo das vagas a rebentar perto do limite da esplanada. Uns metros ao lado ficava a pensão onde nos alojámos, também ela paredes meias com o oceano. Escancarei a janela do quarto. A passagem do tempo desacelerou, os minutos agigantaram-se, sintonizei os meus sentidos com os elementos da natureza, descerrei os punhos, relaxei os maxilares e os meu pulmões cederam, por fim, à vontade de respirar fundo. Adormeci ao som do mar e do rolar incessante das pedras entregues à vontade das ondas. Aconteceu o que eu sempre soube que aconteceria: em Santo Antão comecei um processo de cura. Voltava à estaca zero.

Foi a minha segunda vez na segunda maior ilha cabo-verdiana — mais ou menos 40 km de comprimento, 20 km de largura e 50 mil habitantes. E neste regresso tão desejado a minha ideia fixa era conhecer o Tarrafal de Monte Trigo, uma pequeníssima aldeia situada a sudoeste. Com pouco mais de mil almas, na sua maioria pescadores e agricultores, o Tarrafal fica no sopé de uma grande cadeia montanhosa, por muito tempo considerada intransponível. Ainda hoje não existe uma estrada que ligue o lugar à principal cidade da ilha, Porto Novo, e só no início deste ano é que os habitantes puderam contar com fornecimento de energia eléctrica vinte e quatro horas por dia. Diziam-me que estar no Tarrafal de Monte Trigo era como estar no fim do mundo. E era dessa sensação de fim do mundo que eu mais precisava. Persuadi a Marie e a Ruth a irem comigo.

Partimos do Porto Novo numa manhã de céu limpo e sol inclemente. Uma vez que grande parte do trajecto se faz por uma picada que sobe quase até aos dois mil metros de altitude e volta a descer até à costa, só um veículo todo o terreno pode transportar mercadorias e passageiros. Por esses transportes não existirem em grande quantidade, naquele dia tivemos que nos render ao que havia disponível: a caixa aberta de uma pickup que partilhámos com outros dois passageiros, uma dezena de malas e mochilas, peixe, vinho, cerveja, leite, água e muitas outras mercadorias que iriam abastecer os pequenos negócios e lares do Tarrafal de Monte Trigo. Sentadas em bancos de madeira sem qualquer tipo de protecção, encarámos quinze minutos de estrada alcatroada com a mesma alegria prevaricadora com que os miúdos soltam os cintos de segurança dos bancos de trás dos automóveis e espetam as cabeças pelas janelas abertas para que o vento lhes lamba o rosto e os cabelos. Depois, veio o breve troço forrado a paralelos que trouxe uma trepidação desconfortável. E por fim, sessenta minutos de caminho a 20km hora por uma picada medonha de pedra e terra. Sofri. Não há outra forma de dizê-lo.

De início, torrei ao sol. Depois, nos pontos mais altos, tive frio. Comi pó, o mesmo pó vermelho que me cobriu da cabeça aos pés e que a muito custo saiu da roupa quando a lavei à mão. Os altos e baixos da picada colaram-me várias vezes os rins às omoplatas, puseram-me o estômago na boca e quase levaram os ossos da bacia a perfurar-me as nádegas a cada solavanco contra o assento. Magoei os dedos por causa da força com que me agarrei às cordas que impediam que as bagagens fossem lançadas borda fora. E, contudo, seguia de coração ao alto porque a beleza estonteante que os meus olhos abarcaram naquela manhã anestesiou qualquer tormento físico.

Primeiro, a subida até ao ponto mais alto da ilha, o Topo de Coroa, o vulcão extinto. A ocidente, recortava-se no horizonte, em tons violáceos, o perfil da ilha de S. Vicente que, contornada por uma bruma marítima, parecia levitar e deslocar-se sobre o oceano. A visão era feérica. Depois, o atravessar das nuvens que nunca desistem de cobrir os cumes de Santo Antão. São alguns minutos de nevoeiro denso e picada que mal se avista. Em seguida, o desembocar num pequeno planalto à mercê da fúria do sol que ganha ainda mais força graças à altitude. Reina a absoluta secura e só os pardais nos recordam que ali é possível viver. É então que a carrinha se inclina e começa a descida. Atravessa-se nova camada de nuvens, tudo se desfoca. Mas quando o nevoeiro se dissipa, fundem-se à nossa frente o azul do céu e do mar, e envolve-nos à esquerda e à direita o negrume das montanhas que já foram vulcão e lava. Foi aí que me convenci que esta massa gigantesca emergiu do centro da terra e fez-se ilha com o único propósito de me ensinar o que é a beleza. Por fim, já junto da costa, com a beira do mar dois ou três metros mais abaixo, o caminho descreve uma curva acentuada para a direita e a pickup acelera pelo areal da Praia Grande adentro. É a maior praia de Santo Antão. Vemos à esquerda o oceano e a sua espuma branca; sob nós a areia negra, qual carvão; à direita a vertente de uma montanha que sobe recta, num esforço para se unir ao céu; e à nossa frente, na embocadura de uma alameda de árvores verdíssimas, o cemitério de muros brancos e os seus mortos alinhados. São o melhor comité de boas vindas. “Aproveitem”, parecem dizer, “a ilha é eterna; vocês não.” É épica a chegada ao Tarrafal de Monte Trigo!

Seguiram-se quatro dias de emersão num universo paralelo, uma viagem no tempo, o acesso a um mundo em vias de extinção. Tudo o que há para fazer naquele lugar sem luxos nem artifícios prende-se com a natureza — ir à praia, passear de barco, caminhar nas montanhas, pescar, assistir ao espectáculo grátis que é o pôr do sol, testemunhar o desovar das tartarugas — ou com as nossas necessidades mais básicas, como dormir e comer. A nós deu-nos também para passar longas horas no terraço da pensão do Jaime e da Maria de onde só se via o mar até perder de vista. A determinada altura, a Marie recordou-nos que lá à frente ficava a América. E nós ali — muitas vezes em absoluto silêncio, outras proferindo longas confidências e considerações filosóficas sobre o que esperamos da vida — na ilha que um dia serviu de referência para dividir o mundo, através de uma linha imaginária, entre portugueses e espanhóis.

De entre tudo aquilo que nos distingue umas das outras, são tantos os pontos em comum, que esta nossa amizade parece não ser fruto do acaso. E, por entre as nossas semelhanças e interesses partilhados, estão a escrita e os livros. A Ruth andava mais de caneta em punho. A Marie, psicóloga de profissão, tinha optado por colocar um livro na sua bagagem. Fotografei-a no areal da Praia Grande a ler “Vivre Avec Soi”, do psicólogo francês Jacques Salomé.

Leio este livro porque o título me despertou a atenção. Comprei-o por causa do título, que é muito simples e também por causa do autor de quem já me tinham falado. Ele é, ao mesmo tempo, psicólogo e adepto da meditação. Havia já algum tempo que o tinha na minha biblioteca, comprei-o há cerca de um ano e então decidi trazê-lo para as férias. As férias são o momento em que tento reconectar-me comigo mesma e como este livro, à partida, fala de como viver consigo mesmo, pareceu-me perfeito para as férias. É o primeiro livro que leio deste autor”.

Leitora intermitente, Marie explica que quando lê não opta por romances: prefere livros sobre a sua profissão ou sobre o ser humano. E, para além de ler por fases, fá-lo num contexto muito preciso, naquele que diz ser “a pequena janela de liberdade diária”, isto é, os trinta e cinco minutos que demora a viagem de comboio entre a sua casa e o trabalho, de manhã e ao fim do dia.

Para mim ler é um pouco como um diálogo, é conectar o pensamento de outrem com o meu, aumentando-o dessa forma, é abrir janelas que não sabia sequer que existiam. E é, também, não tanto ver outras coisas, mas ver certas de coisas de outra forma. Ler é isto, é aprender a mudar a forma como vemos, como pensamos. E, como diz Jacques Salomé neste livro, ler é colocarmo-nos questões sobre as quais jamais tínhamos pensado antes”.


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Celine, na Laginha


Passava pouco das nove da manhã quando pus os pés no areal e o olhar na beira mar à procura de um lugar para estender a toalha. A caminho da água turquesa hipnotizante, avistei a Celine a ler, assim mesmo como a vêem na imagem, e decidi que lhe pediria uma foto, nem que fosse porque a beleza do cenário o exigia fatalmente.

A Celine, que é francesa, está pela segunda vez de férias em Cabo Verde e tem aproveitado os 15 dias de descanso para se evadir entre as ilhas de S. Vicente e Santo Antão, onde satisfez a sua paixão pelas longas caminhadas no meio da natureza. Aqui no Mindelo, sob o sol radioso da Lajinha, dedicou-se a outra coisa que muito aprecia: ler. Ao explicar-lhe o que pretendia dela, Celine aceitou de imediato participar no Acordo Fotográfico, mas lamentou que a apanhasse com a edição de bolso de “Cinquante Nuances de Grey” ("As Cinquenta Sombras de Grey", na edição portuguesa).  Preferia que me fotografasse com o livro que acabei ontem, um romance de Eric-Emmanuel Schmitt, o meu autor favorito. Mas enfim... Este é o terceiro que leio nestas férias”.

Não foi com grande entusiasmo que falou do livro de E. L. James e depreendi, por isso, que o livro nem fosse seu. Mas enganei-me. Celine confirmou-me que foi ela que o comprou antes de partir e que o escolheu porque tinha muitas páginas e precisava de livros bem grandes para ter leitura garantida enquanto as férias durassem. “Para parar, relaxar, não pensar muito e esvaziar a cabeça é um bom livro. É um romance que se adequa às férias e à praia. Só isso”.

Grande apreciadora de romances históricos, Celine contou-me que lê desde muito pequena e que a mãe lhe incutiu o hábito de registar as leituras que faz. “Tomo nota de todos os livros que leio desde os dez anos e já tenho cinco cadernos cheios de títulos. É com base neles que recomendo livros a amigos e escolho os que ofereço. Nunca ofereço um livro que não tenha lido antes”.

E se para alguns é fácil eleger, por entre as longas listas de livros lidos, aquele que é o livro da sua vida ou o livro que mudou a sua vida de alguma forma, Celine diz que não consegue fazer essa escolha. “Mudamos muito ao longo da vida, mas atribuir isso à leitura não é claro para mim... Há, no entanto, um romance que me tocou verdadeiramente: “La Délicatesse”, de David Foenkinos (em Portugal, "A Delicadeza"). Também eu perdi alguém e este livro é a prova de que podemos recuperar. Para além disso, julgo que está muito bem escrito. É um livro que adoro e que gosto muito de oferecer”.

Voltei depois ao meu lugar, feliz com mais esta conversa, para também eu me agarrar ao livro que fui buscar no início da semana à Biblioteca Municipal do Mindelo. Continuo a apostar na literatura Cabo-Verdiana e regressei ao meu autor favorito até à data: Manuel Lopes. De frente para o mar, desbravei algumas páginas de "Chuva Braba" cuja acção decorre na ilha que se vê lá ao fundo, na foto, coberta de nuvens — Santo Antão. Um lugar que considero místico e onde há dias fotografei outra leitora. Mas para esse texto, preciso de mais tempo.

domingo, 12 de julho de 2015

Luís e os navegadores chineses


Convenci-me que não há um único canto do mundo que não tenha sido tocado pela diáspora chinesa quando, o ano passado, vi na cidade de S. Tomé um taberneiro chinês a falar crioulo e a vender vinho da palma aos clientes são-tomenses. Ficou-me profundamente gravada na memória aquela imagem, ao passar pela porta do lugar mal iluminado, cheio de homens, e ainda trago nos ouvidos a algaraviada que de lá brotava: falava-se alto, ria-se e o chinês, atrás do balcão, estava completamente integrado naquele quadro tropical e, a meu ver, surreal. Juro-vos que isto foi, para mim, o cúmulo, a prova dos nove, a total rendição — há chineses em todo o lado, ponto final!

Aqui no Mindelo, em Cabo Verde, não é preciso ficar-se muito tempo para se constatar que além de existir uma grande comunidade, os chineses tomaram nas suas mãos a quase totalidade do comércio: tudo se pode comprar nas muitas lojas de chineses que aqui existem. Dir-se-ia um monopólio. Só no trajecto que faço entre o lugar onde moro e o trabalho — pouco mais de cinco minutos a pé — conto oito! E esta comunidade, à semelhança da impressão que me deixou a cena de S. Tomé, parece-me muito mais integrada do que a que vive e trabalha em Portugal: não é fora do comum vê-los em horas de expediente a tomar um sumo natural num café ou a lanchar demoradamente nas pastelarias, a chinelar pelas ruas já com um certo gingar africano, as mulheres chinesas a caminhar de braço dado às amas cabo-verdianas que lhes carregam os filhos pequenos.

Andava já eu muito atenta a tudo isto quando o Luís veio hospedar-se na Casa Café Mindelo e o surpreendi na recepção do hotel a ler “1421 – O Ano em que a China Descobriu o Mundo”. Contou-me o Luís que o autor da obra, Gavin Menzies, é um oficial da marinha britânica que depois de reformado se dedicou ao estudo da história marítima da China — estudo que o levou, inclusive, a fazer investigação na Torre do Tombo, em Lisboa — tendo concluído que os chineses, entre 1421 e 1423, na recta final da dinastia Ming, não só chegaram à América muito antes de Cristóvão Colombo, como também circum-navegaram o globo antes de Fernão de Magalhães. Até que o enorme país se fechou sobre si próprio e um dos imperadores ordenou a destruição de todas as provas dos grandes feitos da armada chinesa. Por incrível que pareça, uma das provas que serve de base à teoria de Gavin Menzies está aqui, em Cabo-Verde, mais precisamente em Santo Antão. Há nesta ilha, aquela que eu vejo todos os dias aqui do Mindelo, um lugar chamado Penedo de Janela onde uma pedra, a que chamam Pedra Escrivida, exibe caracteres de uma língua indo-chinesa, supostamente gravados por navegantes chineses. Mas os mistérios em torno da pedra são muitos e outras explicações sugerem que os caracteres poderão ser de origem germânica, escandinava, berbere ou até portuguesa. Obviamente, coloquei Penedo de Janela na minha lista de lugares a visitar assim que tiver a oportunidade de voltar a Santo Antão. Mas é bom que se diga que, embora empolgante, a teoria de Gavin Menzies não está isenta de polémica: uma pesquisa rápida na net revela que foram vários os historiadores que a rejeitaram, apontando a total falta de metodologia e rigor científico, e apelidaram o seu autor de pseudo-historiador...

Acerca dos seus hábitos de leitura, o Luís admitiu ser sobretudo um consumidor de livros de História e Literatura de Viagem, mas os livros que apontou como mais marcantes fogem um pouco a estas categorias: "O Princípio de Peter", "O Triunfo dos Porcos" e o colossal "Memórias de Adriano". 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Cabo Verde — Amílcar no Mindelo


A ilha de São Vicente e a sua capital, o Mindelo, entraram na minha vida em outubro de 1998, quando os meus pais regressaram de uma viagem a Cabo Verde. Desde então, ouvi relatar inúmeras vezes, e sempre com muita doçura, detalhes dos três ou quatro dias lá passados: a movimentada Casa do Benfica, a alegre Praça Amílcar Cabral percorrida por miúdos fardados à saída da escola, o colorido do mercado municipal, as casas de traça portuguesa, os espaços com música ao vivo, a simpatia do taxista que fez as vezes de guia turístico por um dia, o mar turquesa e quente da Baía das Gatas, a imponência e negritude dos vulcões extintos, a loja onde lhes recomendaram o CD do Bau que viria, já em Portugal, a embalar muitas das nossa refeições em família. Foi preciso que passassem dezasseis anos para que eu tivesse, por fim, a oportunidade de conhecer também a chamada capital cultural de Cabo Verde. Em 2014, o Mindelo foi a última das mais de trinta cidades que visitei no decorrer dos 168 dias que demorei a dar a volta ao globo. Daqui regressei apenas à cidade da Praia para apanhar o voo da TACV que me levou de volta a casa.

O Mindelo — outrora Porto Grande — existe, em parte, graças à persistência dos governantes portugueses, que sempre viram grande potencial na baía natural que a cratera submarina de um vulcão ali formou. Contudo, a falta de recursos e os longos períodos de seca, adiaram durante séculos o seu povoamento: a ilha de S. Vicente foi descoberta em 1462, mas só em 1765 chegaram os primeiros colonos à povoação do Porto Grande. Na primeira metade do século XIX, mais ou menos na mesma altura em que o Marquês de Sá da Bandeira decreta que o nome do lugar mude para Mindelo (em homenagem ao desembarque das tropas liberais de D. Pedro IV no norte de Portugal, perto do Mindelo, em 1832), várias companhias inglesas de carvão instalam-se na vila para abastecimento dos navios que viajavam da Europa para o Atlântico Sul. Já na segunda metade do século XIX, outras companhias inglesas começam a instalar na ilha cabos submarinos de telégrafo que permitem ligar Cabo Verde ao continente africano, à Europa, ao Brasil e até aos Estados Unidos. Este período de prosperidade sob o ciclo do carvão e das telecomunicações, permitiu ao Mindelo crescer e investir nas infraestruturas públicas. A vila tornou-se, então, um polo de atração para habitantes de outras ilhas do arquipélago, ao mesmo tempo que se instalava também uma considerável comunidade estrangeira. O Mindelo adquiria assim uma aura cosmopolita e requintada muito própria, onde a cultura crioula — de matriz africana e portuguesa — bebia também da cultura inglesa. Porém, quando no alvor do século XX o carvão começa a ser substituído pelo petróleo como combustível, o Mindelo entrou num período de decadência que a Grande Depressão de 1929, entre outros factores, acentuou ainda mais: o desemprego assolou a maioria dos trabalhadores portuários e do carvão, a pobreza deu lugar à fome e às doenças e as duas secas extremas da década de 40 provocaram milhares de mortos e obrigaram à emigração massiva dos mindelenses. Só no fim da década de 60, com o incremento das remessas enviadas pelos emigrantes e, mais tarde, com o processo de independência é que o longo período depressivo entrou em remissão.

Hoje, com cerca de 70 mil habitantes, o Mindelo é a segunda maior cidade de Cabo Verde. Daquela pequena vila que começou a crescer a partir da Pracinha da Igreja resta muito pouco. Há um reduzido mas bem conservado casco histórico, mais ou menos delimitado entre a Praça D. Luís, o Palácio do Governador (agora Palácio do Povo) e a Praça Nova (rebatizada de Amílcar Cabral) onde as influências portuguesas são mais do que evidentes e a arquitectura e urbanística do período áureo do século XIX se misturam com a traça do Estado Novo. A partir daí a cidade espraiou-se desordenadamente pelas colinas que contornam a baía, formando o que se parece com um presépio feito de prédios feios e casas inacabadas, outras deixadas no reboco, algumas pintadas de cores berrantes (disseram-me que conforme a tinta que houver no mercado ou a que for mais barata na altura). Há algo de favela carioca nestes bairros mindelenses de olhos postos no mar e na vizinha ilha de Sto. Antão. Mas há também neste conjunto caótico de ruas — parcas em passeios, pavimentadas de paralelos desordenados e salientes, muito limpas e salpicadas por escassas palmeiras, acácias, buganvílias e loendros que resistem estoicamente à falta de água — um travo encantador que vem do langor do povo, do exotismo do crioulo, da alegria da música, do calor da dança, da suculência dos pratos salpicados de malagueta, do ardor do grogue, da cor fascinante do mar, do clima ameno e constante, do reboliço do vento. No Mindelo os dias parecem ter mais horas, e talvez por isso tudo se faça devagar. E foi devagar, chinelando, saboreando a sua tão badalada morabeza, que me embrenhei na cidade e nos seus arredores, longe de imaginar que voltaria muito em breve. 

Na manhã que destinei à ida à Baía das Gatas, saí da Casa Café Mindelo, onde estava alojada, bem no centro da cidade, e percorri a rua de S. João em direção à Praça Estrela, lugar de onde saem aquilo a que os locais chamam os “carros de aluguer”, isto é, os pequenos autocarros que servem de transporte público. Nessa rua, sentado à soleira da porta estreita de um estabelecimento comercial, avistei o último leitor da volta ao mundo. Depois de feita a fotografia, convidou-me para entrar na pequena Papelaria S. João, de que é proprietário, e foi aí que conversámos.

Nascido e criado no Mindelo, o Amílcar foi para Portugal antes do 25 de Abril para estudar Economia no Instituto Superior de Economia. Essa experiência na “Metrópole” foi determinante para que se envolvesse seriamente no movimento de libertação de Cabo Verde. “Fui combatente pela Liberdade da Pátria”, disse-me, com manifesto orgulho. Sobre si, pouco mais me contou (embora eu tenha vindo a saber, muitos meses mais tarde, que este leitor, mais conhecido no Mindelo por Sr. Picau, já foi Secretário de Estado). Acrescentou, apenas, que também é autor: publicou um livro intitulado “As Aventuras de Tibúrcio” (premiado pela Sonangol) e escreve de vez em quando para jornais cabo-verdianos. Já sobre o livro que estava a terminar de ler, “A Jangada de Pedra”, e sobre o seu autor, José Saramago, Amílcar não poupou palavras e expressou-se com entusiasmo. “Adoro Saramago!”, afirmou, categórico. “Para mim é um dos melhores escritores portugueses da atualidade. Pela singularidade da escrita, pelo conhecimento da realidade profunda de Portugal, pelo retratar das coisas sem ornamentos, pelo realismo, o seu posicionamento, a sua irreverência em relação ao status quo. Em relação a este título em particular, fiquei entusiasmado com o retrato que faz da perseguição política, da miséria, das doenças... Passei a adorar Saramago a partir do momento em que entendi a sua técnica de escrita. Entendendo essa técnica, a escrita de Saramago é muito mais simples do que se pensa à primeira.  Um conselho que dou aos leitores de Saramago é que o leiam em voz alta. Foi dessa forma que entendi a sua técnica”. Antes d’ “A Jangada de Pedra”, Amílcar tinha lido “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e para ler pela primeira vez ou reler tinha à espera o “Memorial do Convento”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “A Bagagem do Viajante” e “Caim”.

Não posso deixar de me comover com o facto do último leitor da minha grande viagem estar a ler um autor português, e logo o nosso único Prémio Nobel da Literatura. Nada faria mais sentido! Nada se adequaria melhor ao fecho de um ciclo que marcou profundamente o meu percurso e o deste blogue. Até hoje, passado quase um ano sobre o fim da volta ao mundo, todas as palavras não me chegam para expressar o quanto fui feliz durante aqueles 168 dias. Espero que tenham gostado de viajar comigo e que os quase 70 leitores fotografados em 14 países vos tenham inspirado a ler ainda mais.